31.12.06

NÃO HÁ COMO UM ANO DEPOIS DO OUTRO



"Pensem quais podem ser as razões básicas para o desespero.
Cada um de vocês terá as suas. Proponho-vos as minhas:
a volubilidade do amor, a fragilidade do nosso corpo,
a opressiva mesquinhez que domina a vida social,
a trágica solidão em que no fundo todos vivemos,
os reveses da amizade,
a monotonia e a insensibilidade que andam associadas ao costume de viver."

Enrique Vila-Matas, Paris nunca se acaba

Não há como um dia depois do outro. Por acaso de calendário, o dia de hoje fecha um mês e fecha um ano. Há muitos anos que já não existem anos diferentes. Não adianta olhar para trás. O passado está pejado de cruzes. As dos nossos mortos, as dos nossos "ideais", as dos nossos desejos, as dos nossos amantes - bonita expressão a de Hervé Guibert, "o mausoléu dos amantes" -, as das nossas múltiplas vidas. Todo o homem é um ser complexo e só os pobres de espírito podem supor que tudo corre como numa auto-estrada no meio do deserto, sem trânsito e sem outra paisagem que não o sol e o céu azul. Proust escreveu que era preciso guardar um pouco de céu azul na nossa vida, logo esse nervoso genial que se fechou num quarto para remoer "o tempo perdido". Não, não adianta olhar para trás. Aos quarenta e seis está-se mais perto dos cinquenta do que dos vinte, dos trinta ou mesmo dos quarenta. Provavelmente houve um tempo para tudo da mesma forma que haverá agora um tempo para um outro tudo. Nas magníficas páginas iniciais do seu "Saint Genet - comédien et martyr", Sartre adverte que, sermos ainda o que vamos deixar de ser e sermos já o que seremos, é a mais solene e trágica das nossas condições. Olho para o futuro com a esperança do "progressista" que não sou. Não há como um ano depois do outro.

NÃO HÁ COMO UM ANO DEPOIS DO OUTRO



"Pensem quais podem ser as razões básicas para o desespero.
Cada um de vocês terá as suas. Proponho-vos as minhas:
a volubilidade do amor, a fragilidade do nosso corpo,
a opressiva mesquinhez que domina a vida social,
a trágica solidão em que no fundo todos vivemos,
os reveses da amizade,
a monotonia e a insensibilidade que andam associadas ao costume de viver."

Enrique Vila-Matas, Paris nunca se acaba

Não há como um dia depois do outro. Por acaso de calendário, o dia de hoje fecha um mês e fecha um ano. Há muitos anos que já não existem anos diferentes. Não adianta olhar para trás. O passado está pejado de cruzes. As dos nossos mortos, as dos nossos "ideais", as dos nossos desejos, as dos nossos amantes - bonita expressão a de Hervé Guibert, "o mausoléu dos amantes" -, as das nossas múltiplas vidas. Todo o homem é um ser complexo e só os pobres de espírito podem supor que tudo corre como numa auto-estrada no meio do deserto, sem trânsito e sem outra paisagem que não o sol e o céu azul. Proust escreveu que era preciso guardar um pouco de céu azul na nossa vida, logo esse nervoso genial que se fechou num quarto para remoer "o tempo perdido". Não, não adianta olhar para trás. Aos quarenta e seis está-se mais perto dos cinquenta do que dos vinte, dos trinta ou mesmo dos quarenta. Provavelmente houve um tempo para tudo da mesma forma que haverá agora um tempo para um outro tudo. Nas magníficas páginas iniciais do seu "Saint Genet - comédien et martyr", Sartre adverte que, sermos ainda o que vamos deixar de ser e sermos já o que seremos, é a mais solene e trágica das nossas condições. Olho para o futuro com a esperança do "progressista" que não sou. Não há como um ano depois do outro.

COMISSÃO DE HONRA


Foi com as pessoas - sim, os bloggers são pessoas - que listo a seguir que "perdi" o melhor tempo do ano. Numa altura em que algumas amizades ficaram para trás, outras emergiram graças a esta arte menor do blogue. O Pedro Correia, a quem "roubei" a lista para a adaptar, é uma delas. O Eduardo Pitta, outra. O Tomás Vasques, a Isabel, o revisitado João Villalobos, o desaparecido blogger João Pedro George, a Constança Cunha e Sá - com quem partilhei um inesquecível almoço de sete horas - o Francisco José Viegas, o Jorge Ferreira, revisto, correcto e aumentado após uns anitos de afastamento, o Luís Naves, o Francisco Almeida Leite, o Duarte Calvão e o nosso "sistémico" Paulo Gorjão. José Medeiros Ferreira é, por assim dizer, muito da casa, e a Joana Amaral Dias foi uma simpática surpresa. O José Adelino Maltez e o José Pacheco Pereira ajudam-me a pensar esta insondável questão que é Portugal. O João, de outra geração, é um novo amigo. E o Pedro, alguém que me estreou na comida japonesa, depois de ele se ter estreado numa aventura político-cultural que começou em Março deste ano. O Henrique Silveira vem de mais longe e de um tempo encerrado, o São Carlos, e o Eurico de Barros vem do Semanário de Vitor Cunha Rego, ambos já desaparecidos. Os bloggers que se seguem são conhecidos daqui, do telefone e do e-mail. Como escrevi noutra ocasião, o Portugal dos Pequeninos existe porque me dá gozo e porque há por aí centenas de leitores anónimos e de bloggers que têm sido a minha mais fiel companhia silenciosa, sejam eles detractores ou "apoiantes", seja eu devoto ou carrasco. A minha "comissão de honra" é esta. Continuemos.
Bernardo Pires de Lima
Bruno Ventana
Carla Carvalho
Carla Hilário Quevedo
Carlos Romão
Carlos Abreu Amorim
Carlos Manuel Castro
Clara Carneiro
Cristóvão do Vale
David Justino
JM Ferreira de Almeida
Margarida Corrêa de Aguiar
Pinho Cardão
Suzana Toscano
Ví­tor Reis
João Alves
Eduardo Nogueira Pinto
Fátima Pinto Ferreira
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio
Filipe Nunes Vicente
Francisco Costa Afonso
Francisco Mendes da Silva
Francisco Trigo de Abreu
Gabriel Silva
Ivan Nunes
Helena Matos
Henrique Burnay
Henrique Fialho
Henrique Raposo
João Caetano Dias
José Gomes André
João Miguel Amaro Correia
João Morgado Fernandes
João Paulo Sousa
João Sousa André
João Vacas
José Manuel Fonseca
José Nunes
José Pimentel Teixeira
José Teófilo Duarte
Luís Carmelo
Luís Grave Rodrigues
Luís Januário
Luís M. Jorge
Luís Novaes Tito
Manuel Anastácio
Masson
Miguel Abrantes
Miguel Castelo-Branco
Nuno Barata Almeida Sousa
Nuno Mota Pinto
Paulo Cunha Porto
Paulo Pedroso
Paulo Pinto Mascarenhas
Paulo Querido
Paulo Tunhas
Pedro Lomba
Pedro Marques Lopes
Pedro Picoito
Rodrigo Adão da Fonseca
Rodrigo Moita de Deus
Rui Castro
Rui Costa Pinto
Rui Pena Pires
Sérgio Coimbra
Sofia Loureiro dos Santos
Sofia Vieira
Tiago Barbosa Ribeiro
Tiago Geraldo
Valter Hugo Mãe
Vasco Lobo Xavier
Vital Moreira
Vitor Cunha

