8.8.12

Só lhes fazia bem






"Deveria haver um conjunto de obras literárias escritas na nossa língua que todos teriam de conhecer. No plano do ensino, isto parece de uma evidência elementar, mas tem andado mais ou menos esquecido. Ora, reduzida às suas linhas mais simples, esta é afinal a questão do cânone literário e da sua relevância para o currículo escolar, embora esse plano, por definição, acabe por ser transcendido, pois o cânone não é propriamente uma simples ferramenta para uso do ensino, mas antes um quadro de referências indispensáveis e um complexo de elementos literários respeitante ao sistema de valores e aos interesses culturais de uma dada sociedade: incorpora uma série de modelos cuja evidência paradigmática se recorta ao longo dos sucessivos tempos históricos e se impõe à mentalidade e à sensibilidade colectivas. Na escola, a abordagem do cânone deve ser flexível e variada. Em Portugal, antigamente, havia para tal efeito excelentes instrumentos que iam dos cadernos literários da Seara Nova aos textos da editorial Comunicação e vários outros. Havia também selectas, crestomatias e antologias que apresentavam criteriosamente passagens mais ou menos extensas de obras que faziam parte do cânone. E havia, para quem estudava, a obrigação de saber dessas obras e mesmo de conhecer algumas delas na íntegra. Dos cancioneiros medievais a Fernão Lopes, de Bernardim e Gil Vicente a Sá de Miranda e Camões, de Rodrigues Lobo e Francisco Manuel de Melo a Bernardes e Vieira, de Bocage, Garrett e Herculano a Camilo, Eça, Cesário, Antero e António Nobre, isto para dar só alguns exemplos flagrantes do século XIII ao século XIX, os alunos de Português tinham de contactar com toda uma série de autores e isso só lhes fazia bem. Visitavam lugares escolhidos da grande literatura escrita na sua língua e, a partir desses paradigmas, tinham de proceder a vários tipos de análise e de interpretação, enriqueciam o seu conhecimento do léxico e da gramática, aprendiam figuras de estilo, adquiriam uma certa compreensão história e contextualizada da obra de cada autor, aperfeiçoavam grandemente o conhecimento do português como língua materna e tornavam-se capazes de utilizá-lo melhor. É por isso da maior importância que se retome o cânone literário e que este forneça uma base essencial para o desenvolvimento dos programas de português. Tanto o Ministério da Educação como o Plano Nacional de Leitura têm aqui uma tarefa de grande responsabilidade. Nunca será de mais insistir em que os estudantes, se tiverem um bom domínio da língua portuguesa, ficam preparados para ler tudo o mais: bulas de medicamentos, manuais de instruções, relatórios técnicos, notícias de jornais... Ao invés, se a sua preparação for circunscrita a este tipo de textos, nunca eles conseguirão ler capazmente um grande escritor. E se não forem capazes de ler capazmente um grande escritor, acabarão por não ser capazes de mais nada.»


 


Vasco Graça Moura, DN

4 comentários:

Anónimo disse...

Comecei a ler o artigo e poucas linhas após, sem verificar o nome do autor, pensei logo: 'isto é quase de certeza de Carrilho ou melhor ainda, porque mais directo assunto em questão, de Graça Moura. E era! Gosto bastante de ouvir (nas televisões) ou ler V.G.Moura. Tudo o que diz ou escreve é de se aproveitar. Sobretudo pelo Ministério de Educação.

Artigo *****
----------------
Maria

josé disse...

Completamente em desacordo. A mim parece-me por demais evidente que os miúdos nestas idades ("os jovens") não têm na sua maioria maturidade para apreciar (ou mesmo compreender) a grande parte dos autores que VGM refere. Na tentação de se querer ensinar tudo, corre-se o risco de se criar entre os jovens e a literatura uma barreira que uma vez existindo, só muito dificilmente se conseguirá transpor. Eu penso que um verdadeiro plano nacional de leitura passaria por utilizar a disciplina de português como uma ponte entre os jovens e a literatura, mas uma literatura susceptível de ser apreciada e compreendida. O Eça parece-me adequado, o Saramago nem tanto. Não percebo porque é que não se escolhem autores como David Mourão Ferreira, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Cardoso Pires (refiro-me apenas à ficção). Também me parece que há um ênfase excessivo na poesia num contexto que não lhe é favorável: ler poesia é sempre uma experiência íntima. Por outro lado acho que o ensaio enquanto género não figura no programa. E porque não autores como Eduardo Prado Coelho, Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva etc etc sobretudo em articulação com outros. Olhe, resumindo, não há educação para o gosto sem ter em conta a pessoas que vão ser educada e as sua circunstância.

Nuno Castelo-Branco disse...

Há uns trinta anos, disse a alguém que um dia, os "Mistérios de Lisboa" serviriam para um belo filme. Não é que tinha razão?

jsp disse...

Resumindo : o programa que existia nos saudosos segundo e terceiro ( Letras e Direito neste último) ciclos liceais -.