13.6.10

WOTAN/PESSOA


"Viveu" sempre e só nesse abismo que era a prosa dos seus versos e os versos da sua prosa. Como um Wotan privado de amor (porque a ele renuncia) e da capacidade de amar até ao fim, simultaneamente o mais humano dos deuses e o mais cruel dos homens. De uma carta sua a Francisco Cabral Metello, datada de 31 de Agosto de 1923. «Espero que a paisagem com que v. presentemente conversa lhe arranje um diálogo que o entretenha. Nem sempre acontece, não é verdade? Há árvores, pedras, flores, rios que são tão estúpidos que parecem gente.»

4 comentários:

Anónimo disse...

"Wotan privado de amor e de capacidade de amar"? Parece estar a falar do Alberich,que não do Wotan. Então Wotan não ama profundamente Brunhilde,como se fosse parte dele próprio? E não ama tambem Sigmund e Sieglinde,que amargamente é obrigado a sacrificar? Wotan não é privado ou incapacitado de amar,como o Nibelungo,mas por um destino que lhe é superior o seu amor conduz à tragédia,o que é diferente. Tragédia que é tambem parte do abismo que aguarda os que por orgulho e excessiva ambição quebram as leis e os compromissos. É pelo menos esta a minha interpretação do Anel,e não carregaria ainda mais o Wotan,que já se defronta com o sofrimento do fim dos seus tempos e das suas esperanças,com essa privação,própria do gnomo.

Leonel Auxiliar disse...

Tenho que condordar com Anónimo: Wotan é quem ama no Anel (As Valquírias, mostram-no); Alberich, o anão (e não gnomo,com lhe chama Anónimo) que deseja o anel seria talvez mais consequente. Mas também não creio que Pessoa fosse incapaz de amor. Talvez de um amor terreno e menos consentâneo com o amor que dedicava a valores mais altos. Mas não seria possível uma obra como a dele sem que o amor tivesse parte fundamental. Um amor divino, quiçá, (neste ponto mais próximo do de Wotan) mas um amor, de qualquer das formas.

Anónimo disse...

Não me referia aos simpáticos gnomos de jardim,nem aos que povoam narrativas recentes (Narnia,Aneis,etc,) mas no sentido mais próximo do uso original da palavra (Paracelso,etc) como pequenos seres que vivem debaixo da terra. Mas atendendo à evolução semântica do termo,podemos ficar com o "anão" para o sinistro Alberich.
Quanto ao Pessoa,tendo a concordar com o Leonel. Realmente,ele não teria "jeito" para o amor tradicional (vide as complicações ofelianas) e tem aquele verso magnífico do Caeiro - "Que tem o Poente a ver com quem odeia ou ama?" Mas há a compreensão do amor epicurista(no sentido exacto) que passa por todo o R.Reis,amor melancólico e consciente da sua e de toda a finitude - "Como se cada beijo fôra de despedida", onde muitos encontrarão o seu modelo verdadeiro.

Anónimo disse...

O panteísmo enegrecido e delirante de Pessoa devia ter como personagens, logo após os dois primeiros copos, os candeeiros de parede, os frisos do tecto, os tampos quadrados e o padrão do pavimento do Martinho; os criados e os clientes, os gnomos, elfos, anões ou ourives do Reno. A 12 anos da sua morte, Pessoa desabafa a constatação que faz todos os dias - sóbrio. E já o abismo o olha nos olhos.

Ass.: Besta Imunda