COMISSÃO DE HONRA


Foi com as pessoas - sim, os bloggers são pessoas - que listo a seguir que "perdi" o melhor tempo do ano. Numa altura em que algumas amizades ficaram para trás, outras emergiram graças a esta arte menor do blogue. O Pedro Correia, a quem "roubei" a lista para a adaptar, é uma delas. O Eduardo Pitta, outra. O Tomás Vasques, a Isabel, o revisitado João Villalobos, o desaparecido blogger João Pedro George, a Constança Cunha e Sá - com quem partilhei um inesquecível almoço de sete horas - o Francisco José Viegas, o Jorge Ferreira, revisto, correcto e aumentado após uns anitos de afastamento, o Luís Naves, o Francisco Almeida Leite, o Duarte Calvão e o nosso "sistémico" Paulo Gorjão. José Medeiros Ferreira é, por assim dizer, muito da casa, e a Joana Amaral Dias foi uma simpática surpresa. O José Adelino Maltez e o José Pacheco Pereira ajudam-me a pensar esta insondável questão que é Portugal. O João, de outra geração, é um novo amigo. E o Pedro, alguém que me estreou na comida japonesa, depois de ele se ter estreado numa aventura político-cultural que começou em Março deste ano. O Henrique Silveira vem de mais longe e de um tempo encerrado, o São Carlos, e o Eurico de Barros vem do Semanário de Vitor Cunha Rego, ambos já desaparecidos. Os bloggers que se seguem são conhecidos daqui, do telefone e do e-mail. Como escrevi noutra ocasião, o Portugal dos Pequeninos existe porque me dá gozo e porque há por aí centenas de leitores anónimos e de bloggers que têm sido a minha mais fiel companhia silenciosa, sejam eles detractores ou "apoiantes", seja eu devoto ou carrasco. A minha "comissão de honra" é esta. Continuemos.
Bernardo Pires de Lima
Bruno Ventana
Carla Carvalho
Carla Hilário Quevedo
Carlos Romão
Carlos Abreu Amorim
Carlos Manuel Castro
Clara Carneiro
Cristóvão do Vale
David Justino
JM Ferreira de Almeida
Margarida Corrêa de Aguiar
Pinho Cardão
Suzana Toscano
Ví­tor Reis
João Alves
Eduardo Nogueira Pinto
Fátima Pinto Ferreira
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio
Filipe Nunes Vicente
Francisco Costa Afonso
Francisco Mendes da Silva
Francisco Trigo de Abreu
Gabriel Silva
Ivan Nunes
Helena Matos
Henrique Burnay
Henrique Fialho
Henrique Raposo
João Caetano Dias
José Gomes André
João Miguel Amaro Correia
João Morgado Fernandes
João Paulo Sousa
João Sousa André
João Vacas
José Manuel Fonseca
José Nunes
José Pimentel Teixeira
José Teófilo Duarte
Luís Carmelo
Luís Grave Rodrigues
Luís Januário
Luís M. Jorge
Luís Novaes Tito
Manuel Anastácio
Masson
Miguel Abrantes
Miguel Castelo-Branco
Nuno Barata Almeida Sousa
Nuno Mota Pinto
Paulo Cunha Porto
Paulo Pedroso
Paulo Pinto Mascarenhas
Paulo Querido
Paulo Tunhas
Pedro Lomba
Pedro Marques Lopes
Pedro Picoito
Rodrigo Adão da Fonseca
Rodrigo Moita de Deus
Rui Castro
Rui Costa Pinto
Rui Pena Pires
Sérgio Coimbra
Sofia Loureiro dos Santos
Sofia Vieira
Tiago Barbosa Ribeiro
Tiago Geraldo
Valter Hugo Mãe
Vasco Lobo Xavier
Vital Moreira
Vitor Cunha
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DO ANO QUE PASSA - 6

No meio dos folguedos idiotas, passou despercebida a pequena tragédia da Nazaré. Pequena para quem está de fora e enorme para quem assistiu, impotente, à morte dos seus a meia dúzia de metros da areia. São infelizmente precisas imagens horríveis deste género para nos lembrarem o esterco em que vivemos. Não há powerpoint ou promessas de "modernidade" que nos redimam. O serviço de bombeiros e de protecção civil, a polícia marítima e todo esse aparato de autoridade que se exibe em presunçosas conferências de imprensa, levaram duas horas a chegar. Para morrerem estupidamente, bastou àqueles homens um instante da força maligna da natureza e a fatalidade de terem nascido portugueses. Há quantos anos não faz este país outra coisa senão morrer na praia?

DO ANO QUE PASSA - 6

No meio dos folguedos idiotas, passou despercebida a pequena tragédia da Nazaré. Pequena para quem está de fora e enorme para quem assistiu, impotente, à morte dos seus a meia dúzia de metros da areia. São infelizmente precisas imagens horríveis deste género para nos lembrarem o esterco em que vivemos. Não há powerpoint ou promessas de "modernidade" que nos redimam. O serviço de bombeiros e de protecção civil, a polícia marítima e todo esse aparato de autoridade que se exibe em presunçosas conferências de imprensa, levaram duas horas a chegar. Para morrerem estupidamente, bastou àqueles homens um instante da força maligna da natureza e a fatalidade de terem nascido portugueses. Há quantos anos não faz este país outra coisa senão morrer na praia?

30.12.06

DO ANO QUE PASSA - 5

O enforcamento de Saddam Hussein, depois de um julgamento indigno desse nome, é, ao contrário do que Bush imagina, um ponto de partida. É grave que o líder do mundo ocidental se regozije com um acto bárbaro ao arrepio de algo que levou anos e anos para se tornar uma conquista civilizacional: a eliminação da pena de morte. O Iraque transita assim para 2007 como uma enorme gangrena que ameaça alastrar. A morte do ditador é apenas mais um rastilho, porventura o mais impressivo, para desaustinar o mundo árabe e os famosos terroristas que Bush julgava surpreender no Iraque. Pior era impossível.

DO ANO QUE PASSA - 5

O enforcamento de Saddam Hussein, depois de um julgamento indigno desse nome, é, ao contrário do que Bush imagina, um ponto de partida. É grave que o líder do mundo ocidental se regozije com um acto bárbaro ao arrepio de algo que levou anos e anos para se tornar uma conquista civilizacional: a eliminação da pena de morte. O Iraque transita assim para 2007 como uma enorme gangrena que ameaça alastrar. A morte do ditador é apenas mais um rastilho, porventura o mais impressivo, para desaustinar o mundo árabe e os famosos terroristas que Bush julgava surpreender no Iraque. Pior era impossível.

O ANO QUE PASSA - 4


Dos primeiros vinte e dois dias do ano que passa, fica a derrota de Mário Soares e a vitória de Cavaco Silva. Desta já me ocupei aqui. Fiquei com a sensação, depois de correr algumas livrarias, que o livro de Filipe Santos Costa, A Última Campanha, tinha sido comprado a resmas por alguém. Talvez o PS, talvez o visado e a sua Fundação, não sei. Foi graças à amizade e à gentileza de um dos principais protagonistas desse livro que o pude ler, em apenas duas noites, devidamente emprestado e pronto a ser devolvido. Lido com alguma atenção - e já que é do futuro, tal como o ex-"pai da pátria", que me interessa falar - o texto de Santos Costa permite algumas conclusões interessantes. A primeira, é que Soares nunca foi acompanhado no seu atabalhoado regresso pelo PS. É claro que houve ministros, secretários de Estado e o "aparelho" dos drs. Coelho e Perestrello a puxar pelo impuxável. Só que, já nessa altura, a prioridade de Sócrates era a preciosa estabilidade da sua maioria e do seu executivo. Cada vez que uma luminária do governo aparecia ao lado de Soares a falar em "estabilidade", Cavaco ganhava mais uns votos. As declarações e os silêncios dos profissionais do PS na campanha, feitos on e off ao autor do livro, mostram a enorme cautela daqueles em "explicar" a ligação do partido e do governo com o desastre anunciado. Leiam-se os depoimentos do "socrático" Marcos Perestrello e do "socrático convertido" José Manuel dos Santos. E percebam-se os afastamentos e a prudência analítica de um inesperado António Campos, de um "realista" e livre Medeiros Ferreira ou de um António Pedro Vasconcellos. Alfredo Barroso já tinha perdido o passo no métier e no PS quando se enfiou e desenfiou na campanha. Vitor Ramalho fazia ora o papel do cego, ora o papel principal na tragédia - foi o primeiro a querer Soares e o primeiro a querer que ele desistisse - e Vasco Vieira de Almeida, advogado de negócios e uma nulidade política, foi sempre o mandatário errado. Mega Ferreira não conta. Nessa altura já tinha o CCB "prometido". Em suma, Soares, sem dar por isso, e logo a seguir ao único momento verdadeiramente apoteótico da candidatura - o seu anúncio histérico no Altis -, passou a gerir sozinho um "saco de gatos" de que Sócrates se afastou prudentemente já a pensar na "cooperação estratégica" e no PS albanês que construiu a seguir. Deixou lá os "homens das pontes" como rendimento mínimo garantido. O resto eram amizades que não podiam dizer "não" e uns tolinhos de circunstância agarrados a "teorias da conspiração". Em segundo lugar, e como consequência disto, Sócrates e os seus acólitos mais próximos, muitos deles sem nenhuma tradição partidária, desfizeram-se do PS fundado por Soares em 2006, acto consumado num congresso recente. Na sua irresponsabilidade "poética", o bardo Alegre ajudou à festa e presentemente não interessa nada. A derrota de Soares sossegou e "socratizou" definitivamente um partido agastado pelas autárquicas e pelas "reformas" incompreendidas. Soares nunca percebeu que a "estabilidade" de que eles falavam e que berravam nos comícios, não passava por ele. Sócrates e Soares, segundo crónicas e íntimos comuns, dão-se muito bem e o "primeiro" telefona-lhe muitas vezes e ouve-o amiúde. Não custa nada ser cínico. Em terceiro e último lugar, olhando para diante, a derrota de Soares só aproveitou a uma pessoa, ao primeiro-ministro. Este foi o ano da sua "popularidade" absoluta nos estudos de opinião, tal como em 86/87, Cavaco, então chefe do governo, "cresceu" de uma situação minoritária para duas maiorias seguidas, após a derrota do seu candidato presidencial, Freitas do Amaral. Soares presidente "ajudou" e o Presidente Cavaco está a "ajudar". O precipitado elogio presidencial de 2006 ao alegado "reformismo governativo", pode vir a estatelar-se aos pés de Cavaco Silva mais brevemente do que ele imagina. O PS não pode correr o risco de afrontar até ao fim a classe média que o sustenta eleitoralmente e de andar a receber os elogios hipócritas das "esquerdas e das direitas dos interesses" que se andam a servir de um governo que faz por elas o "trabalho sujo". O recente episódio do "regulador" das energias, com a escolha de um homem de Pina Moura para o cargo, é só mais um frete que Cavaco, espera-se, deve ter registado. "Eu debati essa estratégia de colagem ao governo e ao PS nas primeiras reuniões, mas depois calei-me. Acho que já não valia a pena". Palavras de Medeiros Ferreira ao autor do livro que deu o mote a este escrito. É claro que já não valia a pena. O tempo se encarregará, feliz ou infelizmente, de lhe dar razão.

