30.4.10

ESTA "REFLEXÃO"

Resume perfeitamente o estado a que chegou o batatal.

ESTA "REFLEXÃO"

Resume perfeitamente o estado a que chegou o batatal.

PERFEIÇÃO



Para desenjoar desta porcaria que somos nós, hoje, aqui, nesta abjecçao colectiva de seu nome Portugal, Maria Callas. Bellini, Norma.

PERFEIÇÃO



Para desenjoar desta porcaria que somos nós, hoje, aqui, nesta abjecçao colectiva de seu nome Portugal, Maria Callas. Bellini, Norma.

O AMIGO DE PENICHE

Às tantas, no meio do pseudo-debate parlamentar quinzenal, Sócrates puxou da tora passoscoelhista, o livrinho Mudar, para nele se louvar das suas magníficas obras públicas tipo TGV, aeroportos e auto-estradas. Talvez Passos e os seus lúcidos conselheiros comecem agora a perceber com quem é que se meteram.

O AMIGO DE PENICHE

Às tantas, no meio do pseudo-debate parlamentar quinzenal, Sócrates puxou da tora passoscoelhista, o livrinho Mudar, para nele se louvar das suas magníficas obras públicas tipo TGV, aeroportos e auto-estradas. Talvez Passos e os seus lúcidos conselheiros comecem agora a perceber com quem é que se meteram.

HONORIS POIA

O lesma Guterres vai receber um doutoramento honoris causa na "universidade" da Beira Interior que deve ter sido coisa inventada por ele e pelo inexistente Gago.* Assiste esse emérito ex-aluno universitário que dá pelo nome de José Sócrates. Tais coisas, honoris causa, até a ratos podem ser atribuídos porque não alteram o curso da natureza. Porém, os que lho vão dar, farão a menor ideia do que representou, para o país que o pariu, o exercício da criatura enquanto chefe de governo, descontando o brilhantismo de mona que nem a ele, por cá, de alguma coisa serviu?

*segundo comentário, data de 1979, prévia, portanto, ao Gago e ao homenageado. Imagino que seja uma "grande" universidade da mesma maneira que tudo é grande em Portugal.

HONORIS POIA

O lesma Guterres vai receber um doutoramento honoris causa na "universidade" da Beira Interior que deve ter sido coisa inventada por ele e pelo inexistente Gago.* Assiste esse emérito ex-aluno universitário que dá pelo nome de José Sócrates. Tais coisas, honoris causa, até a ratos podem ser atribuídos porque não alteram o curso da natureza. Porém, os que lho vão dar, farão a menor ideia do que representou, para o país que o pariu, o exercício da criatura enquanto chefe de governo, descontando o brilhantismo de mona que nem a ele, por cá, de alguma coisa serviu?

*segundo comentário, data de 1979, prévia, portanto, ao Gago e ao homenageado. Imagino que seja uma "grande" universidade da mesma maneira que tudo é grande em Portugal.

A "AGENDA"

Estive a "folhear" a agenda do Presidente da República enquanto Portugal se afunda na auto-ilusão. Recebeu a "comissão do 10 de Junho" - meia dúzia de inutilidades que preparam outra inutilidade -, arrostou o fardo do homem branco atrás do presidente de Moçambique e respectiva tropa fandanga e prepara um fim de semana dedicado a provadores de vinho e à machona Ovibeja. Em que país vive, afinal, Cavaco?

A "AGENDA"

Estive a "folhear" a agenda do Presidente da República enquanto Portugal se afunda na auto-ilusão. Recebeu a "comissão do 10 de Junho" - meia dúzia de inutilidades que preparam outra inutilidade -, arrostou o fardo do homem branco atrás do presidente de Moçambique e respectiva tropa fandanga e prepara um fim de semana dedicado a provadores de vinho e à machona Ovibeja. Em que país vive, afinal, Cavaco?

POLÍTICA CADAVEROSA


«O que Sócrates nos deve é - não exagero - imensurável. Não há maneira de resolver nenhum problema de Portugal, financeiro ou outro, com este Governo e o pessoal que ele atraiu ou contratou. Desde a Monarquia Constitucional à I República, a história está cheia dos cadáveres de quem nos levou ao desespero e à humilhação por que hoje passamos. Quem não acredita que leia quatro eminentes ministros das Finanças. Gente com experiência e alguma presuntiva sabedoria. Um deles (ministro de Sócrates) acha, literalmente, que precisamos de rezar, e muito. Braga de Macedo confessa com franqueza que não existe uma receita certa para evitar, ou afastar, uma "crise especulativa". Bagão Félix (ministro de Santana) pede o fim expedito dos "paninhos quentes". Catroga também. E só o inefável Pina Moura, embora manifestamente a custo, consegue dar ainda um arzinho do optimismo oficial. Os jornais parecem um muro de lamentações. Mesmo os políticos, com razão, já não se atrevem a abrir a boca. Esperemos que Passos Coelho, como ele prometeu, faça de facto o que for necessário, com dureza e com pressa. Não é justo que Portugal caia pouco a pouco na miséria e no medo.» Até aqui é Pulido Valente no Público. Sucede que Passos Coelho regrediu para aí uns vinte e sete anos e veio com a conversa dos certificados de aforro para substituir remunerações, uma coisa que aconteceu ainda Portugal não estava na Europa, não havia euro e havia, sobretudo, FMI e o dr. Soares que sempre tinha outro prestígio que estes neófitos não têm. Para já, o que Passos pode fazer com a "ideia" é limpar-lhe o rabinho ou esperar uma monumental desordem geral.

