30.6.09

ADIANTADOS


Como para América Latina basta-me viver por aqui (repare-se como até o clima já se "adaptou"), não acompanho de perto o folclore político da região. Todavia, fico a saber que, na original, há tipos «muito mais adiantados do que o Sócrates.» O que é difícil.

ADIANTADOS


Como para América Latina basta-me viver por aqui (repare-se como até o clima já se "adaptou"), não acompanho de perto o folclore político da região. Todavia, fico a saber que, na original, há tipos «muito mais adiantados do que o Sócrates.» O que é difícil.

O MÉTODO JUSTIFICÁVEL


Este amigo é um pessimista como eu. Mas, depois de lido por causa disto, revela-se, afinal, uma Ana Gomes virada do avesso. Basta esta frase - «a tortura pode acabar por ser um método justificável e inclusive necessário in extremis» - para o trair. E, perdoar-me-á, não há Adriano Moreira ou "teoria das relações internacionais" que o salve. Talvez Richard Rorty.

O MÉTODO JUSTIFICÁVEL


Este amigo é um pessimista como eu. Mas, depois de lido por causa disto, revela-se, afinal, uma Ana Gomes virada do avesso. Basta esta frase - «a tortura pode acabar por ser um método justificável e inclusive necessário in extremis» - para o trair. E, perdoar-me-á, não há Adriano Moreira ou "teoria das relações internacionais" que o salve. Talvez Richard Rorty.

IRONIAS E CANSAÇOS

Escreve José Régio, no muito citado "Cântigo Negro", que «há nos meus olhos ironias e cansaços.» Há. Sobretudo quando ouço pessoas como o sr. Carrapatoso a discorrer sobre o Estado. Que o Estado deve sair disto e daquilo, que o Estado não dever interferir aqui e ali, que o Estado isto e aquilo... Não tenho o menor respeito intelectual por gente- os tais "liberais" - como o sr. Carrapatoso a quem o Estado não só não prejudicou como até "resolveu", a favor dele, um pretérito "contencioso" fiscal onde só o dito Estado, ambiguamente, acabou mal. Diz-se "atraído" pela "cidadania activa" e, como vaidoso que é, acha-se subtil, raro e candidato a eventual salvador da pátria, uma vez que se vai "reformar" da Vodafone. Deus nos salve permanentemente destes salvadores "iluminados" como o sr. Carrapatoso.

IRONIAS E CANSAÇOS

Escreve José Régio, no muito citado "Cântigo Negro", que «há nos meus olhos ironias e cansaços.» Há. Sobretudo quando ouço pessoas como o sr. Carrapatoso a discorrer sobre o Estado. Que o Estado deve sair disto e daquilo, que o Estado não dever interferir aqui e ali, que o Estado isto e aquilo... Não tenho o menor respeito intelectual por gente- os tais "liberais" - como o sr. Carrapatoso a quem o Estado não só não prejudicou como até "resolveu", a favor dele, um pretérito "contencioso" fiscal onde só o dito Estado, ambiguamente, acabou mal. Diz-se "atraído" pela "cidadania activa" e, como vaidoso que é, acha-se subtil, raro e candidato a eventual salvador da pátria, uma vez que se vai "reformar" da Vodafone. Deus nos salve permanentemente destes salvadores "iluminados" como o sr. Carrapatoso.

TENTAÇÕES PERMANENTES


Manuela Ferreira Leite fez bem em dizer que o PSD "fez mal" se, noutra encarnação, tentou "controlar", através da PT, conteúdos jornalísticos. É uma tentação permanente. Todavia, e para além disso, andam bem pior os jornalistas, os directores, os adjuntos e os "fazedores" de opinião que se deixam controlar. É outra tentação permanente. Porventura mais grave. Porque desonra uma profissão nobre e que serve de barómetro à qualidade de um regime. Se a do nosso não se recomenda, não é apenas aos objectos das notícias e dos comentários que se deve. Muita gente, antes de escrever ou de aparecer, devia proferir uma declaração de interesses. Sem a necessidade fútil de, por exemplo, recorrer a exemplos literários. Basta a integridade sem tergiversações de ocasião ou que decorrem de interesses pessoais.

TENTAÇÕES PERMANENTES


Manuela Ferreira Leite fez bem em dizer que o PSD "fez mal" se, noutra encarnação, tentou "controlar", através da PT, conteúdos jornalísticos. É uma tentação permanente. Todavia, e para além disso, andam bem pior os jornalistas, os directores, os adjuntos e os "fazedores" de opinião que se deixam controlar. É outra tentação permanente. Porventura mais grave. Porque desonra uma profissão nobre e que serve de barómetro à qualidade de um regime. Se a do nosso não se recomenda, não é apenas aos objectos das notícias e dos comentários que se deve. Muita gente, antes de escrever ou de aparecer, devia proferir uma declaração de interesses. Sem a necessidade fútil de, por exemplo, recorrer a exemplos literários. Basta a integridade sem tergiversações de ocasião ou que decorrem de interesses pessoais.

A FASE COMPLEXA DO DR. SOARES


O dr. Mário Soares, o ayatolah do regime, opina no DN, um hebdomadário que faz as vezes do "Acção Socialista" que nem os militantes lêem. Desta vez, a "fase" é "complexa". Para o PS, claro, que, segundo Soares, é o menos responsável pela crise, uma manifesta "importação". O neoliberalismo, esse malvado, é que estragou tudo, até os resultados das europeias que o PSD não ganhou, como Soares não duvida. Foi - vá lá - o PS que perdeu. Todavia, o guardião dá o conselho. «Uma linha progressista clara que passe por uma autocrítica consequente - ou uma mea culpa - e por uma reaproximação ao mundo do trabalho», «o Partido [com P grande como deve ser] terá de ser mobilizado (parece-me desmoralizado e descrente, nas bases) e de fazer um discurso mobilizador, não só na forma, mas também no conteúdo [como se isto fosse possível com este secretário-geral, mesmo na versão "Bambi"]», «a JS, as Mulheres Socialistas, os imigrantes, as mulheres e os homens de cultura, os homossexuais [então e os heterossexuais, os transsexuais e os que não sabem o que são?], têm aí um papel decisivo a jogar.» Mais. Para estes justos desempenharem o referido "papel", «têm de estar convencidos que as políticas vão mudar, no sentido dos seus próprios interesses», ou seja, em sentido contrário ao que o admirável líder procurou "traçar" quando decidiu, há quatro anos, fazer de cada português um inimigo potencial, uma "corporação". E Soares pede o impossível. «Os dirigentes do PS deverão percorrer o País, ouvir e falar com as pessoas com humildade e espontaneidade. Sem promessas vãs e sem demagogia.» Na segunda parte do artigo, Soares considera, aliás, "pouco verosímil" que Sócrates ignorasse o "negócio da PT" com a Media Capital que posteriormente abortou. No fundo, Soares já percebeu que o PS de Sócrates - o que vai a eleições daqui a três meses - estaria melhor sem Sócrates. Mas é o que há, dr. Soares. Os seus amigos, "homens de cultura" como, por exemplo, o dr. Pulido Valente, que façam o favor de lhe explicar.