O ANO QUE PASSA - 4


Dos primeiros vinte e dois dias do ano que passa, fica a derrota de Mário Soares e a vitória de Cavaco Silva. Desta já me ocupei aqui. Fiquei com a sensação, depois de correr algumas livrarias, que o livro de Filipe Santos Costa, A Última Campanha, tinha sido comprado a resmas por alguém. Talvez o PS, talvez o visado e a sua Fundação, não sei. Foi graças à amizade e à gentileza de um dos principais protagonistas desse livro que o pude ler, em apenas duas noites, devidamente emprestado e pronto a ser devolvido. Lido com alguma atenção - e já que é do futuro, tal como o ex-"pai da pátria", que me interessa falar - o texto de Santos Costa permite algumas conclusões interessantes. A primeira, é que Soares nunca foi acompanhado no seu atabalhoado regresso pelo PS. É claro que houve ministros, secretários de Estado e o "aparelho" dos drs. Coelho e Perestrello a puxar pelo impuxável. Só que, já nessa altura, a prioridade de Sócrates era a preciosa estabilidade da sua maioria e do seu executivo. Cada vez que uma luminária do governo aparecia ao lado de Soares a falar em "estabilidade", Cavaco ganhava mais uns votos. As declarações e os silêncios dos profissionais do PS na campanha, feitos on e off ao autor do livro, mostram a enorme cautela daqueles em "explicar" a ligação do partido e do governo com o desastre anunciado. Leiam-se os depoimentos do "socrático" Marcos Perestrello e do "socrático convertido" José Manuel dos Santos. E percebam-se os afastamentos e a prudência analítica de um inesperado António Campos, de um "realista" e livre Medeiros Ferreira ou de um António Pedro Vasconcellos. Alfredo Barroso já tinha perdido o passo no métier e no PS quando se enfiou e desenfiou na campanha. Vitor Ramalho fazia ora o papel do cego, ora o papel principal na tragédia - foi o primeiro a querer Soares e o primeiro a querer que ele desistisse - e Vasco Vieira de Almeida, advogado de negócios e uma nulidade política, foi sempre o mandatário errado. Mega Ferreira não conta. Nessa altura já tinha o CCB "prometido". Em suma, Soares, sem dar por isso, e logo a seguir ao único momento verdadeiramente apoteótico da candidatura - o seu anúncio histérico no Altis -, passou a gerir sozinho um "saco de gatos" de que Sócrates se afastou prudentemente já a pensar na "cooperação estratégica" e no PS albanês que construiu a seguir. Deixou lá os "homens das pontes" como rendimento mínimo garantido. O resto eram amizades que não podiam dizer "não" e uns tolinhos de circunstância agarrados a "teorias da conspiração". Em segundo lugar, e como consequência disto, Sócrates e os seus acólitos mais próximos, muitos deles sem nenhuma tradição partidária, desfizeram-se do PS fundado por Soares em 2006, acto consumado num congresso recente. Na sua irresponsabilidade "poética", o bardo Alegre ajudou à festa e presentemente não interessa nada. A derrota de Soares sossegou e "socratizou" definitivamente um partido agastado pelas autárquicas e pelas "reformas" incompreendidas. Soares nunca percebeu que a "estabilidade" de que eles falavam e que berravam nos comícios, não passava por ele. Sócrates e Soares, segundo crónicas e íntimos comuns, dão-se muito bem e o "primeiro" telefona-lhe muitas vezes e ouve-o amiúde. Não custa nada ser cínico. Em terceiro e último lugar, olhando para diante, a derrota de Soares só aproveitou a uma pessoa, ao primeiro-ministro. Este foi o ano da sua "popularidade" absoluta nos estudos de opinião, tal como em 86/87, Cavaco, então chefe do governo, "cresceu" de uma situação minoritária para duas maiorias seguidas, após a derrota do seu candidato presidencial, Freitas do Amaral. Soares presidente "ajudou" e o Presidente Cavaco está a "ajudar". O precipitado elogio presidencial de 2006 ao alegado "reformismo governativo", pode vir a estatelar-se aos pés de Cavaco Silva mais brevemente do que ele imagina. O PS não pode correr o risco de afrontar até ao fim a classe média que o sustenta eleitoralmente e de andar a receber os elogios hipócritas das "esquerdas e das direitas dos interesses" que se andam a servir de um governo que faz por elas o "trabalho sujo". O recente episódio do "regulador" das energias, com a escolha de um homem de Pina Moura para o cargo, é só mais um frete que Cavaco, espera-se, deve ter registado. "Eu debati essa estratégia de colagem ao governo e ao PS nas primeiras reuniões, mas depois calei-me. Acho que já não valia a pena". Palavras de Medeiros Ferreira ao autor do livro que deu o mote a este escrito. É claro que já não valia a pena. O tempo se encarregará, feliz ou infelizmente, de lhe dar razão.

29.12.06

O "PC"

A melhor resposta ao delírio "PC" - "politicamente correcto" - da Fernanda Câncio no Diário de Notícias de hoje (sem link) é este texto de Henrique Raposo: "(...) O PC não é uma doutrina que ilumina o futuro. Ninguém grita “eu sou PC!” (paga-se um sumptuoso jantar a quem ousar gritar “tenho orgulho em ser PC!”). Não é uma ideologia colectiva. É, isso sim, uma crença privada. Mas, atenção, é uma crença privada partilhada, em silêncio, por milhões. É um manual de comportamento e de policiamento [...] E, por ser privada, é uma crença emocional. Como afirma Browne, representa a abolição da razão pública [...]".

O "PC"

A melhor resposta ao delírio "PC" - "politicamente correcto" - da Fernanda Câncio no Diário de Notícias de hoje (sem link) é este texto de Henrique Raposo: "(...) O PC não é uma doutrina que ilumina o futuro. Ninguém grita “eu sou PC!” (paga-se um sumptuoso jantar a quem ousar gritar “tenho orgulho em ser PC!”). Não é uma ideologia colectiva. É, isso sim, uma crença privada. Mas, atenção, é uma crença privada partilhada, em silêncio, por milhões. É um manual de comportamento e de policiamento [...] E, por ser privada, é uma crença emocional. Como afirma Browne, representa a abolição da razão pública [...]".</span>

DO ANO QUE PASSA - 3

Do ano que passa fica uma ideia horrível de violência e outra desconfiada da justiça. O caso Gisberta, as crianças espancadas e assassinadas às mãos de pais, mães, padrastos, madrastas, amantes e a puta que os pariu, são evidências de uma sociedade amoral, acéfala e profundamente ignorante. Básica, mesmo. Existe uma imensa indignidade social e cultural a que se seguem decisões jurídicas incompreensíveis para o chamado e inexistente "sentimento jurídico colectivo". O desfazamento da "realidade" por parte de muitas decisões judiciais é assustadora. Nunca se falou tanto de justiça e nunca tanta injustiça teve lugar. Os "protagonistas" passaram o ano a pavonear-se nas televisões, nos jornais, nos colóquios, todos a tratar das vidas deles. Na política, não houve cão nem gato que não não tivesse botado sentença sobre a matéria. Pura retórica, puras bravatas, puro formalismo inconsequente. Além de insensatos, somos perigosos e não nos apercebemos disso.

