
Segundo o Expresso, o Presidente da República pretende muito realisticamente que se prepare o chamado "programa cautelar". Não pode ser de véspera nem sozinho que o Governo o deve improvisar, nem tão pouco com reuniões furtivas em Bruxelas. O país tem de saber o que o espera. E é suposto que valide o que o espera pela única forma que a democracia comporta, o voto. Como escreve Pacheco Pereira no Público, «depois de Maio, o discurso vai mudar. Vai-nos ser explicado, a todo o momento, "que a austeridade" não pode acabar". Findos os festejos, ver-se-á se há ou não plano cautelar. A inexistência de uma discussão séria sobre um possível plano cautelar, cujo conteúdo se ignora, é um bom exemplo de como não há verdadeiro debate democrático no nosso espaço público. Se o plano cautelar for para um ano, como disse Passos Coelho, ele terá a natureza de uma continuidade da presença da troika por outra forma, e atirará para quem governar em 2015 decisões que este Governo pretende cuidadosamente evitar em ano eleitoral. Se for a mais longo prazo, disfarçado ou às claras, há que exigir que vá a votos, coisa de que ninguém fala ou quer e percebe-se porquê. Depois, tudo o que não encaixa neste tempo e nesta "narrativa" ou é meramente enunciado por obrigação, ou não tem papel na interpretação. Aqui Portas, Coelho e Cavaco falam do mesmo modo. Diz-se umas coisas sobre o sofrimento social, mas apresenta-se como um dano colateral inevitável. Acima de tudo, não pode servir como elemento de uma política, apenas como constatação de um efeito. O verdadeiro sujeito do discurso são sempre "as empresas". Os "mais pobres" são protegidos pela assistência do Estado e pela caridade, como argumento para atacar os rendimentos dos que não são tão pobres, aqueles que "ainda têm alguma coisa", que, esses sim, são os alvos da política governamental, no assalto àquilo a que se chamava "classe média". Claro que não se diz aos mais pobres dos pobres, cujo papel retórico é importante na legitimação da política governamental, que assim fica garantido que nunca mais sairão dessa pobreza. E fica também garantido que muito outros se lhes juntarão. O reverso deste discurso é a propaganda, em que muitos órgãos de comunicação participam, por folclore da "novidade" e ignorância, dos "sucessos empresariais" dos que "dão a volta", e fazem compotas em casa ou móveis com lixo, ou vão fazer agricultura biológica. Para além de nunca se voltar mais tarde, nem que seja um ano depois, para ver o "sucesso" dessas microempresas, não se diz que pura e simplesmente, mesmo que algumas tenham sucesso, são uma gota de água na desgraça geral e acima de tudo que não são o caminho alternativo às fábricas que fecham ou aos milhares de funcionários públicos que vão para a rua, nem ao desemprego eufemisticamente designado como "de longa duração". Em "colóquios" e "congressos", em mensagens televisivas, e nos repetidores habituais, este é o discurso do poder para 2014. Nada de importante é enunciado, muito menos discutido, ou vai a votos, tudo está pactuado dentro do círculo do poder estabelecido. E nós somos apenas paisagem.»
2 comentários:
A confusão começa logo no termo: plano ou programa? Pacheco chama-lhe "plano", o Presidente "programa". De que estamos a falar afinal?
"já o ano passado era assim" como diz minha mãe, quando Pacheco por lá andava, a roçar os fundilhos nas cadeiras parlamentares e de governo, e o que fez para que mudasse ?
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