20.4.12

Hipócritas refinadíssimos



Entrevista interessante do meu amigo Fernando Dacosta a propósito da edição de bolso do seu Máscaras de Salazar. «Lisboa era fabulosa nessa altura. Os cafés fechavam às quatro da manhã. Os marinheiros que andavam pela cidade, de que o Cesariny tanto falava, eram notáveis. O interdito acabava por ser o mais estimulante. Em compensação, hoje está tudo plastificado e amorfo, as pessoas perderam o desejo. Quando falo em desejo, não é só o desejo sexual. Há um poema da Amália que diz: “Já não temos fome, mãe / Mas já não temos também / O desejo de a não ter” [“Lavava no Rio Lavava”]. Um tipo andava aí na rua em manifestações, levava uma chanfalhada da polícia, mas tinha reagido. As pessoas estavam vivas. Agora parece que estamos mortos psicologicamente. As pessoas pensavam que quando caísse o fascismo viria o paraíso. Tramaram-se. Pensavam que o único mal era o Salazar, mas o Salazar era apenas uma manifestação da situação de Portugal. (...) Nunca assumimos o que somos ou o que fazemos. E quem diz o que pensa está tramado, vai parar à fogueira da Inquisição, à prisão, fica na prateleira, no desemprego. Somos uns hipócritas refinadíssimos, dizemos “sim” a tudo e depois só fazemos o que nos dá na gana.»

6 comentários:

Pedro disse...

O país visto do Chiado, a lisboa fabulosa. Já o Eça gozava com isto. Lembro-me de a Maria João Seixas dizer à Isabel do Carmo: ah, eramos uma geração muito interventiva, no nosso tempo, e a Isabel do Carmo a responder, lúcida: ñão Maria João, eramos apenas um grupinho. ..

Isabel Metello disse...

Tirando a parte dos marinheiros de Cesarinny e das perversões, pois estou algo traumatizada com o lado homo da existenz, só posso dizer que me ri a valer com este texto. O Fernando da Costa é um Lúcido, sem dúvida alguma :))) Na mouche!
E o que é mais interesssante nisto tudo é que Gente Lúcida de todos os quadrantes políticos conflui na mesma opinião- a de que caímos na maior da podridão!

Tenho esperanças de que este Governo limpe parte da porcaria, mas esta está muito arreigada aos esgotos- tem de ser uma operação de limpeza muito bem pensada, pois as grandes ratazanas valem-se de todos os esquemas para se safarem, pois conhecem as ligações de todos os túneis!

observador disse...

É sempre bom ver pessoas a Pensar .....

Quanto a chanfalhadas , e reacções às mesmas, ainda temos muita procissão no adro.

PALAVROSSAVRVS REX disse...

Éramos. As máscaras de Salazar eram muito nossas e pouco dele. Excerto brilhante.

Antinous disse...

«Tirando a parte dos marinheiros de Cesarinny e das perversões, pois estou algo traumatizada com o lado homo da existenz,»

O que a Isabel chama perversão, eu chamo apenas uma variante comum do desejo sexual dos homens. Já Platão, na obra O Banquete, reflectia sobre o amor entre dois homens. Afirmava que era a ligação sentimental mais forte que existia, nisto do amor.

Mas que já que se fala do amor entre homens, uma opinião. Creio que tudo se plastificou. Antigamente quem tinha tal tendência conhecia os seus amigos íntimos na tropa, no seminário, no colégio, na guerra colonial, ou em alguns espaços públicos de engate, bares e tascas, mormente em Lisboa. Havia mais riscos, mas as relações eram mais humanas, e as ligações mais fortes, mais duradouras. Isto segundo quem viveu nessa época.

Hoje mata-se o desejo em frente a um PC ou em antros de promiscuidade. Tudo muito virtual, cheio de mentira, segundas identidades. Futilidade e vazio. Há bares de «engate» com fartura, onde se desfilam as novidades da moda, onde se ouve lixo pop e se expõe novo-riquismo. Pululam por lá corpos depilados, esquálidos ou hipertrofiados. Até a beleza natural de um corpo jovem e atlético, masculino e viril, de um magala ou de um marinheiro, até isso se perdeu.

Não condeno o amor sincero e puro entre dois homens. Jamais considerarei tal uma perversão. Desprezo sim as massas que se entregam à satisfação de impulsos baixos nas teias da promiscuidade; as ligações efémeras, o desfile de vaidades, do novo-riquismo, dos corpos plastificados; o vazio do discurso das associações do sector, dos direitos disto e daquilo.

jpt disse...

Desculpará mas isto são apenas as recordações de um velho cansado, o eldorado no antanho. Vale nada - e daqui a umas décadas outras amarinhados dirão exactamente o mesmo