DO ANO QUE PASSA - 3

Do ano que passa fica uma ideia horrível de violência e outra desconfiada da justiça. O caso Gisberta, as crianças espancadas e assassinadas às mãos de pais, mães, padrastos, madrastas, amantes e a puta que os pariu, são evidências de uma sociedade amoral, acéfala e profundamente ignorante. Básica, mesmo. Existe uma imensa indignidade social e cultural a que se seguem decisões jurídicas incompreensíveis para o chamado e inexistente "sentimento jurídico colectivo". O desfazamento da "realidade" por parte de muitas decisões judiciais é assustadora. Nunca se falou tanto de justiça e nunca tanta injustiça teve lugar. Os "protagonistas" passaram o ano a pavonear-se nas televisões, nos jornais, nos colóquios, todos a tratar das vidas deles. Na política, não houve cão nem gato que não não tivesse botado sentença sobre a matéria. Pura retórica, puras bravatas, puro formalismo inconsequente. Além de insensatos, somos perigosos e não nos apercebemos disso.

DO ANO QUE PASSA -2

Desde o ano passado que me tenho farto de escrever aqui sobre o actual Papa e antigo cardeal Joseph Ratzinger. Saíram, entretanto, em 2006, dois livros traduzidos que talvez ajudem os incréus a perceber melhor o pensamento deste intelectual europeu. Deus e o Mundo continua o "diálogo" do final dos anos noventa com o mesmo jornalista alemão de O Sal da Terra e a Universidade Católica editou um Fé, Religião e Tolerância que reúne ensaios vários do teólogo e professor universitário. Para já, e como Pacheco Pereira sempre é Pacheco Pereira, é de ler este exelente escrito, que continua para a semana, sobre o dito intelectual europeu. Pode ser que por ser JPP, insuspeito quanto à parte religiosa da coisa, talvez aprendam alguma coisa com esta versão anotada do artigo que li ontem ,em papel, no Público.

DO ANO QUE PASSA -2

Desde o ano passado que me tenho farto de escrever aqui sobre o actual Papa e antigo cardeal Joseph Ratzinger. Saíram, entretanto, em 2006, dois livros traduzidos que talvez ajudem os incréus a perceber melhor o pensamento deste intelectual europeu. Deus e o Mundo continua o "diálogo" do final dos anos noventa com o mesmo jornalista alemão de O Sal da Terra e a Universidade Católica editou um Fé, Religião e Tolerância que reúne ensaios vários do teólogo e professor universitário. Para já, e como Pacheco Pereira sempre é Pacheco Pereira, é de ler este exelente escrito, que continua para a semana, sobre o dito intelectual europeu. Pode ser que por ser JPP, insuspeito quanto à parte religiosa da coisa, talvez aprendam alguma coisa com esta versão anotada do artigo que li ontem ,em papel, no Público.

DO ANO QUE PASSA -1


Desta vez interessa-me mais o futuro do que o passado. Porém, há coisas que me ficaram do ano que passa e que não resisto a anotar. Não sendo "crítico" nem "jornalista cultural, mas apenas mero leitor, se me desse para o "balanço literário do ano" faria apenas duas ou três observações. Uma primeira para o João Pedro George. Em má hora entregou o Esplanar a Carlos Leone, uma sumidade institucional que deixou o blogue no estado em que ele se encontra: nenhum. Foi o João quem coligiu textos seus daqui e dali e deu à estampa um livrinho atípico nestas matérias, Não é Fácil Dizer Bem, cujo título tenho aproveitado indecentemente. Salvo na parte final em que lhe deu para delirar, o João desmontou com graça a pseudo-seriedade de alguns literatos e candidatos a literatos nossos contemporâneos. Não é uma "tese" nem nada parecido. É um exercício divertido e bem escrito contra a mediocridade consensual, de capela e de estranhas cumplicidades que persiste no "meio literário português. Dele também, Couves & Alforrecas, uma diatribe paciente sobre o "estilo" da "marca registada", a mítica e intocável Margarida Rebelo Pinto, escritora e colunista de costumes. Só o facto de ter lido, de fio a pavio, a insigne "obra literária" da senhora e de ter enfrentado o respeitinho em tribunal, já lhe valia uma venera. Ainda no campo da subliteratura nacional, destaco a profusão de "novos" autores portugueses, muitos deles oriundos do jornalismo, que nos presentearam com diversos "romances", "romances históricos" e "biografias romanceadas". Não retive um nome ou um título, à excepção - porque me cruzei várias vezes com ele a dar autógrafos entre Lisboa e o Algarve - de José Rodrigues dos Santos, o "rei da síntese", cuja presença nos escaparates das livrarias e dos supermercados é intensa. Tão intensa como o tamanho dos calhamaços que tem dado à estampa. Para "rei da síntese", não está nada mal. É esta gente que entra mais facilmente na cabeça e na vontade de ler do português médio. Estão bem uns para os outros. Finalmente, não dei por nada de extravagante na poesia ou na "ensaística". Ou se dei, não me lembro. Só li o ensaio de Vasco Pulido Valente sobre Paiva Couceiro e o Círculo de Leitores não me deixou comprar em avulso o "D. Maria II", o "D.Pedro V" e o "D. Carlos", respectivamente de Maria de Fátima Bonifácio, de Maria Filomena Mónica e de Rui Ramos. Ficam para a próxima.

DO ANO QUE PASSA -1


Desta vez interessa-me mais o futuro do que o passado. Porém, há coisas que me ficaram do ano que passa e que não resisto a anotar. Não sendo "crítico" nem "jornalista cultural, mas apenas mero leitor, se me desse para o "balanço literário do ano" faria apenas duas ou três observações. Uma primeira para o João Pedro George. Em má hora entregou o Esplanar a Carlos Leone, uma sumidade institucional que deixou o blogue no estado em que ele se encontra: nenhum. Foi o João quem coligiu textos seus daqui e dali e deu à estampa um livrinho atípico nestas matérias, Não é Fácil Dizer Bem, cujo título tenho aproveitado indecentemente. Salvo na parte final em que lhe deu para delirar, o João desmontou com graça a pseudo-seriedade de alguns literatos e candidatos a literatos nossos contemporâneos. Não é uma "tese" nem nada parecido. É um exercício divertido e bem escrito contra a mediocridade consensual, de capela e de estranhas cumplicidades que persiste no "meio literário português. Dele também, Couves & Alforrecas, uma diatribe paciente sobre o "estilo" da "marca registada", a mítica e intocável Margarida Rebelo Pinto, escritora e colunista de costumes. Só o facto de ter lido, de fio a pavio, a insigne "obra literária" da senhora e de ter enfrentado o respeitinho em tribunal, já lhe valia uma venera. Ainda no campo da subliteratura nacional, destaco a profusão de "novos" autores portugueses, muitos deles oriundos do jornalismo, que nos presentearam com diversos "romances", "romances históricos" e "biografias romanceadas". Não retive um nome ou um título, à excepção - porque me cruzei várias vezes com ele a dar autógrafos entre Lisboa e o Algarve - de José Rodrigues dos Santos, o "rei da síntese", cuja presença nos escaparates das livrarias e dos supermercados é intensa. Tão intensa como o tamanho dos calhamaços que tem dado à estampa. Para "rei da síntese", não está nada mal. É esta gente que entra mais facilmente na cabeça e na vontade de ler do português médio. Estão bem uns para os outros. Finalmente, não dei por nada de extravagante na poesia ou na "ensaística". Ou se dei, não me lembro. Só li o ensaio de Vasco Pulido Valente sobre Paiva Couceiro e o Círculo de Leitores não me deixou comprar em avulso o "D. Maria II", o "D.Pedro V" e o "D. Carlos", respectivamente de Maria de Fátima Bonifácio, de Maria Filomena Mónica e de Rui Ramos. Ficam para a próxima.

28.12.06

LER OS OUTROS

Três "Corta-Fitas" - é o que dá ser um dos melhores blogues colectivos, arrisco mesmo o melhor -, o Luís Naves, a Isabel Teixeira da Mota e o Pedro Correia, respectivamente, "Colecção de Crónicas III", "Palavras no vácuo" e "Um mal nunca vem só". O primeiro porque me traz de volta a paixão pelo deserto em termos perfeitamente certeiros ("Em Morocco, Marlene Dietrich viaja sem bilhete de volta, só o de ida, porque em busca destas cidades perdidas andam personagens à deriva, peregrinos que não voltarão jamais do seu destino fatal."), a segunda porque evidencia a estupidez burocrática no seu maligno esplendor e no absoluto grau zero do seu sem sentido, e o Pedro porque denuncia uma reles manobra de propaganda do pior gosto.

