22.8.12

As benevolentes

 



 






«Nada substituiu o francês com particular vantagem. Na escola, deixou de se aprender e o inglês, que se estuda em vez dele, não parece ir longe. É certo que nalgumas áreas científicas, no "economês" de serviço e nos computadores, se tornou incontornável a presença de uma matriz anglo-americana. Mas hoje em dia, apesar das séries de televisão, dos filmes e da Internet, ninguém ou quase ninguém lê obras literárias em inglês ou se exprime nessa língua com a facilidade com que o fazia em francês. E as toneladas de materiais da maior relevância, impressos em francês, que dormem nas nossas bibliotecas, estão mais ou menos condenadas a serem somente lidas pelas traças. É pena. Foi com esses materiais que aprendemos a pensar a literatura e as artes, a história, a própria Europa. Do fundo dessa decadência, três séculos de cultura em língua francesa nos contemplam.»


 


Vasco Graça Moura, DN


 


Foto: Montaigne Project

9 comentários:

Vasco disse...

"(...) ninguém ou quase ninguém lê obras literárias em inglês ou se exprime nessa língua com a facilidade com que o fazia em francês." Gostava de saber onde é que o meu ilustríssimo homónimo foi desencantar esta teoria. É por estas e por outras que o excesso de conservadorismo condena muitas coisas que poderiam de facto ser conservadas a serem deixadas para trás como se se tratasse da peste. O inglês é a língua da tecnologia e da indústria, coisa que de facto sempre foi mal vista aqui pela "cultura" francóide-arabesca que nunca produziu um prego.

Vasco disse...

E além disso a língua e cultura inglesas foram capazes de produzir obras que nenhum escritor romano ou francês alguma vez conseguiu (a Grega foi mais abundante nesse aspecto): histórias e personagens universais, sem regionalismos patêgos e aborrecidos que não interessam a ninguém.

Vortex disse...

ficará tudo «ruído do bicho«

domedioorienteeafins.blogspot.com disse...

Exactamente!!!

José Pedro disse...

O saber não ocupa lugar, mas será que foi assim que os puristas do Egipto pensaram quando os Romanos lhes "enfardavam" Latim para cima? ohh não, e agora quem é que vai ler os pergaminhos tão bonitos que nós fechamos ali nas pirâmides?"

Eremita disse...

Disparates. Seria muito fácil provar que há hoje muito mais gente a dominar o inglês do que na época da hegemonia gaulesa se falava francês em Portugal. A única diferença é que nessa época só tinha acesso aos media a pequena elite letrada da nação e hoje esse acesso democratizou-se. Quanto ao que VGM escreve sobre os leitores da grande literatura, a descrição é correcta, mas a interpretação volta a não fazer sentido. As fontes de dispersão são hoje muito mais diversificadas do que ontem. É impressionante a falta de rigor com que se escreve e cita neste país.

Justiniano disse...

Apenas para secundar aqui o caro Vasco!
Aquele texto do Graça Moura é positivamente um asnear intrépido e deslumbrado. Porventura a única decadencia que ali se pode ler é a decadencia do juízo de Graça Moura que, parece, desisitiu de interpretar o real e queda-se na percepção nostálgica e pueril, revel aos factos, de um mundo que nunca existiu e nem nunca foi assim, como aquele ali diz, vivido!! Há ali muito Moura Graça, pouco Portugal e nenhuma França!! Nunca língua alguma esteve tão viva como hoje!

Passaroco do Mondego disse...

É verdade que "compreender" ou "dominar" o inglês não implica necessariamente ler obras "literárias" ( como diz V.G.M. ) nessa língua, o que na verdade acontecia na língua francesa.
Embora possam apontar-lhe uma tonalidade de saudosismo de um período em que realmente nem todos acediam aos meios e ao espírito que foi o esteio da raíz francófona em Portugal, não há dúvida : a hegemonia bruta da cultura e da língua anglo - saxónica não tem um correspondente directo, em termos de formação humana, cultural, de valores e de ideias, da literatura à filosofia, como teve o francês até há uns anos atrás.
O que sem dúvida, para mim, constitui a perda grande é que a francofonia ( como o latim noutro nível de questões e do ensino ) esteja tão relegado para uma margem agora quase centesimal.
Tornaram-se estas gerações menos capazes, por se virarem apenas para o inglês ( e para o proverbial castelhano que todos acham que sabem ) além do português - que era sm dúvida mais bem "sabido e aprendido" quando o francês ( língua também de origem latina ) tinha o destaque e a atenção mais adequados.

Marão disse...

Parece que os técnicos da industria e da tecnologia que universalmente se entendem, não vão concordar nem mudar para o francês.