
Passam seis meses sobre a detenção de José Sócrates. Primeiro para interrogatório e a seguir a título de medida de coacção máxima. Ainda há quatro anos este homem era o primeiro-ministro de Portugal. Dirigira entretanto um dos maiores partidos políticos portugueses. Foi deputado, secretário de Estado e ministro. O livro de Fernando Esteves é, até agora, a sua única biografia política. Não me refiro, claro, às primeiras páginas em torno do processo que o mantém detido. Sócrates não está acusado nem "arquivado". Persiste num limbo carcerário que, segundo um companheiro de infortúnio, o mata em vida (o livro termina com esta frase enigmática: "está morto em vida".) Todavia o livro não revela uma personagem susceptível, seja em que circunstância for, de poder "estar morto em vida". O autor optou por sujeitar a ordem cronológica dos "factos" à relevância dos temas. Tratou-se de uma opção inteligente que permite traçar algumas constantes na vida política do biografado desde cedo. E juntá-las. Ambição com intimidação, auto-estima com megalomania, determinação com teimosia, inteligência com esperteza, complexos com excessos, controlo com insegurança, ambiguidade com firmeza, manipulação com imagem. O que sobretudo me impressionou foi a clara ausência de densidade democrática no homem político que a persona Sócrates forjou. António Barreto escreveu uma vez que não sabia se Sócrates era fascista. Prefiro, depois de ter lido o livro, a perplexidade de não ter a certeza se Sócrates é um democrata respeitador das liberdades públicas. Espero que um dia, livre e "vivo em vida" como o concebo, me possa esclarecer.
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