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Três "Corta-Fitas" - é o que dá ser um dos melhores blogues colectivos, arrisco mesmo o melhor -, o Luís Naves, a Isabel Teixeira da Mota e o Pedro Correia, respectivamente, "Colecção de Crónicas III", "Palavras no vácuo" e "Um mal nunca vem só". O primeiro porque me traz de volta a paixão pelo deserto em termos perfeitamente certeiros ("Em Morocco, Marlene Dietrich viaja sem bilhete de volta, só o de ida, porque em busca destas cidades perdidas andam personagens à deriva, peregrinos que não voltarão jamais do seu destino fatal."), a segunda porque evidencia a estupidez burocrática no seu maligno esplendor e no absoluto grau zero do seu sem sentido, e o Pedro porque denuncia uma reles manobra de propaganda do pior gosto.

AS COMISSÕES

Para quando uma vassourada a sério nas ditas "comissões de protecção de menores" em vez dos habituais "inquéritos"? É preciso mais "inquéritos" para perceber que aquilo não presta? E que a "passagem da culpa a outro que não ao mesmo" é uma vergonha para o famoso "sistema que não consegue proteger os menores do primitivismo e da miséria moral e material dos seus progenitores?

AS COMISSÕES

Para quando uma vassourada a sério nas ditas "comissões de protecção de menores" em vez dos habituais "inquéritos"? É preciso mais "inquéritos" para perceber que aquilo não presta? E que a "passagem da culpa a outro que não ao mesmo" é uma vergonha para o famoso "sistema que não consegue proteger os menores do primitivismo e da miséria moral e material dos seus progenitores?

PASTELARIA CISTER - 2


Voltei à Pastelaria Cister. Dois dedos de conversa com Medeiros Ferreira, alguém que, há mais de vinte e tal anos, faz parte da minha paisagem política. Os essencialistas das esquerdas e das direitas provavelmente não entenderão esta - posso chamar-lhe assim - cumplicidade. E não a entendem porque a política, aos poucos, foi desaparecendo. A última tentativa de a trazer à tona ocorreu há exactamente um ano, com as presidenciais e com Soares. Acontece que esse já não era um momento para a "grande política" e Soares entrou tarde e mal para um combate que, em rigor, já não lhe pertencia. Para já, entrámos numa fase "eucaliptal" da política nacional, protagonizada por dois homens que estão condenados a enfrentar-se lá mais para diante: Sócrates e Cavaco. Se isso não acontecesse, o mainstream da democracia estaria em causa. Não existe uma democracia madura na paz "pseudo-reformista" dos cemitérios. A classe média que apoiou Sócrates, o PS e Cavaco - por esta ordem - sentirá duramente na pele os efeitos do "endireitamento" das coisas, mais conhecido por "esforço nacional", o qual não é sustentado por nenhum pensamento político excessivamente elaborado, mas antes por um tacticismo pragmático e uma crendice de circunstância que não irão longe. Espremam-se bem espremidas todas as "reformas" - o anúncio delas - e veja-se o que sobra. A acção reformadora nunca foi apolítica, branca, assente em "técnicos", apesar de muita propaganda jornalística "fazer crer" o contrário. Por exemplo, um jornal prestigiado elege a reforma da administração pública como o evento do ano. Que mal lhes pergunte, que reforma em concreto? Qual delas? 2006 representou a tomada da nuvem por Juno, bem iluminada, aliás, por muito media deslumbrado ou bem orientado. 2oo7 ensaiará os primeiros passsos do regresso à política. Por mim, tenciono ir mais vezes à Cister.

Nota: Na foto, o último livro de José Medeiros Ferreira, Cinco Regimes na Política Internacional, Editorial Presença, 2006, sobre as relações externas e a diplomacia de Portugal do fim da monarquia à "opção europeia"

PASTELARIA CISTER - 2


Voltei à Pastelaria Cister. Dois dedos de conversa com Medeiros Ferreira, alguém que, há mais de vinte e tal anos, faz parte da minha paisagem política. Os essencialistas das esquerdas e das direitas provavelmente não entenderão esta - posso chamar-lhe assim - cumplicidade. E não a entendem porque a política, aos poucos, foi desaparecendo. A última tentativa de a trazer à tona ocorreu há exactamente um ano, com as presidenciais e com Soares. Acontece que esse já não era um momento para a "grande política" e Soares entrou tarde e mal para um combate que, em rigor, já não lhe pertencia. Para já, entrámos numa fase "eucaliptal" da política nacional, protagonizada por dois homens que estão condenados a enfrentar-se lá mais para diante: Sócrates e Cavaco. Se isso não acontecesse, o mainstream da democracia estaria em causa. Não existe uma democracia madura na paz "pseudo-reformista" dos cemitérios. A classe média que apoiou Sócrates, o PS e Cavaco - por esta ordem - sentirá duramente na pele os efeitos do "endireitamento" das coisas, mais conhecido por "esforço nacional", o qual não é sustentado por nenhum pensamento político excessivamente elaborado, mas antes por um tacticismo pragmático e uma crendice de circunstância que não irão longe. Espremam-se bem espremidas todas as "reformas" - o anúncio delas - e veja-se o que sobra. A acção reformadora nunca foi apolítica, branca, assente em "técnicos", apesar de muita propaganda jornalística "fazer crer" o contrário. Por exemplo, um jornal prestigiado elege a reforma da administração pública como o evento do ano. Que mal lhes pergunte, que reforma em concreto? Qual delas? 2006 representou a tomada da nuvem por Juno, bem iluminada, aliás, por muito media deslumbrado ou bem orientado. 2oo7 ensaiará os primeiros passsos do regresso à política. Por mim, tenciono ir mais vezes à Cister.

Nota: Na foto, o último livro de José Medeiros Ferreira, Cinco Regimes na Política Internacional, Editorial Presença, 2006, sobre as relações externas e a diplomacia de Portugal do fim da monarquia à "opção europeia"

27.12.06

NÃO É FÁCIL DIZER BEM - 12


Não é mesmo nada fácil, Carla. Estão aí para trás onze posts que o comprovam. Não tenho jeito para Augusto Gil, o da "balada". Fiquei vacinado quando o decorei, em menino e moço, na primária. E ainda recitei em público um poemazinho medonho, não sei de quem, intitulado "Ser bom", que levou a minha mãe a derramar umas honestas lágrimas pelo talento declamatório do rebento. E era, enquanto o "sistema" o permitiu, um menino de quadro de honra. Ainda figurei no do Pedro V, imediatamente antes da Revolução florida. Depois veio o Mauro de Vasconcelos, o O'Neill, o Garrett, o Eça, o Pessoa, a história da literatura do Saraiva e do Lopes. Os livros de J.B.Priestley, Pinter e outros, emprestados a partir de um quinto andar da Avenida da República, já derrubado. O direito, o acto falhado para a história ou coisa parecida, e uma passagem fugidia pela Nova, no curso do hoje professor doutor Abel Barros Baptista. Apenas duas cadeiras e o José Ribeiro da Fonte. Sempre os livros atrás e menos as sebentas. Um ano repetido e eu mudado. O amor pelo caminho, logo aos vinte e poucos. A força de um muro permanente entre mim e o "outro". Crescer e viver à sombra desse muro inexpugnável. Para sempre, diria o Vergílio Ferreira. Chego aqui cansado, aos quarenta e seis, com estes versos de Herberto Helder (nem sequer é dos meus preferidos), lidos pela primeira vez no irrepetível verão de 83: "chega a mão a escrever negro/e, conforme vai escrevendo/mais negra se torna." Percebe agora?

NÃO É FÁCIL DIZER BEM - 12


Não é mesmo nada fácil, Carla. Estão aí para trás onze posts que o comprovam. Não tenho jeito para Augusto Gil, o da "balada". Fiquei vacinado quando o decorei, em menino e moço, na primária. E ainda recitei em público um poemazinho medonho, não sei de quem, intitulado "Ser bom", que levou a minha mãe a derramar umas honestas lágrimas pelo talento declamatório do rebento. E era, enquanto o "sistema" o permitiu, um menino de quadro de honra. Ainda figurei no do Pedro V, imediatamente antes da Revolução florida. Depois veio o Mauro de Vasconcelos, o O'Neill, o Garrett, o Eça, o Pessoa, a história da literatura do Saraiva e do Lopes. Os livros de J.B.Priestley, Pinter e outros, emprestados a partir de um quinto andar da Avenida da República, já derrubado. O direito, o acto falhado para a história ou coisa parecida, e uma passagem fugidia pela Nova, no curso do hoje professor doutor Abel Barros Baptista. Apenas duas cadeiras e o José Ribeiro da Fonte. Sempre os livros atrás e menos as sebentas. Um ano repetido e eu mudado. O amor pelo caminho, logo aos vinte e poucos. A força de um muro permanente entre mim e o "outro". Crescer e viver à sombra desse muro inexpugnável. Para sempre, diria o Vergílio Ferreira. Chego aqui cansado, aos quarenta e seis, com estes versos de Herberto Helder (nem sequer é dos meus preferidos), lidos pela primeira vez no irrepetível verão de 83: "chega a mão a escrever negro/e, conforme vai escrevendo/mais negra se torna." Percebe agora?