POLÍTICA CADAVEROSA


«O que Sócrates nos deve é - não exagero - imensurável. Não há maneira de resolver nenhum problema de Portugal, financeiro ou outro, com este Governo e o pessoal que ele atraiu ou contratou. Desde a Monarquia Constitucional à I República, a história está cheia dos cadáveres de quem nos levou ao desespero e à humilhação por que hoje passamos. Quem não acredita que leia quatro eminentes ministros das Finanças. Gente com experiência e alguma presuntiva sabedoria. Um deles (ministro de Sócrates) acha, literalmente, que precisamos de rezar, e muito. Braga de Macedo confessa com franqueza que não existe uma receita certa para evitar, ou afastar, uma "crise especulativa". Bagão Félix (ministro de Santana) pede o fim expedito dos "paninhos quentes". Catroga também. E só o inefável Pina Moura, embora manifestamente a custo, consegue dar ainda um arzinho do optimismo oficial. Os jornais parecem um muro de lamentações. Mesmo os políticos, com razão, já não se atrevem a abrir a boca. Esperemos que Passos Coelho, como ele prometeu, faça de facto o que for necessário, com dureza e com pressa. Não é justo que Portugal caia pouco a pouco na miséria e no medo.» Até aqui é Pulido Valente no Público. Sucede que Passos Coelho regrediu para aí uns vinte e sete anos e veio com a conversa dos certificados de aforro para substituir remunerações, uma coisa que aconteceu ainda Portugal não estava na Europa, não havia euro e havia, sobretudo, FMI e o dr. Soares que sempre tinha outro prestígio que estes neófitos não têm. Para já, o que Passos pode fazer com a "ideia" é limpar-lhe o rabinho ou esperar uma monumental desordem geral.

A BOLA OU O ESTADO DE NEGAÇÃO NACIONAL


«O objectivo é manter os cidadãos entretidos com a bola e seus clubes "maiores", para não se lembrarem da crise e do Governo que nos pôs nela. Balzac dizia em 1834 que, se não fosse pelas tabernas, o Governo seria derrubado em França todas as terças-feiras. Hoje é o mesmo. Sem o futebol na televisão, este Governo cairia todas as terças-feiras.» Até aqui é Eduardo Cintra Torres, no Público. Sem o futebol na televisão, os portugueses seriam confrontados, no recato dos seus lares infelizes, com eles mesmos e com a mediocridade geral da pátria para a qual contribuem simultaneamente como vítimas e carrascos. A bola mantém o estado de negação nacional e conforta a mais recente dupla salvífica (quantas covas e jazigos não estão cheios delas!), Sócrates e Passos, Passos e Sócrates. E assim sucessivamente.

A BOLA OU O ESTADO DE NEGAÇÃO NACIONAL


«O objectivo é manter os cidadãos entretidos com a bola e seus clubes "maiores", para não se lembrarem da crise e do Governo que nos pôs nela. Balzac dizia em 1834 que, se não fosse pelas tabernas, o Governo seria derrubado em França todas as terças-feiras. Hoje é o mesmo. Sem o futebol na televisão, este Governo cairia todas as terças-feiras.» Até aqui é Eduardo Cintra Torres, no Público. Sem o futebol na televisão, os portugueses seriam confrontados, no recato dos seus lares infelizes, com eles mesmos e com a mediocridade geral da pátria para a qual contribuem simultaneamente como vítimas e carrascos. A bola mantém o estado de negação nacional e conforta a mais recente dupla salvífica (quantas covas e jazigos não estão cheios delas!), Sócrates e Passos, Passos e Sócrates. E assim sucessivamente.

«NUNCA VI PARIS CONTIGO DENTRO»


Vi Roma a arder, e neros vários
bronzeados à luz da califórnia
guardar em naftalina nos armários
timidamente, a lira babilónia;
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em nuvem e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.



António Franco Alexandre, Duende

«NUNCA VI PARIS CONTIGO DENTRO»


Vi Roma a arder, e neros vários
bronzeados à luz da califórnia
guardar em naftalina nos armários
timidamente, a lira babilónia;
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em nuvem e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.



António Franco Alexandre, Duende

29.4.10

O ENTERTAINER CAMARÁRIO

António Costa, um tipo que mal sabe tratar da intendência de uma miserável câmara, pretende dar lições de economia e finanças europeias enquanto mero entertainer televisivo. Os outros três bonzos que o comprem e o dr. Balsemão que lhe pague que não tenho troco para tagarelas.

O ENTERTAINER CAMARÁRIO

António Costa, um tipo que mal sabe tratar da intendência de uma miserável câmara, pretende dar lições de economia e finanças europeias enquanto mero entertainer televisivo. Os outros três bonzos que o comprem e o dr. Balsemão que lhe pague que não tenho troco para tagarelas.

AS RAZÕES DO PAPA


Venho do lançamento do livro da Aura Miguel sobre Bento XVI. Marcelo, um católico optimista, apresentou. Revi amigos sem data nem marcações prévias como o João Seabra e o João Amaral, da editora, de quem partiu a ideia do livro. A Aura é jornalista de profissão e a única que acompanha as viagens papais com estatuto de "vaticanista". Neste sentido, a Aura é atípica da monomania jacobinóide e materialista que tomou conta da quase totalidade dos media e que só serve, afinal, para revelar analfabetismos funcionais, ignorâncias várias e preconceitos chiques. A maior parte dos que escrevem contra Ratzinger são burros e burras simples. Sucede que a mensagem deste Papa é demasiado elementar na sua aparente complexidade. É, aliás, a única mensagem verosímil da Igreja neste tempo - uma mensagem radical, altamente exigente, como recordou Marcelo. Porque, nesta Europa secularizada, nós, católicos, somos uma minoria apesar das estatísticas, coisa que Bento XVI não se cansa tranquilamente de repetir diante de uma pessoa ou de milhões delas. A Aura falou de um Papa que aí vem que nos quer inteligentes precisamente porque a fé, na razão, acrescenta vida à vida. Este livrinho de menos de cem páginas ajuda a perceber porquê. (Nota: amanhã, dia 30, o livro é apresentado na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto, às 19h00, por D. Manuel Clemente)

AS RAZÕES DO PAPA


Venho do lançamento do livro da Aura Miguel sobre Bento XVI. Marcelo, um católico optimista, apresentou. Revi amigos sem data nem marcações prévias como o João Seabra e o João Amaral, da editora, de quem partiu a ideia do livro. A Aura é jornalista de profissão e a única que acompanha as viagens papais com estatuto de "vaticanista". Neste sentido, a Aura é atípica da monomania jacobinóide e materialista que tomou conta da quase totalidade dos media e que só serve, afinal, para revelar analfabetismos funcionais, ignorâncias várias e preconceitos chiques. A maior parte dos que escrevem contra Ratzinger são burros e burras simples. Sucede que a mensagem deste Papa é demasiado elementar na sua aparente complexidade. É, aliás, a única mensagem verosímil da Igreja neste tempo - uma mensagem radical, altamente exigente, como recordou Marcelo. Porque, nesta Europa secularizada, nós, católicos, somos uma minoria apesar das estatísticas, coisa que Bento XVI não se cansa tranquilamente de repetir diante de uma pessoa ou de milhões delas. A Aura falou de um Papa que aí vem que nos quer inteligentes precisamente porque a fé, na razão, acrescenta vida à vida. Este livrinho de menos de cem páginas ajuda a perceber porquê. (Nota: amanhã, dia 30, o livro é apresentado na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto, às 19h00, por D. Manuel Clemente)

O REMAKE DE LINO

O ministro das finanças está certo quando defende a reavaliação da megalomania betoneira palonça. O ministro-sombra de Mário Lino está errado. Noutros tempos, o ministro das finanças mandava, como deveria mandar na presente situação. O ministro-sombra de Lino, ao insistir no powerpoint propagandístico, não percebe que está a comprometer a hipótese de qualquer "sucesso" social de eventuais medidas de "contenção" que venham a ser tomadas. O dr. Mendonça é a prova viva de que só o bom ar não chega.

