31.1.06

PROBLEMAS DE CARREIRA

Ler "Indexação" , por Vasco Pulido Valente.

PROBLEMAS DE CARREIRA

Ler "Indexação" , por Vasco Pulido Valente.

FACILIDADES

Eu e o professor de Coimbra voltamos a estar de acordo, menos na coisa do "código de ética". Como dizia a boazinha, quem tem ética passa fome.

FACILIDADES

Eu e o professor de Coimbra voltamos a estar de acordo, menos na coisa do "código de ética". Como dizia a boazinha, quem tem ética passa fome.

O PARTIDO


Vários veneráveis "colegas" da blogosfera, v.g o Paulo Gorjão e o Manuel, andam numa verdadeira excitação por causa do PSD. Consta que se preparam facadas e navalhadas de índole diversa tendo com alvo principal o estimável dr. Mendes. Depois, fazem-se "prognósticos" sobre putativos candidatos ao trono de presidente do partido e especula-se sobre a saída de Passos Coelho (quem?) do lugar de vice-presidente. Imagino que o país - a parte que faltava não dormir descansada depois da eleição de Cavaco - sofra terríveis insónias com semelhante temática. Apenas duas ou três observações. Marques Mendes, apesar de baixinho, é, como alguém já lembrou, um osso duro de roer. Averbou, sem se mexer muito, duas vitórias eleitorais expressivas por interpostas pessoas. E é homem de "métier", o que não é nada desprezível. Por outro lado, a "elite" partidária, desde a dos economistas até outros mais plebeus, não deve estar muito interessada em passar três anos "a pastar a vaca". E depois, se Mendes ganhar as "directas" e "aguentar", não é assim tão verosímil trocá-lo por um vidente de última hora. Quem eu gostava de ver a disputar as "directas", nem que fosse para estar entretido durante uns dias, era Santana Lopes, o eterno defensor da ideia. Este congresso que aí vem é, pois, uma pequena missa solene para saudar o presidente eleito e cuidar de vaga burocracia estatutária. Os peões, os mesmos de sempre, mexer-se-ão, como de costume. Não tenho todavia a certeza que jogo se altere assim tanto. Sócrates pode governar descansado e, no essencial, apoiado até mais ver.

O PARTIDO


Vários veneráveis "colegas" da blogosfera, v.g o Paulo Gorjão e o Manuel, andam numa verdadeira excitação por causa do PSD. Consta que se preparam facadas e navalhadas de índole diversa tendo com alvo principal o estimável dr. Mendes. Depois, fazem-se "prognósticos" sobre putativos candidatos ao trono de presidente do partido e especula-se sobre a saída de Passos Coelho (quem?) do lugar de vice-presidente. Imagino que o país - a parte que faltava não dormir descansada depois da eleição de Cavaco - sofra terríveis insónias com semelhante temática. Apenas duas ou três observações. Marques Mendes, apesar de baixinho, é, como alguém já lembrou, um osso duro de roer. Averbou, sem se mexer muito, duas vitórias eleitorais expressivas por interpostas pessoas. E é homem de "métier", o que não é nada desprezível. Por outro lado, a "elite" partidária, desde a dos economistas até outros mais plebeus, não deve estar muito interessada em passar três anos "a pastar a vaca". E depois, se Mendes ganhar as "directas" e "aguentar", não é assim tão verosímil trocá-lo por um vidente de última hora. Quem eu gostava de ver a disputar as "directas", nem que fosse para estar entretido durante uns dias, era Santana Lopes, o eterno defensor da ideia. Este congresso que aí vem é, pois, uma pequena missa solene para saudar o presidente eleito e cuidar de vaga burocracia estatutária. Os peões, os mesmos de sempre, mexer-se-ão, como de costume. Não tenho todavia a certeza que jogo se altere assim tanto. Sócrates pode governar descansado e, no essencial, apoiado até mais ver.

UM OUTRO MESMO DIA


Meio mundo, nosso e próximo, prostrou-se embotado perante o patrão da Microsoft, o sr. Bill Gates. Nem à pindérica Ordem do Infante D. Henrique a criatura foi poupada. Gates parece que veio dar um empurrão financeiro ao "plano tecnológico" e simultaneamente exercer filantropia. De caminho, parou para ensinar ao governo, aos "altos quadros da administração pública e local" e a outras luminárias dispensáveis a "técnica" da "boa governança" e da boa "gestão" de acordo com o seu cânone. Este comovente interesse por Bill Gates - com direito à parola exibição televisiva das "medidas de segurança" que envolvem o acontecimento - apresenta contornos do foro erótico. Muita gente se terá espremido para estar presente, mesmo que de longe, e "tocar" o homem. O pior da coisa não é Gates, alguém a quem, naturalmente, muito devem os tempos correntes. A assistência é que me preocupa. O que é que tanta "elite" democrática e burocrática pode "beber" da cartilha Gates? O que é que, tudo somado a final, nos conforta e "moderniza"? Escuso-me de lembrar as tentativas, desde as sérias às puramente grotescas, feitas ao longo da nossa história em prol da "modernização" e de um "novo homem", português e mais recentemente cibernético. Suspeito que Bill Gates não imagina com quem é que se veio meter, nem isso lhe deve interessar para o efeito. Daqui parte para outra, designadamente para a Europa a sério, e não se fala mais nisso. As "elites" e os burocratas regressam a casa mais contentes. Afinal, amanhã é um outro mesmo dia.

UM OUTRO MESMO DIA


Meio mundo, nosso e próximo, prostrou-se embotado perante o patrão da Microsoft, o sr. Bill Gates. Nem à pindérica Ordem do Infante D. Henrique a criatura foi poupada. Gates parece que veio dar um empurrão financeiro ao "plano tecnológico" e simultaneamente exercer filantropia. De caminho, parou para ensinar ao governo, aos "altos quadros da administração pública e local" e a outras luminárias dispensáveis a "técnica" da "boa governança" e da boa "gestão" de acordo com o seu cânone. Este comovente interesse por Bill Gates - com direito à parola exibição televisiva das "medidas de segurança" que envolvem o acontecimento - apresenta contornos do foro erótico. Muita gente se terá espremido para estar presente, mesmo que de longe, e "tocar" o homem. O pior da coisa não é Gates, alguém a quem, naturalmente, muito devem os tempos correntes. A assistência é que me preocupa. O que é que tanta "elite" democrática e burocrática pode "beber" da cartilha Gates? O que é que, tudo somado a final, nos conforta e "moderniza"? Escuso-me de lembrar as tentativas, desde as sérias às puramente grotescas, feitas ao longo da nossa história em prol da "modernização" e de um "novo homem", português e mais recentemente cibernético. Suspeito que Bill Gates não imagina com quem é que se veio meter, nem isso lhe deve interessar para o efeito. Daqui parte para outra, designadamente para a Europa a sério, e não se fala mais nisso. As "elites" e os burocratas regressam a casa mais contentes. Afinal, amanhã é um outro mesmo dia.

EVERNESS

No Minha Rica Casinha.

EVERNESS

No Minha Rica Casinha.

NADA



Hoje acordei assim. É mais ou menos isto, sem pensar.

NADA



Hoje acordei assim. É mais ou menos isto, sem pensar.

30.1.06

É BOM QUE ELES EXISTAM

Agora que Vasco Pulido Valente chegou à blogosfera, está criada - finalmente, diria eu - uma nova "centralidade" (uma palavra altamente recomendada pelo "plano tecnológico") na dita. Estes anos de blogosfera nacional foram intensamente dominados pelo José Pacheco Pereira cuja atenção ao quotidiano político, cultural e "social" - ao dele e ao de alguns outros, extravagantes ou corriqueiros - fez "escola", instituindo-se como uma chamada "referência". Com o fim de um ciclo político - e muita da blogosfera seguia-o ferozmente - chega também ao fim uma "era" do ciclo blogosférico. E, muito naturalmente, talvez Pacheco Pereira - que me parece muito interessado, de novo, no "seu" próprio ciclo político e no do seu partido - abandone o tal papel de "centralidade" de que gozava por aqui. Não faço ideia. A "chegada" de VPV marca uma nova fase nestas aventuras. Eu estou habituado a ele desde, pelo menos, "O país das maravilhas". Nunca imaginei que viesse a ser meu professor em duas cadeiras extravagantes fornecidas ao curso de direito da Universidade Católica, com quatro ou cinco anos de intervalo. Excelentes aulas e excelentes indicações bibliográficas. Provavelmente nunca teria lido Joachim Fest, A.J.P Taylor ou Bullock se não fossem essas aulas e essas indicações. E jamais teria andado pelas livrarias de Londres à procura de "mais" Taylor para ler. Quanto à "política", estamos praticamente conversados. É patente que, descontando o desvelo tardio pela candidatura do dr. Soares - que não pelo homem e pelo político -, eu "sigo" a "linha", imaterial e tantas vezes improvável, de VPV. Como ele, mas a milhas dele, não tenho nada a perder que não tivesse perdido já. Ganhei sobretudo em mau feitio e no desprezo geral que nutro pelas circunstâncias e pelas pessoas "ocorrentes". Num texto com uns anos, VPV escreve sobre os telefones que deixaram de tocar e sobre um mundo que se deita aos nosso pés e que, de manhã, carregamos inexplicavelmente às costas. É por esse mundo que eu tenho andado e do qual dificilmente sairei. E, nele, é bom que pessoas como o VPV e a Constança existam.