OS DIAS DE AMANHÃ - 2

As taxas de juro activas vão aumentar em 2007, já para a semana. Muitos portugueses estão a pagar à banca o empréstimo para a compra de casa própria e é justamente a prestação desse empréstimo que forçosamente subirá. Também aumentam a electricidade, os combustíveis, os fármacos, os internamentos públicos. Em suma, a "vida", a outra, aumenta na segunda-feira. Por estes dias, ninguém se tem dado ao trabalho de pensar nos dias de amanhã. Depois não se queixem.

OS DIAS DE AMANHÃ - 2

As taxas de juro activas vão aumentar em 2007, já para a semana. Muitos portugueses estão a pagar à banca o empréstimo para a compra de casa própria e é justamente a prestação desse empréstimo que forçosamente subirá. Também aumentam a electricidade, os combustíveis, os fármacos, os internamentos públicos. Em suma, a "vida", a outra, aumenta na segunda-feira. Por estes dias, ninguém se tem dado ao trabalho de pensar nos dias de amanhã. Depois não se queixem.

LER OS OUTROS

Afinal, existem formas de vida sensata no Glória Fácil.

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Afinal, existem formas de vida sensata no Glória Fácil.

SERVIÇO PÚBLICO

O senhor engenheiro terá lido isto antes ou depois da sua mensagem optimista? Parece que somos o grande exemplo europeu do que NÃO se deve fazer em matéria de finanças públicas. Sempre servimos, afinal, para alguma coisa.

SERVIÇO PÚBLICO

O senhor engenheiro terá lido isto antes ou depois da sua mensagem optimista? Parece que somos o grande exemplo europeu do que NÃO se deve fazer em matéria de finanças públicas. Sempre servimos, afinal, para alguma coisa.

OUVIR OS OUTROS

No Crítico, do lado direito da página, pode escutar-se uma "transmissão da Antena II a partir do Teatro Nacional de São Castos". É uma blague que contém, entre outras pérolas, Natália de Andrade. Esperemos que, em 2007, a blague não se torne numa triste realidade às mãos do dr. Vieira de Carvalho e sus muchachos e muchachas.

OUVIR OS OUTROS

No Crítico, do lado direito da página, pode escutar-se uma "transmissão da Antena II a partir do Teatro Nacional de São Castos". É uma blague que contém, entre outras pérolas, Natália de Andrade. Esperemos que, em 2007, a blague não se torne numa triste realidade às mãos do dr. Vieira de Carvalho e sus muchachos e muchachas.

VERME


Um pessoa minha "amiga" enviou-me há pouco uma "sms" onde escreve que andou a ler uma biografia do nosso D. Carlos (não sei se a de Rui Ramos) e concluiu, e passo a citar, "que se não fosse a importância decadente que dá [dou] à merda, até tinha [eu] semelhanças com o dito" e que "[eu] podia evitar essa sua [minha] degradação já que a si [a mim] ninguém lhe dá um tiro." Daqui concluo que: a) perco demasiado tempo com coisas e gente que o não merece; b) que, apesar de republicano, talvez me possa rever nalguns traços desse grande assassinado da Rua do Arsenal (quem sabe, o gosto por Paris, sem as putas), designadamente por termos sido ambos de Lanceiros e eu ainda poder vir a levar um tiro; c) estou a degradar-me. Já que estou a "degradar-me", peço emprestado ao Filipe Nunes Vicente (quando for em breve a Coimbra compenso-o) este poema doutro "decadente", o Teixeira de Pascoaes, de quem ando a ler o "São Paulo", prosa altamente recomendável a todos os degradados deste nosso pequeno mundo.

"UMA PROFISSÃO ESSENCIAL: A do "Verme", de Pascoaes:


" Eu vivo no interior das negras sepulturas.
Só eu sei conhecer as grandes amarguras
Dos que pedem à terra a paz e o esquecimento...
Na sua antiga dor encontro um alimento...
E nas suas lágrimas sombrias e geladas,
Como nos lagos ou nas fontes prateadas,
Às vezes mato a sede... E o mau ar que respiro
Tem o amargo sabor dum último suspiro...
Por isso conheço a dor do homem..."

VERME


Um pessoa minha "amiga" enviou-me há pouco uma "sms" onde escreve que andou a ler uma biografia do nosso D. Carlos (não sei se a de Rui Ramos) e concluiu, e passo a citar, "que se não fosse a importância decadente que dá [dou] à merda, até tinha [eu] semelhanças com o dito" e que "[eu] podia evitar essa sua [minha] degradação já que a si [a mim] ninguém lhe dá um tiro." Daqui concluo que: a) perco demasiado tempo com coisas e gente que o não merece; b) que, apesar de republicano, talvez me possa rever nalguns traços desse grande assassinado da Rua do Arsenal (quem sabe, o gosto por Paris, sem as putas), designadamente por termos sido ambos de Lanceiros e eu ainda poder vir a levar um tiro; c) estou a degradar-me. Já que estou a "degradar-me", peço emprestado ao Filipe Nunes Vicente (quando for em breve a Coimbra compenso-o) este poema doutro "decadente", o Teixeira de Pascoaes, de quem ando a ler o "São Paulo", prosa altamente recomendável a todos os degradados deste nosso pequeno mundo.

"UMA PROFISSÃO ESSENCIAL: A do "Verme", de Pascoaes:


" Eu vivo no interior das negras sepulturas.
Só eu sei conhecer as grandes amarguras
Dos que pedem à terra a paz e o esquecimento...
Na sua antiga dor encontro um alimento...
E nas suas lágrimas sombrias e geladas,
Como nos lagos ou nas fontes prateadas,
Às vezes mato a sede... E o mau ar que respiro
Tem o amargo sabor dum último suspiro...
Por isso conheço a dor do homem..."

A ILUSÃO

Ao primeiro-ministro convinha-lhe, na sua austeridade soturna, meditar nisto. Em vez da "confiança" e dos "sinais encorajadores", Sócrates devia ter confrontado a raça que pastoreia com a realidade. Só que a realidade empurra a ilusão e só vagamente entra na cabeça das pessoas. A avaliar por isto, o "consumo privado" está aos melhores níveis da melhor Europa. Daqui a uma semana, quando todos os forrobodós passarem, a realidade, qual serpente venenosa, descerá pelas chaminés como nunca um qualquer pai natal desceu. A um Sócrates virtual corresponde um país irreal e vice-versa. Se calhar está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira.

A ILUSÃO

Ao primeiro-ministro convinha-lhe, na sua austeridade soturna, meditar nisto. Em vez da "confiança" e dos "sinais encorajadores", Sócrates devia ter confrontado a raça que pastoreia com a realidade. Só que a realidade empurra a ilusão e só vagamente entra na cabeça das pessoas. A avaliar por isto, o "consumo privado" está aos melhores níveis da melhor Europa. Daqui a uma semana, quando todos os forrobodós passarem, a realidade, qual serpente venenosa, descerá pelas chaminés como nunca um qualquer pai natal desceu. A um Sócrates virtual corresponde um país irreal e vice-versa. Se calhar está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira.

BARBÁRIE CIVILIZACIONAL - 2

Alguns anónimos comentadores ficaram muito indignados por isto. Acusaram-me, até, de falta de sensibilidade. Se bem percebi, consideram "natural" que uma menina de doze anos seja mãe em consequência de ter começado a praticar "educação sexual" antes mesmo de a escola lha ensinar, como mandam os bons costumes democráticos. Ela aprendeu por si, com os seus dois "namorados", à semelhança do que acontece com qualquer adolescente, seja ele da Lapa ou da Amadora. E não me pareceu que nenhum dos namorados fosse propriamente um menino como ela. Ora, em linguagem chã, isto é pedofilia e da grossa. Ou estes beneméritos imaginam que a dita só existe quando intervêm pilas e rabinhos? No caso da menina de doze anos, o crime praticado sobre ela com o seu consentimento é semi-público, ou seja, depende de queixa para prosseguir a acção penal. Ela e os seus - a avó foi mãe aos 16, a mãe dela, aos 14, e ela aos 12 - bem como os "teóricos" da coisa, acham que está tudo muito bem assim. Problema deles? Não. Problema nosso, do nosso primitivismo, e da sociedade de novos monstros que andamos alegremente a construir. Se isto é uma civilização, então não sei o que é uma civilização.

