6.5.15

António Costa e os índios do Paraguai


 


(...) O que se passou é um mero reflexo do que tem dado a crescente promiscuidade entre a acção política e a acção comunicacional. O "namoro" corre razoavelmente até ao momento em que o jornalista não diz, ou não diz bem, aquilo que o político estava habituado a ler e a ouvir ou, no limite, aquilo que queria ler e ouvir. E aí o político tende a reagir com um excesso "que pouco tem a ver com o que aconteceu mas com a forma como vem relatado" (socorro-me de José Pacheco Pereira em "O nome e a coisa", de 1997). Para não irmos mais longe, basta recordar os barulhos entre a Casa Civil do actual presidente da República e Mário Crespo, entre uma mão cheia de jornalistas e Sócrates, entre o "Público" e Relvas ou entre António Costa, na vertente presidente de Câmara, com o mesmo "Público". Costa, porém, não é um cidadão comum quando lê um jornal, escuta a rádio, vê televisão ou navega nas "redes sociais". Por isso as suas reacções no campo das liberdades públicas, onde se inclui a de expressão e a de informar, interessam-me enquanto eventual chefe futuro de um governo democrático. Ou, como perguntava António José Saraiva, "acaso estamos destinados a ser eternamente meninos, como os índios do Paraguai, sabiamente tutelados pelos virtuosos padres jesuítas nas aldeias comunitárias do século XVII"? Talvez Costa ache que sim. E que, numa má declinação da Mertreuil de Laclos, é a sua própria obra.


 


Jornal de Notícias


 

3 comentários:

Marquês Barão disse...

O NÃO ASSUNTO A comunicação social não lhe pode permitir esse abuso de confiança. Do ponto de vista jornalístico quem decide o que é assunto são os jornalistas. Estes tem o direito de formular as perguntas que bem entenderem. E o Senhor Costa no patamar de líder de um partido e candidato a 1º ministro reserva-se o direito de responder ou não. Não podemos permitir que se invertam as posições, e assim á politica o que é da politica e ao jornalismo o que é do jornais.
Entendido por todos?

Pedro disse...

O Marquês fez-me lembrar aquela que saiu de trás de um carro...

Marquês Barão disse...

Eu estava a lembrar-me dos que querem controlar o circo. Antes palhaços sem graça do que domadores sinistros.