A FASE COMPLEXA DO DR. SOARES


O dr. Mário Soares, o ayatolah do regime, opina no DN, um hebdomadário que faz as vezes do "Acção Socialista" que nem os militantes lêem. Desta vez, a "fase" é "complexa". Para o PS, claro, que, segundo Soares, é o menos responsável pela crise, uma manifesta "importação". O neoliberalismo, esse malvado, é que estragou tudo, até os resultados das europeias que o PSD não ganhou, como Soares não duvida. Foi - vá lá - o PS que perdeu. Todavia, o guardião dá o conselho. «Uma linha progressista clara que passe por uma autocrítica consequente - ou uma mea culpa - e por uma reaproximação ao mundo do trabalho», «o Partido [com P grande como deve ser] terá de ser mobilizado (parece-me desmoralizado e descrente, nas bases) e de fazer um discurso mobilizador, não só na forma, mas também no conteúdo [como se isto fosse possível com este secretário-geral, mesmo na versão "Bambi"]», «a JS, as Mulheres Socialistas, os imigrantes, as mulheres e os homens de cultura, os homossexuais [então e os heterossexuais, os transsexuais e os que não sabem o que são?], têm aí um papel decisivo a jogar.» Mais. Para estes justos desempenharem o referido "papel", «têm de estar convencidos que as políticas vão mudar, no sentido dos seus próprios interesses», ou seja, em sentido contrário ao que o admirável líder procurou "traçar" quando decidiu, há quatro anos, fazer de cada português um inimigo potencial, uma "corporação". E Soares pede o impossível. «Os dirigentes do PS deverão percorrer o País, ouvir e falar com as pessoas com humildade e espontaneidade. Sem promessas vãs e sem demagogia.» Na segunda parte do artigo, Soares considera, aliás, "pouco verosímil" que Sócrates ignorasse o "negócio da PT" com a Media Capital que posteriormente abortou. No fundo, Soares já percebeu que o PS de Sócrates - o que vai a eleições daqui a três meses - estaria melhor sem Sócrates. Mas é o que há, dr. Soares. Os seus amigos, "homens de cultura" como, por exemplo, o dr. Pulido Valente, que façam o favor de lhe explicar.

A PISCINA

«The media is like Madame de Staël who threw her friends into the pool for the pleasure of fishing them out again.»

Norman Mailer, 1998

A PISCINA

«The media is like Madame de Staël who threw her friends into the pool for the pleasure of fishing them out again.»

Norman Mailer, 1998

29.6.09

OS ÚTEIS E OS INÚTEIS


Pior do que um idiota inútil é um amontoado de idiotas úteis. Provérbio português de 2009 encontrado na blogosfera. Numa espécie de "cadeia" blogosférica para ver quem consegue ser mais idiota do que o anterior, útil ou inútil.

OS ÚTEIS E OS INÚTEIS


Pior do que um idiota inútil é um amontoado de idiotas úteis. Provérbio português de 2009 encontrado na blogosfera. Numa espécie de "cadeia" blogosférica para ver quem consegue ser mais idiota do que o anterior, útil ou inútil.

OUTRO CLUBE

Parece que a dra. Ana Gomes lançou hoje a sua estrepitosa candidatura à Câmara de Sintra. Também consta que tem um cartaz onde aparece de braços cruzados, com ar de professora primária do tempo do Doutor Salazar, a dizer que é "uma mulher às direitas". E jurou deixar Bruxelas - como a congénere do Porto, a D. Elisa - caso alcance Sintra. Não alcança, graças a Deus. O tipo que lá está, mais da bola e do Benfica do que de outra coisa qualquer, só não fica se não quiser. Precisamente por causa da bola e do Benfica. A dra. Gomes que arranje outro clube em vez do PS.

OUTRO CLUBE

Parece que a dra. Ana Gomes lançou hoje a sua estrepitosa candidatura à Câmara de Sintra. Também consta que tem um cartaz onde aparece de braços cruzados, com ar de professora primária do tempo do Doutor Salazar, a dizer que é "uma mulher às direitas". E jurou deixar Bruxelas - como a congénere do Porto, a D. Elisa - caso alcance Sintra. Não alcança, graças a Deus. O tipo que lá está, mais da bola e do Benfica do que de outra coisa qualquer, só não fica se não quiser. Precisamente por causa da bola e do Benfica. A dra. Gomes que arranje outro clube em vez do PS.

A EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE


Quase quarenta por cento dos portugueses inquiridos num estudo internacional sobre o uso da tortura como "método" para combater o terrorismo, concorda com esta "prática". O primitivismo também se mede por estas coisas.

A EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE


Quase quarenta por cento dos portugueses inquiridos num estudo internacional sobre o uso da tortura como "método" para combater o terrorismo, concorda com esta "prática". O primitivismo também se mede por estas coisas.

OS CARRINHOS ELÉCTRICOS

«Depois do "Magalhães", Sócrates e a sua trupe descobriram os carros eléctricos. Sócrates até já sonha com uma cidade onde só haja carros eléctricos. Se Sócrates pudesse varrer as pessoas e a realidade da paisagem, e a deixasse entregue aos seus brinquedos e às suas fantasias, seria um homem ainda mais feliz do que é agora. E o mundo, o dele pelo menos, mais perfeito. (22.11.08)»

in Portugal dos Pequeninos, Bertrand Editora, 2009, pág. 455

OS CARRINHOS ELÉCTRICOS

«Depois do "Magalhães", Sócrates e a sua trupe descobriram os carros eléctricos. Sócrates até já sonha com uma cidade onde só haja carros eléctricos. Se Sócrates pudesse varrer as pessoas e a realidade da paisagem, e a deixasse entregue aos seus brinquedos e às suas fantasias, seria um homem ainda mais feliz do que é agora. E o mundo, o dele pelo menos, mais perfeito. (22.11.08)»

in Portugal dos Pequeninos, Bertrand Editora, 2009, pág. 455

GENTE FINA


Nos EUA, o sr. Madoff já foi condenado a perpétua. Cento e cinquenta anos pela trafulhice. Cá, a política e os tribunais cumprem calendários. Se bem nos recordamos, apenas Vale e Azevedo foi molestado e, mesmo assim, só depois de ter deixado a presidência do Benfica. E sabe-se o estado da arte. Não esperem nada de extraordinário contra os trafulhas domésticos. Gente fina é outra coisa. E a justiça portuguesa também.

GENTE FINA


Nos EUA, o sr. Madoff já foi condenado a perpétua. Cento e cinquenta anos pela trafulhice. Cá, a política e os tribunais cumprem calendários. Se bem nos recordamos, apenas Vale e Azevedo foi molestado e, mesmo assim, só depois de ter deixado a presidência do Benfica. E sabe-se o estado da arte. Não esperem nada de extraordinário contra os trafulhas domésticos. Gente fina é outra coisa. E a justiça portuguesa também.

O ENÉSIMO FIM DA CRISE

O governo, pela voz de vários ministros e do indispensável líder, já decretou por diversas vezes o fim da crise. A crise, como qualquer desatento percebe, não acaba por decreto ou por umas décimas. Mais. Quando a crise se atenuar lá fora, persistirá, sob uma forma dúbia chamada Portugal, cá dentro. Para a pura propaganda, talvez seja útil o exercício. Para "salvar" o país, não.

