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26.3.13

Pavor e tédio

Passei pela Rua Anchieta para dar um abraço ao Francisco José Viegas. Depois assisti à missa celebrada na Igreja da Encarnação pelo meu amigo cónego João Seabra. A Palavra do dia - Jo 13,21-33.36-38 - alude ao momento que antecede a saída de Jesus para a "noite escura" da solidão mais radical. «Naquele tempo, estando Jesus à mesa com os discípulos, sentiu-Se intimamente perturbado e declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará». Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem de quem falava. Um dos discípulos, o predilecto de Jesus, estava à mesa, mesmo a seu lado. Simão Pedro fez-lhe sinal e disse: «Pergunta-Lhe a quem Se refere». Ele inclinou-Se sobre o peito de Jesus e perguntou Lhe: «Quem é, Senhor?» Jesus respondeu: «É aquele a quem vou dar este bocado de pão molhado». E, molhando o pão, deu-o a Judas Iscariotes, filho de Simão. Naquele momento, depois de engolir o pão, Satanás entrou nele. Disse- lhe Jesus: «O que tens a fazer, fá-lo depressa». Mas nenhum dos que estavam à mesa compreendeu porque lhe disse tal coisa. Como Judas era quem tinha a bolsa comum, alguns pensavam que Jesus lhe tinha dito: «Vai comprar o que precisamos para a festa»; ou então, que desse alguma esmola aos pobres. Judas recebeu o bocado de pão e saiu imediatamente. Era noite. Depois de ele sair, Jesus disse: «Agora foi glorificado o Filho do homem e Deus foi glorificado n’Ele. Se Deus foi glorificado n’Ele, também Deus O glorificará em Si mesmo e glorificá l’O-á sem demora. Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Haveis de procurar-Me e, assim como disse aos judeus, também agora vos digo: não podeis ir para onde Eu vou». Perguntou-Lhe Simão Pedro: «Para onde vais, Senhor?». Jesus respondeu: «Para onde Eu vou, não podes tu seguir-Me por agora; seguir-Me-ás depois». Disse-Lhe Pedro: «Senhor, por que motivo não posso seguir-Te agora? Eu darei a vida por Ti». Disse-Lhe Jesus: «Darás a vida por Mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo, sem que Me tenhas negado três vezes». Na homilia, o João Seabra referiu-se a Mateus sobre o mesmo momento: "não lhe serviram de estorvo a tristeza, o pavor e o tédio". Isto é, o Senhor não recuou perante a traição, a negação e a cruz. Mas sentiu pavor e tédio na "descida" solitária para a escuridão do mundo, para a "condição humana" todos os dias confirmada.

25.3.12

O grão de trigo

«Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome». Veio então do Céu uma voz que dizia: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». A multidão que estava presente e ouvira dizia ter sido um trovão. Outros afirmavam: «Foi um Anjo que Lhe falou». Disse Jesus: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim» (João 12, 20-33)


 


(via João Távora)

11.3.12

«Ele bem sabia o que há no homem»

«Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus. Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem. (João 2. 13-25)

22.4.11

NO CAMINHO DA PAIXÃO


«O Senhor saiu: é este o sinal da sua força. Ele desceu para a noite de Getsémani, para a noite da Cruz, para a noite do túmulo. Ele desceu porque, no confronto com a morte, é mais forte; porque o seu amor leva o selo do amor de Deus que tem mais poder que as forças da destruição. É precisamente nessa saída, no caminho da Paixão, que está o acto da sua vitória; no mistério do Getsémani já está o mistério da alegria pascal. Ele é o mais forte, não há nenhum poder que possa resistir-Lhe e nenhum lugar onde Ele não esteja. Ele chama-nos a tentar a caminhada com Ele, porque onde houver fé e amor, aí estará Ele, aí estará a força da paz que supera o nada e a morte".»