É BOM QUE ELES EXISTAM

Agora que Vasco Pulido Valente chegou à blogosfera, está criada - finalmente, diria eu - uma nova "centralidade" (uma palavra altamente recomendada pelo "plano tecnológico") na dita. Estes anos de blogosfera nacional foram intensamente dominados pelo José Pacheco Pereira cuja atenção ao quotidiano político, cultural e "social" - ao dele e ao de alguns outros, extravagantes ou corriqueiros - fez "escola", instituindo-se como uma chamada "referência". Com o fim de um ciclo político - e muita da blogosfera seguia-o ferozmente - chega também ao fim uma "era" do ciclo blogosférico. E, muito naturalmente, talvez Pacheco Pereira - que me parece muito interessado, de novo, no "seu" próprio ciclo político e no do seu partido - abandone o tal papel de "centralidade" de que gozava por aqui. Não faço ideia. A "chegada" de VPV marca uma nova fase nestas aventuras. Eu estou habituado a ele desde, pelo menos, "O país das maravilhas". Nunca imaginei que viesse a ser meu professor em duas cadeiras extravagantes fornecidas ao curso de direito da Universidade Católica, com quatro ou cinco anos de intervalo. Excelentes aulas e excelentes indicações bibliográficas. Provavelmente nunca teria lido Joachim Fest, A.J.P Taylor ou Bullock se não fossem essas aulas e essas indicações. E jamais teria andado pelas livrarias de Londres à procura de "mais" Taylor para ler. Quanto à "política", estamos praticamente conversados. É patente que, descontando o desvelo tardio pela candidatura do dr. Soares - que não pelo homem e pelo político -, eu "sigo" a "linha", imaterial e tantas vezes improvável, de VPV. Como ele, mas a milhas dele, não tenho nada a perder que não tivesse perdido já. Ganhei sobretudo em mau feitio e no desprezo geral que nutro pelas circunstâncias e pelas pessoas "ocorrentes". Num texto com uns anos, VPV escreve sobre os telefones que deixaram de tocar e sobre um mundo que se deita aos nosso pés e que, de manhã, carregamos inexplicavelmente às costas. É por esse mundo que eu tenho andado e do qual dificilmente sairei. E, nele, é bom que pessoas como o VPV e a Constança existam.

ROMA


Fui informado pelo Manuel que estreia na 2: uma série da HBO chamada Rome. Como o nome indica, passar-se-á nos gloriosos tempos que antecederam o nascimento de Cristo, naquela maravilhosa sociedade pagã em que o excesso era o verosímil. Suetónio deu-nos um bom retrato desses tempos, através das biografias dos "doze Césares", e Gibbon o seu crepúsculo. Vejamos, pois, o que esta "Roma" nos reserva.

ROMA


Fui informado pelo Manuel que estreia na 2: uma série da HBO chamada Rome. Como o nome indica, passar-se-á nos gloriosos tempos que antecederam o nascimento de Cristo, naquela maravilhosa sociedade pagã em que o excesso era o verosímil. Suetónio deu-nos um bom retrato desses tempos, através das biografias dos "doze Césares", e Gibbon o seu crepúsculo. Vejamos, pois, o que esta "Roma" nos reserva.

ECCE HOMO

Aqui.

ECCE HOMO

Aqui.

AGORA...




...ando envolvido com este senhor.

AGORA...




...ando envolvido com este senhor.

PASTELARIA CISTER

Um acaso feliz levou-me a encontrar José Medeiros Ferreira num famoso café perto de sua casa, ao Príncipe Real. Precisamente no mesmo sítio onde, vai para vinte e sete anos, e por causa do "Manifesto Reformador", nos cruzámos. Nessa altura eu tinha todas as ilusões do mundo sobre o “homem” e o “futuro”. Agora não tenho nenhumas. Fiquei satisfeito por permanecermos ambos “reformadores”, um no registo "optimista", o outro no que se pode ler aqui. Ele, do lado “esquerdo” da vida pública, e eu modestamente mais inclinado à “reforma” do encosto “direito” do regime. Sempre admirei em Medeiros Ferreira e na sua intensa actividade política a capacidade de promover uma subtil e permanente aliança entre a reflexão e a acção. O impulso do “terceiro soarismo”, gorado nas urnas, vem daí, mas a história regista outros cujo acerto é hoje indiscutível. Quem sabe se, mesmo este, com o decurso do tempo, não se revelará interessante. O presidente Cavaco prescindirá de ouvir, em determinados contextos, Mário Soares? Mas adiante. Por causa da “justiça”, Medeiros Ferreira recordou-me um “desafio” não correspondido pela Grande Loja – sítio onde a “justiça” faz correr rios de posts – em que, a propósito do papel do Ministério Público, se falava do “recuo do estado acusador”, considerando as posições de alguns sobre o papel da Procuradoria Geral da República no contexto do Estado democrático de direito. E rematámos a conversa da melhor maneira, com Mitterrand, por causa dos cultores da superficialidade política. Escrevia Mitterrand, em "L’ Abeille et L’Architecte", que existe uma classe de políticos com algumas convicções e com muito métier. Apesar das discordâncias dos últimos tempos, arrumadas com a vitória de Cavaco Silva, eu continuo a preferir os homens com convicções e menos métier, mesmo quando concordo ou não concordo com eles. Homens contraditórios e por isso mais densos, como Medeiros Ferreira.

PASTELARIA CISTER

Um acaso feliz levou-me a encontrar José Medeiros Ferreira num famoso café perto de sua casa, ao Príncipe Real. Precisamente no mesmo sítio onde, vai para vinte e sete anos, e por causa do "Manifesto Reformador", nos cruzámos. Nessa altura eu tinha todas as ilusões do mundo sobre o “homem” e o “futuro”. Agora não tenho nenhumas. Fiquei satisfeito por permanecermos ambos “reformadores”, um no registo "optimista", o outro no que se pode ler aqui. Ele, do lado “esquerdo” da vida pública, e eu modestamente mais inclinado à “reforma” do encosto “direito” do regime. Sempre admirei em Medeiros Ferreira e na sua intensa actividade política a capacidade de promover uma subtil e permanente aliança entre a reflexão e a acção. O impulso do “terceiro soarismo”, gorado nas urnas, vem daí, mas a história regista outros cujo acerto é hoje indiscutível. Quem sabe se, mesmo este, com o decurso do tempo, não se revelará interessante. O presidente Cavaco prescindirá de ouvir, em determinados contextos, Mário Soares? Mas adiante. Por causa da “justiça”, Medeiros Ferreira recordou-me um “desafio” não correspondido pela Grande Loja – sítio onde a “justiça” faz correr rios de posts – em que, a propósito do papel do Ministério Público, se falava do “recuo do estado acusador”, considerando as posições de alguns sobre o papel da Procuradoria Geral da República no contexto do Estado democrático de direito. E rematámos a conversa da melhor maneira, com Mitterrand, por causa dos cultores da superficialidade política. Escrevia Mitterrand, em "L’ Abeille et L’Architecte", que existe uma classe de políticos com algumas convicções e com muito métier. Apesar das discordâncias dos últimos tempos, arrumadas com a vitória de Cavaco Silva, eu continuo a preferir os homens com convicções e menos métier, mesmo quando concordo ou não concordo com eles. Homens contraditórios e por isso mais densos, como Medeiros Ferreira.

VASCO

A semana começa diferente na blogosfera. Vasco Pulido Valente vai escrever no Espectro . "O poder dos cidadãos" do Alegre, ao pé disto, não vale nada.

VASCO

A semana começa diferente na blogosfera. Vasco Pulido Valente vai escrever no Espectro . "O poder dos cidadãos" do Alegre, ao pé disto, não vale nada.

