Será que temos de gramar Vítor Constâncio até à eternidade por, um dia, o dr. Soares se ter lembrado de o despedir de secretário-geral do PS e o regime achar que lhe deve "atenções"? Será?
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
31.10.07
UM HOMEM PARA A ETERNIDADE ?
Será que temos de gramar Vítor Constâncio até à eternidade por, um dia, o dr. Soares se ter lembrado de o despedir de secretário-geral do PS e o regime achar que lhe deve "atenções"? Será?
MONSTRINHOS E PECHISBEQUE
O PS está alegremente a forjar novos monstros. A demagogia dos computadores, da "net" e da qualificação cai por terra quando se degrada a autoridade da escola e a noção de disciplina. O "estatuto do aluno" - haverá coisa mais soviética do que isto? - é um atestado de menoridade passado à função tradicional do professor e da escola. É um favor que se faz à semântica apelidar de aluno o monstrinho que o "estatuto" alimenta. Se faltar porque sim, o PS oferece-lhe "provas de recuperação" atrás de "provas de recuperação" para o monstrinho não largar a escola que despreza. E, de caminho, massajam-se as estatísticas da prof.ª Rodrigues e do senhor engenheiro. Entretanto o Salão Nobre do Conservatório Nacional cai de podre enquanto a prof.ª Pires de Lima resfolega no pechisbeque emprestado pelo Hermitage para uma exposição possidónia na Ajuda. Cada vez tenho mais nojo de ter de viver num país e numa sociedade destas, sem respeito por si mesmos.
Etiquetas:
Cultura,
escolas,
qualificação,
Regime
MONSTRINHOS E PECHISBEQUE
O PS está alegremente a forjar novos monstros. A demagogia dos computadores, da "net" e da qualificação cai por terra quando se degrada a autoridade da escola e a noção de disciplina. O "estatuto do aluno" - haverá coisa mais soviética do que isto? - é um atestado de menoridade passado à função tradicional do professor e da escola. É um favor que se faz à semântica apelidar de aluno o monstrinho que o "estatuto" alimenta. Se faltar porque sim, o PS oferece-lhe "provas de recuperação" atrás de "provas de recuperação" para o monstrinho não largar a escola que despreza. E, de caminho, massajam-se as estatísticas da prof.ª Rodrigues e do senhor engenheiro. Entretanto o Salão Nobre do Conservatório Nacional cai de podre enquanto a prof.ª Pires de Lima resfolega no pechisbeque emprestado pelo Hermitage para uma exposição possidónia na Ajuda. Cada vez tenho mais nojo de ter de viver num país e numa sociedade destas, sem respeito por si mesmos.
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escolas,
qualificação,
Regime
30.10.07
DESENRASQUEM-SE
O senhor conselheiro Pinto Monteiro foi ao Parlamento deixar duas mensagens. A primeira, que pretende que lhe criem - à PGR - condições políticas para mandar nas polícias. Todas. A segunda, que o "sistema" de escutas está fora de controlo, assumindo com a maior naturalidade que as há legais e ilegais e, quanto a ambas, sempre em excesso. Os políticos presentes reagiram a isto não reagindo. De alguma forma, o "monstro" foi criado, alimentado e desenvolvido dentro do regime, ora para o servir, ora para o demolir, uma espécie de pescada de rabo na boca. Entre o irónico e o sério, foi isto que Pinto Monteiro explicou aos ilustres representantes da nação democrática. Desenrasquem-se. Chapeau.
DESENRASQUEM-SE
O senhor conselheiro Pinto Monteiro foi ao Parlamento deixar duas mensagens. A primeira, que pretende que lhe criem - à PGR - condições políticas para mandar nas polícias. Todas. A segunda, que o "sistema" de escutas está fora de controlo, assumindo com a maior naturalidade que as há legais e ilegais e, quanto a ambas, sempre em excesso. Os políticos presentes reagiram a isto não reagindo. De alguma forma, o "monstro" foi criado, alimentado e desenvolvido dentro do regime, ora para o servir, ora para o demolir, uma espécie de pescada de rabo na boca. Entre o irónico e o sério, foi isto que Pinto Monteiro explicou aos ilustres representantes da nação democrática. Desenrasquem-se. Chapeau.
BOM SENSO E BOM GOSTO
O presidente francês Nicolas Sarkozy deixou há dias uma "jornalista" da CBS a falar sozinha, no Eliseu, quando a parva insistiu em saber coisinhas da vida conjugal do homem. Era para o programa "60 minutos" e terminou em poucos. É bom que a reverência perante alguns "jornalistas" - que, entre nós, se traduz em promiscuidade e em familiaridade dada a dimensão - cesse nem que seja à bruta. A pulsão da boa imagem não pode justificar tudo nem a sujeição ao idiotismo perguntante de pseudo-jornalistas que raciocinam (os que possuem cabeça) como piranhas. Um bom profissional não necessita de cursos, de empurrões ou de sabujice. Precisa de bom senso e, em muitos casos, de bom gosto. A loira da CBS não tinha manifestamente nem uma coisa nem a outra. Aí, devem ser largados à sua vulgaridade.
BOM SENSO E BOM GOSTO
O presidente francês Nicolas Sarkozy deixou há dias uma "jornalista" da CBS a falar sozinha, no Eliseu, quando a parva insistiu em saber coisinhas da vida conjugal do homem. Era para o programa "60 minutos" e terminou em poucos. É bom que a reverência perante alguns "jornalistas" - que, entre nós, se traduz em promiscuidade e em familiaridade dada a dimensão - cesse nem que seja à bruta. A pulsão da boa imagem não pode justificar tudo nem a sujeição ao idiotismo perguntante de pseudo-jornalistas que raciocinam (os que possuem cabeça) como piranhas. Um bom profissional não necessita de cursos, de empurrões ou de sabujice. Precisa de bom senso e, em muitos casos, de bom gosto. A loira da CBS não tinha manifestamente nem uma coisa nem a outra. Aí, devem ser largados à sua vulgaridade.
29.10.07
O ESTUDO E O PROFETA
O dr. Roberto Carneiro - ex-profeta da Educação com os resultados que se conhecem e que recomendava um copinho de leite para ajudar a combater o insucesso escolar- "coordenou" um estudo sobre a administração pública pedido pelo governo e pago pelos contribuintes. Do estudo saiu o óbvio, o mesmo ódio primitivo aos funcionários públicos permanentemente confundidos com um grupo de bandalhos que emerge por detrás de balcões obscuros. O dr. Carneiro é uma eminência regimental que, quando o pôde fazer, reformou coisa nenhuma. Paira agora em "observatórios", "grupos de trabalho" e "comissões"de onde brotam, com relativa frequência, estes excitantes estudos. Sempre em pé, este dr. Carneiro.
O ESTUDO E O PROFETA
O dr. Roberto Carneiro - ex-profeta da Educação com os resultados que se conhecem e que recomendava um copinho de leite para ajudar a combater o insucesso escolar- "coordenou" um estudo sobre a administração pública pedido pelo governo e pago pelos contribuintes. Do estudo saiu o óbvio, o mesmo ódio primitivo aos funcionários públicos permanentemente confundidos com um grupo de bandalhos que emerge por detrás de balcões obscuros. O dr. Carneiro é uma eminência regimental que, quando o pôde fazer, reformou coisa nenhuma. Paira agora em "observatórios", "grupos de trabalho" e "comissões"de onde brotam, com relativa frequência, estes excitantes estudos. Sempre em pé, este dr. Carneiro.
A CADEIRA
O dr. Capucho, edil de Cascais, decidiu sentar-se na cadeira vaga no Conselho de Estado após a demissão de Marques Mendes. O dr. Capucho era o nome seguinte de uma lista qualquer aprovada pela AR para preenchimento de vagas partidárias no dito Conselho. Nem sequer lhe passou pela cabeça perguntar ao dr. Menezes se podia sentar-se. Este já veio falar de "pequeninos" a propósito do fantástico tema e, espero, marimbou-se. O Conselho de Estado e a prebenda da cadeira valem tanto como o regime. Não perde nada, dr. Menezes, em não se sentar nela. O país que conta não passa por ali.
A CADEIRA
O dr. Capucho, edil de Cascais, decidiu sentar-se na cadeira vaga no Conselho de Estado após a demissão de Marques Mendes. O dr. Capucho era o nome seguinte de uma lista qualquer aprovada pela AR para preenchimento de vagas partidárias no dito Conselho. Nem sequer lhe passou pela cabeça perguntar ao dr. Menezes se podia sentar-se. Este já veio falar de "pequeninos" a propósito do fantástico tema e, espero, marimbou-se. O Conselho de Estado e a prebenda da cadeira valem tanto como o regime. Não perde nada, dr. Menezes, em não se sentar nela. O país que conta não passa por ali.
LER OS OUTROS
Sobre a megalomania cultural doméstica - apesar de se referir às artes pictóricas, pode perfeitamente aplicar-se a outras, todas permanentemente entregues aos mesmos mandarins de opereta -, este post do Eduardo Pitta. Na ópera, por exemplo, era bom que os "senhores OPART" (essa sublime invenção do dueto da Ajuda para o São Carlos e para a CNB), antes de começar o circuito infernal da temporada, dessem pública notícia das contas. Das que encontraram e das que vão gerir. É que o contribuinte é sempre o mesmo independentemente do nome da coisa, dos gestores e dos directore artísticos.
LER OS OUTROS
Sobre a megalomania cultural doméstica - apesar de se referir às artes pictóricas, pode perfeitamente aplicar-se a outras, todas permanentemente entregues aos mesmos mandarins de opereta -, este post do Eduardo Pitta. Na ópera, por exemplo, era bom que os "senhores OPART" (essa sublime invenção do dueto da Ajuda para o São Carlos e para a CNB), antes de começar o circuito infernal da temporada, dessem pública notícia das contas. Das que encontraram e das que vão gerir. É que o contribuinte é sempre o mesmo independentemente do nome da coisa, dos gestores e dos directore artísticos.