O ENÉSIMO FIM DA CRISE

O governo, pela voz de vários ministros e do indispensável líder, já decretou por diversas vezes o fim da crise. A crise, como qualquer desatento percebe, não acaba por decreto ou por umas décimas. Mais. Quando a crise se atenuar lá fora, persistirá, sob uma forma dúbia chamada Portugal, cá dentro. Para a pura propaganda, talvez seja útil o exercício. Para "salvar" o país, não.

PALAVRAS DE HOJE


«Tendo Jesus chegado às regiões de Cesaréia de Felipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? Responderam eles: Uns dizem que é João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou algum dos profetas. Mas vós, perguntou-lhes Jesus, quem dizeis que eu sou? Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do hades não prevalecerão contra ela;dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares, pois, na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.» (Mateus 16.13-19)

Foto: Povo

PALAVRAS DE HOJE


«Tendo Jesus chegado às regiões de Cesaréia de Felipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? Responderam eles: Uns dizem que é João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou algum dos profetas. Mas vós, perguntou-lhes Jesus, quem dizeis que eu sou? Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do hades não prevalecerão contra ela;dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares, pois, na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.» (Mateus 16.13-19)

Foto: Povo

TENTAR PERCEBER


O Pedro Magalhães é dos raros politólogos que levo a sério. Primeiro, porque é a profissão dele. E tanto é que, lamentavelmente, escreve hoje o seu último artigo no Público para poder dedicar-se a um projecto de investigação sobre a qualidade da democracia. Em segundo lugar, porque, mais do que nos pretender conduzir ao seu moinho, o Pedro tenta perceber e procura explicar mesmo quando erra, como é próprio de quem caminha na floresta. Em certo sentido, o Pedro não tem agenda como têm os "politólogos" - na realidade gente de partido ou de facção e comentaristas de ocasião disfarçados de outra coisa - que diariamente invadem as redacções dos jornais e das televisões com o seu insuportável "achismo". «A verdade é que não há quase dia em que abra o jornal ou ligue a televisão sem encontrar politólogos, apresentados com tais, a pronunciarem-se sobre as últimas declarações do político x, as consequências da decisão y ou aquilo que irá acontecer se z. Por vezes, talvez mais do que, em retrospectiva, teria sido desejável, um deles era eu. Em parte, é compreensível. Com redacções encolhidas e a multiplicação dos estagiários, escrever um artigo "de fundo" com a ajuda de quatro telefonemas deve ser uma tentação irresistível. A busca da "imparcialidade" e da "objectividade" leva à procura de fontes que possam ser apresentadas como dispondo desses atributos. A pressão da actualidade faz com que aquilo que interessa aos jornalistas seja "prever" um evento concreto ou as suas consequências, matéria para a qual, sabemos de inúmeras situações passadas, os cientistas sociais não se encontram necessariamente mais capacitados que outra pessoa qualquer. E resistir as estas solicitações é igualmente difícil, na medida em pode parecer uma assunção de irrelevância daquilo que fazemos para os debates que interessam. Mas pergunto-me se não valerá a pena tentar resistir mais um bocadinho. O nosso "negócio" é simples: descrever o mundo político o melhor possível e procurar explicações plausíveis para que ele seja como é. Só isso já é bastante. Para pundits, creio, já bastam os que existem.» Volte sempre, Pedro.

TENTAR PERCEBER


O Pedro Magalhães é dos raros politólogos que levo a sério. Primeiro, porque é a profissão dele. E tanto é que, lamentavelmente, escreve hoje o seu último artigo no Público para poder dedicar-se a um projecto de investigação sobre a qualidade da democracia. Em segundo lugar, porque, mais do que nos pretender conduzir ao seu moinho, o Pedro tenta perceber e procura explicar mesmo quando erra, como é próprio de quem caminha na floresta. Em certo sentido, o Pedro não tem agenda como têm os "politólogos" - na realidade gente de partido ou de facção e comentaristas de ocasião disfarçados de outra coisa - que diariamente invadem as redacções dos jornais e das televisões com o seu insuportável "achismo". «A verdade é que não há quase dia em que abra o jornal ou ligue a televisão sem encontrar politólogos, apresentados com tais, a pronunciarem-se sobre as últimas declarações do político x, as consequências da decisão y ou aquilo que irá acontecer se z. Por vezes, talvez mais do que, em retrospectiva, teria sido desejável, um deles era eu. Em parte, é compreensível. Com redacções encolhidas e a multiplicação dos estagiários, escrever um artigo "de fundo" com a ajuda de quatro telefonemas deve ser uma tentação irresistível. A busca da "imparcialidade" e da "objectividade" leva à procura de fontes que possam ser apresentadas como dispondo desses atributos. A pressão da actualidade faz com que aquilo que interessa aos jornalistas seja "prever" um evento concreto ou as suas consequências, matéria para a qual, sabemos de inúmeras situações passadas, os cientistas sociais não se encontram necessariamente mais capacitados que outra pessoa qualquer. E resistir as estas solicitações é igualmente difícil, na medida em pode parecer uma assunção de irrelevância daquilo que fazemos para os debates que interessam. Mas pergunto-me se não valerá a pena tentar resistir mais um bocadinho. O nosso "negócio" é simples: descrever o mundo político o melhor possível e procurar explicações plausíveis para que ele seja como é. Só isso já é bastante. Para pundits, creio, já bastam os que existem.» Volte sempre, Pedro.

A ESCOLA DA «TRANSPARÊNCIA»

Isto é um exemplo - apenas um - do país "tropical" (dito "moderno", das "novas tecnologias" e da "banda larga") que o admirável líder nos vai deixar daqui a três meses. Cria-se um "portal onde devem ser publicitados todos os ajustes directos e derrapagens, em nome da transparência e do rigor no uso dos dinheiros públicos," e o próprio portal é aberto sem concurso público. A coisa correu, imagine-se, por ajuste directo, a "modalidade" preferida pelos governos com pressa e pela propaganda. Já a elaboração do Código dos Contratos Públicos - como se no Estado não houvesse esquadrões de juristas capazes de o fazer - tinha sido entregue a uma famosa sociedade de advogados de Lisboa, "especializada" em direito administrativo, que andou um pouco por todo o país, em chorudas digressões, a "explicá-lo". É por estas e por outras que detesto a palavra "transparência". Onde ela aparece raramente faz escola.

A ESCOLA DA «TRANSPARÊNCIA»

Isto é um exemplo - apenas um - do país "tropical" (dito "moderno", das "novas tecnologias" e da "banda larga") que o admirável líder nos vai deixar daqui a três meses. Cria-se um "portal onde devem ser publicitados todos os ajustes directos e derrapagens, em nome da transparência e do rigor no uso dos dinheiros públicos," e o próprio portal é aberto sem concurso público. A coisa correu, imagine-se, por ajuste directo, a "modalidade" preferida pelos governos com pressa e pela propaganda. Já a elaboração do Código dos Contratos Públicos - como se no Estado não houvesse esquadrões de juristas capazes de o fazer - tinha sido entregue a uma famosa sociedade de advogados de Lisboa, "especializada" em direito administrativo, que andou um pouco por todo o país, em chorudas digressões, a "explicá-lo". É por estas e por outras que detesto a palavra "transparência". Onde ela aparece raramente faz escola.

