
A notícia da resignação do Papa Bento XVI apanhou-me desprevenido como quase todas as coisas importantes da minha vida sempre me apanharam. Ratzinger, disse-o esta manhã, não terá encontrado na fragilidade do seu corpo forças suficientes para prosseguir. E, perante Deus e os homens, entendeu dever sair. Sai, infelizmente, num dos piores momentos da vida espiritual do mundo onde a sua voz trémula brilhava como poucas conseguem brilhar. Agora ficamos definitivamente entregues aos "homens que calculam", à mediocridade da chamada "vida material" e aos pequenos palermas que a conduzem. Ratzinger é um pensador maior do século XX e, nesse sentido, a sua "lição" permanece. Também permanecem as suas intervenções enquanto Papa Bento XVI. Sem uma palavra a mais ou de menos, o Papa soube, como poucos na sua posição, entender a contingência da "condição humana" e, intimamente, sempre desconfiou do "homem" em quem toda a gente confia, o chamado "homem médio". As alturas de Ratzinger nunca foram "deste" mundo". Imagino que para além da questão física, pese mais em Ratzinger a questão espiritual e a questão racional que, nele, não se distinguem. Deve-lhe ser intelectualmente insuportável assistir à vulgarização de tudo apesar da fé. Julgo que até a própria instituição, a Igreja e os seus servidores directos, o terá desiludido pela sua pusilanimidade e oportunismo. Não sou um optimista e a leitura atenta de Ratzinger ajudou-me nessa convicção. Espero quase sempre o pior do "outro" e desconfio do "progresso". Tecnicamente sou considerado um "reaccionário". Como Gianni Vattimo, serei um "mezzo credenti" que, contra toda a esperança, confia no amor de Deus e na Sua "caritas". E, aí, Bento XVI não me abandona, resignando, nem eu me resigno perante o seu abandono. Raztinger não ficará na história como um Papa banal nem tão-pouco como o profeta das trevas que os burgessos teimavam ver representado nele. É um intelectual com um profundo conhecimento da cobardia do "homem moderno". Ratzinger é um excelente observador do presente, um analista e um "comentador" privilegiado do contemporâneo precisamente porque a sua extraordinária "couraça" filosófica lho permite. Sabe que a sobrevivência da Igreja nestes tempos levianos e superficiais depende muito dessa "couraça" e como isso é importante para quem crê e para quem duvida. Sou o produto híbrido entre um céptico que crê e um crente que duvida. Tudo o que até agora li de Raztinger e ouvi do Papa Bento me permite continuar assim - a crer e a duvidar. Como ele escreveu na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, trata-se de "um processo que permanece continuamente em caminho: o amor nunca está "concluído" e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo, permanece fiel a si próprio. Idem velle atque idem nolle - querer a mesma coisa e rejeitar a mesma coisa é, segundo os antigos, o autêntico conteúdo do amor". E é Jesus que no desalinho do seu sacrifício nos mostra o caminho razoável: "Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17, 33) — disse Jesus, afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto." Já na encíclica Spe Salvi, o Papa termina com uma referência a "Maria, estrela da esperança", porque Ela recebeu uma "nova missão" da cruz, esse mencionado escândalo que todos os dias interpela, comove e nos levanta. «A partir da cruz ficastes mãe de uma maneira nova: mãe de todos aqueles que querem acreditar no vosso Filho Jesus e segui-Lo. A espada da dor trespassou o vosso coração. Tinha morrido a esperança? Ficou o mundo definitivamente sem luz, a vida sem objectivo? Naquela hora, provavelmente, no vosso íntimo tereis ouvido novamente a palavra com que o anjo tinha respondido ao vosso temor no instante da anunciação: «Não temas, Maria!» (Lc 1,30). Quantas vezes o Senhor, o vosso Filho, dissera a mesma coisa aos seus discípulos: Não temais! Na noite do Gólgota, Vós ouvistes outra vez esta palavra. Aos seus discípulos, antes da hora da traição, Ele tinha dito: «Tende confiança! Eu venci o mundo.» (Jo 16,33).» Ámen.
Adenda (inevitável) do fim do dia: Na sua tradicional fúria "criativa" contra Ratzinger, alguma da chamada comunicação social (que saudades dos jornalistas que sabiam ler, escrever, contar e fazer o trabalho de casa) insiste - pelo menos alguma caseirinha e especialmente bronca - em associar o pontificado de Bento XVI a "escândalos". Que Deus lhes perdoe a tacanhez.