Joseph Ratzinger

NO CAMINHO DA PAIXÃO


«O Senhor saiu: é este o sinal da sua força. Ele desceu para a noite de Getsémani, para a noite da Cruz, para a noite do túmulo. Ele desceu porque, no confronto com a morte, é mais forte; porque o seu amor leva o selo do amor de Deus que tem mais poder que as forças da destruição. É precisamente nessa saída, no caminho da Paixão, que está o acto da sua vitória; no mistério do Getsémani já está o mistério da alegria pascal. Ele é o mais forte, não há nenhum poder que possa resistir-Lhe e nenhum lugar onde Ele não esteja. Ele chama-nos a tentar a caminhada com Ele, porque onde houver fé e amor, aí estará Ele, aí estará a força da paz que supera o nada e a morte".»

Joseph Ratzinger

12.4.09

A NOVIDADE


«Resurrectio Domini, spes nostra – a ressurreição do Senhor é a nossa esperança» (Agostinho, Sermão 261, 1). Com esta afirmação, o grande Bispo explicava aos seus fiéis que Jesus ressuscitou para que nós, apesar de destinados à morte, não desesperássemos, pensando que a vida acaba totalmente com a morte; Cristo ressuscitou para nos dar a esperança (cf. ibid.). Com efeito, uma das questões que mais angustia a existência do homem é precisamente esta: o que há depois da morte? A este enigma, a solenidade de hoje permite-nos responder que a morte não tem a última palavra, porque no fim quem triunfa é a Vida. E esta nossa certeza não se funda sobre simples raciocínios humanos, mas sobre um dado histórico de fé: Jesus Cristo, crucificado e sepultado, ressuscitou com o seu corpo glorioso. Jesus ressuscitou para que também nós, acreditando n’Ele, possamos ter a vida eterna. Este anúncio situa-se no coração da mensagem evangélica. Declara-o com vigor São Paulo: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé». E acrescenta: «Se tão somente nesta vida esperamos em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens» (1 Cor 15, 14.19). Desde a alvorada de Páscoa, uma nova primavera de esperança invade o mundo; desde aquele dia, a nossa ressurreição já começou, porque a Páscoa não indica simplesmente um momento da história, mas o início duma nova condição: Jesus ressuscitou, não para que a sua memória permaneça viva no coração dos seus discípulos, mas para que Ele mesmo viva em nós, e, n’Ele, possamos já saborear a alegria da vida eterna. Portanto a ressurreição não é uma teoria, mas uma realidade histórica revelada pelo Homem Jesus Cristo por meio da sua «páscoa», da sua «passagem», que abriu um «caminho novo» entre a terra e o Céu (cf. Heb 10, 20). Não é um mito nem um sonho, não é uma visão nem uma utopia, não é uma fábula, mas um acontecimento único e irrepetível: Jesus de Nazaré, filho de Maria, que ao pôr do sol de Sexta-feira foi descido da cruz e sepultado, deixou vitorioso o túmulo. De facto, ao alvorecer do primeiro dia depois do Sábado, Pedro e João encontraram o túmulo vazio. Madalena e as outras mulheres encontraram Jesus ressuscitado; reconheceram-No também os dois discípulos de Emaús ao partir o pão; o Ressuscitado apareceu aos Apóstolos à noite no Cenáculo e depois a muitos outros discípulos na Galileia. O anúncio da ressurreição do Senhor ilumina as zonas escuras do mundo em que vivemos. Refiro-me de modo particular ao materialismo e ao niilismo, àquela visão do mundo que não sabe transcender o que é experimentalmente constatável e refugia-se desconsolada num sentimento de que o nada seria a meta definitiva da existência humana. É um facto que, se Cristo não tivesse ressuscitado, o «vazio» teria levado a melhor. Se abstraímos de Cristo e da sua ressurreição, não há escapatória para o homem, e toda a sua esperança permanece uma ilusão. Mas, precisamente hoje, prorrompe com vigor o anúncio da ressurreição do Senhor, que dá resposta à pergunta frequente dos cépticos, referida nomeadamente pelo livro do Coeleth: «Há porventura qualquer coisa da qual se possa dizer: / Eis, aqui está uma coisa nova?» (Co 1, 10). Sim – respondemos –, na manhã de Páscoa, tudo se renovou. «Mors et vita / duello conflixere mirando: dux vitae mortuus / regnat vivus – Morte e vida defrontaram-se / num prodigioso combate: / O Senhor da vida estava morto; / mas agora, vivo, triunfa». Esta é a novidade.»