28.6.09

«A MORTE VEM COMO NENHUMA CARTA»


Passaram cinco anos sobre a morte de Sophia de Mello Breyner Andresen. Os jornais dedicaram-lhe os usuais derrames feitos, salvo uma ou outra excepção, pelos usuais. A poetisa da política interessa-me pouco, salvo naquele lance magnífico do «dia inicial inteiro e limpo.» Prefiro o poeta do mar, das coisas, dos lugares certos e incertos, dos outros poetas. A "clássica", a enxuta. Agora que se preparam para "recuperar" Jorge de Sena, esta "Carta(s) a Jorge de Sena":

I
Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde

II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

III
Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem -
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse

Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
- Grandioso vencedor e tão amargo vencido -
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

IV
E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

«A MORTE VEM COMO NENHUMA CARTA»


Passaram cinco anos sobre a morte de Sophia de Mello Breyner Andresen. Os jornais dedicaram-lhe os usuais derrames feitos, salvo uma ou outra excepção, pelos usuais. A poetisa da política interessa-me pouco, salvo naquele lance magnífico do «dia inicial inteiro e limpo.» Prefiro o poeta do mar, das coisas, dos lugares certos e incertos, dos outros poetas. A "clássica", a enxuta. Agora que se preparam para "recuperar" Jorge de Sena, esta "Carta(s) a Jorge de Sena":

I
Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde

II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

III
Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem -
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse

Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
- Grandioso vencedor e tão amargo vencido -
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

IV
E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

LÍNGUA DE PAU

Do sr. Carrapatoso, amigo de Pinho que por sua vez é amigo e ministro de Sócrates. Ou como um jantar privado - um "convívio" - pode constituir «um contributo para o debate de ideias no âmbito de um exercício de cidadania individual, para o qual sempre se mostrou disponível.» Muito gosta o Francisco Almeida Leite de brincar às casinhas.

LÍNGUA DE PAU

Do sr. Carrapatoso, amigo de Pinho que por sua vez é amigo e ministro de Sócrates. Ou como um jantar privado - um "convívio" - pode constituir «um contributo para o debate de ideias no âmbito de um exercício de cidadania individual, para o qual sempre se mostrou disponível.» Muito gosta o Francisco Almeida Leite de brincar às casinhas.

POR UM HOMEM SEM QUALIDADES?

É uma dó assistir ao argumentário de pessoas inteligentes em prol de pessoas meramente espertas (ou já nem isso) como o admirável líder e a sua "dialéctica" de trazer por casa. Tiago Moreira Ramalho, no Corta-Fitas, diz tudo o que é preciso dizer a Eduardo Pitta que, nestas matérias, deu em meter os pés pelas mãos por causa de um homem sem qualidades, literalmente falando e não literariamente. «Quando anunciou que se iria opor ao negócio, José Sócrates não invocou argumentos sólidos, mais que não fossem os argumentos que o fizeram defender a lei do pluralismo e da não concentração. José Sócrates disse apenas que não queria que desconfiassem dele e do governo. Isto, por si só, diz tudo.» É que «infelizmente agora, o tecto caiu», como escreve Vasco Pulido Valente. «Ao contrário de Soares, Sócrates falhou. A direita não lhe agradece o esforço; e o eleitorado do PS desapareceu. Em quatro anos quase toda a gente ficou pior. Para quê teimar», Eduardo?

POR UM HOMEM SEM QUALIDADES?

É uma dó assistir ao argumentário de pessoas inteligentes em prol de pessoas meramente espertas (ou já nem isso) como o admirável líder e a sua "dialéctica" de trazer por casa. Tiago Moreira Ramalho, no Corta-Fitas, diz tudo o que é preciso dizer a Eduardo Pitta que, nestas matérias, deu em meter os pés pelas mãos por causa de um homem sem qualidades, literalmente falando e não literariamente. «Quando anunciou que se iria opor ao negócio, José Sócrates não invocou argumentos sólidos, mais que não fossem os argumentos que o fizeram defender a lei do pluralismo e da não concentração. José Sócrates disse apenas que não queria que desconfiassem dele e do governo. Isto, por si só, diz tudo.» É que «infelizmente agora, o tecto caiu», como escreve Vasco Pulido Valente. «Ao contrário de Soares, Sócrates falhou. A direita não lhe agradece o esforço; e o eleitorado do PS desapareceu. Em quatro anos quase toda a gente ficou pior. Para quê teimar», Eduardo?

DESFAZER MITOS


«- Pelo menos, se ganhar Lisboa, recebe a câmara saneada financeiramente por António Costa!

- É falsa essa ideia. Quando saí da autarquia, a dívida da câmara era de 956 milhões de euros. Neste momento, até 2008, aumentou mais 116 milhões e o investimento foi reduzido para metade em relação a 2007. Quando João Soares saiu da câmara, em 2001, o passivo era de 561 milhões de euros e quando eu saí tinha assumido 150 milhões da Parque Expo e mais 50 milhões do Casal Ventoso. A dívida da câmara não é minha, foi criada por uma campanha de mistificação em 2005. António Costa saneou-a financeiramente, qualquer presidente de câmara tem a obrigação de o fazer, tal como eu procurei fazer, só que as contas estão desequilibradas à partida porque tem uma estrutura de despesa muito rígida e as receitas baixaram muito. Até por força de algumas medidas de Manuela Ferreira Leite naquele período de crise, com o endividamento zero, que durante mais de um ano baixaram a receita. O problema é que neste momento António Costa já apresentou pedidos de empréstimo de mais de 250 milhões de euros.»


Pedro Santana Lopes. Entrevista ao DN.

DESFAZER MITOS


«- Pelo menos, se ganhar Lisboa, recebe a câmara saneada financeiramente por António Costa!

- É falsa essa ideia. Quando saí da autarquia, a dívida da câmara era de 956 milhões de euros. Neste momento, até 2008, aumentou mais 116 milhões e o investimento foi reduzido para metade em relação a 2007. Quando João Soares saiu da câmara, em 2001, o passivo era de 561 milhões de euros e quando eu saí tinha assumido 150 milhões da Parque Expo e mais 50 milhões do Casal Ventoso. A dívida da câmara não é minha, foi criada por uma campanha de mistificação em 2005. António Costa saneou-a financeiramente, qualquer presidente de câmara tem a obrigação de o fazer, tal como eu procurei fazer, só que as contas estão desequilibradas à partida porque tem uma estrutura de despesa muito rígida e as receitas baixaram muito. Até por força de algumas medidas de Manuela Ferreira Leite naquele período de crise, com o endividamento zero, que durante mais de um ano baixaram a receita. O problema é que neste momento António Costa já apresentou pedidos de empréstimo de mais de 250 milhões de euros.»


Pedro Santana Lopes. Entrevista ao DN.