O REMAKE DE LINO

O ministro das finanças está certo quando defende a reavaliação da megalomania betoneira palonça. O ministro-sombra de Mário Lino está errado. Noutros tempos, o ministro das finanças mandava, como deveria mandar na presente situação. O ministro-sombra de Lino, ao insistir no powerpoint propagandístico, não percebe que está a comprometer a hipótese de qualquer "sucesso" social de eventuais medidas de "contenção" que venham a ser tomadas. O dr. Mendonça é a prova viva de que só o bom ar não chega.

PASSOS E O SEU DUPLO

Este Passos é o mesmo Passos dos salamaleques regimentais de ontem?

PASSOS E O SEU DUPLO

Este Passos é o mesmo Passos dos salamaleques regimentais de ontem?

«VERSOS A UMA CABRINHA QUE EU TIVE»

Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.

Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.

Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.

De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.

Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.

E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo
Equilibrado.


Vitorino Nemésio, Eu, comovido a oeste (1940)

«VERSOS A UMA CABRINHA QUE EU TIVE»

Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.

Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.

Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.

De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.

Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.

E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo
Equilibrado.


Vitorino Nemésio, Eu, comovido a oeste (1940)

AS ILUSÕES DA TRANSPARÊNCIA



«De onde vem este fascínio pela transparência? Ele decorre da convergência de três factores: em primeiro lugar, da generalização da infidelidade que acompanha a desenvolta afirmação do individualismo moderno, que sacudiu todas as fidelidades tradicionais, sejam elas ideológicas ou amorosas, religiosas ou políticas. Depois, da "pipolização" mediática, que consagrou na prática o voyeurismo como um direito de saber tudo, transformando assim automaticamente todo o segredo em algo de suspeito. E, por fim, da desafeição dos cidadãos em relação à democracia representativa, em geral vista como indiferente em relação aos seus problemas mais prementes. O fascínio pela transparência vem de que, em todos estes casos, ela compensa um défice de confiança. Mas essa compensação é ilusória porque, ao contrário do que tantas vezes se diz, só há confiança quando, justamente, há segredo. É precisamente o facto de não se saber tudo - na amizade, nos negócios, na política, etc. - que dá sentido à confiança. Confiar é, sempre, acreditar para lá do que se sabe*. O que acontece num mundo em que a fidelidade se tornou descartável e em que a inconstância se transformou num valor social positivo é que a transparência emerge como a mais consoladora - mas também, talvez, a mais enganadora - das respostas às mais variadas formas de desconfiança que atormentam os cidadãos, quer elas se traduzam em insegurança ou em ciúme, em inveja ou em suspeita, em cólera ou em revolta. A força da transparência vem, em boa parte, do que ela esconde: é quando a sociedade da desconfiança triunfa que a exigência de transparência mais se impõe. É por isso que é necessário valorizar o segredo pessoal, a reserva social e a confidencialidade política. Mas fazê-lo ligando esse esforço a uma inequívoca afirmação da responsabilidade, que deve ser feita, mais de informação do que de manipulação, mais de humildade do que de prepotência, mais de respostas do que de escutas. A revitalização da responsabilidade é o único antídoto eficaz para as patologias da transparência.»

*Como algúem inequivocamente do campo do pessimismo antropológico, e ao contrário do autor, desconfio sempre para além daquilo que sei. E mesmo daquilo que sei desconfio.

AS ILUSÕES DA TRANSPARÊNCIA



«De onde vem este fascínio pela transparência? Ele decorre da convergência de três factores: em primeiro lugar, da generalização da infidelidade que acompanha a desenvolta afirmação do individualismo moderno, que sacudiu todas as fidelidades tradicionais, sejam elas ideológicas ou amorosas, religiosas ou políticas. Depois, da "pipolização" mediática, que consagrou na prática o voyeurismo como um direito de saber tudo, transformando assim automaticamente todo o segredo em algo de suspeito. E, por fim, da desafeição dos cidadãos em relação à democracia representativa, em geral vista como indiferente em relação aos seus problemas mais prementes. O fascínio pela transparência vem de que, em todos estes casos, ela compensa um défice de confiança. Mas essa compensação é ilusória porque, ao contrário do que tantas vezes se diz, só há confiança quando, justamente, há segredo. É precisamente o facto de não se saber tudo - na amizade, nos negócios, na política, etc. - que dá sentido à confiança. Confiar é, sempre, acreditar para lá do que se sabe*. O que acontece num mundo em que a fidelidade se tornou descartável e em que a inconstância se transformou num valor social positivo é que a transparência emerge como a mais consoladora - mas também, talvez, a mais enganadora - das respostas às mais variadas formas de desconfiança que atormentam os cidadãos, quer elas se traduzam em insegurança ou em ciúme, em inveja ou em suspeita, em cólera ou em revolta. A força da transparência vem, em boa parte, do que ela esconde: é quando a sociedade da desconfiança triunfa que a exigência de transparência mais se impõe. É por isso que é necessário valorizar o segredo pessoal, a reserva social e a confidencialidade política. Mas fazê-lo ligando esse esforço a uma inequívoca afirmação da responsabilidade, que deve ser feita, mais de informação do que de manipulação, mais de humildade do que de prepotência, mais de respostas do que de escutas. A revitalização da responsabilidade é o único antídoto eficaz para as patologias da transparência.»

*Como algúem inequivocamente do campo do pessimismo antropológico, e ao contrário do autor, desconfio sempre para além daquilo que sei. E mesmo daquilo que sei desconfio.

