25.11.14

Por dever não administrativo


 


Como escreveu o José Medeiros Ferreira, «havia muita gente escondida debaixo da mesa quando Ramalho Eanes se ergueu contra o medo por dever não administrativo. Fê-lo com serenidade, conta, peso e medida. Não esmagou ninguém com a sua coragem pessoal e política. Muitos heróis só apareceram depois.» Ergueu-se no dia 25 de Novembro de 1975. Para as pessoas da minha geração, Eanes é o exemplo do patriota não patrioteiro, do homem e do militar decente, austero e firme, sem nunca deixar de ser afectivo, corajoso, moral e fisicamente, de alguém que sempre deu mais ao país sem nunca esperar que o país lhe devolvesse o que quer que fosse a título de gratidão ou prebenda. Nunca se exibiu no fogo fátuo onde tantos, antes e depois de ele, se imolaram sem regresso ou grandeza. Foi contra ele, aliás, que os partidos ditos do "arco da governação" esquadrinharam os parcos poderes presidenciais que estão presentemente na Constituição - e que o incumbente tem feito quase tudo para os tornar ainda mais espúrios e facultativos com a sua presidência minimalista - dos quais já só falta retirar o poder à soberania popular para escolher, de forma directa e universal, o Chefe do Estado. Eanes não criou em torno de si uma hagiografia patética e sectária nem se declinou "pai da pátria" quando teve todas as condições para o fazer entre 1976 e 1983. Em 1976, aquando da campanha que o elegeu livremente o primeiro Presidente da República depois do "25 de Abril", Sophia de Mello Breyner acompanhou-o numa acção nos Açores. Quando chegaram a São Miguel, tinham à espera uma meia dúzia de provocadores separatistas. Em O Jornal, Sophia referiu a coragem com que Eanes avançou sozinho em direcção aos ditos separatistas e lhes lançou, calando-os: quem vos pagou? E escreveu que Portugal precisava de alguém como Eanes para viver a liberdade com coragem e austeridade. Alguém que, como diz um verso seu, deposite em cada gesto "solenidade e risco".

4 comentários:

JS disse...

Apoiado.
Alguém sem o bafiento odor a "arco da governação", como deve e tem que ser um candidato a Presidente da República. Mas não só.

Pedro Matias disse...


E o PRD onde entra em todos estes elogios?

Severo disse...

Eanes foi e é um exemplo, que todos, políticos e militares deviam seguir, mas infelizmente , a casta que prolifera é de crápulas e corruptos, que apenas pretendem é governar-se à custa dos embustes que sempre deitam a mão para enganar os incautos.
Nem sempre apreciei a postura militarista de Eanes, mas quando comecei a descobrir o tipo de gente que nos tem desgraçado, desejei um Eanes com menos 40 anos e acompanhado de muitos Homens da sua craveira.
Para ele vai toda a minha admiração.

Fernando Ferreira disse...

Caríssimo João, do General António Ramalho Eanes recordo um momento particular na ressaca da derrota do Partido Renovador Democrático em 19 de JUlho de 1987: militante daquela agremiação partidária, aproveitei a proximidade da minha residência à Casa de Saúde da Família Militar onde o General convalescia (após a cirurgia à peritonite a que se submetera "in extremis", a seguir à jornada eleitoral) para lhe fazer a visita da praxe, pois já nessa época bem sabia o que sempre sucede em Portugal aos que perdem. Adolescente admitido ao quarto onde o General estava internado, impressionou-me o ambiente de tristeza comedida, mas solene, dos que o rodeavam e, por isso, procurei amenizar a conversa. E não é que o General, sentado no cadeirão perto da janela do seu quarto, envergando o singelo pijama do Hospital Militar Central (sem esquecer o saco de soro fisiológico e o dreno abdominal que enfeitavam o seu corpo debilitado) e afixando o viso sério que tão bem se lhe conhece, desata a contar anedotas em série compelindo os presentes à gargalhada geral durante longuíssimos minutos!?
Ninguém que nessa ocasião entrasse triste naquele quarto deixaria de dele sair com a alegria do ânimo reencontrado, graças ao humor acerado, desperto e polido com que o General nos brindou nessa tarde quente e abafada do final de Julho de 1987.