UM GOVERNO QUE JÁ NÃO É DOS PORTUGUESES


«O governo, em especial Sócrates, tem uma fixação quase psicopática na TVI (e com o PÚBLICO). Jerónimo de Sousa definiu-a bem quinta-feira quando disse que Sócrates procurava fazer “um ajuste de contas” com José Eduardo Moniz. O Congresso do PS abriu e fechou com essa psicopatia, que é política, porque a linha editorial da TVI, ao mostrar como o “rei vai nu”, é fatal para um governo que vive da propaganda. No parlamento, na quarta-feira, Sócrates descaíra-se porque a obsessão foi mais forte que o controle dos nervos: centrou a questão na linha editorial da TVI e sugeriu que queria mudá-la. Há muitos outros sinais desta monomania com a TVI (e o PÚBLICO), como a prosa policial dum blogue deste governo (Câmara Corporativa). A Prisa esteve à beira de afastar Moniz por pressão do governo, quer quando comprou o canal quer durante esta semana. Não o fez agora porque houve uma fortíssima oposição política e da sociedade civil e porque esse servilismo contrariaria os seus interesses empresariais: estaria a provocar o fim da forte relação entre uma parte importante dos portugueses com a marca TVI. Se Moniz saísse por pressão política, seria o princípio do fim da TVI e da sua valorização bolsista. A Prisa teria mais a perder a prazo do que a ganhar. O “ajuste de contas” de Sócrates é revelador do desacerto a que chegou a acção governativa. As vantagens para Sócrates e o PS seriam nulas até Outubro, pois a reorientação da linha editorial não se faria num dia, mesmo que Moniz fosse afastado. Pelo contrário, os efeitos negativos viram-se de imediato: os portugueses ficaram furiosos com esta tentativa de intervenção, como se notou no forum Opinião Pública (SICN, 25.06) ou em caixas de comentários. Com esta e com outras evidentes desorientações, o executivo de Sócrates revelou que, se ainda tem a legitimidade política para se reclamar como Governo de Portugal, já não é o governo dos portugueses. As razões de mais esta tentativa frustrada de intervir na Media Capital são: a obsessão de Sócrates com a comunicação social e a propaganda; uma governação que vive dos eventos mediáticos, do palco, dos ecrãs; um afastamento tão grande da realidade que o governo já não prevê minimamente as consequências dos seus actos (outros exemplos: incapacidade de prever que perderia eleições, oposição generalizada no país às “grandes obras já”); a incapacidade dos dirigentes da PT de enfrentarem as loucuras dos governos, preferindo, para irem ficando, obedecer-lhes e tomar decisões erradas.E se essas são as razões concretas, a origem do problema é apenas uma: a golden share. Enquanto os governos puderem intervir, os governos intervirão. Aconteceu com o governo PSD de Santana Lopes, aconteceu agora com o PS, tinha acontecido antes com o governo PS de Guterres (em 2000 “ponderou” comprar a TVI à Media Capital através da PT). Com a golden share, o Governo pode intervir nos conteúdos. Se age como se sabe na RTP desde 1957 até 2009, fá-lo-á nos media que a PT controle. Daí que das duas uma: ou a PT não deve possuir órgãos de comunicação ou o governo não deve ter golden share. As duas em simultâneo é que não pode ser.»

Eduardo Cintra Torres, Público

UM GOVERNO QUE JÁ NÃO É DOS PORTUGUESES


«O governo, em especial Sócrates, tem uma fixação quase psicopática na TVI (e com o PÚBLICO). Jerónimo de Sousa definiu-a bem quinta-feira quando disse que Sócrates procurava fazer “um ajuste de contas” com José Eduardo Moniz. O Congresso do PS abriu e fechou com essa psicopatia, que é política, porque a linha editorial da TVI, ao mostrar como o “rei vai nu”, é fatal para um governo que vive da propaganda. No parlamento, na quarta-feira, Sócrates descaíra-se porque a obsessão foi mais forte que o controle dos nervos: centrou a questão na linha editorial da TVI e sugeriu que queria mudá-la. Há muitos outros sinais desta monomania com a TVI (e o PÚBLICO), como a prosa policial dum blogue deste governo (Câmara Corporativa). A Prisa esteve à beira de afastar Moniz por pressão do governo, quer quando comprou o canal quer durante esta semana. Não o fez agora porque houve uma fortíssima oposição política e da sociedade civil e porque esse servilismo contrariaria os seus interesses empresariais: estaria a provocar o fim da forte relação entre uma parte importante dos portugueses com a marca TVI. Se Moniz saísse por pressão política, seria o princípio do fim da TVI e da sua valorização bolsista. A Prisa teria mais a perder a prazo do que a ganhar. O “ajuste de contas” de Sócrates é revelador do desacerto a que chegou a acção governativa. As vantagens para Sócrates e o PS seriam nulas até Outubro, pois a reorientação da linha editorial não se faria num dia, mesmo que Moniz fosse afastado. Pelo contrário, os efeitos negativos viram-se de imediato: os portugueses ficaram furiosos com esta tentativa de intervenção, como se notou no forum Opinião Pública (SICN, 25.06) ou em caixas de comentários. Com esta e com outras evidentes desorientações, o executivo de Sócrates revelou que, se ainda tem a legitimidade política para se reclamar como Governo de Portugal, já não é o governo dos portugueses. As razões de mais esta tentativa frustrada de intervir na Media Capital são: a obsessão de Sócrates com a comunicação social e a propaganda; uma governação que vive dos eventos mediáticos, do palco, dos ecrãs; um afastamento tão grande da realidade que o governo já não prevê minimamente as consequências dos seus actos (outros exemplos: incapacidade de prever que perderia eleições, oposição generalizada no país às “grandes obras já”); a incapacidade dos dirigentes da PT de enfrentarem as loucuras dos governos, preferindo, para irem ficando, obedecer-lhes e tomar decisões erradas.E se essas são as razões concretas, a origem do problema é apenas uma: a golden share. Enquanto os governos puderem intervir, os governos intervirão. Aconteceu com o governo PSD de Santana Lopes, aconteceu agora com o PS, tinha acontecido antes com o governo PS de Guterres (em 2000 “ponderou” comprar a TVI à Media Capital através da PT). Com a golden share, o Governo pode intervir nos conteúdos. Se age como se sabe na RTP desde 1957 até 2009, fá-lo-á nos media que a PT controle. Daí que das duas uma: ou a PT não deve possuir órgãos de comunicação ou o governo não deve ter golden share. As duas em simultâneo é que não pode ser.»

Eduardo Cintra Torres, Público

O COVEIRO APOSENTA-SE


Por falar em função pública, recordei-me que, há uns tempos, na Fundação Gulbenkian, num seminário qualquer, o dr. João Figueiredo - o secretário de Estado da administração pública do admirável líder e responsável "material" por aberrações como o SIADAP, o novo regime de vínculos e carreiras da função pública ou os "disponíveis" - gabou-se das "reformas" gloriosas a que presidiu. Quando foi removido e substituído por uma pessoa improvável que pretende "trucidar" os funcionários que não "assimilem" as magníficas "reformas", Figueiredo regressou ao Tribunal de Contas (onde tinha o seu "vínculo") e, graças ao decurso do tempo (também andou por Macau, naturalmente), já se pode aposentar. Uma "aposentadoria" do Tribunal de Contas não equivale exactamente a um tipo aposentar-se como, por exemplo, coveiro de uma autarquia. Pelo contrário, Figueiredo, o coveiro da função pública (em sentido objectivo e subjectivo) é que sabe. Vejam lá se ele não sabe.