28.10.07
DERROCADA*
*Por Joaquim Manuel Magalhães, publicado no suplemento Actual do Expresso de 27.10.07, e aqui editado graças à amizade vária que é recíproca em relação a quem sabe, depois deste post
O mundo das obras de arte (e aqui falo principalmente das obras literárias), só o sinto verdadeiramente próximo de mim quando se abre ou predispõe à expressão tensa da realidade. Não como simples espelhamento (técnica típica do que usa o subterfúgio para entrar na contabilidade das grandes vendas apesar, ou por causa, da habitualidade da escrita que utiliza) mas como comunicação organizada e estilisticamente nova do que explode dentro e fora de quem escreve, de quem se esmaga nas palavras que tenta usar. Quando procura ser um alicerce, ainda que não reconhecido por quase ninguém, de um sentido que combate, testemunha o combate, faz do quase impossível a procura do seu breve bem. Não sou dos que acreditam que se deva gritar Revolução quando se diz Sofrimento Social. O século XX mostrou-nos como, em crescendo desde os finais do século XVIII, a palavra «revolução» sempre trouxe com ela associada a palavra «terror». O Sofrimento Social precisa de ser enfrentado de outro modo, e creio que só as democracias o podem tentar resolver. Se uma democracia falha a resolução do Sofrimento Social, então ela falha a sua própria razão de ser. E os «monstros» começam a cercá-la, prontos a desfazerem-na, numa intervenção sumária que nos trará a bem conhecida experiência de outro tipo de extermínios. Creio que em Portugal, se não fosse a União Europeia, haveriam de ter acontecido desses abalos tremendos que transformam milhares em enxurradas. Pois que tudo está descontente, como em 1910, em 1926, em 1974... A arte não pode ser um movimento social meramente vulgar. Dentro dela, a literatura não pode contentar-se com o ponto de vista da ideologia. Tem de se tornar prova do real. De confronto com o desvirtuamento da humanidade do seu tempo. Para isso, não precisa de tornar-se política (partidária), bem pelo contrário, mas necessita de combater o que o político aniquila no quotidiano, e cada um só tem uma vida para viver. Acredito que todos os políticos actualmente em exercício em Portugal não queiram provocar, por vontade deliberada, o desabamento na aceitação da democracia. Mas penso muitas vezes, contra a minha própria razão, que se tornam cúmplices de um desastre assim. O que está a trazer a democracia aos portugueses? Fome, agravo, muito pouca capacidade de sobreviver, uma saúde desastrosa, um peso fiscal aterrador que atinge os que precisam desse dinheiro levado para poderem atravessar o fim do mês. 20% dos portugueses concentra 80% da riqueza. Cada ano consegue enriquecer ainda mais. Nada tenho contra a existência de ricos produtivos numa sociedade, penso é que a riqueza não lhes deveria ir sempre parar às mãos e que teria de haver uma classe média muito forte que permitisse inúmeros focos de riqueza distribuída por todos (mas o nosso pequeno neocapitalismo não parece gostar de coisas assim). Como eles fazem, não sei; mas não acredito que o façam criminosamente; sabem apenas aproveitar o que a organização social deste tipo de governações lhes permite conseguir. Os restantes 80% ou lutam para poder equilibrar as suas finanças (e tanto faz que tenham filhos como não tenham, embora os primeiros sofram sem dúvida bem pior situação, se se preocuparem com os seus filhos, o que nem sempre acontece com todos) ou tombam no dia-a-dia vivido como uma migalha de nada caída em sítio nenhum. Mas há ainda um maior horror: que fará alguém com 360 euros mensais nos dias portugueses de hoje? Assiste, por certo, a cada um dos seus dias como a um lento suicídio. As políticas de sacrifício (pedidas já por dois governos sucessivos - houve um interregno que não conta - sem que se lhes perceba as diferenças práticas) estão a servir realmente para quê? Atrás dos computadores tudo se desumaniza e transforma em números e nos é dito em estatísticas. Mas as pessoas? O que são e o que sentem as pessoas? Pouco percebo destes assuntos, mas começo a acreditar que não está nestas políticas solução alguma, o caminho terá de ser outro; a estratégia dos impostos, por exemplo, percebe-se que não é a saída. Há muitos economistas que dizem que sim. Mas não só a economia não é uma ciência (quando muito é uma prática calculante, nem sequer adivinhatória) como é sempre possível, por isso mesmo, encontrar um segundo grupo de economistas que defenda exactamente o contrário e um terceiro grupo ainda que divirja do que os outros grupos proclamam. Não haverá demasiada tacanhez de economistas neste nosso processo e uma total falta de visão voluntariamente política e sem o suporte de actividades deletérias como todos os partidos até agora existentes praticaram, uma vez que todos eles já estiveram no poder? A maioria dos meus amigos (quem não terá amigos assim ou não estará a falar de si próprio quando dos seus amigos fala?) está entre os 80% atrás referidos. Se uns vão conseguindo sobreviver gerindo com extrema severidade o seu orçamento, outros há muito que se têm servido de créditos bancários para conseguir «esticar» o ordenado. Vivem no limite do zero. Só podem, além de trabalhar - os mais afortunados -, pensar em como hão-de prover à educação dos filhos, aos seguros que têm de providenciar para protecção dos filhos em empregos arriscados, pagar os juros bancários e deixar para o fim a qualidade dos alimentos com que têm de manter a saúde, que, provavelmente, mais depressa se deteriorará, remédios que já se tem de pensar duas vezes antes de comprar, uma vez que o próprio vestuário teve de deixar de existir como necessidade de primeira. Vejo nas suas caras o mesmo abandono, a mesma apatia, o total desencanto que já reconheço naqueles com quem ando nos autocarros e que não sei quem são. Os meus amigos: professores, enfermeiros, mesmo médicos, bem como rapazes e raparigas e homens e mulheres de meia-idade que vivem a recibos verdes, em que se incluem artistas ou escritores que não conseguiram ou não quiseram transformar-se em mercado de boa publicidade. Todos estão unidos pela mesma frustração. Vejo o desânimo invadir-lhes a vida que já foi feliz. Ao referir-me a estes exemplos, estou a pensar insistentemente em palavras de uma mulher que admiro, Isabel Jonet, da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome. E é tanto mais de confiar na minha admiração quanto eu não sou crente de nenhuma religião e ela é profundamente católica (religião que exclui o modo da minha própria vida). Os que tiverem computador podem encontrar um exemplo do seu pensamento escrevendo o seu nome no Google (por exemplo) e abrindo a primeira entrada que surge aí neste momento, «Solidariedade»: uma entrevista extraordinária. Foi ela quem alertou para o alastramento da pobreza e do sofrimento social daí decorrente ao referir, numa entrevista à TSF amplamente divulgada na Web, «uma nova classe de novos pobres em Portugal, pessoas que, embora auferindo de um salário, não têm no final do mês todos os rendimentos de que necessitam para fazer face às necessidades do seu agregado familiar». Eu acrescentaria, a agregado familiar, pessoas sozinhas a quem o mesmo acontece. Ou pessoas a viverem conjuntamente sem que as deixem constituir-se como agregado familiar. Fala ainda desse outro pesadelo que parece nada estar a resolver, a não ser consentir que o Estado e os enriquecidos possam lavar as mãos das consequências que tudo isso trará, mais do que no presente, no futuro dessas pessoas: «Jovens a trabalharem a recibos verdes, sem possibilidades de pagar a Segurança Social, que se vêem a braços com situações dramáticas e que muitas vezes têm de pedir apoio a estruturas sociais para poderem sobreviver.» (Peço desculpa a Isabel Jonet pela extensão das citações, mas foi a principal instigadora do meu artigo de hoje.) Precariedade em quase tudo, vidas alarmadas, o desemprego, pobreza, recursos aflitivos a bancos (que podem nem ser conseguidos), vidas amodorradas à dificuldade de só passarem amargamente de um dia para outro dia, mesmo trabalhando até aos limites das suas possibilidades. Para já não falar dos que nem sequer nada disto têm. Destroem a classe média, precisamente aquela de onde, quando não sujeita às extremas pressões da insuficiência, quase sempre vi irromper as aberturas civilizacionais mais consistentes. Esta, não tendo para onde se voltar (já experimentou todos os partidos desta democracia), aceitará um dia politicamente o quê? Se é o espaço fundamental das conquistas democráticas, rapidamente também se torna o espaço da derrocada das próprias democracias. O nosso sistema político não estará já perigosamente em causa? Segundo dados da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal (Setembro de 2007), surgimos em último ou em penúltimo lugar em: taxa de risco de pobreza, situação de desemprego, risco de pobreza de pessoas empregadas, abandono escolar, desigualdade na distribuição do rendimento. Entre nós, onde a taxa de pobreza objectiva é de 20% (uma imensa fatia populacional que já é pobre por completo), 47% consideram-se pobres e 39% afirmam ter dificuldades financeiras. Segundo o Senhor Presidente da República, em 18/10/2007, «sozinho, o Estado não consegue melhorar a situação». Conseguirá melhorá-la mesmo com ajudas? Porque o Senhor Presidente da República confessou: «Envergonho-me um pouco desta posição.» Fica-lhe muito bem essa vergonha. Mas é estranho o facto de só se envergonhar «um pouco». A vergonha total, quem terá de a sofrer?
