
«Estar "ligado" significa, paradoxalmente, para o homo digitalis poder desligar-se de tudo - seres humanos, ambiente de trabalho, ligações familiares, etc. - o que o rodeia. Facto que, embora traduza uma nova e enorme dependência, é em geral vivido como uma libertação. E não como uma libertação qualquer, mas como uma libertação que abre o caminho a um sentimento de jubilatória omnipotência. Como se, quanto mais descontextualizado se estivesse, mais forte um indivíduo se pudesse tornar, ilusão dificilmente contestável na medida em que ela lhe oferece "um" mundo que lhe permite, afinal, ignorar o mundo, mesmo todo o mundo. Para um ser humano "ligado", o tempo é apenas o da actualidade, que impõe o curto-termismo. Uma actualidade que invade - como se a pudesse substituir - a própria vida interior dos indivíduos, ao mesmo tempo que os priva de qualquer visão global sobre a sociedade a que pertencem. O que acontece porque se vive num regime de aceleração que dilui a percepção as várias temporalidades num presente perpétuo, excitantemente extático, em que os acontecimentos se multiplicam na razão inversa da compreensão do seu sentido. O tempo comprime-se, o atordoamento instala-se, vive-se com a angustiante noção - que contraria todas as promessas da utopia tecnológica - de que realmente não há tempo para nada. Os tão badalados como incompreendidos problemas de disciplina escolar, de incivilidade e de falta de educação da juventude, nascem justamente dessa desconexão entre os vários ambientes, ou contextos, em que os jovens hoje vivem, o digital e o natural. Em que o primeiro é considerado vital e suscita uma crescente fidelidade e o segundo é visto como descartável e é votado a um crescente desprezo. As consequências de tudo isto são imensas e avassaladoras: basta pensar que, pela primeira vez na história da humanidade, a identidade dos indivíduos é construída não pelo sentimento de pertença e de integração num colectivo, mas pela sua radical des-pertença, por um nomadismo identitário que não segue nenhuma rota nem procura qualquer destino.»
1 comentário:
Exactamente, tal como Hartmut Rosa escreveu e eu oportunamente citei.
Enviar um comentário