O COVEIRO APOSENTA-SE


Por falar em função pública, recordei-me que, há uns tempos, na Fundação Gulbenkian, num seminário qualquer, o dr. João Figueiredo - o secretário de Estado da administração pública do admirável líder e responsável "material" por aberrações como o SIADAP, o novo regime de vínculos e carreiras da função pública ou os "disponíveis" - gabou-se das "reformas" gloriosas a que presidiu. Quando foi removido e substituído por uma pessoa improvável que pretende "trucidar" os funcionários que não "assimilem" as magníficas "reformas", Figueiredo regressou ao Tribunal de Contas (onde tinha o seu "vínculo") e, graças ao decurso do tempo (também andou por Macau, naturalmente), já se pode aposentar. Uma "aposentadoria" do Tribunal de Contas não equivale exactamente a um tipo aposentar-se como, por exemplo, coveiro de uma autarquia. Pelo contrário, Figueiredo, o coveiro da função pública (em sentido objectivo e subjectivo) é que sabe. Vejam lá se ele não sabe.

27.6.09

CONVERSA FRANCA? - 2

De alguma forma, o admirável líder já respondeu à "conversa franca". Participou em mais umas velhas "fronteiras" da "jota" onde prometeu extravagâncias como a «criação de cinco mil estágios profissionais por ano na Administração Pública, considerando que a promoção de estágios é também uma obrigação do Estado (li aqui).» . Como é que o homem que é responsável pelo maior apoucamento da função pública de que há memória vem agora, precisamente a três meses de eleições, defender isto? Conversa franca?

CONVERSA FRANCA? - 2

De alguma forma, o admirável líder já respondeu à "conversa franca". Participou em mais umas velhas "fronteiras" da "jota" onde prometeu extravagâncias como a «criação de cinco mil estágios profissionais por ano na Administração Pública, considerando que a promoção de estágios é também uma obrigação do Estado (li aqui).» . Como é que o homem que é responsável pelo maior apoucamento da função pública de que há memória vem agora, precisamente a três meses de eleições, defender isto? Conversa franca?

CONVERSA FRANCA?

A coisa começou pelo PS de Sócrates ter de falar com Alegre. Eventualmente coligar-se com Alegre. A coisa passou. Alegre passou até às presidenciais, segundo Louçã, e até "passou a perna" aos seus. Agora, após a derrota, os socialistas lúcidos e desconfiados sugerem uma conversa franca entre o PS e o próprio Sócrates. Como é que é possível uma conversa franca entre duas entidades quando uma delas tem uma relação tão comprovadamente complicada com a verdade?

CONVERSA FRANCA?

A coisa começou pelo PS de Sócrates ter de falar com Alegre. Eventualmente coligar-se com Alegre. A coisa passou. Alegre passou até às presidenciais, segundo Louçã, e até "passou a perna" aos seus. Agora, após a derrota, os socialistas lúcidos e desconfiados sugerem uma conversa franca entre o PS e o próprio Sócrates. Como é que é possível uma conversa franca entre duas entidades quando uma delas tem uma relação tão comprovadamente complicada com a verdade?

GRANDEZA

GRANDEZA

28+51 MAIS O DR.LOUÇÃ


Depois dos "28", os "51", os "52" ou os "60" consoante a fonte. É um misto de brigada do reumático da esquerda "antiga" com a esquerda "moderna" do Holmes Place e do surf, com muito ISCTE à mistura e o dr. Louçã. Elegem o combate ao desemprego e o obreirismo (de obras, betão) "socrático" como a varinha mágica dos poderes públicos para a crise. Acusam os "28" de "posições político-ideológicas" (reaccionárias, suponho) como se as trivialidades que defendem não fossem outra coisa senão político-ideológicas. Destas múmias eternas, independentemente da idade, não há muito a esperar. O que vale é que ninguém lhes liga. O que são sessenta, setenta ou oitenta e tal almas para um país inerme e alheio a elites? Sobretudo a elites como estes "28" + "51" mais o dr. Louçã?

28+51 MAIS O DR.LOUÇÃ


Depois dos "28", os "51", os "52" ou os "60" consoante a fonte. É um misto de brigada do reumático da esquerda "antiga" com a esquerda "moderna" do Holmes Place e do surf, com muito ISCTE à mistura e o dr. Louçã. Elegem o combate ao desemprego e o obreirismo (de obras, betão) "socrático" como a varinha mágica dos poderes públicos para a crise. Acusam os "28" de "posições político-ideológicas" (reaccionárias, suponho) como se as trivialidades que defendem não fossem outra coisa senão político-ideológicas. Destas múmias eternas, independentemente da idade, não há muito a esperar. O que vale é que ninguém lhes liga. O que são sessenta, setenta ou oitenta e tal almas para um país inerme e alheio a elites? Sobretudo a elites como estes "28" + "51" mais o dr. Louçã?

O CONSELHEIRO GRANADEIRO

Ainda hoje estou para saber como é que o sr. Granadeiro foi parar a chefe da Casa Civil do Presidente Eanes. Pode ser que Eanes me explique isso no livro de entrevistas que lhe quero fazer. Dito isto, Granadeiro, "conselheiro" privilegiado do admirável líder e presidente da PT, produz vinho no Alentejo. Dele. E até o quer exportar para os EUA segundo leio no rodapé de um telejornal. O que é que isto nos interessa?

O CONSELHEIRO GRANADEIRO

Ainda hoje estou para saber como é que o sr. Granadeiro foi parar a chefe da Casa Civil do Presidente Eanes. Pode ser que Eanes me explique isso no livro de entrevistas que lhe quero fazer. Dito isto, Granadeiro, "conselheiro" privilegiado do admirável líder e presidente da PT, produz vinho no Alentejo. Dele. E até o quer exportar para os EUA segundo leio no rodapé de um telejornal. O que é que isto nos interessa?

MANIFESTAÇÕES "CULTURAIS" DA UNIÃO NACIONAL


MANIFESTAÇÕES "CULTURAIS" DA UNIÃO NACIONAL


A UNIÃO NACIONAL


Reparem nos "independentes do PSD" - é o título sui generis do "Diário de Notícias" que, julgo, ainda não é a "Acção Socialista" - com quem Sócrates conta como "grupo de reflexão": José Miguel Júdice, mandatário de António Costa em Lisboa e, de há muito, "socrático" convicto que só amuou por causa do Porto de Lisboa, o Mexia da EDP, o Carrapatoso da Vodafone e, last but not the least, o presidente da PT, o sr. Granadeiro, com quem aparentemente só fala de pastéis de bacalhau. Já nas velhas "Novas Fronteiras" (informa o mesmo jornal) vão aparecer "esquerdinos" alegadamente convictos e "cultos" como o blogger João Galamba que escreve com a D. Câncio ou uma tal Patrocínio, das revistas cor-de-rosa. A "união nacional" - a dos interesses - promete.