28.4.10

O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL (REFODIDO)


O sentimento de injustiça social visto por um socialista que não é socraticamente ceguinho. Dito isto, Passos terá exigido a Sócrates a revisão das megalomanias ferroviárias, das barragens, dos aeroportos e de demais merdas propagandísticas ditas de "investimento público" ou apenas posou para a fotografia do respeitinho patrioteiro porque sim e porque usa um penteado diferente do da dra. Ferreira Leite e tem a mania que é liberal ?

O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL (REFODIDO)


O sentimento de injustiça social visto por um socialista que não é socraticamente ceguinho. Dito isto, Passos terá exigido a Sócrates a revisão das megalomanias ferroviárias, das barragens, dos aeroportos e de demais merdas propagandísticas ditas de "investimento público" ou apenas posou para a fotografia do respeitinho patrioteiro porque sim e porque usa um penteado diferente do da dra. Ferreira Leite e tem a mania que é liberal ?

«ISTO DURA ENQUANTO SE PUXA. MAS DEPOIS CAI E VOLTA TUDO ATRÁS»


Há 121 anos nascia o Doutor Salazar, como recordou um leitor. Ressuscitasse ele hoje, aqui e agora e, no mínimo, morreria imediatamente de susto. Disse a Franco Nogueira, quase no fim, que isto "estava bom para safados". Vê-se.

«ISTO DURA ENQUANTO SE PUXA. MAS DEPOIS CAI E VOLTA TUDO ATRÁS»


Há 121 anos nascia o Doutor Salazar, como recordou um leitor. Ressuscitasse ele hoje, aqui e agora e, no mínimo, morreria imediatamente de susto. Disse a Franco Nogueira, quase no fim, que isto "estava bom para safados". Vê-se.

FARSA

Agora com som, verifico tratar-se de uma pequena farsa para consumo mediático com a qual Sócrates "enfiou" Passos no bolso do fatinho escorreito. Já tinha feito o mesmo a Mendes com o "pacto da justiça" cujos resultados estão à vista. Também observei um presidente de banco a botar faladura sugestiva acerca de um "PEC2" e outro a decretar que "acabou a brincadeira" sem especificar se se estava a referir ao banco dele, particularmente dado à paródia. Com gente desta, para não falar da raça "em si", Portugal merece tudo o que de mau lhe vier a acontecer. É gente amoral que é bem diferente de ser imoral. Deve, pois, ser a tal "Hora" de que falava Pessoa em Mensagem, notoriamente a pensar noutra coisa, numa grandeza qualquer sempre por vir.

FARSA

Agora com som, verifico tratar-se de uma pequena farsa para consumo mediático com a qual Sócrates "enfiou" Passos no bolso do fatinho escorreito. Já tinha feito o mesmo a Mendes com o "pacto da justiça" cujos resultados estão à vista. Também observei um presidente de banco a botar faladura sugestiva acerca de um "PEC2" e outro a decretar que "acabou a brincadeira" sem especificar se se estava a referir ao banco dele, particularmente dado à paródia. Com gente desta, para não falar da raça "em si", Portugal merece tudo o que de mau lhe vier a acontecer. É gente amoral que é bem diferente de ser imoral. Deve, pois, ser a tal "Hora" de que falava Pessoa em Mensagem, notoriamente a pensar noutra coisa, numa grandeza qualquer sempre por vir.

UNA VOCE POCO FA


A ministra Canavilhas decidiu - e bem - varrer o director artístico do São Carlos e a direcção da OPART. Mas não chega. Jorge Salavisa, que vai presidir a esta última, não pode manter os restantes membros sob pena de a coisa se ficar pelo make up. Conheço Salavisa há muitos anos e, por isso mesmo, só lhe posso desejar venturas e lonjuras de certa parasitagem permanente que pulula na cultura como piolhos. As tutelas passam e eles, quais lêndeas (bicho pior que o piolho), ficam. Quanto ao director artístico convidado, um maestro britânico, não sei quem é. Preferia o regresso de Pinamonti. Ver-se-á.

UNA VOCE POCO FA


A ministra Canavilhas decidiu - e bem - varrer o director artístico do São Carlos e a direcção da OPART. Mas não chega. Jorge Salavisa, que vai presidir a esta última, não pode manter os restantes membros sob pena de a coisa se ficar pelo make up. Conheço Salavisa há muitos anos e, por isso mesmo, só lhe posso desejar venturas e lonjuras de certa parasitagem permanente que pulula na cultura como piolhos. As tutelas passam e eles, quais lêndeas (bicho pior que o piolho), ficam. Quanto ao director artístico convidado, um maestro britânico, não sei quem é. Preferia o regresso de Pinamonti. Ver-se-á.

CADA MACACO EM SEU GALHO

Ao almoço, diante de mim, num "lcd" sem som, surgem Passos e Sócrates não necessariamente por esta ordem. Imagino que estivessem a decretar a salvação da pátria. Pelos salamaleques mútuos, dir-se-ia que disputavam a primazia nas joelheiras. Cheguei a ter saudades momentâneas de cena parecida entre o Prof. Mota Pinto e o dr. Mário Soares. Sempre eram gente. Todavia, há virtude política no exercício. O dr. Portas falou do Caldas e os outros dois falavam de São Bento. Cada macaco em seu galho.

Adenda: A "cena", em versão "Iô Pan! Iô Pã" e "pão de ló molhado em malvasia", pode ser lida aqui com ilustração a condizer.

CADA MACACO EM SEU GALHO

Ao almoço, diante de mim, num "lcd" sem som, surgem Passos e Sócrates não necessariamente por esta ordem. Imagino que estivessem a decretar a salvação da pátria. Pelos salamaleques mútuos, dir-se-ia que disputavam a primazia nas joelheiras. Cheguei a ter saudades momentâneas de cena parecida entre o Prof. Mota Pinto e o dr. Mário Soares. Sempre eram gente. Todavia, há virtude política no exercício. O dr. Portas falou do Caldas e os outros dois falavam de São Bento. Cada macaco em seu galho.

Adenda: A "cena", em versão "Iô Pan! Iô Pã" e "pão de ló molhado em malvasia", pode ser lida aqui com ilustração a condizer.