BARBÁRIE CIVILIZACIONAL - 2

Alguns anónimos comentadores ficaram muito indignados por isto. Acusaram-me, até, de falta de sensibilidade. Se bem percebi, consideram "natural" que uma menina de doze anos seja mãe em consequência de ter começado a praticar "educação sexual" antes mesmo de a escola lha ensinar, como mandam os bons costumes democráticos. Ela aprendeu por si, com os seus dois "namorados", à semelhança do que acontece com qualquer adolescente, seja ele da Lapa ou da Amadora. E não me pareceu que nenhum dos namorados fosse propriamente um menino como ela. Ora, em linguagem chã, isto é pedofilia e da grossa. Ou estes beneméritos imaginam que a dita só existe quando intervêm pilas e rabinhos? No caso da menina de doze anos, o crime praticado sobre ela com o seu consentimento é semi-público, ou seja, depende de queixa para prosseguir a acção penal. Ela e os seus - a avó foi mãe aos 16, a mãe dela, aos 14, e ela aos 12 - bem como os "teóricos" da coisa, acham que está tudo muito bem assim. Problema deles? Não. Problema nosso, do nosso primitivismo, e da sociedade de novos monstros que andamos alegremente a construir. Se isto é uma civilização, então não sei o que é uma civilização.

26.12.06

LER OS OUTROS

O Filipe Nunes Vicente sobre a incorrecção política pós-natalícia de Rui Rio.

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O Filipe Nunes Vicente sobre a incorrecção política pós-natalícia de Rui Rio.

O IRMÃO

O sr. Ramos Horta - uma criatura que foi amplamente subsidiada pelo estado português, logo, por todos nós, cada vez que se ia exibir a Nova Iorque ou a outro lado qualquer -, uma criatura que Ana Gomes acarinha, esta criatura que é primeiro-ministro dessa ficção política que é Timor Leste para cima do qual o regime se baba, dirigiu-se directamente ao sr. Bin Laden, numa entrevista, a quem chamou de "meu irmão". Não se esqueçam, pois, de lhe chamar, ao sr. Horta, irmão.

O IRMÃO

O sr. Ramos Horta - uma criatura que foi amplamente subsidiada pelo estado português, logo, por todos nós, cada vez que se ia exibir a Nova Iorque ou a outro lado qualquer -, uma criatura que Ana Gomes acarinha, esta criatura que é primeiro-ministro dessa ficção política que é Timor Leste para cima do qual o regime se baba, dirigiu-se directamente ao sr. Bin Laden, numa entrevista, a quem chamou de "meu irmão". Não se esqueçam, pois, de lhe chamar, ao sr. Horta, irmão.

BARBÁRIE CIVILIZACIONAL

Na TVI passa uma reportagem sobre adolescentes grávidas. Fala uma menina de doze - 12 - anos com uma filha. Pergunta a jornalista: "sabes quem é o pai"? Responde a menina: "Não tenho a certeza porque andava com dois ao mesmo tempo. Como um não quer assumir ser o pai, fica o outro." Pergunta a jornalista: "Mas não tens a certeza que seja esse o pai?". Responde a menina: "Não, mas fica este. Mas vou fazer os testes". Doze anos, mãe. Todos os intervenientes - a mãe da menina, psicólogas, médicos e o profeta Daniel Sampaio que imagina andar a impingir a "educação sexual" das meninas e dos meninos na escola - vêem a coisa com a maior complacência e irresponsabilidade. Qual é mesmo o exemplo, senhor engenheiro? A Finlândia ou o Burundi?

BARBÁRIE CIVILIZACIONAL

Na TVI passa uma reportagem sobre adolescentes grávidas. Fala uma menina de doze - 12 - anos com uma filha. Pergunta a jornalista: "sabes quem é o pai"? Responde a menina: "Não tenho a certeza porque andava com dois ao mesmo tempo. Como um não quer assumir ser o pai, fica o outro." Pergunta a jornalista: "Mas não tens a certeza que seja esse o pai?". Responde a menina: "Não, mas fica este. Mas vou fazer os testes". Doze anos, mãe. Todos os intervenientes - a mãe da menina, psicólogas, médicos e o profeta Daniel Sampaio que imagina andar a impingir a "educação sexual" das meninas e dos meninos na escola - vêem a coisa com a maior complacência e irresponsabilidade. Qual é mesmo o exemplo, senhor engenheiro? A Finlândia ou o Burundi?

BARBÁRIE "DEMOCRÁTICA"

A sentença de morte de Saddam Hussein, confirmada por uma coisa chamada "supremo tribunal de justiça" do Iraque, é mais um golpe na possibilidade de levar a sério o regime e a trapalhada instaurada naquele país pelos EUA de W. Bush. O julgamento do ditador é uma farsa que envergonha o direito tal como o conhecemos. É também a prova de que não existe qualquer esperança de "democratização", de que esta não é importável e de que a pena de morte - um primitivismo jurídico e ético que subsiste em tantos estados norte-americanos como o que é chefiado por outro Bush - coloca de lado qualquer hipótese de conciliação "ocidental" com esta gente. Só um burgesso inconsciente como W. Bush se podia regozijar com esta barbaridade que, a seu tempo, rebentará em cima dele e, tragicamente, em cima de nós.

Adenda: Ler "O tribunal suicida", de José Medeiros Ferreira

BARBÁRIE "DEMOCRÁTICA"

A sentença de morte de Saddam Hussein, confirmada por uma coisa chamada "supremo tribunal de justiça" do Iraque, é mais um golpe na possibilidade de levar a sério o regime e a trapalhada instaurada naquele país pelos EUA de W. Bush. O julgamento do ditador é uma farsa que envergonha o direito tal como o conhecemos. É também a prova de que não existe qualquer esperança de "democratização", de que esta não é importável e de que a pena de morte - um primitivismo jurídico e ético que subsiste em tantos estados norte-americanos como o que é chefiado por outro Bush - coloca de lado qualquer hipótese de conciliação "ocidental" com esta gente. Só um burgesso inconsciente como W. Bush se podia regozijar com esta barbaridade que, a seu tempo, rebentará em cima dele e, tragicamente, em cima de nós.

Adenda: Ler "O tribunal suicida", de José Medeiros Ferreira

20.13, O PURGATÓRIO


Venho do filme de Joaquim Leitão, 20,13. Tem a estrutura da tragédia, com coro, música, unidade de espaço e de tempo a preceito. A coisa resume-se à noite da consoada, passada num aquartelamento do exército português em plena guerra colonial. Moçambique, 1969. Num helicóptero chega inesperadamente a mulher do comandante, o capitão Correia (na foto). Já lá está outra mulher, a do alferes médico, um casal sem sentido. A segunda figura do quartel é o alferes Gaio, um "revoltado" da metrópole a cumprir o serviço obrigatório. O capitão lembra o oficial japonês de Merry Christmas, Mr. Lawrence ou o capitão do barco em Querelle. Honra, dever, orgulho, patriotismo, um casamento falhado com uma filha-família e um affair de caserna com o cabo enfermeiro. A mulher perturbada do alferes médico tem aparentemente uma fixação pelo capitão atormentado e não hesita em matar para que isso fique claro. Para proteger um assassínio, outro assassínio e a imolação final do capitão que procura deliberadamente a morte numa acção militar. Tudo termina pelo fogo, pelos tiros e pela arma branca. O alferes Gaio sabe a verdade por uma carta que lhe deixou o capitão. A hierarquia militar deseja heróis, mortos em combate, e não "larilas". A carta e a história de Gaio desaparecem num pequeno lume ateado num cinzeiro. O tenente-coronel profere a frase decisiva do filme: "no exército português não há maricas nem oficiais que matam soldados". Há uma "história" na guerra colonial portuguesa que ficou por fazer e que esta frase singular e "oficial" resume. Apenas a ficção - uma tão corajosa quanto medíocre, de Guilherme de Melo ("A sombra dos dias", da Bertrand) e outra mais cruel e "realista" de Eduardo Pitta ("Persona" - ficções, da Angelus Novus, particularmente "Pesadelo", a páginas 27 e seguintes) - tocou este pathos, já que o regime sempre se recusou a aceitar "escândalos", mandando para o "mato" ou para a "metrópole" os casos mais bicudos. Fizeram-se inquéritos e mais inquéritos que ficaram apenas na memória dos seus principais protagonistas. A ditadura tinha destas subtilezas: podia fazer-se tudo desde que não se soubesse. O filme de Joaquim Leitão tem a configuração da tragédia clássica precisamente porque existe um reconhecimento, uma descoberta fatal, um "ágon", uma catástrofe. Toda aquela gente está condenada. Os soldados, à morte em campo aberto, os protagonistas (regime colonial incluído), à impossibilidade de lidar com a verdade. Um capitão de boas famílias e do exército colonial português não pode amar um cabo enfermeiro, tal como a mulher de outro homem não pode amar um homem casado e tal como o regime não pode aceitar a realidade. Por isso matam e se matam. A renúncia final ao mundo da mulher culpada é a única redenção consentida.

