4.11.14

Vitoriosos ou mortos


 


Juro que não é embirração. Mas as digressões evangélicas do dr. Passos (nas quais ele improvisa para lá do recomendável) tornaram-se, como se costuma dizer, incontornáveis. Esta manhã acordei ao som dele, na antena1, reproduzido numa sessão sobre o orçamento destinada aos crentes. Falava do défice (do que é que ele havia de falar?) e jurava que há-de "matar" o "excessivo" em 2015 nem que para tal tenha de recorrer à velha máxima, sic, "quem não tem cão caça com gato". A "ideia" é sempre a mesma: uns juízes malvados impediram-no de cortar mais na despesa (i.e., de proletarizar ainda mais o trabalhador investido em funções públicas e afins e de o despedir sumariamente) e, por consequência (e agora traduzo o trecho popular para português do primeiro-ministro), fica sempre de pé a hipótese de aumentar a receita, ou seja, os impostos. Do défice, como antigamente de Goa, só saímos vitoriosos ou mortos. Parece que o dr. Passos já escolheu.

1 comentário:

Costa disse...

De Goa sucede que nem vitoriosos nem mortos. Houve, na linguagem destes tempos, uma "terceira via". Saímos humilhados.


E nem sei se verdadeiramente humihados pelo invasor indiano (o tratamento dos prisioneiros  - isto é: dos portugueses - não foi, bem sei, digno de um vencedor que consigo tivesse a razão; mas este é, nas guerras - como se elas o não fossem em si mesmas -, quase sempre um capítulo de miséria moral e material), se pelo poder de Lisboa. Por ambos, no final.


Algo me diz que vem aí mais do mesmo: nem vitoriosos, porque nada no futuro nos autoriza a sustentar a ideia de que as coisas melhorarão, pelo menos de forma minimamente proporcional ao que de devastador já se suportou; nem mortos, porque mesmo na mais andrajosa penúria, e salvo se varridos pela morte física, procuraremos por cá andar e uma ou outra vez ousar qualquer coisa um pouco acima da mediocridade de uma existẽncia a sobreviver.


Continuaremos nessa terceira via: humilhados. E humilhados agora e sem a menor dúvida e em primeira linha por Lisboa, que não hesitará, laranja que continue ou rosa que volte a ser, em "aumentar as receitas", uma e outra vez e sempre que o entenda necessário, em anunciar triunfante a multiplicação das penhoras, em taxar o absurdo e vender o invendável, em mentir sem um tremor, em manter as empresas, os negócios e os homens do regime. Em se perpetuar.


Costa