Papa Bento XVI, Vaticano, 12.4.09

A NOVIDADE


«Resurrectio Domini, spes nostra – a ressurreição do Senhor é a nossa esperança» (Agostinho, Sermão 261, 1). Com esta afirmação, o grande Bispo explicava aos seus fiéis que Jesus ressuscitou para que nós, apesar de destinados à morte, não desesperássemos, pensando que a vida acaba totalmente com a morte; Cristo ressuscitou para nos dar a esperança (cf. ibid.). Com efeito, uma das questões que mais angustia a existência do homem é precisamente esta: o que há depois da morte? A este enigma, a solenidade de hoje permite-nos responder que a morte não tem a última palavra, porque no fim quem triunfa é a Vida. E esta nossa certeza não se funda sobre simples raciocínios humanos, mas sobre um dado histórico de fé: Jesus Cristo, crucificado e sepultado, ressuscitou com o seu corpo glorioso. Jesus ressuscitou para que também nós, acreditando n’Ele, possamos ter a vida eterna. Este anúncio situa-se no coração da mensagem evangélica. Declara-o com vigor São Paulo: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé». E acrescenta: «Se tão somente nesta vida esperamos em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens» (1 Cor 15, 14.19). Desde a alvorada de Páscoa, uma nova primavera de esperança invade o mundo; desde aquele dia, a nossa ressurreição já começou, porque a Páscoa não indica simplesmente um momento da história, mas o início duma nova condição: Jesus ressuscitou, não para que a sua memória permaneça viva no coração dos seus discípulos, mas para que Ele mesmo viva em nós, e, n’Ele, possamos já saborear a alegria da vida eterna. Portanto a ressurreição não é uma teoria, mas uma realidade histórica revelada pelo Homem Jesus Cristo por meio da sua «páscoa», da sua «passagem», que abriu um «caminho novo» entre a terra e o Céu (cf. Heb 10, 20). Não é um mito nem um sonho, não é uma visão nem uma utopia, não é uma fábula, mas um acontecimento único e irrepetível: Jesus de Nazaré, filho de Maria, que ao pôr do sol de Sexta-feira foi descido da cruz e sepultado, deixou vitorioso o túmulo. De facto, ao alvorecer do primeiro dia depois do Sábado, Pedro e João encontraram o túmulo vazio. Madalena e as outras mulheres encontraram Jesus ressuscitado; reconheceram-No também os dois discípulos de Emaús ao partir o pão; o Ressuscitado apareceu aos Apóstolos à noite no Cenáculo e depois a muitos outros discípulos na Galileia. O anúncio da ressurreição do Senhor ilumina as zonas escuras do mundo em que vivemos. Refiro-me de modo particular ao materialismo e ao niilismo, àquela visão do mundo que não sabe transcender o que é experimentalmente constatável e refugia-se desconsolada num sentimento de que o nada seria a meta definitiva da existência humana. É um facto que, se Cristo não tivesse ressuscitado, o «vazio» teria levado a melhor. Se abstraímos de Cristo e da sua ressurreição, não há escapatória para o homem, e toda a sua esperança permanece uma ilusão. Mas, precisamente hoje, prorrompe com vigor o anúncio da ressurreição do Senhor, que dá resposta à pergunta frequente dos cépticos, referida nomeadamente pelo livro do Coeleth: «Há porventura qualquer coisa da qual se possa dizer: / Eis, aqui está uma coisa nova?» (Co 1, 10). Sim – respondemos –, na manhã de Páscoa, tudo se renovou. «Mors et vita / duello conflixere mirando: dux vitae mortuus / regnat vivus – Morte e vida defrontaram-se / num prodigioso combate: / O Senhor da vida estava morto; / mas agora, vivo, triunfa». Esta é a novidade.»

Papa Bento XVI, Vaticano, 12.4.09

9.4.09

PÁSCOA


«O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida. O que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos.» (1 Jo 1, 1.3)

Foto: Pedida emprestada aqui.

PÁSCOA


«O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida. O que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos.» (1 Jo 1, 1.3)

Foto: Pedida emprestada aqui.