DERROCADA*
*Por Joaquim Manuel Magalhães, publicado no suplemento Actual do Expresso de 27.10.07, e aqui editado graças à amizade vária que é recíproca em relação a quem sabe, depois deste post
O mundo das obras de arte (e aqui falo principalmente das obras literárias), só o sinto verdadeiramente próximo de mim quando se abre ou predispõe à expressão tensa da realidade. Não como simples espelhamento (técnica típica do que usa o subterfúgio para entrar na contabilidade das grandes vendas apesar, ou por causa, da habitualidade da escrita que utiliza) mas como comunicação organizada e estilisticamente nova do que explode dentro e fora de quem escreve, de quem se esmaga nas palavras que tenta usar. Quando procura ser um alicerce, ainda que não reconhecido por quase ninguém, de um sentido que combate, testemunha o combate, faz do quase impossível a procura do seu breve bem. Não sou dos que acreditam que se deva gritar Revolução quando se diz Sofrimento Social. O século XX mostrou-nos como, em crescendo desde os finais do século XVIII, a palavra «revolução» sempre trouxe com ela associada a palavra «terror». O Sofrimento Social precisa de ser enfrentado de outro modo, e creio que só as democracias o podem tentar resolver. Se uma democracia falha a resolução do Sofrimento Social, então ela falha a sua própria razão de ser. E os «monstros» começam a cercá-la, prontos a desfazerem-na, numa intervenção sumária que nos trará a bem conhecida experiência de outro tipo de extermínios. Creio que em Portugal, se não fosse a União Europeia, haveriam de ter acontecido desses abalos tremendos que transformam milhares em enxurradas. Pois que tudo está descontente, como em 1910, em 1926, em 1974... A arte não pode ser um movimento social meramente vulgar. Dentro dela, a literatura não pode contentar-se com o ponto de vista da ideologia. Tem de se tornar prova do real. De confronto com o desvirtuamento da humanidade do seu tempo. Para isso, não precisa de tornar-se política (partidária), bem pelo contrário, mas necessita de combater o que o político aniquila no quotidiano, e cada um só tem uma vida para viver. Acredito que todos os políticos actualmente em exercício em Portugal não queiram provocar, por vontade deliberada, o desabamento na aceitação da democracia. Mas penso muitas vezes, contra a minha própria razão, que se tornam cúmplices de um desastre assim. O que está a trazer a democracia aos portugueses? Fome, agravo, muito pouca capacidade de sobreviver, uma saúde desastrosa, um peso fiscal aterrador que atinge os que precisam desse dinheiro levado para poderem atravessar o fim do mês. 20% dos portugueses concentra 80% da riqueza. Cada ano consegue enriquecer ainda mais. Nada tenho contra a existência de ricos produtivos numa sociedade, penso é que a riqueza não lhes deveria ir sempre parar às mãos e que teria de haver uma classe média muito forte que permitisse inúmeros focos de riqueza distribuída por todos (mas o nosso pequeno neocapitalismo não parece gostar de coisas assim). Como eles fazem, não sei; mas não acredito que o façam criminosamente; sabem apenas aproveitar o que a organização social deste tipo de governações lhes permite conseguir. Os restantes 80% ou lutam para poder equilibrar as suas finanças (e tanto faz que tenham filhos como não tenham, embora os primeiros sofram sem dúvida bem pior situação, se se preocuparem com os seus filhos, o que nem sempre acontece com todos) ou tombam no dia-a-dia vivido como uma migalha de nada caída em sítio nenhum. Mas há ainda um maior horror: que fará alguém com 360 euros mensais nos dias portugueses de hoje? Assiste, por certo, a cada um dos seus dias como a um lento suicídio. As políticas de sacrifício (pedidas já por dois governos sucessivos - houve um interregno que não conta - sem que se lhes perceba as diferenças práticas) estão a servir realmente para quê? Atrás dos computadores tudo se desumaniza e transforma em números e nos é dito em estatísticas. Mas as pessoas? O que são e o que sentem as pessoas? Pouco percebo destes assuntos, mas começo a acreditar que não está nestas políticas solução alguma, o caminho terá de ser outro; a estratégia dos impostos, por exemplo, percebe-se que não é a saída. Há muitos economistas que dizem que sim. Mas não só a economia não é uma ciência (quando muito é uma prática calculante, nem sequer adivinhatória) como é sempre possível, por isso mesmo, encontrar um segundo grupo de economistas que defenda exactamente o contrário e um terceiro grupo ainda que divirja do que os outros grupos proclamam. Não haverá demasiada tacanhez de economistas neste nosso processo e uma total falta de visão voluntariamente política e sem o suporte de actividades deletérias como todos os partidos até agora existentes praticaram, uma vez que todos eles já estiveram no poder? A maioria dos meus amigos (quem não terá amigos assim ou não estará a falar de si próprio quando dos seus amigos fala?) está entre os 80% atrás referidos. Se uns vão conseguindo sobreviver gerindo com extrema severidade o seu orçamento, outros há muito que se têm servido de créditos bancários para conseguir «esticar» o ordenado. Vivem no limite do zero. Só podem, além de trabalhar - os mais afortunados -, pensar em como hão-de prover à educação dos filhos, aos seguros que têm de providenciar para protecção dos filhos em empregos arriscados, pagar os juros bancários e deixar para o fim a qualidade dos alimentos com que têm de manter a saúde, que, provavelmente, mais depressa se deteriorará, remédios que já se tem de pensar duas vezes antes de comprar, uma vez que o próprio vestuário teve de deixar de existir como necessidade de primeira. Vejo nas suas caras o mesmo abandono, a mesma apatia, o total desencanto que já reconheço naqueles com quem ando nos autocarros e que não sei quem são. Os meus amigos: professores, enfermeiros, mesmo médicos, bem como rapazes e raparigas e homens e mulheres de meia-idade que vivem a recibos verdes, em que se incluem artistas ou escritores que não conseguiram ou não quiseram transformar-se em mercado de boa publicidade. Todos estão unidos pela mesma frustração. Vejo o desânimo invadir-lhes a vida que já foi feliz. Ao referir-me a estes exemplos, estou a pensar insistentemente em palavras de uma mulher que admiro, Isabel Jonet, da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome. E é tanto mais de confiar na minha admiração quanto eu não sou crente de nenhuma religião e ela é profundamente católica (religião que exclui o modo da minha própria vida). Os que tiverem computador podem encontrar um exemplo do seu pensamento escrevendo o seu nome no Google (por exemplo) e abrindo a primeira entrada que surge aí neste momento, «Solidariedade»: uma entrevista extraordinária. Foi ela quem alertou para o alastramento da pobreza e do sofrimento social daí decorrente ao referir, numa entrevista à TSF amplamente divulgada na Web, «uma nova classe de novos pobres em Portugal, pessoas que, embora auferindo de um salário, não têm no final do mês todos os rendimentos de que necessitam para fazer face às necessidades do seu agregado familiar». Eu acrescentaria, a agregado familiar, pessoas sozinhas a quem o mesmo acontece. Ou pessoas a viverem conjuntamente sem que as deixem constituir-se como agregado familiar. Fala ainda desse outro pesadelo que parece nada estar a resolver, a não ser consentir que o Estado e os enriquecidos possam lavar as mãos das consequências que tudo isso trará, mais do que no presente, no futuro dessas pessoas: «Jovens a trabalharem a recibos verdes, sem possibilidades de pagar a Segurança Social, que se vêem a braços com situações dramáticas e que muitas vezes têm de pedir apoio a estruturas sociais para poderem sobreviver.» (Peço desculpa a Isabel Jonet pela extensão das citações, mas foi a principal instigadora do meu artigo de hoje.) Precariedade em quase tudo, vidas alarmadas, o desemprego, pobreza, recursos aflitivos a bancos (que podem nem ser conseguidos), vidas amodorradas à dificuldade de só passarem amargamente de um dia para outro dia, mesmo trabalhando até aos limites das suas possibilidades. Para já não falar dos que nem sequer nada disto têm. Destroem a classe média, precisamente aquela de onde, quando não sujeita às extremas pressões da insuficiência, quase sempre vi irromper as aberturas civilizacionais mais consistentes. Esta, não tendo para onde se voltar (já experimentou todos os partidos desta democracia), aceitará um dia politicamente o quê? Se é o espaço fundamental das conquistas democráticas, rapidamente também se torna o espaço da derrocada das próprias democracias. O nosso sistema político não estará já perigosamente em causa? Segundo dados da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal (Setembro de 2007), surgimos em último ou em penúltimo lugar em: taxa de risco de pobreza, situação de desemprego, risco de pobreza de pessoas empregadas, abandono escolar, desigualdade na distribuição do rendimento. Entre nós, onde a taxa de pobreza objectiva é de 20% (uma imensa fatia populacional que já é pobre por completo), 47% consideram-se pobres e 39% afirmam ter dificuldades financeiras. Segundo o Senhor Presidente da República, em 18/10/2007, «sozinho, o Estado não consegue melhorar a situação». Conseguirá melhorá-la mesmo com ajudas? Porque o Senhor Presidente da República confessou: «Envergonho-me um pouco desta posição.» Fica-lhe muito bem essa vergonha. Mas é estranho o facto de só se envergonhar «um pouco». A vergonha total, quem terá de a sofrer?
O EDUQUÊS ENVERGONHADO*
*Por Nuno Crato, publicado no suplemento Actual do Expresso de 27.10.07, e aqui editado graças à amizade vária que é recíproca em relação a quem sabe, depois deste post
Pouca gente o sabe, mas a Matemática do Ensino Básico rege-se actualmente por dois documentos discrepantes. A correcção está prevista, mas prepare-se o país para o pior: a ser aprovado um documento de reajustamento agora em discussão, a Matemática da escolaridade obrigatória passará a reger-se por três documentos desconexos. Sim, três. O primeiro é o «Programa», completado em 1991 e que, com Roberto Carneiro, introduziu oficiosamente a pedagogia construtivista no ensino, com as consequências que se conhecem. O segundo é o chamado «Currículo Nacional do Ensino Básico - Competências Essenciais», construído ao longo de vários anos, nos tempos de Ana Benavente, e aprovado em 2001, estando previsto ser concretizado num programa que substituiria o de 1991 e que nunca foi acabado. O terceiro será um documento de reajustamento, colocado fugazmente à discussão este Verão e agora em análise na 5 de Outubro. Pretendeu o ministério evitar as descontinuidades e as grandes reformas pedagógicas; em vez de estabelecer um novo programa, fez um reajustamento que permitisse clarificar o que se ensina na Matemática do Básico. É natural que as intenções tivessem sido de tornar claro o que se ensina e não se ensina e de esclarecer o que se pretende que os jovens aprendam e consolidem ao longo dos nove anos do ensino obrigatório. Esperariam pais e professores que o novo documento resolvesse as incoerências entre o «Programa» de 1991 e o «Currículo» de 2001 e que traçasse objectivos claros, ano a ano, com rigor, objectividade e alguma exigência. Engano. O nosso Ministério da Educação tem dito que quer cortar com o passado. Transmite uma imagem de rigor e até de intransigência. Seria bom que cortasse também com o passado nas orientações pedagógicas que a experiência mostrou serem erróneas. A reformulação do programa é pouco clara nos objectivos e conteúdos, mas insiste na má orientação pedagógica da Matemática e em muitos dos erros das últimas décadas. Quer isto dizer que as vozes críticas que se têm levantado na educação continuam a não ter qualquer sucesso? O