14 comentários:
Escreveu o que eu gostaria de ter escrito, se fosse capaz.
"Deve-lhe ser intelectualmente insuportável assistir à vulgarização de tudo (...)" Tanta conversa, tanta conversa, mas ao abdicar foi o único Papa que vulgarizou o seu cargo (que é vitalício) por motivos pessoais e sai como um qualquer presidente de Junta, quando "já não tem condições". Conversa fiada, quando a grandeza intelectual é só arrogância. Infelizmente é quase sempre assim.
Como Deus nos manda ser bons mas não propriamente parvos, V. é um cretino e tem todo o direito a exibir a sua cretinice que, pelos vistos, nem em presidente de junta lhe seria de valia. Por isso o edito. Por piedade.
Hoje assisti na SIC a uma filmezito de poucos segundos em que o locutor de serviço nem teve a hombridade de dizer o mais importante:realmente,o filme mostrava que o Papa Bento XVI é filho de um alemão anti-nazi, que com a idade de 18 anos foi "OBRIGADO" a alistar-se na Juventude Hitleriana, de que fugiu e que,após ter sido capturado,foi metido num campo de concentração,de onde só saiu com a chegada dos Aliados!
Lembro-me bem de quando este Papa foi eleito, toda a nossa esquerdalha se atirou contra essa deliberação,vindo até o tal "leigo e agnóstico" soares a insurgir-se contra o Papa,porque não tinha "estatura moral"!
Realmente é preciso ter muita pachorra para aturar esta "intelectualidade" esquerdóide!
Também eu João Gonçalves.
Penso que está o mundo inteiro...
Magnífico ! Mesmo para um céptico como eu este texto é uma iluminura. Pelo talento e solidez na defesa dos argumentos da Fé, acessíveis mesmo a um leigo, e pela leitura fina da craveira intelectual de Ratzinger. E ainda pelo repúdio cívico de um jornaleirismo imbecil e lamacento, que fabrica irresponsavelmente a sua própria verdade sobre a vida, a moral e o homem. A troco de uns trocos, a que também chamam audiências.
É uma atitude de uma nobreza extraordinária. Não tinha pensado nessa possibilidade. Insuportável a vulgarização de tudo o que para ele é importante.
Texto de grande qualidade,que me arrisco a afirmar que o próprio Papa gostaria de ler,se alguem o enviasse ao endereço certo. Saiba que não é o único "mezzo credenti",e que concordo com a sua implicita conclusão que dificilmente teremos de novo alguem com a estatura teológica e filosófica de Ratzinger,que trata por tu os grandes pensadores do passado,e que sabe colocar a doutrina com exemplar nivel intelectual. Alem disso,melómano,o que evidentemente constitui um "préjugé favorable". Noutros aspectos discordarei,pois penso que a rigidez doutrinal não é necessàriamente um sinal de força em certas áreas da vida corrente,e que são precisamente os firmes na fé que podem dar a devida dimensão humana à Caritas. Mas vou-me ficando por aqui,e parabens de novo pela qualidade formal e substancial do seu testemunho.
Obrigado pelo seu texto. Para o crente que duvida e para o céptico que crê:
"O crente e o descrente participam, cada um a seu modo, da dúvida e da fé, a menos que se escondam de si próprios e da verdade do seu ser. Ninguém pode escapar, por inteiro, à dúvida, ninguém pode escapar, por inteiro, à fé. Para um, a fé actua contra a dúvida; para o outro, a fé está presente através da dúvida e sob a forma da dúvida. A forma primordial do destino humano encontra a sua definitividade apenas nesta infindável rivalidade entre dúvida e fé. Talvez por isso a dúvida, justamente ela, que preserva tanto um como o outro do ensimesmamento, possa tornar-se lugar de comunicacao".
In: J. Ratzinger, Einführung in das Christentum, Munique, 1968, p. 23s.
Li o seu texto há pouco e dei por mim a pensar: eis um texto que diz sobre quem escreve e menos sobre quem escreve.
Será seu - ou de uma visão do mundo que cultiva o desgosto pelo mundo - este desgosto pela vulgarização que põe como motivo da resignação papal.