29.1.06

DA PARÓQUIA

Este post acerca da indicação de Tomás Taveira para o "conselho consultivo do IPPAR" e das reacções que a mesma suscitou é muito oportuno. O "lobby" dos arquitectos, capitaneado pela voluntarista-mor do reino, a emotiva Roseta, mandou o mais que pôde no IPPAR até à emergência de Elísio Summavielle. Tomás Taveira, por razões maiores ou menores que não vêm ao caso e que só olham para onde não devem, tem sido o "bombo da festa" destas magníficas cumplicidades. Pode-se gostar ou não gostar do homem, todavia tem obra e percebe da obra. "Se há arquitecto que protagonizou dos últimos e interessantes debates sobre cidade e arquitectura em Lisboa e Portugal, com todos a terem e darem a sua opinião, terá sido Tomás Taveira. Mesmo antes das suas aventuras pela cinematografia. Que não gostem do homem, tudo bem, também não gosto. Que se censure a sua arquitectura, nada do outro mundo, mas é pelo menos uma obra é passível de crítica, (ao contrário do grosso da construção das nossas cidades). Que se pretenda afastá-lo da história da arquitectura portuguesa contemporânea, já é menos sério. Lançar o anátema do cu da menina Kookai sobre ele é que me parece de uma mesquinha vingançazita de quem não tem obra visível e discutida tanto pela mulher de limpezas como pela Maria Filomena Mónica.", lembra bem o autor. O "Portugal dos Pequeninos" de que aqui se fala todos os dias também é feito destas misérias paroquiais denunciadas pelo João. "Sobre a intervenção do IPPAR na sociedade e na cidade haveria muito a dizer: dos tráficos de influências a arquitectos que num ápice adquirem uma valiosa carteira de clientes e ainda mais depressa uma exposição de trabalhos – trabalhos??? – no Centro Cultural de Belém, a promotores que obtêm a anuência do Instituto para o derrube de velhas sanitas de Garrett enquanto que outros, na mesma rua, num lote contíguo, por não serem amigos do IPPAR, não obtêm o mesmo deferimento. Todo um rol de actividades que no fundo no fundo mais não são que a ressonância da forma como a sociedade portuguesa se organiza.No meio dos pedreiros, dos arquitectos e engenheiros, há lobbys. Estes são legítimos. São, porventura, úteis. Neste momento o mais óbvio é o dos paneleiros. Controla a crítica, promove o rabo uns dos outros. Qualquer pequena e irrelevante obra é pretexto para um texto no suplemento cultural de um diário, de uma aparição no único programa dedicado à disciplina emitido na televisão portuguesa – Tempo e Traço, na SicNotícias – onde se debitam discursos à volta do “bar da Laranja Mecânica e da capa de um cd do Triky” como grandes linhas programáticas que orientam um projecto pouco menos que socialmente irrelevante."

DA PARÓQUIA

Este post acerca da indicação de Tomás Taveira para o "conselho consultivo do IPPAR" e das reacções que a mesma suscitou é muito oportuno. O "lobby" dos arquitectos, capitaneado pela voluntarista-mor do reino, a emotiva Roseta, mandou o mais que pôde no IPPAR até à emergência de Elísio Summavielle. Tomás Taveira, por razões maiores ou menores que não vêm ao caso e que só olham para onde não devem, tem sido o "bombo da festa" destas magníficas cumplicidades. Pode-se gostar ou não gostar do homem, todavia tem obra e percebe da obra. "Se há arquitecto que protagonizou dos últimos e interessantes debates sobre cidade e arquitectura em Lisboa e Portugal, com todos a terem e darem a sua opinião, terá sido Tomás Taveira. Mesmo antes das suas aventuras pela cinematografia. Que não gostem do homem, tudo bem, também não gosto. Que se censure a sua arquitectura, nada do outro mundo, mas é pelo menos uma obra é passível de crítica, (ao contrário do grosso da construção das nossas cidades). Que se pretenda afastá-lo da história da arquitectura portuguesa contemporânea, já é menos sério. Lançar o anátema do cu da menina Kookai sobre ele é que me parece de uma mesquinha vingançazita de quem não tem obra visível e discutida tanto pela mulher de limpezas como pela Maria Filomena Mónica.", lembra bem o autor. O "Portugal dos Pequeninos" de que aqui se fala todos os dias também é feito destas misérias paroquiais denunciadas pelo João. "Sobre a intervenção do IPPAR na sociedade e na cidade haveria muito a dizer: dos tráficos de influências a arquitectos que num ápice adquirem uma valiosa carteira de clientes e ainda mais depressa uma exposição de trabalhos – trabalhos??? – no Centro Cultural de Belém, a promotores que obtêm a anuência do Instituto para o derrube de velhas sanitas de Garrett enquanto que outros, na mesma rua, num lote contíguo, por não serem amigos do IPPAR, não obtêm o mesmo deferimento. Todo um rol de actividades que no fundo no fundo mais não são que a ressonância da forma como a sociedade portuguesa se organiza.No meio dos pedreiros, dos arquitectos e engenheiros, há lobbys. Estes são legítimos. São, porventura, úteis. Neste momento o mais óbvio é o dos paneleiros. Controla a crítica, promove o rabo uns dos outros. Qualquer pequena e irrelevante obra é pretexto para um texto no suplemento cultural de um diário, de uma aparição no único programa dedicado à disciplina emitido na televisão portuguesa – Tempo e Traço, na SicNotícias – onde se debitam discursos à volta do “bar da Laranja Mecânica e da capa de um cd do Triky” como grandes linhas programáticas que orientam um projecto pouco menos que socialmente irrelevante."

VERGÍLIO FERREIRA


Este post lembra-me Vergílio Ferreira, cujo aniversário natalício passaria ontem. Numa outra minha encarnação, quando escrevia para a "secção" dita cultural do Semanário de Cunha Rego, conheci Vergílio Ferreira. Escrevi, até, uma pequena peça sobre ele a que chamei "parabéns, Vergílio Ferreira" e recebi em troca um amável cartão do autor. Nesses tempos o narcisismo literário-jornalístico ainda não estava completamente na moda, pelo que se podia perfeitamente escrever sobre autores e não apenas sobre os amigos, os amantes, as amantes, os conhecidos e criaturas afins, sem correr o risco de masturbação mútua. Por outro lado, também só se escrevia praticamente num único sítio porque não abundavam as capelas e só havia uma televisão. Tal como ao autor do post, Vergílio Ferreira entrou demasiado cedo na minha vida com o inevitável "Aparição". Anos depois, por causa de Évora, agarrei-me à "Carta ao Futuro" e, por minha causa, li praticamente tudo dele. Os corrosivos diários ("Conta-Corrente") são uma magnífica demonstração de erudição aliada a um curioso sentido do quotidiano, mesmo o político, numa fase ainda incipiente da nossa democracia. Os amores e os ódios de estimação de Vergílio Ferreira estão ali, em estado puro, para quem os quiser ler. O seu delicioso mau feitio, as suas "polémicas", jamais turvaram a amabilidade do trato pessoal. Vergílio Ferreira é um grande autor da nossa língua e foi, para muitas gerações, um professor inesquecível. Quando o vejo arrumado nas prateleiras ao lado da garotada escrevente que passa por "literatura portuguesa contemporânea", imagino a sua "língua de prata" a funcionar bem alto, lá numa eternidade qualquer a que tem todo o direito.

VERGÍLIO FERREIRA


Este post lembra-me Vergílio Ferreira, cujo aniversário natalício passaria ontem. Numa outra minha encarnação, quando escrevia para a "secção" dita cultural do Semanário de Cunha Rego, conheci Vergílio Ferreira. Escrevi, até, uma pequena peça sobre ele a que chamei "parabéns, Vergílio Ferreira" e recebi em troca um amável cartão do autor. Nesses tempos o narcisismo literário-jornalístico ainda não estava completamente na moda, pelo que se podia perfeitamente escrever sobre autores e não apenas sobre os amigos, os amantes, as amantes, os conhecidos e criaturas afins, sem correr o risco de masturbação mútua. Por outro lado, também só se escrevia praticamente num único sítio porque não abundavam as capelas e só havia uma televisão. Tal como ao autor do post, Vergílio Ferreira entrou demasiado cedo na minha vida com o inevitável "Aparição". Anos depois, por causa de Évora, agarrei-me à "Carta ao Futuro" e, por minha causa, li praticamente tudo dele. Os corrosivos diários ("Conta-Corrente") são uma magnífica demonstração de erudição aliada a um curioso sentido do quotidiano, mesmo o político, numa fase ainda incipiente da nossa democracia. Os amores e os ódios de estimação de Vergílio Ferreira estão ali, em estado puro, para quem os quiser ler. O seu delicioso mau feitio, as suas "polémicas", jamais turvaram a amabilidade do trato pessoal. Vergílio Ferreira é um grande autor da nossa língua e foi, para muitas gerações, um professor inesquecível. Quando o vejo arrumado nas prateleiras ao lado da garotada escrevente que passa por "literatura portuguesa contemporânea", imagino a sua "língua de prata" a funcionar bem alto, lá numa eternidade qualquer a que tem todo o direito.