A UNIÃO NACIONAL


Reparem nos "independentes do PSD" - é o título sui generis do "Diário de Notícias" que, julgo, ainda não é a "Acção Socialista" - com quem Sócrates conta como "grupo de reflexão": José Miguel Júdice, mandatário de António Costa em Lisboa e, de há muito, "socrático" convicto que só amuou por causa do Porto de Lisboa, o Mexia da EDP, o Carrapatoso da Vodafone e, last but not the least, o presidente da PT, o sr. Granadeiro, com quem aparentemente só fala de pastéis de bacalhau. Já nas velhas "Novas Fronteiras" (informa o mesmo jornal) vão aparecer "esquerdinos" alegadamente convictos e "cultos" como o blogger João Galamba que escreve com a D. Câncio ou uma tal Patrocínio, das revistas cor-de-rosa. A "união nacional" - a dos interesses - promete.

DEUS O GUARDE

Logo a seguir apareceu o novo Vitalino a explicar ao país por que é que não se deve votar no PS no dia 27 de Setembro. Até se lembrou da classe média, algo que, com método e precisão cirúrgica, a coisa de que ele é porta-voz tem vindo a destruir. Deus o guarde.

DEUS O GUARDE

Logo a seguir apareceu o novo Vitalino a explicar ao país por que é que não se deve votar no PS no dia 27 de Setembro. Até se lembrou da classe média, algo que, com método e precisão cirúrgica, a coisa de que ele é porta-voz tem vindo a destruir. Deus o guarde.

DIA 27 DE SETEMBRO, NO PAÍS


Só uma nota. O país dispensa criaturas como Aguiar-Branco que aparece sempre como o Vitalino do PSD.

DIA 27 DE SETEMBRO, NO PAÍS


Só uma nota. O país dispensa criaturas como Aguiar-Branco que aparece sempre como o Vitalino do PSD.

NÓS, DESCONFIADOS


Hoje, na revista Nós do "i", um texto sobre nós, portugueses, enquanto desconfiados. «Não dar as costas à porta.»

NÓS, DESCONFIADOS


Hoje, na revista Nós do "i", um texto sobre nós, portugueses, enquanto desconfiados. «Não dar as costas à porta.»

26.6.09

AOS POUCOS



Paulo Tunhas fala em nave de loucos a propósito das reviravoltas governamentais em torno do "negócio" da semana que, afinal, já vinha de Janeiro. É mais um upgrade naquela relação difícil com a verdade que, aos poucos, o país vai conhecendo. Resta saber - com os calores e coisas do género - se está mesmo interessado em conhecer. Como diziam os anarquistas, os que obedecem mantêm os que mandam.

AOS POUCOS



Paulo Tunhas fala em nave de loucos a propósito das reviravoltas governamentais em torno do "negócio" da semana que, afinal, já vinha de Janeiro. É mais um upgrade naquela relação difícil com a verdade que, aos poucos, o país vai conhecendo. Resta saber - com os calores e coisas do género - se está mesmo interessado em conhecer. Como diziam os anarquistas, os que obedecem mantêm os que mandam.

VIVER DE QUÊ?

«Este país vai viver de TGV's e de Ronaldos...?», pergunta Medina Carreira diante de Mário Crespo. E define bem os "comentadores": «conversa de café, de taberna... nem sei se é de Júlio de Matos.»

VIVER DE QUÊ?

«Este país vai viver de TGV's e de Ronaldos...?», pergunta Medina Carreira diante de Mário Crespo. E define bem os "comentadores": «conversa de café, de taberna... nem sei se é de Júlio de Matos.»

DIA 11 DE OUTUBRO, EM LISBOA

DIA 11 DE OUTUBRO, EM LISBOA

DO DOSSIÊ FLAMINGO AO DOSSIÊ "ROQUE SANTEIRO"


«O Secretário de Estado de então, com competências delegadas, foi chamado como testemunha. Contudo, de acordo com o que se sabe e fazendo fé nas palavras do Primeiro Ministro, foi o próprio José Sócrates que, enquanto ministro e após telefonema do seu tio, participou na gestão deste processo. Por que é que ainda não terá sido ouvido como testemunha?» (Tiago Mota Saraiva, 5dias)

DO DOSSIÊ FLAMINGO AO DOSSIÊ "ROQUE SANTEIRO"


«O Secretário de Estado de então, com competências delegadas, foi chamado como testemunha. Contudo, de acordo com o que se sabe e fazendo fé nas palavras do Primeiro Ministro, foi o próprio José Sócrates que, enquanto ministro e após telefonema do seu tio, participou na gestão deste processo. Por que é que ainda não terá sido ouvido como testemunha?» (Tiago Mota Saraiva, 5dias)

O PRETTY BOY NO SEU LABIRINTO

Não há outra maneira de dizer isto. Cavaco e Ferreira Leite obrigaram o admirável líder a "recordar-se" da "golden share" do Estado na PT. Manso, Sócrates deu o dito por não dito, o que lhe deve ter custado uns quantos cigarros fumados às escondidas. Segue-se aparentemente a Cofina. Mas isso são outros negócios.

O PRETTY BOY NO SEU LABIRINTO

Não há outra maneira de dizer isto. Cavaco e Ferreira Leite obrigaram o admirável líder a "recordar-se" da "golden share" do Estado na PT. Manso, Sócrates deu o dito por não dito, o que lhe deve ter custado uns quantos cigarros fumados às escondidas. Segue-se aparentemente a Cofina. Mas isso são outros negócios.

RAPAR O TACHO

O "centrão" foi ao respectivo baú buscar o venerando Alfredo de Sousa - que antecedeu Oliveira Martins no Tribunal de Contas - para Provedor de Justiça. O homem, como lhe compete, é daquelas pessoas que não aquecem nem arrefecem. Não se distinguiu particularmente nas funções anteriores que desempenhou como um mediano funcionário público. Calhou-lhe este regime como lhe podia ter calhado outro qualquer. O "consenso" provoca situações e pessoas destas. Jorge Miranda ou Maria da Glória Garcia eram, sem malícia, bem melhores do que Alfredo de Sousa. É nestas coisas que os partidos do "rotativismo" se perdem. Se eu fosse deputado, no dia da votação ia para a praia.

RAPAR O TACHO

O "centrão" foi ao respectivo baú buscar o venerando Alfredo de Sousa - que antecedeu Oliveira Martins no Tribunal de Contas - para Provedor de Justiça. O homem, como lhe compete, é daquelas pessoas que não aquecem nem arrefecem. Não se distinguiu particularmente nas funções anteriores que desempenhou como um mediano funcionário público. Calhou-lhe este regime como lhe podia ter calhado outro qualquer. O "consenso" provoca situações e pessoas destas. Jorge Miranda ou Maria da Glória Garcia eram, sem malícia, bem melhores do que Alfredo de Sousa. É nestas coisas que os partidos do "rotativismo" se perdem. Se eu fosse deputado, no dia da votação ia para a praia.