«CLAREZA»


Este, que debandou como Barroso, e que ficou conhecido entre os seus pela sua presciente "clareza" (a falar era-o, de facto, e pouco mais), vem agora também dar um arzinho da sua falta de graça. O bonzinho Guterres representou- é preciso repetir a coisa à exaustão - o princípio do descalabro que já leva quinze anos. Teve dinheiro e Sousa Franco no primeiro mandato e, em 99, a um deputado da maioria absoluta, "desligou". Não tem a menor autoridade para falar de falta de clareza alheia. Que tome conta do seus famélicos que nós por cá todos mal, também, graças a si.

«CLAREZA»


Este, que debandou como Barroso, e que ficou conhecido entre os seus pela sua presciente "clareza" (a falar era-o, de facto, e pouco mais), vem agora também dar um arzinho da sua falta de graça. O bonzinho Guterres representou- é preciso repetir a coisa à exaustão - o princípio do descalabro que já leva quinze anos. Teve dinheiro e Sousa Franco no primeiro mandato e, em 99, a um deputado da maioria absoluta, "desligou". Não tem a menor autoridade para falar de falta de clareza alheia. Que tome conta do seus famélicos que nós por cá todos mal, também, graças a si.

A MORTE DO FACTO

Como a adesão ao acordo ortográfico lulístico pode matar, logo na primeira frase, o resto. «Aldous Huxley dizia que "os fatos não deixam de existir só porque são ignorados."» Tal como as camisas, as gravatas ou as cuecas, já agora.

A MORTE DO FACTO

Como a adesão ao acordo ortográfico lulístico pode matar, logo na primeira frase, o resto. «Aldous Huxley dizia que "os fatos não deixam de existir só porque são ignorados."» Tal como as camisas, as gravatas ou as cuecas, já agora.

EQUILÍBRIO

Seguir as reflexões do Filipe Nunes Vicente acerca de Ratzinger. Aqui e aqui. «Os que, por imbecilidade, sabem ver no Islão aspectos cordatos e atraentes, mas na Igreja só bispam açoites e cruzes assustadoras, conferem solidez ao meu propósito: equilíbrio.» Seu e do autor sobre quem pensa. Rara virtude a sua, Filipe, em tempos de tanta douta ignorância e de asnática "adequação" aos sopros do vento. Numa carta com mais de quarenta anos, Jorge de Sena (que não chegou a conhecer a blogosfera e o jornalismo "livre" e analfabeto que é o nosso copiado de alhures no mesmíssimo registo trapalhão) já dizia que «as virtudes da estupidez e da incultura nunca foram tão triunfantes e com tão geral conivência.»

EQUILÍBRIO

Seguir as reflexões do Filipe Nunes Vicente acerca de Ratzinger. Aqui e aqui. «Os que, por imbecilidade, sabem ver no Islão aspectos cordatos e atraentes, mas na Igreja só bispam açoites e cruzes assustadoras, conferem solidez ao meu propósito: equilíbrio.» Seu e do autor sobre quem pensa. Rara virtude a sua, Filipe, em tempos de tanta douta ignorância e de asnática "adequação" aos sopros do vento. Numa carta com mais de quarenta anos, Jorge de Sena (que não chegou a conhecer a blogosfera e o jornalismo "livre" e analfabeto que é o nosso copiado de alhures no mesmíssimo registo trapalhão) já dizia que «as virtudes da estupidez e da incultura nunca foram tão triunfantes e com tão geral conivência.»

REMORSO DE TODOS NÓS

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,

se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal,

o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,

rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,

não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,

galo que cante a cores na minha prateleira,

alvura arrendada para ó meu devaneio,

bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,

golpe até ao osso, fome sem entretém,

perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,

rocim engraxado,

feira cabisbaixa,

meu remorso,

meu remorso de todos nós...


Alexandre O'Neill, Feira Cabisbaixa

REMORSO DE TODOS NÓS

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,

se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal,

o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,

rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,

não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,

galo que cante a cores na minha prateleira,

alvura arrendada para ó meu devaneio,

bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,

golpe até ao osso, fome sem entretém,

perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,

rocim engraxado,

feira cabisbaixa,

meu remorso,

meu remorso de todos nós...


Alexandre O'Neill, Feira Cabisbaixa

27.4.10

OS DEGRAUS DA ESCADA

O dr. Passos telefonou ao 1º ministro. O 1º ministro agendou o dr. Passos e, a seguir, o Doutor Cavaco agendou o 1º ministro. Gostamos todos dos mercados mas os mercados são como tudo na vida dos dias de hoje. A democracia funciona em pacote à semelhança das viagens a Cancun com pulseiras "pensão completa". E funciona em huis clos. Particularmente na Europa. Ora a Europa, a do euro, está em crise e a senhora Merkel não tem sido especialmente inspiradora. O que se passa - e virá a passar - prova à saciedade que, não tarda, a Europa regressará as "velocidades", da primeira à vigésima quinta ou sétima. As agências de rating valem o que valem. Mas nós também.

OS DEGRAUS DA ESCADA

O dr. Passos telefonou ao 1º ministro. O 1º ministro agendou o dr. Passos e, a seguir, o Doutor Cavaco agendou o 1º ministro. Gostamos todos dos mercados mas os mercados são como tudo na vida dos dias de hoje. A democracia funciona em pacote à semelhança das viagens a Cancun com pulseiras "pensão completa". E funciona em huis clos. Particularmente na Europa. Ora a Europa, a do euro, está em crise e a senhora Merkel não tem sido especialmente inspiradora. O que se passa - e virá a passar - prova à saciedade que, não tarda, a Europa regressará as "velocidades", da primeira à vigésima quinta ou sétima. As agências de rating valem o que valem. Mas nós também.

ERASED (act.)

Houve aqui um problema qualquer que me obrigou a "confirmar" ao Google que eu sou eu e não um outro. Espero que o blogue esteja de volta e, por isso, agradeço que, desta vez, comentem. Aos amigos (não de Peniche) agradeço a chamada de atenção.

Adenda: A semana passada também "desapareceu" o "sitemeter" (esteve um dia inteiro a zeros) que me vi obrigado a repor. Mistérios da informática porventura dos EUA.

Adenda2 (de dia 28): Hoje "calhou" a vez ao Mar Salgado.

ERASED (act.)

Houve aqui um problema qualquer que me obrigou a "confirmar" ao Google que eu sou eu e não um outro. Espero que o blogue esteja de volta e, por isso, agradeço que, desta vez, comentem. Aos amigos (não de Peniche) agradeço a chamada de atenção.