FANTASIAS

Um político, que o é profissionalmente há mais de trinta anos, como Manuel Alegre, deveria ter-se poupado à patética reunião com os seus duzentos apoiantes. Como ele bem sabe, "o poder dos cidadãos" exerceu-se livremente no último domingo. Descontando os candidatos líderes de partidos que tiveram de prestar contas às respectivas seitas, Cavaco dissolveu imediatamente a maioria que o elegeu e Soares compreendeu a mensagem, retirando-se discretamente de cena. Não foi por acaso que isso aconteceu com os dois candidatos politicamente mais "maduros". Alegre nunca percebeu nada do acaso que lhe foi parar às mãos - antes, durante e depois da campanha e do voto - e quer perpetuar o equívoco. O tempo, "esse grande escultor", encarregar-se-á de lhe explicar que não vale a pena. O país, para bem ou para mal, está "arrumado". Seguiu em frente, como se esperava, e daqui a uns meses ninguém se lembrará de Alegre, a começar pelo milhão e tal que votou nele essencialmente contra qualquer coisa. Prolongar uma fantasia é apenas juntar mais fantasia à que já existe.

FANTASIAS

Um político, que o é profissionalmente há mais de trinta anos, como Manuel Alegre, deveria ter-se poupado à patética reunião com os seus duzentos apoiantes. Como ele bem sabe, "o poder dos cidadãos" exerceu-se livremente no último domingo. Descontando os candidatos líderes de partidos que tiveram de prestar contas às respectivas seitas, Cavaco dissolveu imediatamente a maioria que o elegeu e Soares compreendeu a mensagem, retirando-se discretamente de cena. Não foi por acaso que isso aconteceu com os dois candidatos politicamente mais "maduros". Alegre nunca percebeu nada do acaso que lhe foi parar às mãos - antes, durante e depois da campanha e do voto - e quer perpetuar o equívoco. O tempo, "esse grande escultor", encarregar-se-á de lhe explicar que não vale a pena. O país, para bem ou para mal, está "arrumado". Seguiu em frente, como se esperava, e daqui a uns meses ninguém se lembrará de Alegre, a começar pelo milhão e tal que votou nele essencialmente contra qualquer coisa. Prolongar uma fantasia é apenas juntar mais fantasia à que já existe.

O CAMINHO DO GRÃO DE TRIGO


Não é vulgar ver um Papa a citar Nietzsche, Salústio ou o Platão do Banquete numa encíclica. Todavia, Joseph Raztinger não é um Papa banal, nem tão-pouco o profeta das trevas que os seus apressados e analfabetos críticos teimam em ver nele. É um intelectual, por acaso da Igreja, com um profundo conhecimento do "homem moderno", nas suas luzes e nas suas sombras, nas suas cobardias e nas suas elevações. Cultiva um distanciamento aparente e prudente das "coisas terrenas", porém, e tal como o seu antecessor, conhece-as e pressente-as melhor do que qualquer um de nós. Ratzinger é um excelente "dissecador" do presente, um analista e um "comentador" privilegiado do contemporâneo, precisamente porque a sua extraordinária "couraça" filosófica lho permite. Ratzinger sabe que a sobrevivência da Igreja nestes tempos levianos e superficais depende muito dessa "couraça" e desse sentido profundo das coisas, teimosamente perseguido, com método e sem desfalecimentos, pelo mais alto dignatário do Vaticano. Foi assim com João Paulo II, um homem da resistência em todos os sentidos prováveis do termo, e é assim com Ratzinger, um firme sedutor pela palavra. Eu sou pouco dado ao "amor". As poucas vezes que o tentei entender, espalhei-me. Eu e o "amor" temos uma história complicada de amor e ódio. Diz-me Ratzinger que Deus anda lá sempre pelo meio, sobretudo através do exemplo do Seu Filho. De facto, se alguma coisa me conduz nesta permanente tentativa de "perceber", é o mistério ou, mais adequadamente, o escândalo da cruz, todos os dias renovado, cada vez mais mistério e cada vez mais escândalo. Bento XVI sabe como isto é importante para quem crê e para quem duvida. Eu sou um produto híbrido: um céptico que crê e um crente que duvida. Tudo o que até agora li de Raztinger, contrariamente ao que os seus detractores ignorantes possam imaginar, me permite continuar assim, crendo e duvidando. Como ele escreve na encíclica Deus Caritas Est, "isto é um processo que permanece continuamente em caminho: o amor nunca está "concluído" e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo, permanece fiel a si próprio. Idem velle atque idem nolle - querer a mesma coisa e rejeitar a mesma coisa é, segundo os antigos, o autêntico conteúdo do amor". E é Jesus, finalmente, que no desalinho do seu sacrifício, nos mostra o caminho razoável: "Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17, 33) — disse Jesus, afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em geral."

O CAMINHO DO GRÃO DE TRIGO


Não é vulgar ver um Papa a citar Nietzsche, Salústio ou o Platão do Banquete numa encíclica. Todavia, Joseph Raztinger não é um Papa banal, nem tão-pouco o profeta das trevas que os seus apressados e analfabetos críticos teimam em ver nele. É um intelectual, por acaso da Igreja, com um profundo conhecimento do "homem moderno", nas suas luzes e nas suas sombras, nas suas cobardias e nas suas elevações. Cultiva um distanciamento aparente e prudente das "coisas terrenas", porém, e tal como o seu antecessor, conhece-as e pressente-as melhor do que qualquer um de nós. Ratzinger é um excelente "dissecador" do presente, um analista e um "comentador" privilegiado do contemporâneo, precisamente porque a sua extraordinária "couraça" filosófica lho permite. Ratzinger sabe que a sobrevivência da Igreja nestes tempos levianos e superficais depende muito dessa "couraça" e desse sentido profundo das coisas, teimosamente perseguido, com método e sem desfalecimentos, pelo mais alto dignatário do Vaticano. Foi assim com João Paulo II, um homem da resistência em todos os sentidos prováveis do termo, e é assim com Ratzinger, um firme sedutor pela palavra. Eu sou pouco dado ao "amor". As poucas vezes que o tentei entender, espalhei-me. Eu e o "amor" temos uma história complicada de amor e ódio. Diz-me Ratzinger que Deus anda lá sempre pelo meio, sobretudo através do exemplo do Seu Filho. De facto, se alguma coisa me conduz nesta permanente tentativa de "perceber", é o mistério ou, mais adequadamente, o escândalo da cruz, todos os dias renovado, cada vez mais mistério e cada vez mais escândalo. Bento XVI sabe como isto é importante para quem crê e para quem duvida. Eu sou um produto híbrido: um céptico que crê e um crente que duvida. Tudo o que até agora li de Raztinger, contrariamente ao que os seus detractores ignorantes possam imaginar, me permite continuar assim, crendo e duvidando. Como ele escreve na encíclica Deus Caritas Est, "isto é um processo que permanece continuamente em caminho: o amor nunca está "concluído" e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo, permanece fiel a si próprio. Idem velle atque idem nolle -</a> querer a mesma coisa e rejeitar a mesma coisa é, segundo os antigos, o autêntico conteúdo do amor". E é Jesus, finalmente, que no desalinho do seu sacrifício, nos mostra o caminho razoável: "Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17, 33) — disse Jesus, afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em geral."

28.1.06

SALIERI


Por causa do aniversário mozartiano - por uns dias, muita gente decidiu gostar de Mozart e de música dita clássica, mesmo que nunca tivesse gostado -, fui rever Amadeus, o filme de Milos Forman. Nunca foi a personagem do idiota genial criada por Tom Hulce que me impressionou, muito menos aquele risinho estereotipado. O filme, baseado na obra homónima de Peter Shaffer, vale sobretudo pela interpretação de F. Murray Abraham no papel do famoso compositor da corte, Antonio Salieri. Não é certo que a história, a verdadeira, tivesse sido assim, como o ensandecido Salieri conta ao padre que o quer confessar. Salieri foi mais do que o filme o "pinta". Teve alunos célebres como Beethoven, Schubert ou Liszt. O primeiro dedicou-lhe as "sonatas para violino". Entre os finais do século XVIII e o princípio do seguinte foi deixando de compôr aos poucos porque percebeu que estava a ficar "démodé", o que é uma manifesta prova de lucidez. Talvez Armida e L'Europa Riconosciuta tenham ficado como as suas "master pieces", a última, aliás, escolhida para a inauguração do Teatro Alla Scalla de Milão. No fim do filme, Salieri/ Murray Abraham abençoa, por interposto padre, todas as mediocridades do mundo, vendo-se a ele próprio como o "Deus" dessas mediocridades. Deus propriamente dito teria protegido Mozart e deixado a Salieri o talento do fracasso. Não foi bem assim. Todavia, como eu costumo dizer e praticar, até para fracassar é preciso ter talento. E Salieri tinha.

