7.1.13

Paraísos não artificiais


 


Joaquim Aguiar, que passou directamente por dois presidentes (Eanes e Soares) e indirectamente pelo actual, foi ontem entrevistado pelo Público. Trata-se de um documento muito interessante uma vez que Aguiar, apesar de aparecer, não integra a vasta turma de papagaios superficiais que costumam aparecer. É preparado e prepara-se, o que faz toda a diferença mesmo quando não se aprecia excessivamente.


 


«Não [é necessário rever a Constituição]. É necessário rever o modo como se faz política. Porque justamente os políticos que se especializaram no imaginário ou que fizeram da política poesia, estão confrontados com o seu fracasso. Agora é que renasce a política como arte do possível, isto é, como navegação dentro da regulação. (...) A ética é um problema muito importante para quem dialoga com Deus e tem por missão transmitir ao resto da sociedade o que é o diálogo com o transcendente, com a divindade. Na política, a ética só serve como função reguladora. Isto é, é mais fácil governar uma sociedade com Deus do que sem Deus. Porque Deus faz parte do trabalho de regulação. Quando se tem que governar sem Deus então a governação tem de ser reforçada, o dirigente político tem que ser mais ético do que quando tem a ajuda da Igreja. [Ser mais ético é] respeitar com mais rigor os limites da regulação para não permitir que os desequilíbrios se autonomizem e ganhem uma dinâmica própria que, depois, ninguém consegue travar. Há uma imagem da política como poder pastoral, que é de Foucault, em que o político, como o padre, é aquele que orienta o rebanho. [O pior que pode acontecer ao rebanho] é se o pastor o orienta para um desfiladeiro. Mas há coisas úteis mesmo para um pastor incompetente, que é uma tempestade. Porque numa tempestade o rebanho junta-se e nem é preciso o cão para o juntar. Junta-se espontaneamente. É nessa fase que nós devemos preparar o futuro. Porque quando passar a tempestade não se pode esperar que o rebanho continue ali parado, com o temor à catástrofe, mas é para esse momento que é preciso saber para onde vamos dirigir-nos. Nós estamos claramente na tempestade. A sociedade portuguesa está com medo mas não pode deixar de estar porque está a sentir-se traumatizada, porque lhe estão a tirar todos os critérios do passado sem lhes propor outros. Porque mesmo aqueles que dizem que é preciso austeridade para corrigir os excessos, a única coisa que dizem é que vamos voltar ao equilíbrio anterior. Ora o equilíbrio anterior já não existe, e se voltássemos ao passado era só para voltarmos a criar o mesmo problema. (...) O futuro tem que ser uma descontinuidade. Numa crise deste tipo, o presente não liga o passado com o futuro e quem ficar a olhar pelo retrovisor tem um acidente. Agora se esquecer o retrovisor, aquilo que vê à frente é o que lhe oferece a solução para o presente. E o que estamos a ver à frente? Competitividade, necessidade de atrair investimento dos outros porque nós não temos capital nem tempo para o reconstituir. E onde não há capital não há trabalho, da mesma maneira que onde não há ricos só há pobres. Nós temos de reconstituir uma sociedade com tensão interna suficiente para ser criativa: isso é uma sociedade competitiva. Claro que podemos ter uma sociedade com tensão interna autoritária, foi nisso que caímos com a troika. A troika é um factor autoritário, não resolve nada dos problemas de futuro porque não é a desigualdade autoritária o que nós precisamos, a distinção entre os senhores e os escravos, o que precisamos de ter é a desigualdade competitiva, que significa interiorizar o que é exterior, ver como os outros estão a fazer e como podemos fazer a mesma coisa melhor. O grande drama de quem não tem crescimento é que, faça o que fizer, ninguém vai querer comprar o que está a produzir, e então há uma regressão. A espiral regressiva não é grave se batermos no fundo e voltarmos, mas é destruidora se batermos no fundo e estagnarmos. (...) [Os que vão efectuar o salto são os] que têm competências e não têm capacidade de as aplicar porque a sociedade estagnou. São esses que vão criar as novas condições para o futuro. Mas como não têm recursos, são os recursos externos que vão dinamizar as novas lideranças. Na sociedade portuguesa há dois terços de adaptados e um terço de inquietos. É neste um terço de inconformados que, perante a experiência da crise e a nova inteligência sobre o que são os limites da regulação, vão conduzir politicamente projectos que não sejam distributivos e sejam competitivos. (...) [Os agentes federais são] os inoculadores das energias competitivas. Porque eles têm de resolver o problema europeu. A geração que nascer nesta crise vai ter uma cultura política muito mais centrada na crise do que na expectativa do paraíso.»


 

2 comentários:

A. Pereira disse...

Sábias palavras

PALAVROSSAVRVS REX disse...

Fez-me muito bem ler isto.