16.1.14

O regresso clandestino do escudo


 


No seu livro "Não há mapa cor de rosa", e em entrevistas recentes, José Medeiros Ferreira usou uma expressão feliz para a infelicidade de milhares de famílias portuguesas: o regresso clandestino do escudo. De facto, aqueles que vivem do trabalho dependente ou da sua pensão - especialmente os chamados funcionários públicos, embora os "privados", por via dos impostos, acabem por lá chegar, e os pensionistas sem distinção -, podem por estes dias constatar melancolicamente esse regresso. Basta atentar bem nos recibos de vencimentos ou de pensões, estas ainda sem a famosa "recalibragem solidária": apesar de expressos em euros são na realidade valores de há mais de quinze anos que eles evidenciam. Em Portugal, por consequência, "circulam" duas moedas na forma material de uma, sendo que a "forte" está reservada para o sistema financeiro que já começa a babar-se com as "perspectivas" pós-troika. Esta é, por exemplo, a parte não escrita da intervenção do meu caríssimo Marco António Costa a propósito do "sucesso" com a dívida, dos juros pagos e da "viragem". Ou, nas palavras do sub-director do Correio da Manhã, M. Alexandre Ganhão, da credulidade perante o "conto do vigário" quando sabemos que "elogios na boca de certa gente persiste vitupério. «É evidente para todos que Portugal está mais pobre. Não só a riqueza que conseguimos produzir é menor, como a generalidade dos cidadãos ganha hoje menos do que ganhava hà cinco anos. Assim sendo, custa perceber porque é que tanta gente nos quer emprestar dinheiro. Vejamos; colocámos dívida a cinco anos com uma taxa de 4,6% com a procura a exceder três vezes a oferta disponível. O Banco Espírito Santo (BES) que, para quem já se esqueceu, teve 381 milhões de euros de prejuízo nos primeiros nove meses de 2013, consegue fazer uma emissão obrigacionista de 750 milhões a cinco anos a uma taxa de juro de 4% (um banco com prejuízo consegue juros melhores do que um país em recuperação económica) e, finalmente, ontem mesmo uma emissão de curto prazo da República de 1,2 mil milhões, regista uma taxa de juro de 0,8% a 12 meses, a mais baixa desde 2009. Mais, o banco alemão Commerzbank, que há dois anos se queria ver livre da dívida pública portuguesa, vendendo-a aos particulares cá do burgo, já diz que “Portugal é o milagre económico da Península Ibérica”. E nós, vaidosos, vamos, outra vez, cair no conto do vigário.» (citação integral editada)


 


 


Adenda: O Senhor Presidente da República, em compensação, "espera" muito deste glorioso ano de 2014. E mais ainda deste glorioso orçamento que em Maio proporcionará, segundo as melhores previsões domésticas, um quarto ou quinto "milagre de Fátima". Que Deus, e Nossa Senhora, lhes pague que não tenho troco.

4 comentários:

Pedro disse...

Não sei como vamos pagar taxas de juro de 4,6%... também gostaria que me explicassem o seguinte: se a procura era tão grande - três vezes a oferta, porque carga d'água não baixou o preço ou seja a taxa de juro??!! ou será que a "Lei da oferta e da procura" também já foi recalibrada?!

Justiniano disse...

Sim, caro Pedro, é caso para dizer...apalpem-me as mamas!!

Justiniano disse...

Extraordinário o tom que se pressente em comentários e almas avulsas da media, finança, política até aos mordomos de festa. Em breve alguém dirá - desculpem a interrupção, a banda segue dentro de momentos. Catar umas pulgas, passar a escova de crina no tegumento, varrer cacos pra debaixo do sofá, calçar sapatos de capas novas e...pronto, siga para bingo!! É, de facto, estranho. Multiplico por dois, divido por três e ....não chega!! Há, certamente, algo que me está a escapar!!

Anónimo disse...

As ordens são deixadas com um montante e um preço....... não é leilão!!!