reconhecimento público quase generalizado de que as coisas não vão bem no ensino, em particular no da Matemática, não tem abrandado o dogmatismo daqueles teóricos da pedagogia que de há anos a esta parte negam a evidência dos resultados e se esforçam por propagar a «escola inclusiva», as «competências gerais», a «pedagogia não directiva» e o «ensino centrado no aluno». Mas tem obrigado a um maior comedimento nas palavras. Os dislates discursivos que ficaram conhecidos como «eduquês» abrandaram. O sestro não. Um exemplo elucidativo é fornecido precisamente pelo actual documento de reajustamento do programa. Os seus responsáveis defenderam durante anos uma teoria pedagógica perniciosa que opõe conteúdos a competências. Defenderam que os conteúdos não fazem sentido se não estiverem englobados em «competências», conceito que corresponderia a atitudes, conhecimento em acção ou capacidades gerais. Se esta teoria pretendesse apenas contrariar o ensino excessivamente livresco e sublinhar a importância de aplicar os conhecimentos, nada haveria a opor. Contudo, como é habitual entre ideólogos dogmáticos, o prélio foi levado ao limite, rejeitando a importância do conhecimento e acentuando competências vagas e palavrosas. A moda alastrou ao Ensino Superior. Aos professores começou a pedir-se que preenchessem formulários longos em que fossem destacadas as «competências comunicacionais» da Álgebra ou as «competências multiculturais» da Electrónica. No Ensino Básico, as «competências» foram de tal forma glorificadas que os documentos oficiais desprezam o valor do conhecimento em si. Como resultado, as exigências claras e precisas respeitantes aos conteúdos começaram a ser substituídas por referências palavrosas e vagas às competências genéricas. Começou a falar-se do «conhecimento contextualizado» como receita geral, esquecendo a necessidade da abstracção. A verdade, contrariamente ao documento de 2001, é que o conhecimento não pode nem deve ser totalmente organizado em competências e deve ser especificado em conteúdos disciplinares precisos e testáveis. Como os críticos dessa orientação focaram, dever-se-ia utilizar «conhecimentos e capacidades» ou outra expressão que explicitamente incluísse os conteúdos. Mais importante do que o invólucro são as recomendações práticas. Começando pelas omissões. Como o afirmou a Sociedade Portuguesa de Matemática num parecer sobre este mesmo documento, ele «não constitui um apoio claro e preciso, de consulta simples e directa, para o professor. Constitui apenas um amontoado de recomendações, algumas ambíguas, outras de hierarquia confusa, muitas redundantes, algumas repetitivamente apresentadas». Ao contrário do que seria de esperar, o documento não apresenta metas claras e verificáveis para as diversas etapas. Diz que o «professor decide o nível de profundidade a tratar cada tópico» (pág. 11) e rejeita a apresentação de «um roteiro possível de temas e tópicos a trabalhar por se considerar que tal deve ser definido a nível de escola ou de agrupamento escolar» (pág. 2). O estado actual do ensino e das escolas, no entanto, necessita de recomendações objectivas e precisas, onde possível especificadas ano a ano. É absolutamente indispensável que os professores e as escolas trabalhem com metas claras. Os vícios da linguagem «não directiva» continuam. Fala-se em «discutir com os alunos» (pág. 62) e nunca em «transmitir conhecimentos». Fala-se em «tarefas que o professor decide propor» (pág. 12) ou «pedir» (pág. 35) e não se diz que as deve «indicar» ou «mostrar». Para se perceber a profundidade do descaminho linguístico, basta dizer que nem uma única vez se usa a palavra «ensinar». O mais gravoso é a persistente desvalorização da memorização, dos automatismos e da mecanização dos algoritmos. Desiludem-se os professores e pais que esperavam encontrar recomendações claras sobre a necessidade de domínio da tabuada, de prática de algoritmos das operações elementares e de domínio de conhecimentos. Não se clarifica, por exemplo, em cada etapa de estudo, a destreza na multiplicação com papel e lápis que os estudantes devem ter. Insiste-se no uso da calculadora desde o Primeiro Ciclo. Aquilo que toda a gente sensata vê com facilidade, que é a necessidade de evitar a máquina enquanto se aprende a tabuada e as operações elementares, os ideólogos dogmáticos do «eduquês» não conseguem ver. As ferramentas modernas, como a calculadora e o computador, devem ser introduzidas no Ensino Básico. E mesmo no Primeiro Ciclo pode ser conveniente que os alunos comecem a familiarizar-se com estes instrumentos. Mas é absolutamente necessário que os jovens estudantes sejam impedidos de usar a calculadora no momento em que estão a memorizar a tabuada e a treinar as operações. Não se aprende a nadar passeando de barco. A calculadora pode e deve ter lugar na sala de aula, mas quando o professor disser, não quando os alunos quiserem. O programa de 1991 cometia o erro de dizer que o aluno tem o direito de usar a calculadora sempre que o entender. O novo documento deveria corrigir expressamente esse erro absurdo, ao invés de voltar a insistir no uso indiscriminado da máquina. Mas alguma vez a «nomenklatura» da Educação reconheceu algum erro?! O problema, infelizmente, não é apenas português. Se lermos o recém-publicado Eduquês: Um Flagelo sem Fronteiras, de Laurent Lafforgue e outros (Gradiva, 2007), vemos como a degradação dos conteúdos disciplinares e a sobrevalorização da calculadora têm ajudado a degradar as capacidades de cálculo e de raciocínio numérico dos jovens franceses e de outros países europeus. O documento de reajustamento do programa menospreza os algoritmos tradicionais e pretende que os professores treinem o cálculo por processos morosos, pouco eficientes e viciadores. Assim, por exemplo, defende-se que se aprenda a somar 3 com 4 fazendo «3+3+1=7» (pág. 17), a somar 543 com 267 por «somas parciais» (pág. 19) e a dividir 596 por 35 por «subtracções sucessivas» (pág. 19). Ou seja, em vez de exercitar a memória e treinar os processos mais eficientes, pretende-se prolongar no aluno o uso de métodos de recurso propensos ao erro. Ao mesmo tempo que se desprezam os objectivos modestos, mas atingíveis, destacam-se metas utópicas, como a de os alunos serem «capazes de fazer Matemática de modo autónomo», nomeadamente «formular e investigar conjecturas matemáticas» (pág. 6), recomenda-se que realizem «investigação matemática» (pág. 11) e diz-se que devem «descobrir os critérios de divisibilidade» (pág. 35). Poderá pensar-se que se trata apenas de exageros, mas uma das características mais marcantes do construtivismo educativo dogmático é falar da compreensão, da descoberta autónoma e do desenvolvimento do raciocínio - metas grandiosas! - e, ao mesmo tempo, repudiar o desenvolvimento das destrezas básicas que lhes são antecedentes. Para que os fracassos destes métodos de ensino não se revelem, o documento defende que a avaliação deve «centrar a sua ênfase no que os alunos sabem, o que são capazes de fazer, e como o fazem, em vez de focar-se no que não sabem» (pág. 13). Frase lapidar! A merecer moldura negra para relembrar às gerações futuras o que ideólogos dogmáticos dizem quando cegos pela sanha ideológica. Esta ideia, por si só, erradicaria por completo o insucesso escolar. Teste-se nos alunos o que eles sabem e não o que deveriam saber que o país progredirá sem o incómodo de conhecer as suas deficiências educativas. Por estranho que pareça, a ideia de rejeitar a avaliação como algo incómodo não é uma excentricidade do «eduquês», antes é parte integrante e basilar dos extremos da pedagogia romântica. Alguns, negando a possibilidade de objectividade absoluta, rejeitam a avaliação no seu todo como um resquício do positivismo (pobre positivismo!). Outros assumem alguns momentos de teste de conhecimentos, mas apenas como pró-forma prófuga. Apesar de largamente discutidos e anualmente polemizados, os exames rareiam em Portugal. Os estudantes passam os nove anos de escolaridade obrigatória sem nenhum exame nacional. Apenas no 9.º ano, depois de terem frequentado dezenas de disciplinas, são testados nacionalmente a duas. Apenas duas: Português e Matemática. Mesmo nestes exames, que só existem de há três anos a esta parte, a classificação obtida apenas conta para 30% da nota final. Os efeitos são reduzidíssimos, embora tenham tido uma acção moderadora. O país mudou desde que os exames nacionais do 12.º ano, com Marçal Grilo, e os exames nacionais do 9.º ano, com David Justino, foram instituídos. Imagina-se que mais poderia mudar se a avaliação externa nacional fosse mais frequente, se incidisse sobre mais disciplinas e se fosse mais rigorosa e fiável. As mudanças no sistema de avaliação são decisivas para a regulação de todo o sistema educativo. Mas, ao longo de anos de provas de aferição e de exames nacionais, o ministério não conseguiu (ou não quis) instituir testes fiáveis, isto é, comparáveis de ano a ano e, por isso, avaliadores da evolução global do ensino. A agravá-lo, fala-se em limitar o âmbito dos exames do 12.º ano às matérias desse ano lectivo e não às de todo o Ensino Secundário, como tem sido regra. Mantêm-se as oscilações. No fim do ano lectivo transacto, o exame de Matemática do 12.º ano teve mais meia hora de tempo de prova, mantendo um conteúdo comparável ao dos anos anteriores. A percentagem de aprovações subiu de 71% em 2006 para 82% em 2007. Na Matemática do 9.º ano, o único nível onde houve um plano de acção ministerial específico, a percentagem de aprovações desceu de 37% para 27%. No Português do mesmo nível escolar, a percentagem de aprovações subiu de 54% para 86%. São oscilações espantosas. Alguém acredita que correspondam a mudanças reais nos conhecimentos dos alunos? Uma das conclusões dos estudos internacionais é a da grande inércia dos sistemas de ensino. Os resultados reais mantêm-se semelhantes ao longo de anos e só lentamente mudam. Em Portugal, aquilo que os alunos sabem também tem mudado pouco. O que tem mudado são os exames. Querendo moralizar o sistema de ensino, é indispensável produzir exames fiáveis, comparáveis ano a ano. Estamos a começar um novo ano lectivo. Imagine-se um professor dedicado, tentando este ano dar mais atenção às deficiências básicas dos seus alunos e desdobrando-se para incentivar ainda mais os melhores. Imagine-se um casal que resolve investir mais no seu filho, acompanhando diariamente os seus estudos. Imagine-se um jovem aluno do 12.º ano, ambicionando notas elevadas para poder entrar no curso que escolheu. E pense-se agora que as notas finais vão depender em larguíssima medida não do trabalho do professor, não do esforço dos pais e não do trabalho do aluno, mas sim da maneira como este ano forem feitos os exames.É difícil trabalhar numa escola assim! Generalizar e reformular a avaliação é uma das tarefas mais urgentes do nosso sistema de ensino. Conte-se com os professores que gostariam de ver o resultado do seu trabalho honestamente medido. Conte-se com as famílias que começam a perceber o logro dos progressos fictícios. Não se conte com o «eduquês». Olhemos para a maneira como as «competências» são tratadas neste novo documento. Omitem-se e substituem-se por «conhecimentos e capacidades»... O facto seria de louvar, mas é tão surpreendente nas pessoas que mais defenderam a teoria das competências que é difícil de perceber. Os documentos estão na Internet e permitem uma busca por palavras. Procure-se «competência», ou «competências». Desapareceram! A tentativa de evitar a controversa palavra foi tal que, nas referências bibliográficas, o próprio título do documento de 2001 foi truncado. É espantoso. A surpresa é quase tão grande como a que teríamos se, subitamente, padres da Igreja Católica elidissem do seu vocabulário a palavra «Jesus».