Adenda: A semana passada também "desapareceu" o "sitemeter" (esteve um dia inteiro a zeros) que me vi obrigado a repor. Mistérios da informática porventura dos EUA.

Adenda2 (de dia 28): Hoje "calhou" a vez ao Mar Salgado.

CIRCO SEM PÃO

No post anterior, por causa da comissão trágico-cómica de inquérito, disse que aquilo era vazio em demasia, em tempos sombrios, para um país com muito mais para fazer. De novo, uma agência de rating baixou o nosso. As consequências são as do costume - o dinheiro emprestado custa-nos mais. Mas o nosso parlamento é a "expo 98", deslavada e a preços de 2010, i. e., circo sem pão.

CIRCO SEM PÃO

No post anterior, por causa da comissão trágico-cómica de inquérito, disse que aquilo era vazio em demasia, em tempos sombrios, para um país com muito mais para fazer. De novo, uma agência de rating baixou o nosso. As consequências são as do costume - o dinheiro emprestado custa-nos mais. Mas o nosso parlamento é a "expo 98", deslavada e a preços de 2010, i. e., circo sem pão.

UMA COMISSÃO EM TEMPOS SOMBRIOS


Há muito tempo que não concordava com o dr. Mário Soares. É evidente que jamais partilharei do seu optimismo antropológico, genético, ou da forma babada com que defende o parlamento português como se aquilo fosse exemplo para alguém. Também o desvelo com que encara Sócrates - depois de incialmente o ter entrevisto como ele na realidade é - só o diminui numa história pessoal e política que não precisa de insignificâncias contingentes como ele. Dito isto, Soares tem razão acerca da famosa comissão de inquérito presidida por Mota Amaral. Só ontem, ao assistir a um pouco daquilo em directo, percebi a vacuidade do exercício em tempos sombrios para um país com muito mais para fazer.

«Acho [as comissões] fastidiosas e inúteis. (...) Primeiro, os deputados-inquisidores que participam na comissão são na sua maioria jovens, portanto, com pouca experiência, salvo, obviamente, algumas excepções (...) Mota Amaral - que é um político lúcido, experiente e, do seu natural, prudente e moderado -, também começa a sentir-se desconfortável na posição em que se encontra. O que é que resultou até agora de positivo - depois de tantas intermináveis audiências - para o progresso da justiça e para um melhor conhecimento dos factos alegados pelos acusadores? Alguém é capaz de responder, com objectividade? Não creio. Mas há uma coisa que julgo não poder evitar-se, depois de tantas horas de audiência: o desinteresse do público e o desprestígio dos deputados participantes (ao contrário da publicidade que julgam merecer) e do Parlamento, que lhes cumpre, em princípio, defender. Por isso, apoiei a decisão do primeiro-ministro de não comparecer na comissão.»

UMA COMISSÃO EM TEMPOS SOMBRIOS


Há muito tempo que não concordava com o dr. Mário Soares. É evidente que jamais partilharei do seu optimismo antropológico, genético, ou da forma babada com que defende o parlamento português como se aquilo fosse exemplo para alguém. Também o desvelo com que encara Sócrates - depois de incialmente o ter entrevisto como ele na realidade é - só o diminui numa história pessoal e política que não precisa de insignificâncias contingentes como ele. Dito isto, Soares tem razão acerca da famosa comissão de inquérito presidida por Mota Amaral. Só ontem, ao assistir a um pouco daquilo em directo, percebi a vacuidade do exercício em tempos sombrios para um país com muito mais para fazer.

«Acho [as comissões] fastidiosas e inúteis. (...) Primeiro, os deputados-inquisidores que participam na comissão são na sua maioria jovens, portanto, com pouca experiência, salvo, obviamente, algumas excepções (...) Mota Amaral - que é um político lúcido, experiente e, do seu natural, prudente e moderado -, também começa a sentir-se desconfortável na posição em que se encontra. O que é que resultou até agora de positivo - depois de tantas intermináveis audiências - para o progresso da justiça e para um melhor conhecimento dos factos alegados pelos acusadores? Alguém é capaz de responder, com objectividade? Não creio. Mas há uma coisa que julgo não poder evitar-se, depois de tantas horas de audiência: o desinteresse do público e o desprestígio dos deputados participantes (ao contrário da publicidade que julgam merecer) e do Parlamento, que lhes cumpre, em princípio, defender. Por isso, apoiei a decisão do primeiro-ministro de não comparecer na comissão.»

26.4.10

ESCASSEZ EM EXCESSO

Outro momento elevado ocorrido na dita comissão deu-se quando Manuela Ferreira Leite foi "interrogada" por esse prodígio intelectual que é o sr. Canas. A ex-líder do PSD afirmou "ter a certeza absoluta" que Sócrates mentiu ao prestigiado parlamento português. Fala, logo mente, foi sempre a premissa de que partiu Ferreira Leite durante a sua fulgurante carreira de presidente partidária que tanto sucesso mundial lhe granjeou. Se estivesse no lugar de Sócrates, processava-a imediatamente devolvendo-lhe o ónus da prova. Aliás, e apesar do público "perdoa-me", também processava o boy Soares por, entre outras coisas, abuso de confiança. A escassez de processos intentados por causa de coisas destas, tão peremptórias quanto inconclusivas, dava outra comissão de inquérito. E, já agora, deixava de falar com o amigo Vara, a não ser sobre a inconfundível beleza dos portos marítimos, porque ele baralha-se muito apesar de ser um homem de métier. E só via os telejornais da tvi.

ESCASSEZ EM EXCESSO

Outro momento elevado ocorrido na dita comissão deu-se quando Manuela Ferreira Leite foi "interrogada" por esse prodígio intelectual que é o sr. Canas. A ex-líder do PSD afirmou "ter a certeza absoluta" que Sócrates mentiu ao prestigiado parlamento português. Fala, logo mente, foi sempre a premissa de que partiu Ferreira Leite durante a sua fulgurante carreira de presidente partidária que tanto sucesso mundial lhe granjeou. Se estivesse no lugar de Sócrates, processava-a imediatamente devolvendo-lhe o ónus da prova. Aliás, e apesar do público "perdoa-me", também processava o boy Soares por, entre outras coisas, abuso de confiança. A escassez de processos intentados por causa de coisas destas, tão peremptórias quanto inconclusivas, dava outra comissão de inquérito. E, já agora, deixava de falar com o amigo Vara, a não ser sobre a inconfundível beleza dos portos marítimos, porque ele baralha-se muito apesar de ser um homem de métier. E só via os telejornais da tvi.