Concordo em muito do que diz, mas tiro ilações contrárias: por ser um pensador e observador arguto do mundo, Bento XVI sabe que é o mundo, a matéria pouco apetecível da humanidade e suas construções que é preciso amar. Sabe que não era muito mais fácil no tempo de Jesus - até na preferência pela delinquência pop - Barrabás . A verdade é que o cargo papal nunca foi fácil e já há 200 anos havia papas a morrer de pura humilhação, cansaço, ou desgosto pelo estado das coisas (Pio VI).
E creio que Bento XVI terá sensatamente percebido - com aquela sensatez chã que encontramos nos pensadores - que a velhice avançada, mesmo saudável - tal como possibilita a medicina do séc XXI àqueles que herdaram bons genes -não é, apesar de tudo, o melhor trunfo para dirigir a Igreja. Quantos anos poderia ainda viver? 5, 7, 11 anos, com um crescente factor incapacitante?
O que não deixo de ver no uso desta faculdade que Celestino V inaugurou é um convite à nossa maioridade: o Santo Padre pensar-se-á, ainda ao tomar esta decisão, como servo dos servos de Deus, nosso irmão, e menos nosso pai.
Por isso, o comentador vizinho de cima, terá alguma razão em dizer que o Santo Padres "vulgarizou" o "cargo". Fê-lo o Santo Padre por amor a Deus e a nós, e a sua atitude é paralela à de João Paulo II. Ambos exibem ao mundo a inteireza da condição humana: o primeiro, com a sua longa doença e aceitação heróica , o segundo, ousaria dizer, ainda mais crua e humildemente, na pura vulgaridade de um ser humano que vê chegado o tempo de se reformar, simplesmente porque envelheceu e já não é o que era - mas que sabe que esse terreno de vulgaridade não deixa de ser o da vinha do Senhor e é muitas vezes lá que é preciso lutar.
Que falta de Fé!
Que eu saiba, Cristo sempre falou para os Homens, talvez com especial incidência para os Médios. não sei.
Mas são os homens médios, e não só, que continuam a ir à Missa, e a pagar, com os seus impostos, os desfalques pouco caridosos de mui bom beato de sacristia...
Talvez a sua qualidade não seja grande coisa, mas isso deve-se ao pouco cuidado educativo de mui bons intelectuais, que os ignora não os ouvindo, Igreja incluída..
Tem razão. Peço desculpa. Estava irritado quando escrevi e comentei impulsivamente.
Ratzinger abre um precedente "humanoide" dentro duma instituição milenar.
Humaniza no sentido negativo a representação de Cristo na terra, por assim dizer.
Nunca gostei como Cardeal, menos como Papa e fico contente de que se vá embora.
Teria sido um belíssimo Chefe de Estado.É inteligente, esperto, com sentido político e sabe como mandar e manipular.Um político,enfim.
Não um líder espiritual.
Nunca me senti elevado ao ouvi-lo nem pouco mais ou menos quando me caiam muitas vezes as lágrimas a ouvir outros passados!
Nunca nenhum Papa dividiu tanto os Católicos, aliás a prova aqui está, como ele.
Leio insultos mesquinhos uns a outros, tudo o que Cristo odiaria!
Seguramente que o próximo Papa unirá outra vez os católicos que este separou!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A adopção do twitter por Bento XVI há algum tempo diz-nos que precisava de uma forma planetária e fiável para alcançar povos e lançar outra dimensão na mensagem: mais imediata, mais universal, aberta e com mais feedback do mundo.
Penso que a fraqueza que Ele sente é relativa ao que ele acha que é preciso fazer, ao que pensa deveria fazer.
O mundo (humano) está melhor e a melhorar, mas sobretudo, muito mais visível pelas tecnologias, em relação às quais a Igreja não avançou, no seu pastoreio de proximidade mas desaproveitando este meio.
Dois mil anos depois, a Igreja tem que se abrir para o mundo ou mundo fecha-se para a Igreja.
O próximo papa deveria ser um papa mais humano que católico e mais tecnológico.
Para o melhor e para o pior, a Igreja tem de ser humanamente mais interventiva e antecipar-se mais às situações do que ir atrás delas.
Em resumo: tem de ter mais JESUS.
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