
Pouco antes de o Facebook me interditar, pela segunda vez, 30 dias, aconteceu o que descrevi neste post. Reproduzo-o aqui simplesmente porque hoje vim almoçar ao "Neptuno", na praia das Maçãs, que foi o meu segundo escritório nestes últimos (quase) três anos em que a minha Mãe esteve numa residencial geriátrica aqui perto, a pé, onde viria a morrer em Junho. Explico a coisa porque não andava pelo blogue. E o meu regresso tem, também, essa diferença fundamental. Eu mudei. A vida mudou.
Agora mesmo [dia 3 de Agosto de 2022], mais de um mês e meio depois, arranjei coragem para retirar da bagageira do carro o pequeno malote onde alberguei as únicas coisas que me apeteceu trazer do quarto onde a minha Mãe tinha morrido há apenas umas horas. Ela ainda estava lá, serena, como que dormindo. E eu fiz tudo devagar. O grosso do que lá estava, nomeadamente roupas, ficou para outro destino. Tudo o que aqui veio era sobretudo simbólico, desde alguns livros (outros doei à biblioteca da residência) aos óculos. Se escrevo sobre isto, é porque, escrevendo, a minha dor irreparável descansa nestas curtas palavras. E peço ajuda ao autor do livro em primeiro plano para completá-las. “Todas as coisas que amei ou acarinhei me foram roubadas. Morremos albergando em nós uma miríade de amantes e de tribos, de sabores que provámos, de corpos como rios de sabedoria onde mergulhámos e nadámos contra a correnteza, de personalidades como árvores a que trepámos, de medos como grutas onde nos escondemos. Quero tudo isto marcado no meu corpo quando morrer. Acredito nessa cartografia - quando é a natureza que nos marca, em lugar de apenas inscrevermos o nosso nome num mapa, como os nomes dos ricos nas fachadas dos edifícios. Somos histórias colectivas, livros colectivos. Não somos escravos nem monogâmicos nos nossos gostos ou experiências.”
4 comentários:
À primeira impressão supus que hoje havia retornado ao Neptuno, com pena minha de não estar por perto, porque estou há dois dias um pouco mais longe com vistas de praia e de mar, a partir da esplanada de restaurante sobranceiro à praia, também com quase igual simpatia, mas sem os grelhados, o pãozinho torrado, para não falar da vizinhança comensal, em que predominam os "camones"!
Afinal é reposição que releio com agrado.
Mas acertou, Manel. Hoje, cinzento de manhã em Lisboa, vim aqui almoçar. E ainda aqui estou, num Bushmills para variar. Já sabia que aí estava porque perguntei por si. Abraço saudoso. (PS: leia o post sobre o nosso Externato, um ou dois posts atrás aqui no blogue)
Deixo aqui um abraço, João.
Assim é que aprendi a gostar das rugas
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