26.1.13

O sacrilégio


 


Por uma questão moral íntima, para usar uma expressão do meu querido amigo Joaquim Manuel Magalhães, não me apetece abusar do "assunto RTP". Fica para breve, para um opúsculo monotemático e factual. Mas não posso deixar de me rever genericamente nas palavras do João Pereira Coutinho. «Ah, a RTP: falar da coisa é como falar das vacas na Índia. Só com respeito e devoção sacra. Racionalmente, uma vaca é uma vaca. Racionalmente, não há nenhum motivo para manter um serviço público de televisão sob a alçada do Estado. Sobretudo quando esse ‘serviço público’ é indistinguível da programação dos canais vizinhos. Mas da mesma forma que as vacas são sagradas, a RTP é sagrada. Não, obviamente, porque privatizá-la seria um mau negócio para os portugueses (não era). Ou porque seria um mau negócio para os privados (talvez fosse). Mas porque privatizar a RTP, ou até extingui-la (preferência pessoal), seria comer a vaca: um acto sacrílego através do qual o poder político perderia o mais eficaz instrumento de informação que existe no meio da selva comunicacional. Um governo pode privatizar tudo. No limite, até o ar e a água. Mas na vaca ninguém mexe, excepto para a ordenhar quando dá jeito.»

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