15.1.15

Possibilidades de mundo


 


Estava a ler esta notícia e lembrei-me de um texto recorrente (pelo menos para mim) de Vasco Pulido Valente. No concurso público externo - com provas escritas e entrevistas, realizado em 1991, com cerca de duzentos e tal oponentes - em que estivemos juntos, eu e o actual Inspector-Geral de Finanças, "calhou-me" o segundo lugar da lista de classificação final. O primeiro foi para um quadro da então Direcção-Geral das Contribuições e Impostos, que desistiu, e que é hoje o "número dois" da Autoridade Tributária e Aduaneira. Dos licenciados em direito dessa lista de dez ou onze, outros foram dirigentes da administração pública por aqui ou ali. Até eu, ainda que por breves instantes, quando era vivo. O Vítor Braz chega agora, por mérito próprio, à liderança da IGF. Trabalhador, sério e perspicaz  vai certamente, e desde que os crápulas de serviço o deixem, fazer um bom lugar. Estes meus amigos tentaram e tiveram sucesso, tentaram melhor e tiveram ainda mais sucesso. Contrariamente a eles todos, sou mais "beckettiano" nestas como em quase todas as "matérias": o fracasso seguinte é sempre melhor que o anterior. Todavia não me "queixo". Se tivesse seguido, certinha e videirinha, uma "carreira", fosse ela qual fosse, não teria tido outras possibilidades de mundo que acabei por ter mesmo que não haja mais. Não sei, aliás, se me serviram para alguma coisa a não ser naqueles precisos momentos em que ocorreram: lugares, pessoas, circunstâncias, riscos, risos, um pouco de felicidade. Mas, dizia, lembrei-me de Vasco Pulido Valente ao entrar na década dos cinquenta e ao olhar para isto tudo. «Penetrei na impropriamente chamada meia idade desta maneira: ou seja, aflito. O céu caiu-me em cima sem aviso. Nestas crises, segundo o costume, as pessoas agarram-se: à família, ao trabalho, às ambições. Reparei que os meus amigos se agarravam. Um a um, consoante a sua natureza, transformaram-se em secretários de Estado, políticos respeitáveis, académicos triunfantes, altos funcionários ou pais extremosos. Vários preferiram a virtude, ideológica ou sexual. Com meritórias excepções, quase todos se encaminharam. Mas precisamente eu não pretendia encaminhar-me. Deus sabe que eu nunca fui assim.»

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