8.5.15

A grande ilusão


 


«Vou escrever sobre meia dúzia, talvez, com optimismo, sobre uma dúzia de intelectuais franceses que dominaram o pensamento político desde o fim da guerra a 1962-1965. Todos se conheciam, todos se viam, todos passavam pelos mesmos restaurantes, pelos mesmos bares, pelos mesmos cafés. Todos se falavam e não paravam de falar, mas ninguém concordava com ninguém. Havia, para começar, uma grande divisão: entre os que estavam dentro e os que estavam fora — do Partido Comunista Francês (PCF), claro está. E, dos que estavam fora, entre os que estavam mais próximos do partido e os que estavam mais longe. A distância era medida pela quantidade de idiotia e de mentiras que cada um alegremente aceitava sobre a URSS e a política francesa; pelos livros que cada um escrevia para justificar o injustificável. Não se pense que esta estranha vida se fazia sem dor. As crises de consciência e as zangas pessoais não paravam nunca. Ferviam insultos. Muitos foram para a província com esperança de recuperar um pouco de sanidade. Não conseguiram. Os dogmas não deixavam saída. O primeiro declarava a URSS a pátria do socialismo real (por muito que a realidade se não parecesse com a descrição), e os verdadeiros revolucionários tinham de a defender contra as calúnias do Ocidente. O segundo dava ao proletariado da França a missão histórica de trazer o socialismo à Europa (apesar de ele já ser nessa altura minoritário e fraco). E o terceiro estabelecia que o PCF representava o proletariado da França. Recusar o PCF era assim simultaneamente recusar a história, a justiça e a Pátria. A herança desses senhores e dessas senhoras acabou por ser um legado de ignomínia e de irresponsabilidade. Verdade que, perante a evidência, a maior parte se arrependeu e, penitentemente, acabou por se confessar em público, como na Idade Média. Mas não ajudaram nada, nem aliviaram o mal que tinham promovido e aplaudido. A esquerda portuguesa de hoje não se distingue muito da esquerda francesa que reinou durante 20 anos e a seguir abjectamente se matou. Os filhos dela continuam a berrar por aí. Até ao dia em que perceberem que as poses não substituem os factos e que não se governa disfarçando e escondendo um passado desagradável. O dr. Costa julga que caiu imaculado no meio de nós. Infelizmente, nós sabemos como e com quem ele chegou ao que chegou.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

2 comentários:

Anónimo disse...

Ao Vasco Pulido Valente o Dr.Costa não manda nenhum SMS, o que por si só já diz tudo sobre o carácter de ambos.

João V. Claro disse...

Este texto é extraordinário a vários títulos. Segundo apenas  um deles (e mesmo tendo em conta a lentidão relativa do tempo histórico no séc. XIX), a política do II Império seria ditada unicamente ou sobretudo pelas preferências relativas ao verdadeiro Bonaparte, de 50 anos antes. Na melhor das hipóteses, VPV é uma graciosa reminiscência histórica; na pior (para a qual me inclino), é um narcisista que envelheceu mal e que agora só estorva.