O EDUQUÊS ENVERGONHADO*
*Por Nuno Crato, publicado no suplemento Actual do Expresso de 27.10.07, e aqui editado graças à amizade vária que é recíproca em relação a quem sabe, depois deste post
Pouca gente o sabe, mas a Matemática do Ensino Básico rege-se actualmente por dois documentos discrepantes. A correcção está prevista, mas prepare-se o país para o pior: a ser aprovado um documento de reajustamento agora em discussão, a Matemática da escolaridade obrigatória passará a reger-se por três documentos desconexos. Sim, três. O primeiro é o «Programa», completado em 1991 e que, com Roberto Carneiro, introduziu oficiosamente a pedagogia construtivista no ensino, com as consequências que se conhecem. O segundo é o chamado «Currículo Nacional do Ensino Básico - Competências Essenciais», construído ao longo de vários anos, nos tempos de Ana Benavente, e aprovado em 2001, estando previsto ser concretizado num programa que substituiria o de 1991 e que nunca foi acabado. O terceiro será um documento de reajustamento, colocado fugazmente à discussão este Verão e agora em análise na 5 de Outubro. Pretendeu o ministério evitar as descontinuidades e as grandes reformas pedagógicas; em vez de estabelecer um novo programa, fez um reajustamento que permitisse clarificar o que se ensina na Matemática do Básico. É natural que as intenções tivessem sido de tornar claro o que se ensina e não se ensina e de esclarecer o que se pretende que os jovens aprendam e consolidem ao longo dos nove anos do ensino obrigatório. Esperariam pais e professores que o novo documento resolvesse as incoerências entre o «Programa» de 1991 e o «Currículo» de 2001 e que traçasse objectivos claros, ano a ano, com rigor, objectividade e alguma exigência. Engano. O nosso Ministério da Educação tem dito que quer cortar com o passado. Transmite uma imagem de rigor e até de intransigência. Seria bom que cortasse também com o passado nas orientações pedagógicas que a experiência mostrou serem erróneas. A reformulação do programa é pouco clara nos objectivos e conteúdos, mas insiste na má orientação pedagógica da Matemática e em muitos dos erros das últimas décadas. Quer isto dizer que as vozes críticas que se têm levantado na educação continuam a não ter qualquer sucesso? O reconhecimento público quase generalizado de que as coisas não vão bem no ensino, em particular no da Matemática, não tem abrandado o dogmatismo daqueles teóricos da pedagogia que de há anos a esta parte negam a evidência dos resultados e se esforçam por propagar a «escola inclusiva», as «competências gerais», a «pedagogia não directiva» e o «ensino centrado no aluno». Mas tem obrigado a um maior comedimento nas palavras. Os dislates discursivos que ficaram conhecidos como «eduquês» abrandaram. O sestro não. Um exemplo elucidativo é fornecido precisamente pelo actual documento de reajustamento do programa. Os seus responsáveis defenderam durante anos uma teoria pedagógica perniciosa que opõe conteúdos a competências. Defenderam que os conteúdos não fazem sentido se não estiverem englobados em «competências», conceito que corresponderia a atitudes, conhecimento em acção ou capacidades gerais. Se esta teoria pretendesse apenas contrariar o ensino excessivamente livresco e sublinhar a importância de aplicar os conhecimentos, nada haveria a opor. Contudo, como é habitual entre ideólogos dogmáticos, o prélio foi levado ao limite, rejeitando a importância do conhecimento e acentuando competências vagas e palavrosas. A moda alastrou ao Ensino Superior. Aos professores começou a pedir-se que preenchessem formulários longos em que fossem destacadas as «competências comunicacionais» da Álgebra ou as «competências multiculturais» da Electrónica. No Ensino Básico, as «competências» foram de tal forma glorificadas que os documentos oficiais desprezam o valor do conhecimento em si. Como resultado, as exigências claras e precisas respeitantes aos conteúdos começaram a ser substituídas por referências palavrosas e vagas às competências genéricas. Começou a falar-se do «conhecimento contextualizado» como receita geral, esquecendo a necessidade da abstracção. A verdade, contrariamente ao documento de 2001, é que o conhecimento não pode nem deve ser totalmente organizado em competências e deve ser especificado em conteúdos disciplinares precisos e testáveis. Como os críticos dessa orientação focaram, dever-se-ia utilizar «conhecimentos e capacidades» ou outra expressão que explicitamente incluísse os conteúdos. Mais importante do que o invólucro são as recomendações práticas. Começando pelas omissões. Como o afirmou a Sociedade Portuguesa de Matemática num parecer sobre este mesmo documento, ele «não constitui um apoio claro e preciso, de consulta simples e directa, para o professor. Constitui apenas um amontoado de recomendações, algumas ambíguas, outras de hierarquia confusa, muitas redundantes, algumas repetitivamente apresentadas». Ao contrário do que seria de esperar, o documento não apresenta metas claras e verificáveis para as diversas etapas. Diz que o «professor decide o nível de profundidade a tratar cada tópico» (pág. 11) e rejeita a apresentação de «um roteiro possível de temas e tópicos a trabalhar por se considerar que tal deve ser definido a nível de escola ou de agrupamento escolar» (pág. 2). O estado actual do ensino e das escolas, no entanto, necessita de recomendações objectivas e precisas, onde possível especificadas ano a ano. É absolutamente indispensável que os professores e as escolas trabalhem com metas claras. Os vícios da linguagem «não directiva» continuam. Fala-se em «discutir com os alunos» (pág. 62) e nunca em «transmitir conhecimentos». Fala-se em «tarefas que o professor decide propor» (pág. 12) ou «pedir» (pág. 35) e não se diz que as deve «indicar» ou «mostrar». Para se perceber a profundidade do descaminho linguístico, basta dizer que nem uma única vez se usa a palavra «ensinar». O mais gravoso é a persistente desvalorização da memorização, dos automatismos e da mecanização dos algoritmos. Desiludem-se os professores e pais que esperavam encontrar recomendações claras sobre a necessidade de domínio da tabuada, de prática de algoritmos das operações elementares e de domínio de conhecimentos. Não se clarifica, por exemplo, em cada etapa de estudo, a destreza na multiplicação com papel e lápis que os estudantes devem ter. Insiste-se no uso da calculadora desde o Primeiro Ciclo. Aquilo que toda a gente sensata vê com facilidade, que é a necessidade de evitar a máquina enquanto se aprende a tabuada e as operações elementares, os ideólogos dogmáticos do «eduquês» não conseguem ver. As ferramentas modernas, como a calculadora e o computador, devem ser introduzidas no Ensino Básico. E mesmo no Primeiro Ciclo pode ser conveniente que os alunos comecem a familiarizar-se com estes instrumentos. Mas é absolutamente necessário que os jovens estudantes sejam impedidos de usar a calculadora no momento em que estão a memorizar a tabuada e a treinar as operações. Não se aprende a nadar passeando de barco. A calculadora pode e deve ter lugar na sala de aula, mas quando o professor disser, não quando os alunos quiserem. O programa de 1991 cometia o erro de dizer que o aluno tem o direito de usar a calculadora sempre que o entender. O novo documento deveria corrigir expressamente esse erro absurdo, ao invés de voltar a insistir no uso indiscriminado da máquina. Mas alguma vez a «nomenklatura» da Educação reconheceu algum erro?! O problema, infelizmente, não é apenas português. Se lermos o recém-publicado Eduquês: Um Flagelo sem Fronteiras, de Laurent Lafforgue e outros (Gradiva, 2007), vemos como a degradação dos conteúdos disciplinares e a sobrevalorização da calculadora têm ajudado a degradar as capacidades de cálculo e de raciocínio numérico dos jovens franceses e de outros países europeus. O documento de reajustamento do programa menospreza os algoritmos tradicionais e pretende que os professores treinem o cálculo por processos morosos, pouco eficientes e viciadores. Assim, por exemplo, defende-se que se aprenda a somar 3 com 4 fazendo «3+3+1=7» (pág. 17), a somar 543 com 267 por «somas parciais» (pág. 19) e a dividir 596 por 35 por «subtracções sucessivas» (pág. 19). Ou seja, em vez de exercitar a memória e treinar os processos mais eficientes, pretende-se prolongar no aluno o uso de métodos de recurso propensos ao erro. Ao mesmo tempo que se desprezam os objectivos modestos, mas atingíveis, destacam-se metas utópicas, como a de os alunos serem «capazes de fazer Matemática de modo autónomo», nomeadamente «formular e investigar conjecturas matemáticas» (pág. 6), recomenda-se que realizem «investigação matemática» (pág. 11) e diz-se que devem «descobrir os critérios de divisibilidade» (pág. 35). Poderá pensar-se que se trata apenas de exageros, mas uma das características mais marcantes do construtivismo educativo dogmático é falar da compreensão, da descoberta autónoma e do desenvolvimento do raciocínio - metas grandiosas! - e, ao mesmo tempo, repudiar o desenvolvimento das destrezas básicas que lhes são antecedentes. Para que os fracassos destes métodos de ensino não se revelem, o documento defende que a avaliação deve «centrar a sua ênfase no que os alunos sabem, o que são capazes de fazer, e como o fazem, em vez de focar-se no que não sabem» (pág. 13). Frase lapidar! A merecer moldura negra para relembrar às gerações futuras o que ideólogos dogmáticos dizem quando cegos pela sanha ideológica. Esta ideia, por si só, erradicaria por completo o insucesso escolar. Teste-se nos alunos o que eles sabem e não o que deveriam saber que o país progredirá sem o incómodo de conhecer as suas deficiências educativas. Por estranho que pareça, a ideia de rejeitar a avaliação como algo incómodo não é uma excentricidade do «eduquês», antes é parte integrante e basilar dos extremos da pedagogia romântica. Alguns, negando a possibilidade de objectividade absoluta, rejeitam a avaliação no seu todo como um resquício do positivismo (pobre positivismo!). Outros assumem alguns momentos de teste de conhecimentos, mas apenas como pró-forma prófuga. Apesar de largamente discutidos e anualmente polemizados, os exames rareiam em Portugal. Os estudantes passam os nove anos de escolaridade obrigatória sem nenhum exame nacional. Apenas no 9.º ano, depois de terem frequentado dezenas de disciplinas, são testados nacionalmente a duas. Apenas duas: Português e Matemática. Mesmo nestes exames, que só existem de há três anos a esta parte, a classificação obtida apenas conta para 30% da nota final. Os efeitos são reduzidíssimos, embora tenham tido uma acção moderadora. O país mudou desde que os exames nacionais do 12.º ano, com Marçal Grilo, e os exames nacionais do 9.º ano, com David Justino, foram instituídos. Imagina-se que mais poderia mudar se a avaliação externa nacional fosse mais frequente, se incidisse sobre mais disciplinas e se fosse mais rigorosa e fiável. As mudanças no sistema de avaliação são decisivas para a regulação de todo o sistema educativo. Mas, ao longo de anos de provas de aferição e de exames nacionais, o ministério não conseguiu (ou não quis) instituir testes fiáveis, isto é, comparáveis de ano a ano e, por isso, avaliadores da evolução global do ensino. A agravá-lo, fala-se em limitar o âmbito dos exames do 12.º ano às matérias desse ano lectivo e não às de todo o Ensino Secundário, como tem sido regra. Mantêm-se as oscilações. No fim do ano lectivo transacto, o exame de Matemática do 12.º ano teve mais meia hora de tempo de prova, mantendo um conteúdo comparável ao dos anos anteriores. A percentagem de aprovações subiu de 71% em 2006 para 82% em 2007. Na Matemática do 9.º ano, o único nível onde houve um plano de acção ministerial específico, a percentagem de aprovações desceu de 37% para 27%. No Português do mesmo nível escolar, a percentagem de aprovações subiu de 54% para 86%. São oscilações espantosas. Alguém acredita que correspondam a mudanças reais nos conhecimentos dos alunos? Uma das conclusões dos estudos internacionais é a da grande inércia dos sistemas de ensino. Os resultados reais mantêm-se semelhantes ao longo de anos e só lentamente mudam. Em Portugal, aquilo que os alunos sabem também tem mudado pouco. O que tem mudado são os exames. Querendo moralizar o sistema de ensino, é indispensável produzir exames fiáveis, comparáveis ano a ano. Estamos a começar um novo ano lectivo. Imagine-se um professor dedicado, tentando este ano dar mais atenção às deficiências básicas dos seus alunos e desdobrando-se para incentivar ainda mais os melhores. Imagine-se um casal que resolve investir mais no seu filho, acompanhando diariamente os seus estudos. Imagine-se um jovem aluno do 12.º ano, ambicionando notas elevadas para poder entrar no curso que escolheu. E pense-se agora que as notas finais vão depender em larguíssima medida não do trabalho do professor, não do esforço dos pais e não do trabalho do aluno, mas sim da maneira como este ano forem feitos os exames.É difícil trabalhar numa escola assim! Generalizar e reformular a avaliação é uma das tarefas mais urgentes do nosso sistema de ensino. Conte-se com os professores que gostariam de ver o resultado do seu trabalho honestamente medido. Conte-se com as famílias que começam a perceber o logro dos progressos fictícios. Não se conte com o «eduquês». Olhemos para a maneira como as «competências» são tratadas neste novo documento. Omitem-se e substituem-se por «conhecimentos e capacidades»... O facto seria de louvar, mas é tão surpreendente nas pessoas que mais defenderam a teoria das competências que é difícil de perceber. Os documentos estão na Internet e permitem uma busca por palavras. Procure-se «competência», ou «competências». Desapareceram! A tentativa de evitar a controversa palavra foi tal que, nas referências bibliográficas, o próprio título do documento de 2001 foi truncado. É espantoso. A surpresa é quase tão grande como a que teríamos se, subitamente, padres da Igreja Católica elidissem do seu vocabulário a palavra «Jesus».