8.4.07

NO MEIO DA NOITE DO MUNDO, ANUNCIA O DIA


"A Ressureição desvenda aquele que é o artigo decisivo da nossa fé: "E fez-Se homem." Daqui sabemos que é para sempre verdade que Ele é homem. E sê-lo-á para sempre. Através dele, a humanidade foi introduzida na própria natureza de Deus - é este o fruto da sua morte. Nós estamos, nós somos em Deus. Deus é o inteiramente outro e, ao mesmo tempo, o não-outro. Se dissermos Pai juntamente com Jesus, dizemo-lo no próprio Deus. É esta a esperança do homem, a alegria cristã, o Evangelho: ainda hoje Ele é homem. Nele, Deus tornou-se verdadeiramente o não-outro. O homem, o ser absurdo, deixou de ser absurdo. O homem, o ser desconsolado, já não está, já não é desconsolado: rejubilemos. Ele ama-nos, e Deus ama-nos a tal ponto que o seu amor se fez carne e permanece carne. Esta alegria deveria ser o mais forte de todos os impulsos, a força mais impetuosa capaz de nos impelir a comunicar a notícia aos outros homens, a fim de que também eles rejubilem com a luz que nos foi desvendada e que, no meio da noite do mundo, anuncia o dia."

Joseph Ratzinger, Bento XVI

NO MEIO DA NOITE DO MUNDO, ANUNCIA O DIA


"A Ressureição desvenda aquele que é o artigo decisivo da nossa fé: "E fez-Se homem." Daqui sabemos que é para sempre verdade que Ele é homem. E sê-lo-á para sempre. Através dele, a humanidade foi introduzida na própria natureza de Deus - é este o fruto da sua morte. Nós estamos, nós somos em Deus. Deus é o inteiramente outro e, ao mesmo tempo, o não-outro. Se dissermos Pai juntamente com Jesus, dizemo-lo no próprio Deus. É esta a esperança do homem, a alegria cristã, o Evangelho: ainda hoje Ele é homem. Nele, Deus tornou-se verdadeiramente o não-outro. O homem, o ser absurdo, deixou de ser absurdo. O homem, o ser desconsolado, já não está, já não é desconsolado: rejubilemos. Ele ama-nos, e Deus ama-nos a tal ponto que o seu amor se fez carne e permanece carne. Esta alegria deveria ser o mais forte de todos os impulsos, a força mais impetuosa capaz de nos impelir a comunicar a notícia aos outros homens, a fim de que também eles rejubilem com a luz que nos foi desvendada e que, no meio da noite do mundo, anuncia o dia."

Joseph Ratzinger, Bento XVI

7.4.07

SUPERAR O NADA E A MORTE


Por umas horas, a RTP prestou serviço público. Emitiu o filme de Mel Gibson, The Passion of the Christ. As personagens falam aramaico e latim, as línguas em que se expressavam o Filho do Homem, os seus seguidores e os seus algozes. Não somos poupados a nada da mesma forma que Jesus não foi poupado. A interminável cena da flagelação permite, a quem pode, reflectir sobre o seu tremendo significado. O Senhor foi crucificado. Foi crucificado por nós a partir do momento em que abandonou a ceia e se entregou nas mãos do Pai, a vida verdadeira. Todo o mistério da resposta a este dia de trevas que antecede a Ressurreição está encerrado no "grito de agonia do Salmo 22 (21)", pergunta nossa de cada dia: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?". Como ensina o Santo Padre, "neste diálogo já está presente a Ressureição na sombra da morte". "Acreditar significa sair das muralhas para, com a força de Cristo, criar espaços de fé e de amor no mundo caótico. O Senhor saiu: é este o sinal da sua força. Ele desceu para a noite de Getsémani, para a noite da Cruz, para a noite do túmulo. Ele desceu porque, no confronto com a morte, é mais forte; porque o seu amor leva o selo do amor de Deus que tem mais poder que as forças da destruição. É precisamente nessa saída, no caminho da Paixão, que está o acto da sua vitória; no mistério do Getsémani já está o mistério da alegria pascal. Ele é o mais forte, não há nenhum poder que possa resistir-Lhe e nenhum lugar onde Ele não esteja. Ele chama-nos a tentar a caminhada com Ele, porque onde houver fé e amor, aí estará Ele, aí estará a força da paz que supera o nada e a morte". (Joseph Ratzinger, O Caminho Pascal, Lucerna, 2006)