NO LIMITE DA LEGALIDADE

O administrador-delegado da tvi, um tal Bairrão (não sei se ainda é mas era), foi à comissao onde o dr. Pacheco faz recortes de jornais rodeado de umas miúdas giras, dizer que a decisão de acabar com o telejornal da Moura Guedes foi tomada "no limite da legalidade". O que ele (o "ele" desta história, a avaliar pelos consecutivos depoimentos na comissão, é um conceito tão vago como o de idade média ou romantismo) quer dizer com isto é que não se entende. Todavia, na sua aparente inocuidade, Bairrão disse mais sobre a vida pública (tão cheia de "privada" incontável) actual do que milhares de dissertações imbecis dos comentadores de serviço.

NO LIMITE DA LEGALIDADE

O administrador-delegado da tvi, um tal Bairrão (não sei se ainda é mas era), foi à comissao onde o dr. Pacheco faz recortes de jornais rodeado de umas miúdas giras, dizer que a decisão de acabar com o telejornal da Moura Guedes foi tomada "no limite da legalidade". O que ele (o "ele" desta história, a avaliar pelos consecutivos depoimentos na comissão, é um conceito tão vago como o de idade média ou romantismo) quer dizer com isto é que não se entende. Todavia, na sua aparente inocuidade, Bairrão disse mais sobre a vida pública (tão cheia de "privada" incontável) actual do que milhares de dissertações imbecis dos comentadores de serviço.

OS VIVAÇOS DO 25

Por falar no "25 de Abril", trinta e seis anos depois, o sr. Vara constitui outro fantástico exemplo da produção em série de gente que jamais teríamos tido o prazer de conhecer não fosse o miraculoso evento. Ámen.

OS VIVAÇOS DO 25

Por falar no "25 de Abril", trinta e seis anos depois, o sr. Vara constitui outro fantástico exemplo da produção em série de gente que jamais teríamos tido o prazer de conhecer não fosse o miraculoso evento. Ámen.

A "MANIF" DO "25 DE ABRIL SEMPRE"


Vista por um leitor.

«Já nem nos idosos, e pessoas adultas à altura do 25, conseguimos perceber lógica, conhecimento e lucidez quando mostrados na Télvizão a falar sobre o dito - ou então a Télvizão faz sempre uma laboriosa e exigente selecção, de modo a mostrar apenas os mentecaptos babosos. O folclore mostrado em telejornais é confrangedor: partículas de povo que se saracuteiam como macacos; carros alegóricos e chaimites cor-de-rosa (como os elefantes); velhas desdentadas envergando bonés mal-enfiados pela matéria córnia abaixo; criancinhas irrequietas e delinquentes, ou criancinhas inertes e expressão alvar; jovens porcos e chulos do pai-e-da-mãe; imbecis ociosos; pseudolíderes políticos em desfiles encenados, e que só aguardam combinada sincronização com as Télvizões para arrancar - como as espontâneas manifestações anti-crise. As festas do regime são fracas, feias, fedorentas e falsas. A liberdade um mito e o progresso uma anedota. De resto o povo continua, como dizia Eça, a "querer beber o sangue ao patronato, mas deixará logo essa ideia de lado se o patronato, em vez de abrir a veia, mandar abrir Cartaxo".»

A "MANIF" DO "25 DE ABRIL SEMPRE"


Vista por um leitor.

«Já nem nos idosos, e pessoas adultas à altura do 25, conseguimos perceber lógica, conhecimento e lucidez quando mostrados na Télvizão a falar sobre o dito - ou então a Télvizão faz sempre uma laboriosa e exigente selecção, de modo a mostrar apenas os mentecaptos babosos. O folclore mostrado em telejornais é confrangedor: partículas de povo que se saracuteiam como macacos; carros alegóricos e chaimites cor-de-rosa (como os elefantes); velhas desdentadas envergando bonés mal-enfiados pela matéria córnia abaixo; criancinhas irrequietas e delinquentes, ou criancinhas inertes e expressão alvar; jovens porcos e chulos do pai-e-da-mãe; imbecis ociosos; pseudolíderes políticos em desfiles encenados, e que só aguardam combinada sincronização com as Télvizões para arrancar - como as espontâneas manifestações anti-crise. As festas do regime são fracas, feias, fedorentas e falsas. A liberdade um mito e o progresso uma anedota. De resto o povo continua, como dizia Eça, a "querer beber o sangue ao patronato, mas deixará logo essa ideia de lado se o patronato, em vez de abrir a veia, mandar abrir Cartaxo".»

DA VIDA INTELECTUAL PORTUGUESA


«Os promotores da distribuição de preservativos em todos os actos públicos da visita de Bento XVI a Lisboa, Fátima e ao Porto, andam a ser ameaçados, por diversas vias, blogues conspícuos incluídos, de medidas drásticas.» Andam? Coitadinhos dos grunhos que não podem sair à rua e ter propaganda à borla e à fartazana nas televisões, incluindo (ou sobretudo) a pública. Posts como este provam como a "vida intelectual" portuguesa tem tanto de burra como de desonesta.

DA VIDA INTELECTUAL PORTUGUESA


«Os promotores da distribuição de preservativos em todos os actos públicos da visita de Bento XVI a Lisboa, Fátima e ao Porto, andam a ser ameaçados, por diversas vias, blogues conspícuos incluídos, de medidas drásticas.» Andam? Coitadinhos dos grunhos que não podem sair à rua e ter propaganda à borla e à fartazana nas televisões, incluindo (ou sobretudo) a pública. Posts como este provam como a "vida intelectual" portuguesa tem tanto de burra como de desonesta.

UM TRIO INFELIZ

Nos finais de 2007, a então deputada do PC por Santarém, a D. Luísa Mesquita, "esqueceu-se" que tinha assinado um papelinho - costumeiro no PC - que dizia qualquer coisa como "o lugar de deputado não é teu, é do partido". Quando chegou a hora do partido o reclamar, a D. Luísa entendeu que o lugar, afinal, era dela e fez o pequeno número da "vítima independente" até acabar a legislatura. Infelizmente Santarém tem a presidir à sua câmara uma coisa chamada Flores e guarda a memória impoluta de Salgueiro Maia. O primeiro e Sócrates andaram por lá ontem a dar cabo dela - dessa memória - à conta de uma "fundação da liberdade" à qual vai presidir a D. Luísa. A senhora não esperou muito tempo para ficar refém de duas das piores emanações do regime, qualquer delas sem substância democrática que as recomende particularmente. E Salgueiro Maia merecia seguramente mais do que este trio infeliz.