20.13, O PURGATÓRIO


Venho do filme de Joaquim Leitão, 20,13. Tem a estrutura da tragédia, com coro, música, unidade de espaço e de tempo a preceito. A coisa resume-se à noite da consoada, passada num aquartelamento do exército português em plena guerra colonial. Moçambique, 1969. Num helicóptero chega inesperadamente a mulher do comandante, o capitão Correia (na foto). Já lá está outra mulher, a do alferes médico, um casal sem sentido. A segunda figura do quartel é o alferes Gaio, um "revoltado" da metrópole a cumprir o serviço obrigatório. O capitão lembra o oficial japonês de Merry Christmas, Mr. Lawrence ou o capitão do barco em Querelle. Honra, dever, orgulho, patriotismo, um casamento falhado com uma filha-família e um affair de caserna com o cabo enfermeiro. A mulher perturbada do alferes médico tem aparentemente uma fixação pelo capitão atormentado e não hesita em matar para que isso fique claro. Para proteger um assassínio, outro assassínio e a imolação final do capitão que procura deliberadamente a morte numa acção militar. Tudo termina pelo fogo, pelos tiros e pela arma branca. O alferes Gaio sabe a verdade por uma carta que lhe deixou o capitão. A hierarquia militar deseja heróis, mortos em combate, e não "larilas". A carta e a história de Gaio desaparecem num pequeno lume ateado num cinzeiro. O tenente-coronel profere a frase decisiva do filme: "no exército português não há maricas nem oficiais que matam soldados". Há uma "história" na guerra colonial portuguesa que ficou por fazer e que esta frase singular e "oficial" resume. Apenas a ficção - uma tão corajosa quanto medíocre, de Guilherme de Melo ("A sombra dos dias", da Bertrand) e outra mais cruel e "realista" de Eduardo Pitta ("Persona" - ficções, da Angelus Novus, particularmente "Pesadelo", a páginas 27 e seguintes) - tocou este pathos, já que o regime sempre se recusou a aceitar "escândalos", mandando para o "mato" ou para a "metrópole" os casos mais bicudos. Fizeram-se inquéritos e mais inquéritos que ficaram apenas na memória dos seus principais protagonistas. A ditadura tinha destas subtilezas: podia fazer-se tudo desde que não se soubesse. O filme de Joaquim Leitão tem a configuração da tragédia clássica precisamente porque existe um reconhecimento, uma descoberta fatal, um "ágon", uma catástrofe. Toda aquela gente está condenada. Os soldados, à morte em campo aberto, os protagonistas (regime colonial incluído), à impossibilidade de lidar com a verdade. Um capitão de boas famílias e do exército colonial português não pode amar um cabo enfermeiro, tal como a mulher de outro homem não pode amar um homem casado e tal como o regime não pode aceitar a realidade. Por isso matam e se matam. A renúncia final ao mundo da mulher culpada é a única redenção consentida.

O LIVRO


Não é o livro do ano porque foi publicado anteriormente, mas é seguramente um dos grandes livros traduzidos este ano. Lá mais para o 31, ia escrever sobre ele, apesar de, na altura em que o li, ter feito menção. Sucede que o Henrique Raposo tirou-me praticamente as palavras do computador. Está escrito. No entanto, duvido que o interlocutor escolhido pelo Henrique perceba.

O LIVRO


Não é o livro do ano porque foi publicado anteriormente, mas é seguramente um dos grandes livros traduzidos este ano. Lá mais para o 31, ia escrever sobre ele, apesar de, na altura em que o li, ter feito menção. Sucede que o Henrique Raposo tirou-me praticamente as palavras do computador. Está escrito. No entanto, duvido que o interlocutor escolhido pelo Henrique perceba.

LER OS OUTROS

No Diário de Notícias, este oportuno artigo de José Sasportes especialmente destinado aos "iluminados" neo-realistas que ocupam presentemente o Palácio da Ajuda. A um, sobretudo. A aplicar-se o PRACE ao Ministério da Cultura, que se aplique a sério, extinguindo a tutela.

LER OS OUTROS

No Diário de Notícias, este oportuno artigo de José Sasportes especialmente destinado aos "iluminados" neo-realistas que ocupam presentemente o Palácio da Ajuda. A um, sobretudo. A aplicar-se o PRACE ao Ministério da Cultura, que se aplique a sério, extinguindo a tutela.

NUNCA MAIS


"E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura. Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar. A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca."

Clarice Lispector, surpreendida pelo Eduardo Pitta

NUNCA MAIS


"E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura. Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar. A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca."

Clarice Lispector, surpreendida pelo Eduardo Pitta

ABRIR UM LUGAR -2

O montinho da alarvidade de ontem aumentou ligeiramente. Vale a pena?

ABRIR UM LUGAR -2

O montinho da alarvidade de ontem aumentou ligeiramente. Vale a pena?

25.12.06

A MENSAGEM


O senhor primeiro-ministro está "confiante" no "passo a passo" que anda a dar. Todos os seus "indicadores" melhoraram, a sua "confiança" aumentou, as "expectativas" aumentaram. Isto graças ao "esforço" que ele anda a pedir a "todos" e a que, pelos vistos, "todos" devem obedecer sem hesitação. "Trabalho árduo" é a receita do senhor engenheiro, a mesma que Salazar proclamou quando ascendeu ao lugar hoje ocupado por Sócrates. Não existe comparação possível. Salazar saneou e equilibrou as finanças, apostou numa economia rural pouco mais que primitiva e, porventura com receio da "classe operária", desprezou a industrialização do país e cerceou as liberdades a fim de sossegar as gentes depois dos desmandos da I República. Até certo ponto da história, foi um estadista notável. Todavia, e contrariamente ao que dizia, decidido até onde ir, acabou por ir mais além. O regime - ele- tornou-se esdrúxulo. Um dos grandes portugueses do século terminava como uma caricatura de si mesmo, convencido de que ainda era o que já tinha deixado de ser. Sócrates não é nada disto. Em Salazar havia persistência, método, consistência e censura. Em Sócrates existe teimosia, power point, superficialidade autoritária e exploração das virtualidades mediáticas e tecnocráticas da democracia. Salazar era alérgico à "política" e, em certo sentido, construiu o seu poder contra ela, tornando-se, apesar e por causa disso, num dos maiores políticos portugueses de sempre. Sócrates, sendo um típico produto da política partidária e caciqueira - ele é uma circunstância feliz sobretudo para si próprio - acabou por anular o PS e secar praticamente tudo à sua volta em nome da "salvação" do partido e do país. Se falhar, como acabará por falhar, será a vez de o país o secar a ele.

A MENSAGEM


O senhor primeiro-ministro está "confiante" no "passo a passo" que anda a dar. Todos os seus "indicadores" melhoraram, a sua "confiança" aumentou, as "expectativas" aumentaram. Isto graças ao "esforço" que ele anda a pedir a "todos" e a que, pelos vistos, "todos" devem obedecer sem hesitação. "Trabalho árduo" é a receita do senhor engenheiro, a mesma que Salazar proclamou quando ascendeu ao lugar hoje ocupado por Sócrates. Não existe comparação possível. Salazar saneou e equilibrou as finanças, apostou numa economia rural pouco mais que primitiva e, porventura com receio da "classe operária", desprezou a industrialização do país e cerceou as liberdades a fim de sossegar as gentes depois dos desmandos da I República. Até certo ponto da história, foi um estadista notável. Todavia, e contrariamente ao que dizia, decidido até onde ir, acabou por ir mais além. O regime - ele- tornou-se esdrúxulo. Um dos grandes portugueses do século terminava como uma caricatura de si mesmo, convencido de que ainda era o que já tinha deixado de ser. Sócrates não é nada disto. Em Salazar havia persistência, método, consistência e censura. Em Sócrates existe teimosia, power point, superficialidade autoritária e exploração das virtualidades mediáticas e tecnocráticas da democracia. Salazar era alérgico à "política" e, em certo sentido, construiu o seu poder contra ela, tornando-se, apesar e por causa disso, num dos maiores políticos portugueses de sempre. Sócrates, sendo um típico produto da política partidária e caciqueira - ele é uma circunstância feliz sobretudo para si próprio - acabou por anular o PS e secar praticamente tudo à sua volta em nome da "salvação" do partido e do país. Se falhar, como acabará por falhar, será a vez de o país o secar a ele.