20.1.15

Entrevero


 


Em 1970, Marcos André (António Marques André) editou um livro de poemas no Brasil. Ofereceu-me um exemplar que dedicou "a um leitor que gostou de "coisas" que nele vão escritas". Nas palavras que antecedem os poemas, André pergunta por que os decidiu editar. Seria «por ter sido surpreendido, ao iniciar a minha carreira de livreiro, com a chamada elite cultural, emaranhada e desgastando-se inutilmente em intriguinhas provincianas?" Seria porque foi acometido pelo "vómito mental que sentia por ver e constatar tanta estreiteza e mesquinhez?" As questões deixadas em aberto andam por aí como andavam na altura em que André, por São Paulo, as formulou. Marcos André faleceu no passado fim de semana e não sei se chegou a ver a Lácio "recuperada". De qualquer modo "sobrevive" no seu livro e na memória daqueles que o conheceram e que com ele partilhavam idêntica paixão inútil (como todas as paixões) pelos livros. E que não se conformam com a sobrevivência, praticamente em regime de exclusividade, dos pulhas e dos anacoretas. António Marques André passou definitivamente a fazer parte  dos "céus desabitados" da frase de Aparição, de Vergílio Ferreira, que escolheu como epígrafe para o seu livro:«que mais há na tua vida que o teu canto, a angústia do teu grito contra os céus desabitados?»


 


Foto: Quadro de João Vieira

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