O CEPO ESCREVENTE
José Saramago acha que "o senhor Cavaco Silva" nunca lhe pediu desculpa (de quê?) e que, agora, também já não quer que o faça. Não se enxerga. Saramago teve sorte. Internacionalizou a sua prosa e, como tantos outros obscuros escritores africanos, indianos e de outras paragens, ganhou o Nobel. Se o ego do senhor já era o que era, o Nobel, a D. Pilar e o regime fizeram o resto. Todos, menos Cavaco, rastejaram aos pés do ressequido comunista. Fique por Lanzarote, tão seca como ele, e deixe-nos finalmente em paz.
O CEPO ESCREVENTE
José Saramago acha que "o senhor Cavaco Silva" nunca lhe pediu desculpa (de quê?) e que, agora, também já não quer que o faça. Não se enxerga. Saramago teve sorte. Internacionalizou a sua prosa e, como tantos outros obscuros escritores africanos, indianos e de outras paragens, ganhou o Nobel. Se o ego do senhor já era o que era, o Nobel, a D. Pilar e o regime fizeram o resto. Todos, menos Cavaco, rastejaram aos pés do ressequido comunista. Fique por Lanzarote, tão seca como ele, e deixe-nos finalmente em paz.
DERROCADA
O suplemento "cultural" do Expresso, Actual, vale apenas porque intermitentemente insere bons artigos, coisas para pensar. O resto é sempre pequenas prosas por pequenos tartufos. Esta semana valem os textos de Nuno Crato sobre o ensino da matemática no "básico" (não adianta andar a distribuir computadores quando o sistema prepara mentecaptos através de facilitismos estéreis espelhados em regulamentos que querem dizer nada) e de Joaquim Manuel Magalhães sobre o regime, o "socratismo" da felicidade que espreita à esquina. Não possuo a versão online o que, infelizmente, me impede de colocar, como devia, ambos os artigos na íntegra aqui. Ficam "algumas palavras" do Joaquim, de uma crónica terrivelmente intitulada "Derrocada". «Precariedade em quase tudo, vidas alarmadas, o desemprego, pobreza, recursos aflitivos a bancos (que podem nem ser conseguidos), vidas amodorradas à dificuldade de só passarem amargamente de um dia para o outro dia, mesmo trabalhando até aos limites das suas possibilidades. Para já não falar dos que nem sequer nada disto têm. Destroem a classe média, precisamente aquela de onde, quando não sujeita às extremas pressões das insuficiências, quase sempre vi irromper as aberturas civilizacionais mais consistentes. Esta, não tendo para onde se voltar (já experimentou todos os partidos desta democracia), aceitará um dia politicamente o quê? Se é o espaço fundamental das conquistas democráticas, rapidamente também se torna o espaço da derrocada das próprias democracias. O nosso sistema político não estará já perigosamente em causa?»
DERROCADA
O suplemento "cultural" do Expresso, Actual, vale apenas porque intermitentemente insere bons artigos, coisas para pensar. O resto é sempre pequenas prosas por pequenos tartufos. Esta semana valem os textos de Nuno Crato sobre o ensino da matemática no "básico" (não adianta andar a distribuir computadores quando o sistema prepara mentecaptos através de facilitismos estéreis espelhados em regulamentos que querem dizer nada) e de Joaquim Manuel Magalhães sobre o regime, o "socratismo" da felicidade que espreita à esquina. Não possuo a versão online o que, infelizmente, me impede de colocar, como devia, ambos os artigos na íntegra aqui. Ficam "algumas palavras" do Joaquim, de uma crónica terrivelmente intitulada "Derrocada". «Precariedade em quase tudo, vidas alarmadas, o desemprego, pobreza, recursos aflitivos a bancos (que podem nem ser conseguidos), vidas amodorradas à dificuldade de só passarem amargamente de um dia para o outro dia, mesmo trabalhando até aos limites das suas possibilidades. Para já não falar dos que nem sequer nada disto têm. Destroem a classe média, precisamente aquela de onde, quando não sujeita às extremas pressões das insuficiências, quase sempre vi irromper as aberturas civilizacionais mais consistentes. Esta, não tendo para onde se voltar (já experimentou todos os partidos desta democracia), aceitará um dia politicamente o quê? Se é o espaço fundamental das conquistas democráticas, rapidamente também se torna o espaço da derrocada das próprias democracias. O nosso sistema político não estará já perigosamente em causa?»
27.10.07
UM ESCRITOR PORTUGUÊS CONFESSA-SE
«A casa sobre a Madragoa é um barco com dois tombadilhos, olhando colinas e o Tejo. Bom para inspirar quem gosta de escrever sobre gente de cá e gente de cá que gosta de partir.» De uma entrevista que começa assim, é de esperar o pior. E, de facto, há pior. «Esta semana apareceram alguns blogues femininos com a sua foto e, a pretexto do novo livro, lembrando que é bonito. Há mulheres que o lêem por isso? - Não faço ideia, nunca encontrei nenhuma que me tivesse dito isso. Mas também não me importo se for verdade. Porque tem tantas descrições de comida e de sexo? - As duas coisas que os homens mais gostam de comer.» Importa-se de repetir, Miguel, sem bater?
UM ESCRITOR PORTUGUÊS CONFESSA-SE
«A casa sobre a Madragoa é um barco com dois tombadilhos, olhando colinas e o Tejo. Bom para inspirar quem gosta de escrever sobre gente de cá e gente de cá que gosta de partir.» De uma entrevista que começa assim, é de esperar o pior. E, de facto, há pior. «Esta semana apareceram alguns blogues femininos com a sua foto e, a pretexto do novo livro, lembrando que é bonito. Há mulheres que o lêem por isso? - Não faço ideia, nunca encontrei nenhuma que me tivesse dito isso. Mas também não me importo se for verdade. Porque tem tantas descrições de comida e de sexo? - As duas coisas que os homens mais gostam de comer.» Importa-se de repetir, Miguel, sem bater?
A SUA VONTADE
«A ratificação pelo Parlamento é tão válida quanto a ratificação por referendo", afirmou José Sócrates aos jornalistas, no final do Fórum Novas Fronteiras, no Centro Cultural de Belém."Como não dissemos como vamos fazer, naturalmente as duas possibilidades estão em cima da mesa", disse também o primeiro-ministro, reiterando que, "depois de assinado o tratado, no dia 13 de Dezembro, o Governo tornará pública a sua opção, a sua vontade".» Lê-se no Público. Pensava que "a sua vontade", tal como expressa em campanha e depois dela, era o referendo. De facto, o que custa mesmo a apanhar é o coxo.
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A SUA VONTADE
«A ratificação pelo Parlamento é tão válida quanto a ratificação por referendo", afirmou José Sócrates aos jornalistas, no final do Fórum Novas Fronteiras, no Centro Cultural de Belém."Como não dissemos como vamos fazer, naturalmente as duas possibilidades estão em cima da mesa", disse também o primeiro-ministro, reiterando que, "depois de assinado o tratado, no dia 13 de Dezembro, o Governo tornará pública a sua opção, a sua vontade".» Lê-se no Público. Pensava que "a sua vontade", tal como expressa em campanha e depois dela, era o referendo. De facto, o que custa mesmo a apanhar é o coxo.
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SÓCRATES, MODO DE USAR
Tal como se previa - e as outras duas anteriores "presidências" confirmavam - a Europa não "vende" para efeitos domésticos. O cidadão médio, o que ignora olimpicamente o "tratado reformador" ou as visitas de grandes senhores a Portugal, preocupa-se em poder digitar quatro números numa caixa multibanco (que ainda não tenha sido levada para casa pela racaille) e em ver de lá sair umas notas. De seguida, e assustado pelo que assiste nos telejornais, espera ansiosamente, ou por uma "nova oportunidade", ou em manter o emprego que tem. De resto, o que lhe cai em cima, seja pela propaganda, seja pelos papagaios do regime, não lhe diz respeito. Tem filhos para manter na escola - que o sistema teima transformar em futuros homúnculos - e prestações da casa para pagar. A escapadela continua a ser a bola e um "jantar fora" uma vez na semana. Dois anos depois, começa-se a perceber (e ele também) que Sócrates e o seu autoritário mode d'emploi estão a falhar. O irrealismo da tribo mandante vai, uma vez mais, cair-nos em cima como um pesadelo ou um incêndio furioso. Sócrates não tem grande margem de manobra depois do circo europeu. 2008 não vai ser fácil e imediatamente a seguir é precioso dar corda ao ilusionismo por causa das eleições. É fundamental começar a explicar isso ao país no debate do orçamento para o ano que vem, todo ele um mau prenúncio como Bagão Félix, de um lado, ou Campos e Cunha, do outro, já esclareceram. Daqui para diante os trunfos de Sócrates são escassos, dadas as fanfarronices "internas" e as incertezas externas cada vez mais incontroláveis. Pode escolher entre começar a tomar uns "Lexotans" para se acalmar ou acentuar o ritmo das corridinhas. De qualquer forma não se safa.