SUPERAR O NADA E A MORTE


Por umas horas, a RTP prestou serviço público. Emitiu o filme de Mel Gibson, The Passion of the Christ. As personagens falam aramaico e latim, as línguas em que se expressavam o Filho do Homem, os seus seguidores e os seus algozes. Não somos poupados a nada da mesma forma que Jesus não foi poupado. A interminável cena da flagelação permite, a quem pode, reflectir sobre o seu tremendo significado. O Senhor foi crucificado. Foi crucificado por nós a partir do momento em que abandonou a ceia e se entregou nas mãos do Pai, a vida verdadeira. Todo o mistério da resposta a este dia de trevas que antecede a Ressurreição está encerrado no "grito de agonia do Salmo 22 (21)", pergunta nossa de cada dia: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?". Como ensina o Santo Padre, "neste diálogo já está presente a Ressureição na sombra da morte". "Acreditar significa sair das muralhas para, com a força de Cristo, criar espaços de fé e de amor no mundo caótico. O Senhor saiu: é este o sinal da sua força. Ele desceu para a noite de Getsémani, para a noite da Cruz, para a noite do túmulo. Ele desceu porque, no confronto com a morte, é mais forte; porque o seu amor leva o selo do amor de Deus que tem mais poder que as forças da destruição. É precisamente nessa saída, no caminho da Paixão, que está o acto da sua vitória; no mistério do Getsémani já está o mistério da alegria pascal. Ele é o mais forte, não há nenhum poder que possa resistir-Lhe e nenhum lugar onde Ele não esteja. Ele chama-nos a tentar a caminhada com Ele, porque onde houver fé e amor, aí estará Ele, aí estará a força da paz que supera o nada e a morte". (Joseph Ratzinger, O Caminho Pascal, Lucerna, 2006)

5.4.07

NO MEIO DE NÓS

"O processo contra Jesus continua e continuará. Ele está no meio de nós. E por isso será julgado. Hoje, como ontem, Jesus, em vez de se apoderar da nossa liberdade, como fazem os poderes políticos - e, também, muitas vezes, as igrejas -, deixou-a nas nossas mãos, tão grande quanto a obra do seu próprio Pai. E hoje, como ontem, muitos rejeitam-na. E escolhem. Contra Ele. O processo continua e continuará. E nesse processo toda a humanidade terá de pronunciar-se, porque se trata, para além da fé, da sua própria liberdade."

Victor Cunha Rego

NO MEIO DE NÓS

"O processo contra Jesus continua e continuará. Ele está no meio de nós. E por isso será julgado. Hoje, como ontem, Jesus, em vez de se apoderar da nossa liberdade, como fazem os poderes políticos - e, também, muitas vezes, as igrejas -, deixou-a nas nossas mãos, tão grande quanto a obra do seu próprio Pai. E hoje, como ontem, muitos rejeitam-na. E escolhem. Contra Ele. O processo continua e continuará. E nesse processo toda a humanidade terá de pronunciar-se, porque se trata, para além da fé, da sua própria liberdade."