DOS PROBLEMAS

Dá-me ideia que "o problema" é mais teu do que de Manuela. É mesmo (e o mesmo) velho problema "contra" Manuela a que, pelos vistos, o eleitorado que votou a 7 de Junho não ligou pevide. Um dos cursos de Foucault no Collège de France é dedicado à biopolítica. Como então se estava ainda longe de tanta tagarelice "liberal" e como o curso permanece tão verdadeiro. Aquilo é que era, na verdadeira acepção da palavra, problema algo que é sempre mais relevante do que a resposta. O resto são tretas de circunstância.

DOS PROBLEMAS

Dá-me ideia que "o problema" é mais teu do que de Manuela. É mesmo (e o mesmo) velho problema "contra" Manuela a que, pelos vistos, o eleitorado que votou a 7 de Junho não ligou pevide. Um dos cursos de Foucault no Collège de France é dedicado à biopolítica. Como então se estava ainda longe de tanta tagarelice "liberal" e como o curso permanece tão verdadeiro. Aquilo é que era, na verdadeira acepção da palavra, problema algo que é sempre mais relevante do que a resposta. O resto são tretas de circunstância.

O FRACASSO ESSENCIAL


«As classes médias, que já não precisavam de poupar para a velhice e para a doença, ou para a instrução dos filhos, ficavam com um rendimento disponível, que, como é natural, usaram para "consumir" o que julgavam que a "Europa" consumia. Infelizmente, pouco a pouco a situação mudou ou, se quiserem, a sua intrínseca fraqueza (a penúria atávica de Portugal) acabou por se revelar. Hoje o desemprego aumenta dia a dia; Sócrates limitou e reduziu as pensões de reforma; os serviços de saúde (subfinanciados) não conseguem tratar em tempo útil uma parte considerável da população; e o ensino não passa de uma fraude irreformável e caríssima. Pior ainda, e antes de mais nada, o fisco é hoje pura e simplesmente punitivo. O Estado não cumpriu o contrato com as classes médias, que vinha do princípio da democracia. Votar em Sócrates, como por aí se aconselha, não esconde, ou alivia, esse fracasso essencial.»

Vasco Pulido Valente, Público

O FRACASSO ESSENCIAL


«As classes médias, que já não precisavam de poupar para a velhice e para a doença, ou para a instrução dos filhos, ficavam com um rendimento disponível, que, como é natural, usaram para "consumir" o que julgavam que a "Europa" consumia. Infelizmente, pouco a pouco a situação mudou ou, se quiserem, a sua intrínseca fraqueza (a penúria atávica de Portugal) acabou por se revelar. Hoje o desemprego aumenta dia a dia; Sócrates limitou e reduziu as pensões de reforma; os serviços de saúde (subfinanciados) não conseguem tratar em tempo útil uma parte considerável da população; e o ensino não passa de uma fraude irreformável e caríssima. Pior ainda, e antes de mais nada, o fisco é hoje pura e simplesmente punitivo. O Estado não cumpriu o contrato com as classes médias, que vinha do princípio da democracia. Votar em Sócrates, como por aí se aconselha, não esconde, ou alivia, esse fracasso essencial.»

Vasco Pulido Valente, Público

A DERROTA DO PENSAMENTO



As televisões e o resto na morte de Michael Jackson. We are the world, we are the children.

A DERROTA DO PENSAMENTO



As televisões e o resto na morte de Michael Jackson. We are the world, we are the children.

25.6.09

FOUCAULT OU O OLHAR RETROSPECTIVO SOBRE A VIDA

Falhou, por manifesta falta de comparência dos leitores (com uma honrosa excepção), a minha "ideia" de celebrar Foucault. O que me leva a perguntar se vale a pena comemorar Foucault, vinte e cinco anos após a sua morte. Maurice Blanchot chamava-lhe «um homem em perigo» e um «solitário». Perigo, enquanto homem Michel Foucault, o "amigo que (anos mais tarde) não me (a Hervé Guibert) salvou a vida". Perigo enquanto filósofo ocupado com o "cuidado de si", a única verdadeira preocupação da filosofia: cura sui ou epimeleïa heautou. Com os "discursos verdadeiros" e "racionais", os logoï : «são eles que nos permitem enfrentar o real.» Homens assim estão permanentemente na sombra da vida e da morte, iluminando-as. Não são, pela natureza deles e pela nossa, comemoráveis. Os cerca de doze anos de cursos (a "história dos sistemas de pensamento") no Collège de France constituem o Foucault essencial. A primeira lição, proferida a 2 de Dezembro de 1970, já introduz o "solitário homem em perigo". Foucault disse aí aos seus alunos que gostaria de se «insinuar subrepticiamente no discurso» que ia proferir naquele dia «e nos que deverei pronunciar aqui talvez durante dez anos.» Foram mais dois. A doença não lhe permitiu muito mais. Depois de escritos alguns dos mais tortuosos (porque geniais) parágrafos da sua (nossa?) filosofia, Foucault largava tudo para entrar perigosamente na "noite do mundo". O Outro, afinal, era um simples outro qualquer, a vida e morte juntas num só enunciado. «O que constitui o valor particular da meditação sobre a morte não é somente que ela antecipa aquilo que a opinião, em geral, representa como a maior das desgraças. Não é somente por permitir que nos convençamos que a morte não é um mal. É que ela oferece a possibilidade de lançar, digamos, por antecipação, um olhar retrospectivo sobre a própria vida.»

FOUCAULT OU O OLHAR RETROSPECTIVO SOBRE A VIDA

Falhou, por manifesta falta de comparência dos leitores (com uma honrosa excepção), a minha "ideia" de celebrar Foucault. O que me leva a perguntar se vale a pena comemorar Foucault, vinte e cinco anos após a sua morte. Maurice Blanchot chamava-lhe «um homem em perigo» e um «solitário». Perigo, enquanto homem Michel Foucault, o "amigo que (anos mais tarde) não me (a Hervé Guibert) salvou a vida". Perigo enquanto filósofo ocupado com o "cuidado de si", a única verdadeira preocupação da filosofia: cura sui ou epimeleïa heautou. Com os "discursos verdadeiros" e "racionais", os logoï : «são eles que nos permitem enfrentar o real.» Homens assim estão permanentemente na sombra da vida e da morte, iluminando-as. Não são, pela natureza deles e pela nossa, comemoráveis. Os cerca de doze anos de cursos (a "história dos sistemas de pensamento") no Collège de France constituem o Foucault essencial. A primeira lição, proferida a 2 de Dezembro de 1970, já introduz o "solitário homem em perigo". Foucault disse aí aos seus alunos que gostaria de se «insinuar subrepticiamente no discurso» que ia proferir naquele dia «e nos que deverei pronunciar aqui talvez durante dez anos.» Foram mais dois. A doença não lhe permitiu muito mais. Depois de escritos alguns dos mais tortuosos (porque geniais) parágrafos da sua (nossa?) filosofia, Foucault largava tudo para entrar perigosamente na "noite do mundo". O Outro, afinal, era um simples outro qualquer, a vida e morte juntas num só enunciado. «O que constitui o valor particular da meditação sobre a morte não é somente que ela antecipa aquilo que a opinião, em geral, representa como a maior das desgraças. Não é somente por permitir que nos convençamos que a morte não é um mal. É que ela oferece a possibilidade de lançar, digamos, por antecipação, um olhar retrospectivo sobre a própria vida.»