
Afinal, parece que houve um "choque tecnológico" ao contrário que impediu a transmissão do
encontro de Sócrates com uns quantos bloggers. Resumindo e concluindo, o secretário-geral do PS e primeiro-ministro mostrou por que é que é um líder admirável ou um admirável líder, conforme as preferências. Aguentou estoicamente quatro horas de perguntas/respostas, desde
as mais preparadas pelos "camaradas" até às inesperadas dos três ou quatro
bloggers minoritários ditos da direita. Começou por dizer que «dizem que os blogues dizem mal de mim e eu queria confirmar.» Pela amostra, não pôde confirmar nada. Fiquei a saber que «acredita na transparência como condição da liberdade» e que é um adepto do "realismo" e do "pragmatismo".
Falam-lhe de "promessas", ele maça-se levemente e às "promessas" prefere "propostas". Não gosta de "acusações" nem de "insultos". Também nada disso ocorreu. Estávamos todos muito cordatos uns com os outros, salvo
duas jovens promessas do PS que esperavam "mais" da "direita" presente e que levaram o trabalho feito de casa. O
Público não escapou ao olho do líder numa resposta. «Vocês são todos pessoas adultas para acreditarem em tudo o que vem no
Público.» As ditas minorias, agora alegremente "quotizadas" nas listas do PS, também não. «Eu tenho 51 anos e tenho vergonha da forma como a minha geração tratou os homossexuais.» Também asseverou que «não tem nenhum complexo de esquerda»
quando lhe perguntei o que é que tinha a oferecer ao eleitorado do centro e da direita que lhe deu a maioria absoluta em 2005. "Imagine que eu estou indeciso entre si, o incumbente, e uma outra eventual futura incumbente, senhor primeiro-ministro. Convença-me." Deu-me três exemplos. Segurança social e idade legal da reforma igual para todos, abertura de todas as escolas básicas até às 17.30 e a educação. Menos professores, mais alunos, mais sucesso escolar, menos insucesso escolar entre 2005 e 2009. Fiquei, naturalmente, esclarecido. Sobre a cultura, Sócrates acha que a «animação cultural do país é necessária para o nosso desenvolvimento» e que «o investimento cultural é um investimento na sociedade através dos seus agentes culturais.» E, sobretudo, convém «apostar nas cidades porque têm mais oferta cultural.» Até referiu um termo maldito do PREC, a "dinamização cultural". É o que quer fazer presumivelmente já sem Pinto Ribeiro, "dinamização cultural". Não acompanha a visão "orçamentalista" (leia-se, de reforço da dotação do MC) sem "objectivos". Essa, aliás, não é a "visão" dele e que era a "tónica" de um governo "a que ele pertenceu". Estava, sem falar, a falar de Carrilho. Depois veio uma "revelação". «Não sou metódico, sou pouco apaixonado pelo cálculo.» E, claro, «tenho um optimismo histórico.» Daí acreditar em que «há muitas políticas que se fazem sem dinheiro.» Não faltaram os carros eléctricos, o "cluster industrial", a "revolução tecnológica em curso" e, em relação à segurança do
Magalhães, a necessidade do «desenvolvimento da coisa.» Nesta altura, cerca das 20.30, Sócrates já tinha mergulhado de cabeça na sua doce fantasia.
«Não fazer investimento público é imoral.» Lá lhe foi puxando o pé para o TGV que, imagina, nos retirará miraculosamente da periferia. O Paulo Querido já não me deixou perguntar ao primeiro-ministro se fazia ideia de quantos milhões a mais de endividamento externo tinham crescido naquelas agradáveis quatro horas de amena cavaqueira. Cá fora, e antes de entrar no carro, confessou à rapaziada da "direita" que só foi uma vez na vida a uma manifestação. Contra a guerra do Iraque. De resto foi porreiro, pá. Boa noite e boa sorte.