SÓCRATES, MODO DE USAR
Tal como se previa - e as outras duas anteriores "presidências" confirmavam - a Europa não "vende" para efeitos domésticos. O cidadão médio, o que ignora olimpicamente o "tratado reformador" ou as visitas de grandes senhores a Portugal, preocupa-se em poder digitar quatro números numa caixa multibanco (que ainda não tenha sido levada para casa pela racaille) e em ver de lá sair umas notas. De seguida, e assustado pelo que assiste nos telejornais, espera ansiosamente, ou por uma "nova oportunidade", ou em manter o emprego que tem. De resto, o que lhe cai em cima, seja pela propaganda, seja pelos papagaios do regime, não lhe diz respeito. Tem filhos para manter na escola - que o sistema teima transformar em futuros homúnculos - e prestações da casa para pagar. A escapadela continua a ser a bola e um "jantar fora" uma vez na semana. Dois anos depois, começa-se a perceber (e ele também) que Sócrates e o seu autoritário mode d'emploi estão a falhar. O irrealismo da tribo mandante vai, uma vez mais, cair-nos em cima como um pesadelo ou um incêndio furioso. Sócrates não tem grande margem de manobra depois do circo europeu. 2008 não vai ser fácil e imediatamente a seguir é precioso dar corda ao ilusionismo por causa das eleições. É fundamental começar a explicar isso ao país no debate do orçamento para o ano que vem, todo ele um mau prenúncio como Bagão Félix, de um lado, ou Campos e Cunha, do outro, já esclareceram. Daqui para diante os trunfos de Sócrates são escassos, dadas as fanfarronices "internas" e as incertezas externas cada vez mais incontroláveis. Pode escolher entre começar a tomar uns "Lexotans" para se acalmar ou acentuar o ritmo das corridinhas. De qualquer forma não se safa.
26.10.07
OS DIREITOS E OS NEGÓCIOS
A propósito dos negócios com a Rússia e dos direitos humanos, o dr. Mário Soares achou por bem chamar à colação Bush por causa dos segundos para defender os primeiros. No fundo Soares quis dizer que, direitos humanos por direitos humanos, Bush não é melhor que Putin e, melhor que tudo isso, são os negócios como ele próprio já tinha exemplificado com a "ponte" energética que ajudou a construir com a Venezuela. O seu amigo Chávez, aliás, já tinha dado o mote ao afirmar que Bush estava à beira do manicómio. Dá-me ideia que Soares perdeu o seu "norte" democrático e baralha as coisas. Ou será que aos oitenta e tal anos deixou de perceber de que lado deve estar?
OS DIREITOS E OS NEGÓCIOS
A propósito dos negócios com a Rússia e dos direitos humanos, o dr. Mário Soares achou por bem chamar à colação Bush por causa dos segundos para defender os primeiros. No fundo Soares quis dizer que, direitos humanos por direitos humanos, Bush não é melhor que Putin e, melhor que tudo isso, são os negócios como ele próprio já tinha exemplificado com a "ponte" energética que ajudou a construir com a Venezuela. O seu amigo Chávez, aliás, já tinha dado o mote ao afirmar que Bush estava à beira do manicómio. Dá-me ideia que Soares perdeu o seu "norte" democrático e baralha as coisas. Ou será que aos oitenta e tal anos deixou de perceber de que lado deve estar?
DA ESQUERDA DEMOCRÁTICA
Tomás: a "esquerda democrática" ou qualquer outra é muito "fina" e amofina-se com pouco. Alguns dos meus amigos dessa "esquerda" são a prova viva disso pelos "incómodos" que sentem com o que aqui se escreve, sem nunca terem tido a coragem de, olhos nos olhos, explicarem comportamentos recentes perfeitamente idiotas e infantis. Se calhar nunca foram nem de "esquerda" e, muito menos, da "democrática". São apenas e egoisticamente deles mesmos.
DA ESQUERDA DEMOCRÁTICA
Tomás: a "esquerda democrática" ou qualquer outra é muito "fina" e amofina-se com pouco. Alguns dos meus amigos dessa "esquerda" são a prova viva disso pelos "incómodos" que sentem com o que aqui se escreve, sem nunca terem tido a coragem de, olhos nos olhos, explicarem comportamentos recentes perfeitamente idiotas e infantis. Se calhar nunca foram nem de "esquerda" e, muito menos, da "democrática". São apenas e egoisticamente deles mesmos.
25.10.07
DEBAIXO DO COLCHÃO
A telenovela bancária - já vai no terceiro episódio, contando com as facadas entre o ex-pródigo Teixeira Pinto e o seu pai espiritual - interessa apenas para se perceber uma coisa. Se, de repente, o sistema bancário nacional, cujo crescimento e engorda começaram no final dos anos oitenta, entrasse em colapso, o país das "novas oportunidades" do senhor engenheiro e o regime paravam. Daí os absurdos minutos com "directos" idiotas concedidos pelos telejornais ao tema "Millennium-BPI". Não tarda e os portugueses que ainda têm "algum" voltam ao depósito debaixo do colchão.
DEBAIXO DO COLCHÃO
A telenovela bancária - já vai no terceiro episódio, contando com as facadas entre o ex-pródigo Teixeira Pinto e o seu pai espiritual - interessa apenas para se perceber uma coisa. Se, de repente, o sistema bancário nacional, cujo crescimento e engorda começaram no final dos anos oitenta, entrasse em colapso, o país das "novas oportunidades" do senhor engenheiro e o regime paravam. Daí os absurdos minutos com "directos" idiotas concedidos pelos telejornais ao tema "Millennium-BPI". Não tarda e os portugueses que ainda têm "algum" voltam ao depósito debaixo do colchão.
O TALENTOSO SR. PUTIN
Vladimir Putin, que daqui a umas horas aterra em Lisboa, é um caso político do maior interesse. Sócrates certamente que não deve deixar de sentir algum fascínio pelo sucesso deste antigo agente secreto que governa a Rússia no limiar da não democracia. Acontece que entre o cochicho português e a vasta pátria de Catarina não há praticamente nada em comum. A Rússia mantém e desenvolve uma ambição "reconstitutiva" autorizada pela história recente e pela grandeza remota que nos escapa inteiramente. Putin não faz a mínima intenção de largar tão cedo o poder. Percebeu - como me dizia um amigo outro dia - que a "referência" policial substitui com eficácia o partido, na presidência ou no governo. E que não perde nada em maçar os seus homólogos ocidentais, em especial Bush, com os seus "jogos de guerra", independentemente da segunda ou terceira "dimensão" desses jogos. Putin vem, primeiro, falar com anões e, depois, segue-se o desenvolvimento da fábula do Fontaine, em Mafra. Vai ser mais um momento para Sócrates vomitar umas banalidades e para Putin nem sequer o ouvir. Há homens que não perdem tempo com insignificâncias. Putin pode ter todos os defeitos do mundo mas sabe muito bem qual é o lugar da Rússia no mundo, pelo menos o que ele quer recuperar.
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O TALENTOSO SR. PUTIN
Vladimir Putin, que daqui a umas horas aterra em Lisboa, é um caso político do maior interesse. Sócrates certamente que não deve deixar de sentir algum fascínio pelo sucesso deste antigo agente secreto que governa a Rússia no limiar da não democracia. Acontece que entre o cochicho português e a vasta pátria de Catarina não há praticamente nada em comum. A Rússia mantém e desenvolve uma ambição "reconstitutiva" autorizada pela história recente e pela grandeza remota que nos escapa inteiramente. Putin não faz a mínima intenção de largar tão cedo o poder. Percebeu - como me dizia um amigo outro dia - que a "referência" policial substitui com eficácia o partido, na presidência ou no governo. E que não perde nada em maçar os seus homólogos ocidentais, em especial Bush, com os seus "jogos de guerra", independentemente da segunda ou terceira "dimensão" desses jogos. Putin vem, primeiro, falar com anões e, depois, segue-se o desenvolvimento da fábula do Fontaine, em Mafra. Vai ser mais um momento para Sócrates vomitar umas banalidades e para Putin nem sequer o ouvir. Há homens que não perdem tempo com insignificâncias. Putin pode ter todos os defeitos do mundo mas sabe muito bem qual é o lugar da Rússia no mundo, pelo menos o que ele quer recuperar.
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24.10.07
SEGUIR EM FRENTE
O PC - que nestas matérias nunca foi de modas nem de angústias - retirou a "confiança" política a uma sua deputada. O PSD, na recomposição da sua bancada parlamentar e das presidências de comissões parlamentares, removeu dois ou três deputados e substitui-os por outros tantos. Sobre a primeira, não vamos seguramente ouvir as carpideiras tradicionais perorar. Sobre os segundos, não têm faltado "análises" e remoques a Santana Lopes. Falou-se, até, em cargos "institucionais" como se as comissões parlamentares fossem compostas por eunucos assépticos. Lopes tem a vantagem de devolver a política à política por muito que isso custe às tradicionais eminências do partido. Arnaut, Relvas ou Correia são tão relevantes ou irrelevantes como quaisquer outros . Há dezenas como eles que se consideram igualmente "especiais" e insubstituíveis. Lopes não deve perder um segundo a explicar nada. Os seus reais interlocutores são outros e estão fora do PSD. Siga em frente.
SEGUIR EM FRENTE
O PC - que nestas matérias nunca foi de modas nem de angústias - retirou a "confiança" política a uma sua deputada. O PSD, na recomposição da sua bancada parlamentar e das presidências de comissões parlamentares, removeu dois ou três deputados e substitui-os por outros tantos. Sobre a primeira, não vamos seguramente ouvir as carpideiras tradicionais perorar. Sobre os segundos, não têm faltado "análises" e remoques a Santana Lopes. Falou-se, até, em cargos "institucionais" como se as comissões parlamentares fossem compostas por eunucos assépticos. Lopes tem a vantagem de devolver a política à política por muito que isso custe às tradicionais eminências do partido. Arnaut, Relvas ou Correia são tão relevantes ou irrelevantes como quaisquer outros . Há dezenas como eles que se consideram igualmente "especiais" e insubstituíveis. Lopes não deve perder um segundo a explicar nada. Os seus reais interlocutores são outros e estão fora do PSD. Siga em frente.
ESCUTAS
O Parlamento vai ouvir o senhor conselheiro Pinto Monteiro. Eu diria que o senhor conselheiro estava mortinho para ser ouvido, isto é, escutado como deve ser. Isto porque presumo que deve ter algo a dizer. Ficamos à escuta.
ESCUTAS
O Parlamento vai ouvir o senhor conselheiro Pinto Monteiro. Eu diria que o senhor conselheiro estava mortinho para ser ouvido, isto é, escutado como deve ser. Isto porque presumo que deve ter algo a dizer. Ficamos à escuta.
