
«Momentos de Mudança, da Sic Notícias, é produto recomendável num país que também televisivamente não se recomenda. Ou foi, já que ignoro se os nove episódios transmitidos, disponíveis na Internet, terão continuação. Não se trata, como com exagero pretende a estação, de uma "série documental". São, isso sim, reportagens de certo fôlego sobre casos individuais em situações generalizáveis num país a atravessar crises e espantos diversos: o nascimento, a criação de uma empresa, o desemprego, a doença, a falência, a velhice, o casamento entre homossexuais, as mulheres no exército, etc. O "etc." corresponde ao último episódio, intitulado Sofia e Tiago, um casal de autoproclamados "activistas" que aparentemente ocupa os dias a organizar manifestações e a participar nas ditas. À semelhança dos programas restantes, a perspectiva dos autores é simpática para com os protagonistas e, suponho, tenta levar o espectador a sentir o mesmo. Escusado dizer, falha estrondosamente. Não custa imaginar a resignação de Maria Amélia, a velhinha apanhada em processo de transição para um lar de idosos. Ou a angústia de Germano e Elisa, forçados a entregar a casa por falta de dinheiro e de saúde. Ou a desilusão de Ivo e Hélder, cujo matrimónio nem sempre lhes confere a tolerância que esperavam. Em contrapartida, é impossível perceber o alegado desespero de Sofia e de Tiago. O que se percebe é o universo de clichés que habita as respectivas cabeças. Se Momentos de Mudança no fundo acaba por captar a estupefacção dos intervenientes, os "activistas" julgam decifrar o que os rodeia. Estupefacto fica o espectador ante tamanha sucessão de infantilidades. Infantilidades pedagógicas, de resto. Queixosos da precaridade laboral enquanto brincam aos movimentos sociais no computador ou passeiam de carro à procura de apartamento na capital, entusiasmados na mobilização de ajuntamentos onde todos são iguais e furiosos quando os seus pares não lhes conferem o protagonismo desejado (uma cena hilariante), avessos aos partidos e mortinhos por desencantar lugar num, convictos e ignorantes, Sofia e Tiago escrevem sozinhos um manual de instruções para os preliminares da ascensão política. Ou um aviso dissuasor, para os que ainda possuem a noção do ridículo.»
1 comentário:
Fui, depois de ler a crónica no DN de Alberto Gonçalves, assistir ao episódio referido. Serviu para confirmar a opinião lida. Chega a ser patética a condução da história. Um jovem casal, com umas ideias românticas (e pouco sólidas) na cabeça, que, através das redes sociais, conseguiram ser reis por uns dias. A vida é difícil, a vida está difícil, até para um Mestre em Economia (não sabemos de que Faculdade..) que mal consegue ter um discurso minimamente coerente e fundamentado.
Um chorradilho de disparates. Pode a Sofia estar cheia de boas intenções, mas parecem, os dois, um casal adolescente que descobriram que o capitalismo pode ser mau.
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