SALIERI


Por causa do aniversário mozartiano - por uns dias, muita gente decidiu gostar de Mozart e de música dita clássica, mesmo que nunca tivesse gostado -, fui rever Amadeus, o filme de Milos Forman. Nunca foi a personagem do idiota genial criada por Tom Hulce que me impressionou, muito menos aquele risinho estereotipado. O filme, baseado na obra homónima de Peter Shaffer, vale sobretudo pela interpretação de F. Murray Abraham no papel do famoso compositor da corte, Antonio Salieri. Não é certo que a história, a verdadeira, tivesse sido assim, como o ensandecido Salieri conta ao padre que o quer confessar. Salieri foi mais do que o filme o "pinta". Teve alunos célebres como Beethoven, Schubert ou Liszt. O primeiro dedicou-lhe as "sonatas para violino". Entre os finais do século XVIII e o princípio do seguinte foi deixando de compôr aos poucos porque percebeu que estava a ficar "démodé", o que é uma manifesta prova de lucidez. Talvez Armida e L'Europa Riconosciuta tenham ficado como as suas "master pieces", a última, aliás, escolhida para a inauguração do Teatro Alla Scalla de Milão. No fim do filme, Salieri/ Murray Abraham abençoa, por interposto padre, todas as mediocridades do mundo, vendo-se a ele próprio como o "Deus" dessas mediocridades. Deus propriamente dito teria protegido Mozart e deixado a Salieri o talento do fracasso. Não foi bem assim. Todavia, como eu costumo dizer e praticar, até para fracassar é preciso ter talento. E Salieri tinha.

VIVER HABITUALMENTE


Uma semana depois das eleições presidenciais, temos o país de volta. O "viver habitualmente" de que falava Salazar, o sábio rústico que nos percebeu como ninguém, regressou sob a forma do "benfica-sporting" - não se fala de outra coisa há cinco dias e hoje é aconselhável fugir das imediações -, do "euromilhões" e, mais extravagantemente, do frio. Ao contrário do que alguns bloggers profetizam, eu julgo que a "política" vai hibernar. Em menos de um ano, foi esse o sentido maioritário do voto: uma maioria absoluta para nos "tratar da vida" e um presidente austero, "político ma non troppo", para vigiar por nós. Em suma, podemos viver habitualmente.

VIVER HABITUALMENTE


Uma semana depois das eleições presidenciais, temos o país de volta. O "viver habitualmente" de que falava Salazar, o sábio rústico que nos percebeu como ninguém, regressou sob a forma do "benfica-sporting" - não se fala de outra coisa há cinco dias e hoje é aconselhável fugir das imediações -, do "euromilhões" e, mais extravagantemente, do frio. Ao contrário do que alguns bloggers profetizam, eu julgo que a "política" vai hibernar. Em menos de um ano, foi esse o sentido maioritário do voto: uma maioria absoluta para nos "tratar da vida" e um presidente austero, "político ma non troppo", para vigiar por nós. Em suma, podemos viver habitualmente.

27.1.06

MOZART


Pode-se, por exemplo, ir por aqui.

MOZART


Pode-se, por exemplo, ir por aqui.

26.1.06

A MURALHA D'AÇO

"ESTA GENTE NÃO CAI COM OS MUROS: " Cavaco não pode esquecer que a maioria do povo português não votou nele", Ruben de Carvalho dixit, hoje, no DN."

Filipe Nunes Vicente, in Mar Salgado

A MURALHA D'AÇO

"ESTA GENTE NÃO CAI COM OS MUROS: " Cavaco não pode esquecer que a maioria do povo português não votou nele", Ruben de Carvalho dixit, hoje, no DN."

Filipe Nunes Vicente, in Mar Salgado

A CADEIRA ABENÇOADA


Eu sou o que se pode chamar um católico foleiro. Não pratico e sou mais dado à teoria e à contradição, graças a Deus. Daí a minha tendência "hiper-ratzingeriana". Todavia, em matérias de Estado, sou ferozmente laico. Por isso, não compreendo muito bem o que é que o cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, pessoa que eu muito estimo, estava a fazer na abertura do ano judicial ao lado do Estado e das corporações. Tal como não percebo que, por esse país fora, em determinadas inaugurações, ocorram bençãos. Deve ser mal meu.

A CADEIRA ABENÇOADA


Eu sou o que se pode chamar um católico foleiro. Não pratico e sou mais dado à teoria e à contradição, graças a Deus. Daí a minha tendência "hiper-ratzingeriana". Todavia, em matérias de Estado, sou ferozmente laico. Por isso, não compreendo muito bem o que é que o cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, pessoa que eu muito estimo, estava a fazer na abertura do ano judicial ao lado do Estado e das corporações. Tal como não percebo que, por esse país fora, em determinadas inaugurações, ocorram bençãos. Deve ser mal meu.

PARA QUE SERVE UM PRESIDENTE

"Cavaco Silva tem pela frente uma tarefa rigorosamente inédita ele é o primeiro presidente eleito que não responde pela herança do PREC ou pela tradição do antifascismo. Trinta anos depois do 25 de Abril, este momento traduz a inauguração de um novo ciclo na vida portuguesa. Não apenas na "vida política", mas na sua dimensão cultural e afectiva, até aqui prisioneira da bênção dos "proprietários da história" e do "republicanismo histórico". A sua eleição significa que a Presidência deixou de ser encarada como património dessa herança e dessa memória. Em vez do "republicanismo", os valores republicanos (o respeito pelas leis, o rigor e a qualidade da vida pública). Em vez do respeito acrítico pelo passado, a necessidade de uma atenção permanente à vida dos portugueses. Para isso se quer um presidente: que ele seja exigente e rigoroso num país que tem de ser mais exigente e mais rigoroso. O presidente sabe que não tem de ser o exemplo ou o símbolo dos nossos lugares-comuns; esses, temos em abundância, misturados com defeitos e virtudes. Pelo contrário, tem de ser o exemplo desse novo ciclo da vida portuguesa e da transformação que o deve acompanhar."


Francisco José Viegas, in Jornal de Notícias

PARA QUE SERVE UM PRESIDENTE

"Cavaco Silva tem pela frente uma tarefa rigorosamente inédita ele é o primeiro presidente eleito que não responde pela herança do PREC ou pela tradição do antifascismo. Trinta anos depois do 25 de Abril, este momento traduz a inauguração de um novo ciclo na vida portuguesa. Não apenas na "vida política", mas na sua dimensão cultural e afectiva, até aqui prisioneira da bênção dos "proprietários da história" e do "republicanismo histórico". A sua eleição significa que a Presidência deixou de ser encarada como património dessa herança e dessa memória. Em vez do "republicanismo", os valores republicanos (o respeito pelas leis, o rigor e a qualidade da vida pública). Em vez do respeito acrítico pelo passado, a necessidade de uma atenção permanente à vida dos portugueses. Para isso se quer um presidente: que ele seja exigente e rigoroso num país que tem de ser mais exigente e mais rigoroso. O presidente sabe que não tem de ser o exemplo ou o símbolo dos nossos lugares-comuns; esses, temos em abundância, misturados com defeitos e virtudes. Pelo contrário, tem de ser o exemplo desse novo ciclo da vida portuguesa e da transformação que o deve acompanhar."


Francisco José Viegas, in Jornal de Notícias

E DEPOIS DO ADEUS

"Depois a cidadania desaparece, no meio dos problemas do dia-a-dia, e os partidos ficam. Iguais a si mesmos. Ou talvez não…porque, a haver alguma reorganização à direita, ela será feita, a partir de Belém, pelo eleito que não é de direita. Não tem emenda, a direita."

Constança Cunha e Sá, "A Direita", em O Espectro

E DEPOIS DO ADEUS

"Depois a cidadania desaparece, no meio dos problemas do dia-a-dia, e os partidos ficam. Iguais a si mesmos. Ou talvez não…porque, a haver alguma reorganização à direita, ela será feita, a partir de Belém, pelo eleito que não é de direita. Não tem emenda, a direita."