Victor Cunha Rego

4.4.07

PÁSCOA


"No cimo da cruz de Jesus – nas duas línguas do mundo de então, o grego e o latim, e na língua do povo eleito, o hebraico – está escrito quem é: o Rei dos Judeus, o Filho prometido a David. Pilatos, o juiz injusto, tornou-se profeta sem querer. Perante a opinião pública mundial é proclamada a realeza de Jesus. O próprio Jesus não tinha aceite o título de Messias, enquanto poderia induzir a uma ideia errada, humana, de poder e de salvação. Mas, agora, o título pode estar escrito ali publicamente sobre o Crucificado. Ele, assim, é verdadeiramente o rei do mundo. Agora foi verdadeiramente «elevado». Na sua descida, Ele subiu. Agora cumpriu radicalmente o mandamento do amor, cumpriu a oferta de Si próprio, e precisamente deste modo Ele é agora a manifestação do verdadeiro Deus, daquele Deus que é amor. Agora sabemos quem é Deus. Agora sabemos como é a verdadeira realeza. Jesus reza o Salmo 22, que começa por estas palavras: «Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?» (Sal. 22/21, 2). Assume em Si mesmo todo o Israel, a humanidade inteira, que sofre o drama da escuridão de Deus, e faz com que Deus Se manifeste precisamente onde parece estar definitivamente derrotado e ausente. A cruz de Cristo é um acontecimento cósmico. O mundo fica na escuridão, quando o Filho de Deus sofre a morte. A terra treme. E junto da cruz tem início a Igreja dos pagãos. O centurião romano reconhece, compreende que Jesus é o Filho de Deus. Da cruz, Ele triunfa sem cessar." São palavras de Joseph Ratzinger. Como estas, aliás, da sua primeira e, até agora. única "Encíclica":"Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc. 17, 33) — disse Jesus, afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt. 10, 39; 16, 25; Mc. 8, 35; Lc. 9, 24; Jo. 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição. É cada vez mais necessária a presença do Filho do Homem, da "parusia". É o Único que verdadeiramente nunca nos abandona, primeira e derradeira esperança do homem num mundo perdido de si para sempre. O martírio do Filho de Deus permanece para os cristãos - mesmos para os maus cristãos e pecadores como eu - o verdadeiro mistério que ilumina a nossa vida desesperada, a nossa razão céptica e a morte certa. Na sua inexpugnável solidão - "Pai, por que me abandonaste?" -, Jesus é o maior monumento de coragem que conheço. Na linearidade luminosa e angustiada da Palavra, Jesus, sem querer, "responde" por antecipação ao "abandono" do Pai, penetrando até ao fim nesse coração de trevas que é o coração do homem.

PÁSCOA


"No cimo da cruz de Jesus – nas duas línguas do mundo de então, o grego e o latim, e na língua do povo eleito, o hebraico – está escrito quem é: o Rei dos Judeus, o Filho prometido a David. Pilatos, o juiz injusto, tornou-se profeta sem querer. Perante a opinião pública mundial é proclamada a realeza de Jesus. O próprio Jesus não tinha aceite o título de Messias, enquanto poderia induzir a uma ideia errada, humana, de poder e de salvação. Mas, agora, o título pode estar escrito ali publicamente sobre o Crucificado. Ele, assim, é verdadeiramente o rei do mundo. Agora foi verdadeiramente «elevado». Na sua descida, Ele subiu. Agora cumpriu radicalmente o mandamento do amor, cumpriu a oferta de Si próprio, e precisamente deste modo Ele é agora a manifestação do verdadeiro Deus, daquele Deus que é amor. Agora sabemos quem é Deus. Agora sabemos como é a verdadeira realeza. Jesus reza o Salmo 22, que começa por estas palavras: «Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?» (Sal. 22/21, 2). Assume em Si mesmo todo o Israel, a humanidade inteira, que sofre o drama da escuridão de Deus, e faz com que Deus Se manifeste precisamente onde parece estar definitivamente derrotado e ausente. A cruz de Cristo é um acontecimento cósmico. O mundo fica na escuridão, quando o Filho de Deus sofre a morte. A terra treme. E junto da cruz tem início a Igreja dos pagãos. O centurião romano reconhece, compreende que Jesus é o Filho de Deus. Da cruz, Ele triunfa sem cessar." São palavras de Joseph Ratzinger. Como estas, aliás, da sua primeira e, até agora. única "Encíclica":"Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc. 17, 33) — disse Jesus, afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt. 10, 39; 16, 25; Mc. 8, 35; Lc. 9, 24; Jo. 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição. É cada vez mais necessária a presença do Filho do Homem, da "parusia". É o Único que verdadeiramente nunca nos abandona, primeira e derradeira esperança do homem num mundo perdido de si para sempre. O martírio do Filho de Deus permanece para os cristãos - mesmos para os maus cristãos e pecadores como eu - o verdadeiro mistério que ilumina a nossa vida desesperada, a nossa razão céptica e a morte certa. Na sua inexpugnável solidão - "Pai, por que me abandonaste?" -, Jesus é o maior monumento de coragem que conheço. Na linearidade luminosa e angustiada da Palavra, Jesus, sem querer, "responde" por antecipação ao "abandono" do Pai, penetrando até ao fim nesse coração de trevas que é o coração do homem.