Adenda (mail de leitor):

«Em 1971 vi, em Santarém, que é a minha cidade-berço, inaugurar uma legítima estátua em bronze ao mui-corajoso Pedro Álvares Cabral - fronteira ao hospital da Misericórdia e numa avenida honesta e rectilínea. Já no fim do séc. XX vi, numa visita aos meus progenitores, essa estátua ser substituída - no mesmo pedestal Estado Novo - pela de Salgueiro Maia (enquanto que o navegador Pedro era remetido para um qualquer depósito, "à espera"). Nos alvores do séc. XXI vi pedestal-e-estátua-de-salgueiro desaparecerem, enquanto que a honesta e rectilínea avenida era deformada, por uma utilíssima obra camarária, numa rotunda em forma de cona velha. Mais recentemente, vi a estátua de Salgueiro reaparecer à entrada do povoado, junto a um chaimite, sem pedestal e sem letras, e democraticamente colocada ao nível do passante - que assim pode colar auto-colantes, cuspir, bater, tirar fotografias cómicas - reduzindo assim Maia à categoria de boneco de feira. De Cabral nunca mais ouvi falar. Santarém-e-Moita arvoram, à entrada, o lema "Uma história de liberdade" num dístico já desbotado. Ontem Sócrates foi lá dar mais um golpe, distinguindo o município com mais três instituições inventadas e inoperantes; uma delas feita à medida de moita-e-mesquita. Sinistro.»

Adenda2 (outro mail de outro leitor):

«Só uma achega, a estátua de Pedro Álvares Cabral foi já há muito tempo colocada no larguito fronteiro à Igreja da Graça, lá em Santarém. E Santarém lá continua penando, como já Garrett se queixou.»

UM TRIO INFELIZ

Nos finais de 2007, a então deputada do PC por Santarém, a D. Luísa Mesquita, "esqueceu-se" que tinha assinado um papelinho - costumeiro no PC - que dizia qualquer coisa como "o lugar de deputado não é teu, é do partido". Quando chegou a hora do partido o reclamar, a D. Luísa entendeu que o lugar, afinal, era dela e fez o pequeno número da "vítima independente" até acabar a legislatura. Infelizmente Santarém tem a presidir à sua câmara uma coisa chamada Flores e guarda a memória impoluta de Salgueiro Maia. O primeiro e Sócrates andaram por lá ontem a dar cabo dela - dessa memória - à conta de uma "fundação da liberdade" à qual vai presidir a D. Luísa. A senhora não esperou muito tempo para ficar refém de duas das piores emanações do regime, qualquer delas sem substância democrática que as recomende particularmente. E Salgueiro Maia merecia seguramente mais do que este trio infeliz.

Adenda (mail de leitor):

«Em 1971 vi, em Santarém, que é a minha cidade-berço, inaugurar uma legítima estátua em bronze ao mui-corajoso Pedro Álvares Cabral - fronteira ao hospital da Misericórdia e numa avenida honesta e rectilínea. Já no fim do séc. XX vi, numa visita aos meus progenitores, essa estátua ser substituída - no mesmo pedestal Estado Novo - pela de Salgueiro Maia (enquanto que o navegador Pedro era remetido para um qualquer depósito, "à espera"). Nos alvores do séc. XXI vi pedestal-e-estátua-de-salgueiro desaparecerem, enquanto que a honesta e rectilínea avenida era deformada, por uma utilíssima obra camarária, numa rotunda em forma de cona velha. Mais recentemente, vi a estátua de Salgueiro reaparecer à entrada do povoado, junto a um chaimite, sem pedestal e sem letras, e democraticamente colocada ao nível do passante - que assim pode colar auto-colantes, cuspir, bater, tirar fotografias cómicas - reduzindo assim Maia à categoria de boneco de feira. De Cabral nunca mais ouvi falar. Santarém-e-Moita arvoram, à entrada, o lema "Uma história de liberdade" num dístico já desbotado. Ontem Sócrates foi lá dar mais um golpe, distinguindo o município com mais três instituições inventadas e inoperantes; uma delas feita à medida de moita-e-mesquita. Sinistro.»

Adenda2 (outro mail de outro leitor):

«Só uma achega, a estátua de Pedro Álvares Cabral foi já há muito tempo colocada no larguito fronteiro à Igreja da Graça, lá em Santarém. E Santarém lá continua penando, como já Garrett se queixou.»

25.4.10

O LIMITE


Segui, quase de imediato, a sugestão do PR. Da parte da tarde, atirei-me ao mar que, pelos vistos, é o que nos resta como consolação. Andar ali a levar porrada das ondas é bem mais agradável do que aturar um domingo que foi também feriado de gente. Demos, pois, graças a Deus por haver sol e vida e a desnecessidade de falar à beira-mar. Também se pode ler. Poemas como este, de Nemésio.

Chamarei os velhos que foram
No bosque humano
Eu velho agora
novo para eles
No tronco antigo
de Neanderthal.
Faremos todos uma fogueira
Dos dentes deles às rosas novas
No meu quintal
Da Faculdade
Do Mundo ter idade
(Sem limite a idade, claro:
O Mundo não,
Que esse é finito na expansão).
-«É bom não pôr limites à Misericórdia divina»
Disse um Papa velhinho
A quem exígua prece
Votava uns anos mais
Como é próprio da Caixa de Descontos
Dos pequenos mortais
Tudo deperece,
desaparece...
Nasci ainda ao sorriso de Leão XIII:
Cá me vou, como os mais.

No bosque humano chamarei os velhos que foram
As rosas que são
vermelhas
alvas
azuis
amarelas
Dobradas rosas singelas
Minhas cordas de viola
alto rosal de som.
Chamarei os velhos que foram
Em lá sostenido
em si natural
A quem não quer chorar seu mal.
Chamarei os velhos que foram:
Envelhecer é tão afinal
Entre roseiras e fogueiras
(Talvez feriado nacional)
E então prefiro o mi bemol,
Eu novo eterno tomando sol
Com os velhinhos comigo a par.

Em dó sostenido, para não chorar.



in Limite de Idade (1972)