Constança Cunha e Sá, "A Direita", em O Espectro

ALGUNS ANTECEDENTES MITOLÓGICOS


Ameinias canta no sémen de Narciso
a muralha cujo nome findou. Esmaga
no dardo duma fonte o ermo do fascínio.
Hastes de sangue rompem em corola. Rude
a praga súbita da alma, o encontro,
corusca na sorte do pinhal. Talvez
haja na calamidade um resto que
não é calamidade: isso nos faz viver.


Joaquim Manuel Magalhães

ALGUNS ANTECEDENTES MITOLÓGICOS


Ameinias canta no sémen de Narciso
a muralha cujo nome findou. Esmaga
no dardo duma fonte o ermo do fascínio.
Hastes de sangue rompem em corola. Rude
a praga súbita da alma, o encontro,
corusca na sorte do pinhal. Talvez
haja na calamidade um resto que
não é calamidade: isso nos faz viver.


Joaquim Manuel Magalhães

25.1.06

POR QUE É QUE NOS ESQUECEMOS DE JANE?


Por causa de um "trailer", fui reler "Orgulho e Preconceito". Nem que de propósito, pelo Francisco, encontro esta magnífica prosa sobre Jane Austen, de João Pereira Coutinho. Por que é que nos esquecemos de Jane? "Orgulho e Preconceito" é uma meditação brilhante sobre a forma como as primeiras impressões, as idéias apressadas que construímos sobre os outros, acabam, muitas vezes, por destruir as relações humanas. De igual forma, "Orgulho e Preconceito" não é, como centenas e centenas de histórias analfabetas, uma história de amor à primeira vista. É, como escreveu Marilyn Butler, professora em Cambridge e a mais importante crítica de Austen, uma história de ódio à primeira vista. E a lição, a lição final, é que amor à primeira vista ou ódio à primeira vista são uma e a mesma coisa: formas preguiçosas de classificar os outros e de nos enganarmos a nós."

POR QUE É QUE NOS ESQUECEMOS DE JANE?


Por causa de um "trailer", fui reler "Orgulho e Preconceito". Nem que de propósito, pelo Francisco, encontro esta magnífica prosa sobre Jane Austen, de João Pereira Coutinho. Por que é que nos esquecemos de Jane? "Orgulho e Preconceito" é uma meditação brilhante sobre a forma como as primeiras impressões, as idéias apressadas que construímos sobre os outros, acabam, muitas vezes, por destruir as relações humanas. De igual forma, "Orgulho e Preconceito" não é, como centenas e centenas de histórias analfabetas, uma história de amor à primeira vista. É, como escreveu Marilyn Butler, professora em Cambridge e a mais importante crítica de Austen, uma história de ódio à primeira vista. E a lição, a lição final, é que amor à primeira vista ou ódio à primeira vista são uma e a mesma coisa: formas preguiçosas de classificar os outros e de nos enganarmos a nós."

UM DESEJO

Gostava que o Pulo do Lobo estivesse "em linha" até ao dia 9 de Março. Foi para esse dia que ele foi criado.

UM DESEJO

Gostava que o Pulo do Lobo estivesse "em linha" até ao dia 9 de Março. Foi para esse dia que ele foi criado.

"CHEGOU O PRESIDENTE"

Relembrar, lendo-o nesta altura, o artigo de Vasco Pulido Valente, transcrito pelo Minha Rica Casinha.

"CHEGOU O PRESIDENTE"

Relembrar, lendo-o nesta altura, o artigo de Vasco Pulido Valente, transcrito pelo Minha Rica Casinha.

NEM NA VIDA



"Não existe lugar para as emoções nos negócios. Nem na vida."

Will&Grace

NEM NA VIDA



"Não existe lugar para as emoções nos negócios. Nem na vida."

Will&Grace

FODA-SE



"Já contei a alguns amigos mas ninguém acredita: "Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas". A cena, fruto da imaginação extraordinária de José Rodrigues dos Santos, aparece n’O Codex 632. É um daqueles momentos que marca, para sempre, a carreira de um escritor. O magnetismo desta passagem é tal que se torna impossível falar da história do livro, das qualidades estilísticas do autor ao nível das descrições, da construção das personagens, a sua psicologia, as suas emoções, etc." Continue a ler a "leitura" do livro pelo João Pedro George. Desculpem a expressão, foda-se.

FODA-SE



"Já contei a alguns amigos mas ninguém acredita: "Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas". A cena, fruto da imaginação extraordinária de José Rodrigues dos Santos, aparece n’O Codex 632. É um daqueles momentos que marca, para sempre, a carreira de um escritor. O magnetismo desta passagem é tal que se torna impossível falar da história do livro, das qualidades estilísticas do autor ao nível das descrições, da construção das personagens, a sua psicologia, as suas emoções, etc." Continue a ler a "leitura" do livro pelo João Pedro George. Desculpem a expressão, foda-se.

THE DANCING QUEEN


Não sei bem porquê, talvez por ter andado hoje de metro, deu-me saudades do José Manuel Rosado. Lembrei-me dos postais divertidos que me mandava de Marrocos onde regressava sempre. Lembrei-me da nossa risota nos bastidores de um concurso televisivo em Paço d' Arcos onde ele compunha uma figura qualquer. Lembrei-me no nosso último encontro, justamente no metro, e na conversa que se prolongou à porta do Colombo. Depois disso, só a notícia do seu suicídio, no Algarve, me voltou a falar dele. O Zé Manel, como grande comediante que era, seria porventura um homem infeliz e melancólico. Nós não o podíamos perceber nas noites e madrugadas em que a sua e a nossa loucura se juntavam. Nunca chegámos a ir a Marrocos. Pode ser que no deserto que ele escolheu sozinho , a loucura continue.

THE DANCING QUEEN


Não sei bem porquê, talvez por ter andado hoje de metro, deu-me saudades do José Manuel Rosado. Lembrei-me dos postais divertidos que me mandava de Marrocos onde regressava sempre. Lembrei-me da nossa risota nos bastidores de um concurso televisivo em Paço d' Arcos onde ele compunha uma figura qualquer. Lembrei-me no nosso último encontro, justamente no metro, e na conversa que se prolongou à porta do Colombo. Depois disso, só a notícia do seu suicídio, no Algarve, me voltou a falar dele. O Zé Manel, como grande comediante que era, seria porventura um homem infeliz e melancólico. Nós não o podíamos perceber nas noites e madrugadas em que a sua e a nossa loucura se juntavam. Nunca chegámos a ir a Marrocos. Pode ser que no deserto que ele escolheu sozinho , a loucura continue.

SE

Alguns dos "discursos" sobre as respectivas derrotas presidenciais - foram cinco - assentam na "teoria do se". "Se" a esquerda não se tivesse dividido, "se" Cavaco tivesse falado mais, "se" Alegre não tivesse avançado, "se" houvesse segunda volta, "se" houvesse uma "candidatura patriótica", etc, etc. Acontece que se hoje não estivesse tanto vento, o dia até teria sido aprazível. Acontece que, se nenhum daqueles cinco candidatos conseguiu ganhar a eleição, alguém a ganhou. "Tudo verdade, portanto" . Como diria a mais famosa dona Constança da política portuguesa contemporânea, habituem-se, caramba.

SE

Alguns dos "discursos" sobre as respectivas derrotas presidenciais - foram cinco - assentam na "teoria do se". "Se" a esquerda não se tivesse dividido, "se" Cavaco tivesse falado mais, "se" Alegre não tivesse avançado, "se" houvesse segunda volta, "se" houvesse uma "candidatura patriótica", etc, etc. Acontece que se hoje não estivesse tanto vento, o dia até teria sido aprazível. Acontece que, se nenhum daqueles cinco candidatos conseguiu ganhar a eleição, alguém a ganhou. "Tudo verdade, portanto" . Como diria a mais famosa dona Constança da política portuguesa contemporânea, habituem-se, caramba.

A MITOMANIA ALEGRE

A tonteria que envolveu a campanha de Manuel Alegre pretende prolongar-se. "O poder dos cidadãos", uma coisa que Alegre parece ter descoberto nesta fase tardia da sua vida política, depois de ter estado mais de trinta anos em actividades exclusivamente partidárias, comove alguns dos seus mais afoitos apoiantes. Era bom que alguém explicasse a essas almas duas ou três coisas. Em democracias da natureza da nossa, e embora a representatividade política não se deva esgotar nos partidos, é fundamentalmente com eles que a coisa funciona. Até o general Eanes, que era alérgico, acabou por fundar um. Ou seja, as criaturas que berram que "ninguém pára Alegre", ou querem um PS "novo", ou querem outra coisa parecida e nada filantrópica. Depois, fazia-lhes igualmente bem perceberem que os votos de domingo se esgotaram naquela eleição. Quer os do candidato vencedor - que realçou claramente este aspecto -, quer os dos outros todos, mesmo os tribunícios que apareceram apenas para contar os deles. O ter ficado à frente ou atrás só interessa para efeitos domésticos, logo, de partido, a tal entidade de que os apoiantes de Alegre querem aparentemente fugir. A mitomania Alegre terminará oportunamente como começou. É só dar tempo ao tempo.