23.10.07
A RÃ E O BOI
No melhor estilo "português" - agressivamente provinciano - o presidente em exercício da UE respondeu a um eurodeputado que se manifestou no sentido de o "seu" tratado ser colocado a referendo das opiniões públicas europeias. Saiu-lhe um extraordinário "acordem" e "vejam a maravilha que nós aprovámos à beira Tejo que não admite discussão". Depois aproveitou para dar mais uns passinhos atrás na sua promessa eleitoral interna nesta matéria, com o aplauso do gémeo Barroso. Esta arrogância autoritária e teimosa - que o há-de perder cá dentro - foi a mais concludente evidência do artificialismo da "construção" europeia. Não por acaso, o MNE de Putin chamou a atenção da Europa para a circunstância de estar demasiado "inchada" e para o facto de a Rússia ter uma palavrinha a dizer quanto a esta fábula. Oxalá não aconteça à Europa o mesmo que à rã.
A RÃ E O BOI
No melhor estilo "português" - agressivamente provinciano - o presidente em exercício da UE respondeu a um eurodeputado que se manifestou no sentido de o "seu" tratado ser colocado a referendo das opiniões públicas europeias. Saiu-lhe um extraordinário "acordem" e "vejam a maravilha que nós aprovámos à beira Tejo que não admite discussão". Depois aproveitou para dar mais uns passinhos atrás na sua promessa eleitoral interna nesta matéria, com o aplauso do gémeo Barroso. Esta arrogância autoritária e teimosa - que o há-de perder cá dentro - foi a mais concludente evidência do artificialismo da "construção" europeia. Não por acaso, o MNE de Putin chamou a atenção da Europa para a circunstância de estar demasiado "inchada" e para o facto de a Rússia ter uma palavrinha a dizer quanto a esta fábula. Oxalá não aconteça à Europa o mesmo que à rã.
NÃO EXISTEM
Como é que o dr. Alberto Costa, ministro da justiça, e o director da PJ, dr. Alípio Ribeiro, podem garantir a quem quer que seja, a começar a eles próprios, que não existem escutas ilegais em Portugal? Já o senhor conselheiro Pinto Monteiro, por acaso PGR, não comunga, pelos vistos, desta solene opinião. Nos colóquios costuma afirmar-se com ênfase que a democracia se avalia pela estado da sua justiça. Vejam bem o estado da nossa.
NÃO EXISTEM
Como é que o dr. Alberto Costa, ministro da justiça, e o director da PJ, dr. Alípio Ribeiro, podem garantir a quem quer que seja, a começar a eles próprios, que não existem escutas ilegais em Portugal? Já o senhor conselheiro Pinto Monteiro, por acaso PGR, não comunga, pelos vistos, desta solene opinião. Nos colóquios costuma afirmar-se com ênfase que a democracia se avalia pela estado da sua justiça. Vejam bem o estado da nossa.
DA VOZ DO POVO À VOZ DO DONO
O João Adelino Faria, na sua alegre inconsciência radialista, perguntava aos seus convidados, no RCP, se referendar o "tratado reformador" não seria correr "riscos desnecessários", fugindo-lhe a boca para a verdade oficial. Faria, sem querer, deu voz ao "europês" correcto que se escreve nas costas da opinião pública e que é apenas decifrável por meia dúzia de iluminados. Estar na Europa não significa aceder à Europa. As reivindicações nacionais - um escândalo bem abafado entre champanhe e "porreiros, pá" - dos pequenos países passaram-nos ao lado porque era importante a fotografia. Por breves instantes, Sócrates, Barroso, Menezes e Cavaco, todos alinhados pela mesma língua de pau, colocaram alegadamente Portugal no mapa. O professor Freitas do Amaral também ajudou com um artigo "Teresa de Sousa" no DN. E mais virão, mesmo que nada desta mistificação interesse ao país "das nove às cinco". Não referendar a coisa é passar um atestado de menoridade cívica e "europeia" aos milhões de concidadãos com que estes títeres de plástico enchem a boca. Tudo visto e ponderado, se calhar não merecem outra coisa.
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DA VOZ DO POVO À VOZ DO DONO
O João Adelino Faria, na sua alegre inconsciência radialista, perguntava aos seus convidados, no RCP, se referendar o "tratado reformador" não seria correr "riscos desnecessários", fugindo-lhe a boca para a verdade oficial. Faria, sem querer, deu voz ao "europês" correcto que se escreve nas costas da opinião pública e que é apenas decifrável por meia dúzia de iluminados. Estar na Europa não significa aceder à Europa. As reivindicações nacionais - um escândalo bem abafado entre champanhe e "porreiros, pá" - dos pequenos países passaram-nos ao lado porque era importante a fotografia. Por breves instantes, Sócrates, Barroso, Menezes e Cavaco, todos alinhados pela mesma língua de pau, colocaram alegadamente Portugal no mapa. O professor Freitas do Amaral também ajudou com um artigo "Teresa de Sousa" no DN. E mais virão, mesmo que nada desta mistificação interesse ao país "das nove às cinco". Não referendar a coisa é passar um atestado de menoridade cívica e "europeia" aos milhões de concidadãos com que estes títeres de plástico enchem a boca. Tudo visto e ponderado, se calhar não merecem outra coisa.
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DA QUALIFICAÇÃO NACIONAL OU O SIMPLEX APLICADO AOS NEURÓNIOS
«Hoje, após 15 minutos de aula de matemática, fui informado de que os alunos da antiga reforma (cujo decreto-lei não tenho presente), que deveriam ter completado o seu percurso escolar no ano lectivo de 2005/2006 , vão realizar em Dezembro próximo provas de exame elaboradas nas escolas que têm o mesmo valor de exames nacionais, o que lhes permite a entrada para o ensino superior com a nota dessa mesma prova de exame. Para os alunos como eu, que já estão incluídos na nova reforma, existirão exames em Junho, feitos a nível nacional, e, como tal, com uma complexidade perfeitamente dispare. No entanto, ambas as provas permitem o acesso ao ensino superior. Este é o link da pagina onde o comunicado sobre a matéria que lhe refiro está disponível:
sendo o comunicado em questão o ofício curricular N º 01/2007.»
João Rocha
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qualificação,
Regime
DA QUALIFICAÇÃO NACIONAL OU O SIMPLEX APLICADO AOS NEURÓNIOS
«Hoje, após 15 minutos de aula de matemática, fui informado de que os alunos da antiga reforma (cujo decreto-lei não tenho presente), que deveriam ter completado o seu percurso escolar no ano lectivo de 2005/2006 , vão realizar em Dezembro próximo provas de exame elaboradas nas escolas que têm o mesmo valor de exames nacionais, o que lhes permite a entrada para o ensino superior com a nota dessa mesma prova de exame. Para os alunos como eu, que já estão incluídos na nova reforma, existirão exames em Junho, feitos a nível nacional, e, como tal, com uma complexidade perfeitamente dispare. No entanto, ambas as provas permitem o acesso ao ensino superior. Este é o link da pagina onde o comunicado sobre a matéria que lhe refiro está disponível:
sendo o comunicado em questão o ofício curricular N º 01/2007.»
João Rocha
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22.10.07
NÃO É FÁCIL DIZER BEM
Um já tem o livro cá fora. O outro terá dentro de dias. Há um terceiro que também deu à estampa. São os três jornalistas, respectivamente "pivot" em risco de despedimento no canal público de televisão, comentador num canal privado e um bom apresentador de telejornais. São, por junto, "romancistas". Suscitam inveja a outros "romancistas" e a muitos que gostavam de ser "romancistas". Não porque sejam especialmente talentosos - não são, limitam-se a cavalgar a facilidade em dar à tecla e em contar uma "história", aliadas à notoriedade que a televisão e as "revistas" fornecem - mas porque, num país que não lê e que vomita cá para fora dezenas de novos livros por semana sobre tudo e sobre nada, são "conhecidos". Nenhuma literacia literária melhora por se ter lido Sousa Tavares, Rodrigues dos Santos e Rodrigo Carvalho. Vendem-se bem porque qualquer um deles sabe perfeitamente "vender-se" ainda melhor. As respectivas manobras de propaganda e publicidade são directamente proporcionais à duvidosa intrínseca qualidade literária das "obras", apesar de "Equador" não me ter desagradado, o único que li. O leitor estremunhado - que anda no metro, no comboio ou no barco - não é exigente. Para maçadas e "complexidades" basta-lhe a vida. Os "romances" destes três garantem, com maior ou menor felicidade, evasão sem puxar excessivamente pelo bestunto. A esse leitor pouco profundo, a "cara" do autor é uma garantia. A única. Bom proveito.
NÃO É FÁCIL DIZER BEM
Um já tem o livro cá fora. O outro terá dentro de dias. Há um terceiro que também deu à estampa. São os três jornalistas, respectivamente "pivot" em risco de despedimento no canal público de televisão, comentador num canal privado e um bom apresentador de telejornais. São, por junto, "romancistas". Suscitam inveja a outros "romancistas" e a muitos que gostavam de ser "romancistas". Não porque sejam especialmente talentosos - não são, limitam-se a cavalgar a facilidade em dar à tecla e em contar uma "história", aliadas à notoriedade que a televisão e as "revistas" fornecem - mas porque, num país que não lê e que vomita cá para fora dezenas de novos livros por semana sobre tudo e sobre nada, são "conhecidos". Nenhuma literacia literária melhora por se ter lido Sousa Tavares, Rodrigues dos Santos e Rodrigo Carvalho. Vendem-se bem porque qualquer um deles sabe perfeitamente "vender-se" ainda melhor. As respectivas manobras de propaganda e publicidade são directamente proporcionais à duvidosa intrínseca qualidade literária das "obras", apesar de "Equador" não me ter desagradado, o único que li. O leitor estremunhado - que anda no metro, no comboio ou no barco - não é exigente. Para maçadas e "complexidades" basta-lhe a vida. Os "romances" destes três garantem, com maior ou menor felicidade, evasão sem puxar excessivamente pelo bestunto. A esse leitor pouco profundo, a "cara" do autor é uma garantia. A única. Bom proveito.
BARULHOS E MICROFONES
A propósito dos "barulhos esquisitos" no telemóvel do senhor conselheiro Pinto Monteiro, há quem recorde o episódio do microfone alegadamente colocado no gabinete de Cunha Rodrigues, o PGR que antecedeu Souto Moura. O "tempo acelerado" da política portuguesa, a longa fila de gente institucional que apareceu e desapareceu entretanto com a mesma velocidade com que emergiu, relegou a figura de Cunha Rodrigues para a história e para Bruxelas ou para o Luxemburgo, não sei bem. Acontece que este homem é a "marca" indelével da Procuradoria. Foi ele quem "intimidou" seriamente o poder soarista - com Macau - e o poder cavaquista, com a área da saúde. Cunha Rodrigues tinha literalmente o poder político na mão e fez toda a carreira à frente do Ministério Público "jogando" com o que sabia. Ao pé dele, Souto Moura e Pinto Monteiro são apenas dois amáveis amadores entre - e aí Pinto Monteiro acertou - duques, marquesas, condes e viscondes, a maior parte, aliás, "nobilitada" por eles. O episódio do microfone nunca foi bem explicado se calhar porque não havia nada para explicar. Cunha Rodrigues partiu mas nunca se chegará a saber que história tinha para contar.
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