A MITOMANIA ALEGRE

A tonteria que envolveu a campanha de Manuel Alegre pretende prolongar-se. "O poder dos cidadãos", uma coisa que Alegre parece ter descoberto nesta fase tardia da sua vida política, depois de ter estado mais de trinta anos em actividades exclusivamente partidárias, comove alguns dos seus mais afoitos apoiantes. Era bom que alguém explicasse a essas almas duas ou três coisas. Em democracias da natureza da nossa, e embora a representatividade política não se deva esgotar nos partidos, é fundamentalmente com eles que a coisa funciona. Até o general Eanes, que era alérgico, acabou por fundar um. Ou seja, as criaturas que berram que "ninguém pára Alegre", ou querem um PS "novo", ou querem outra coisa parecida e nada filantrópica. Depois, fazia-lhes igualmente bem perceberem que os votos de domingo se esgotaram naquela eleição. Quer os do candidato vencedor - que realçou claramente este aspecto -, quer os dos outros todos, mesmo os tribunícios que apareceram apenas para contar os deles. O ter ficado à frente ou atrás só interessa para efeitos domésticos, logo, de partido, a tal entidade de que os apoiantes de Alegre querem aparentemente fugir. A mitomania Alegre terminará oportunamente como começou. É só dar tempo ao tempo.

24.1.06

CRÓNICA DA VIDA QUE PASSA


"Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeismo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeismo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade. Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele-próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz. E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que "homem de génio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos. Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista, descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida-eterna, o elixir da vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da cousa transcendental que criaram, maiores do que os génios todos da evidência humana. Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da nossa pequenez. Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas - e quem sabe a que ponto reais? - que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade.

Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação

CRÓNICA DA VIDA QUE PASSA


"Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeismo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeismo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade. Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele-próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz. E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que "homem de génio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos. Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista, descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida-eterna, o elixir da vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da cousa transcendental que criaram, maiores do que os génios todos da evidência humana. Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da nossa pequenez. Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas - e quem sabe a que ponto reais? - que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade.

Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação

"WISH WE HADN'T"


"It’s impossible to grasp just how powerful love is. It can sustain us through trying times or motivate us to make extraordinary sacrifices. It can force decent men to commit the darkest deeds or compel ordinary women to search for hidden truths. And long after we’re gone, love remains burned into our memories. We all search for love, but some of us, after we found it, wish we hadn’t."

"WISH WE HADN'T"


"It’s impossible to grasp just how powerful love is. It can sustain us through trying times or motivate us to make extraordinary sacrifices. It can force decent men to commit the darkest deeds or compel ordinary women to search for hidden truths. And long after we’re gone, love remains burned into our memories. We all search for love, but some of us, after we found it, wish we hadn’t."

LER

Esta "hipótese de trabalho".

LER

Esta "hipótese de trabalho".

MEA CULPA


A quente, "malhei" outro dia no Diário de Notícias. Não gostei de algumas reportagens de campanha e de crónicas repetitivas do argumentário tradicional contra Cavaco Silva. Também não apreciei o ostracismo a que a candidatura vencedora votou o jornal durante a campanha. Há contas do rosário que eu não conheço. Dito isto, e lembrando-me que no jornal trabalham ou trabalharam meus conhecidos e amigos (o Eurico de Barros e o António Valdemar) e outros que eu gostaria de conhecer e cujo trabalho estimo (o João Morgado Fernandes), "amigos como dantes, quartel-general em Abrantes". "She is looking at you, kid".

MEA CULPA


A quente, "malhei" outro dia no Diário de Notícias. Não gostei de algumas reportagens de campanha e de crónicas repetitivas do argumentário tradicional contra Cavaco Silva. Também não apreciei o ostracismo a que a candidatura vencedora votou o jornal durante a campanha. Há contas do rosário que eu não conheço. Dito isto, e lembrando-me que no jornal trabalham ou trabalharam meus conhecidos e amigos (o Eurico de Barros e o António Valdemar) e outros que eu gostaria de conhecer e cujo trabalho estimo (o João Morgado Fernandes), "amigos como dantes, quartel-general em Abrantes". "She is looking at you, kid".

LER

"Como não assumir a derrota em dez lições" , de Paulo Pinto Mascarenhas.

LER

"Como não assumir a derrota em dez lições" , de Paulo Pinto Mascarenhas.

AS COISAS SÃO O QUE SÃO


"Pero hay más; según el último Eurostat, Portugal es el país más desigual de la UE. En 2003, la comparación entre la renta acumulada por el 20% más rico y el 20% más pobre daba una ratio de 7,4, es decir: los más pudientes ingresaron 7,4 veces más que los más necesitados. La cifra es idéntica a la de 1995, cuando acabó la década del Gobierno Cavaco. Hoy, en las cien mayores fortunas de Portugal se mezclan las históricas familias lisboetas, asociadas a la época salazarista (Champalimaud, Espírito Santo, Mello, Monteiro de Barros o Queiroz Pereira), con las nuevas fortunas surgidas tras la Revolución de Abril, entre las que destacan los empresarios norteños Belmiro de Acevedo y Américo Amorim. Entre unos y otros tienen 22.500 millones de euros, es decir, el 17,6% de la riqueza nacional. Pero si el viajero sale de los centros urbanos, deja atrás los campos de golf y recorre las periferias o el interior rural del país, la cosa cambia. Ahí el dinero es como si no existiera. La barriada gitana de São João de Deus en Oporto recuerda más a la favela de Río que a las afueras de cualquier ciudad europea. Y en el deprimido y bellísimo campo, al que, eso sí, se llega por espléndidas autopistas de peaje (de la era de Cavaco en el Gobierno), miles de hombres se siguen viendo obligados a emigrar a los núcleos urbanos o a la vecina España."

El Pais, suplemento de domingo, dia 22

AS COISAS SÃO O QUE SÃO


"Pero hay más; según el último Eurostat, Portugal es el país más desigual de la UE. En 2003, la comparación entre la renta acumulada por el 20% más rico y el 20% más pobre daba una ratio de 7,4, es decir: los más pudientes ingresaron 7,4 veces más que los más necesitados. La cifra es idéntica a la de 1995, cuando acabó la década del Gobierno Cavaco. Hoy, en las cien mayores fortunas de Portugal se mezclan las históricas familias lisboetas, asociadas a la época salazarista (Champalimaud, Espírito Santo, Mello, Monteiro de Barros o Queiroz Pereira), con las nuevas fortunas surgidas tras la Revolución de Abril, entre las que destacan los empresarios norteños Belmiro de Acevedo y Américo Amorim. Entre unos y otros tienen 22.500 millones de euros, es decir, el 17,6% de la riqueza nacional. Pero si el viajero sale de los centros urbanos, deja atrás los campos de golf y recorre las periferias o el interior rural del país, la cosa cambia. Ahí el dinero es como si no existiera. La barriada gitana de São João de Deus en Oporto recuerda más a la favela de Río que a las afueras de cualquier ciudad europea. Y en el deprimido y bellísimo campo, al que, eso sí, se llega por espléndidas autopistas de peaje (de la era de Cavaco en el Gobierno), miles de hombres se siguen viendo obligados a emigrar a los núcleos urbanos o a la vecina España."

El Pais, suplemento de domingo, dia 22

A BEAUTIFUL CHILD


A rádio proporcionou-me, logo pela fresquinha, Rachmaninov e o seu concerto nº 2 para piano e orquestra. É uma peça recorrente nos programas de música dita clássica, mas é também a lembrança de um filme famoso de Billy Wilder, Seven Year Itch. Nele aparece Marilyn Monroe, a desconcertante vizinha de um bom marido e honesto pai de família, apanhado sozinho em casa, e que não resiste à "comichão" supostamente ocorrida nos anos sétimos dos casamentos e que o obriga a prestar mais atenção ao "pecado que mora ao lado". À saída de um cinema, dá-se a célebre cena ilustrada aqui ao lado. Um ar fresco que vinha do metro e um calor que vinha do corpo. Do corpo eterno e malogrado de Monroe, essa "beautiful child" de que falava Truman Capote.

A BEAUTIFUL CHILD


A rádio proporcionou-me, logo pela fresquinha, Rachmaninov e o seu concerto nº 2 para piano e orquestra. É uma peça recorrente nos programas de música dita clássica, mas é também a lembrança de um filme famoso de Billy Wilder, Seven Year Itch. Nele aparece Marilyn Monroe, a desconcertante vizinha de um bom marido e honesto pai de família, apanhado sozinho em casa, e que não resiste à "comichão" supostamente ocorrida nos anos sétimos dos casamentos e que o obriga a prestar mais atenção ao "pecado que mora ao lado". À saída de um cinema, dá-se a célebre cena ilustrada aqui ao lado. Um ar fresco que vinha do metro e um calor que vinha do corpo. Do corpo eterno e malogrado de Monroe, essa "beautiful child" de que falava Truman Capote.

COMO...

... é que eu não me lembrei deste?

COMO...

... é que eu não me lembrei deste?

23.1.06

ALIEN

Helena Roseta, a única especialista em política na falecida candidatura de Manuel Alegre - e, mesmo assim, má -, veio dizer que o milhão e não sei quantos mil votos no homem valiam mais do que o PS. É uma visionária, esta Helena. Depois disse que os "valores" da candidatura de Alegre (quais valores?) vieram para ficar e mostrou vontade de os arregimentar juntamente com o tal milhão. Num acesso de magnanimidade, Alegre esclareceu que não pretende "armar" nenhum partido ao lado do PS. Todavia deixou pairar a ideia de que aquela "cidadania" toda tinha de ser bem estudada. Julgo que os que votaram em Alegre - e que me merecem todo o respeito - não tinham bem a noção no que é que se estavam a meter. O atomismo basicamente nulo das suas "propostas" permite tudo e o seu contrário. Como alguém disse com manifesta felicidade, Alegre era Américo Tomás e Humberto Delgado ao mesmo tempo. O "voto de protesto" em Alegre mostra que os partidos não sabem cuidar das suas crias. É como a série do "Alien, o oitavo passageiro". Quando dão por isso, já é tarde.

ALIEN

Helena Roseta, a única especialista em política na falecida candidatura de Manuel Alegre - e, mesmo assim, má -, veio dizer que o milhão e não sei quantos mil votos no homem valiam mais do que o PS. É uma visionária, esta Helena. Depois disse que os "valores" da candidatura de Alegre (quais valores?) vieram para ficar e mostrou vontade de os arregimentar juntamente com o tal milhão. Num acesso de magnanimidade, Alegre esclareceu que não pretende "armar" nenhum partido ao lado do PS. Todavia deixou pairar a ideia de que aquela "cidadania" toda tinha de ser bem estudada. Julgo que os que votaram em Alegre - e que me merecem todo o respeito - não tinham bem a noção no que é que se estavam a meter. O atomismo basicamente nulo das suas "propostas" permite tudo e o seu contrário. Como alguém disse com manifesta felicidade, Alegre era Américo Tomás e Humberto Delgado ao mesmo tempo. O "voto de protesto" em Alegre mostra que os partidos não sabem cuidar das suas crias. É como a série do "Alien, o oitavo passageiro". Quando dão por isso, já é tarde.

TAMBÉM É SUA...

... a derrrota, Pedro Santana Lopes, regressado por breves instantes do anonimato político a que o forçam duas "voltas" consecutivas em perda. Este original morto-vivo - a melhor peça intuitiva da "direita" que não há meio de perceber que deve hibernar por uns tempos - não resistiu a um comentário politicamente nulo sobre os resultados eleitorais. Por que é que não avançou?

TAMBÉM É SUA...

... a derrrota, Pedro Santana Lopes, regressado por breves instantes do anonimato político a que o forçam duas "voltas" consecutivas em perda. Este original morto-vivo - a melhor peça intuitiva da "direita" que não há meio de perceber que deve hibernar por uns tempos - não resistiu a um comentário politicamente nulo sobre os resultados eleitorais. Por que é que não avançou?

TAMBÉM É SUA...

... a derrota, caro Vital Moreira, e do seu tremendismo constitucionalista coimbrão. No género da sua prosa da "despromoção", recebi alguns "sms" ilustrativos deste pensamento jacobino que não suporta conceptualmente a vitória do "santinho de Boliqueime" ou, na versão monárquica, "pouco sofisticado" e "rústico". Há gente que não consegue, por muito que se esforce, deixar entrar a realidade pelos respectivos olhinhos adentro. Não aprenderam nada e reclamam eterno paternalismo democrático. Não há pachorra. Em sentido contrário, ou seja, lúcido, o "soarista" Eduardo Pitta remata bem: "uma vitória curta não tem menos legitimidade que uma vitória gorda."

TAMBÉM É SUA...

... a derrota, caro Vital Moreira, e do seu tremendismo constitucionalista coimbrão. No género da sua prosa da "despromoção", recebi alguns "sms" ilustrativos deste pensamento jacobino que não suporta conceptualmente a vitória do "santinho de Boliqueime" ou, na versão monárquica, "pouco sofisticado" e "rústico". Há gente que não consegue, por muito que se esforce, deixar entrar a realidade pelos respectivos olhinhos adentro. Não aprenderam nada e reclamam eterno paternalismo democrático. Não há pachorra. Em sentido contrário, ou seja, lúcido, o "soarista" Eduardo Pitta remata bem: "uma vitória curta não tem menos legitimidade que uma vitória gorda."

TAMBÉM É SUA....

... meu caro Medeiros Ferreira. Sua e daqueles que insistiram com Soares nesta aventura arrogante e duplamente perdedora. Perdedora para o antigo Chefe de Estado e perdedora para o PS, um partido a braços com a responsabilidade maioritária de conduzir o país na legislatura. Vale, no meio deste jogo de sombras, a credibilidade de José Sócrates que as candidaturas de Soares e Alegre visavam essencialmente atingir. Teve sorte. "Saiu-lhe" o presidente certo.

TAMBÉM É SUA....

... meu caro Medeiros Ferreira. Sua e daqueles que insistiram com Soares nesta aventura arrogante e duplamente perdedora. Perdedora para o antigo Chefe de Estado e perdedora para o PS, um partido a braços com a responsabilidade maioritária de conduzir o país na legislatura. Vale, no meio deste jogo de sombras, a credibilidade de José Sócrates que as candidaturas de Soares e Alegre visavam essencialmente atingir. Teve sorte. "Saiu-lhe" o presidente certo.

OS PERDIDOS (actualizado)

Esta eleição presidencial registou um verdadeiro exército de derrotados. À semelhança do que aconteceu no final do ano, elenco, à medida que me for lembrando, as coisas, os gestos e as pessoas em causa.
  • o discurso de derrota de Jerónimo de Sousa que veio "branquear" a imagem simpática que tinha deixado na campanha ou o regresso do estalinista de Pires Coxe;
  • o discurso de derrota de Louçã, que é candidato a tudo e mais alguma coisa que lhe dê tempo de antena evangélico, prometendo mais "luta";
  • o discurso de derrota de Alegre, interrompido a frio por Sócrates, onde insistiu no seu equívoco vazio que deve ter deixado as "esquerdas" à beira de um ataque de nervos;
  • os cortesãos de Mário Soares, mais do que o próprio;
  • a chorona Helena Roseta que falou na SIC directamente para a estratosfera;
  • as reportagens de Anabela Neves na SIC contra Cavaco;
  • o Padre Melícias que nunca escamoteou o seu odiozinho pouco católico a Cavaco;
  • a Joana Amaral Dias que é duplamente derrotada, dentro e fora do BE;
  • o Diário de Notícias;
  • a sobranceria das esquerdas acerca de tudo e de todos, particularmente em matéria de subtileza "cultural";
  • Santana Lopes, na sua segunda volta como derrotado;
  • os meus amigos que sobrepuseram a sua "lucidez" política à amizade;
  • o "aparelho" do PS, nas pessoas de Jorge Coelho, Lello, Edite Estrela e outros e de alguns membros do governo que decidiram ir brincar às presidenciais;
  • alguns blogues cujos "discursos" e respectivas ilustrações, muitos já realizados depois dos resultados, mostram pouco discernimento democrático;
  • o inefável dr. Cadilhe, a quem o País fez a desfeita de mandar o "Pai do Monstro" para Belém;
  • os míseros 50,59% de Cavaco Silva (2 745 491 votos), tão relembrados pelos contabilistas habituais (já nos idos de 80 faziam contas para provar que a Aliança Democrática de Sá Carneiro era "minoritária" mesmo vencedora), correspondem a mais 334 341 votos do que os esmagadores 55,76% de Jorge Sampaio (2 411 150 votos);
  • quatro criaturas que fizeram do combate a Cavaco Silva o respectivo programa de candidatura, alternando apenas no primarismo, na "imaginação" e no "tempo" de apresentação do programa;
  • o indeciso, essa categoria de português "mole" que gosta de ver passar os comboios.