26.1.12

O fim de um tempo


 


«Informa a comunicação social que encerrarão, dentro de dias, a Livraria Portugal (na Rua do Carmo), velha de 70 anos, e a Ourivesaria Aliança (na Rua Garrett), quase a completar 80 anos. A pouco e pouco, o Chiado, que foi o centro chique de Lisboa, vai-se desmoronando, aliás como toda a Baixa pombalina. A abertura arbitrária de grandes superfícies comerciais, fruto de um provincianismo parolo e de uma inconfessável concupiscência, dera o primeiro golpe no comércio do centro da cidade. Depois, o incêndio do Chiado, em 1988, devido a causas naturais, ou a fogo posto (o que nunca foi devidamente esclarecido) foi mais uma importante contribuição para a decadência da zona, até pelo tempo que levou a proceder-se à reconstrução dos imóveis destruídos ou danificados. Também a reconstituição dos edifícios, devido à traça  gélida de Siza Vieira (oportunísticamente convidado por Nuno Abecasis para o efeito) em nada ajudou à recuperação do local. Não se pretenderia a reconstituição original mas as linhas de Siza têm, em minha opinião (e apesar dos prémios recebidos, o que nada me impressiona) o dom de afugentar as pessoas.»


 


Júlio de Magalhães, Do Médio Oriente e Afins

3 comentários:

fado alexandrino disse...

Também a reconstituição dos edifícios, devido à traça gélida de Siza Vieira

Até que enfim que vejo alguém com notoriedade dizer aquilo que há muito penso e escrevo.
O rei vai nú.

Marta disse...

Mais do que a traça gélida dos edifícios - eu tinha 6 anos no incêndio, lembro-me de poucas coisas -, o que me deixa doente é o ter-se deitado ao lixo a possibilidade de se ter requalificado o Chiado "a sério". Não parece ter havido um plano, um projecto, uma ideia (isso em Portugal é crime) do que se queria que o Chiado viesse a ser a seguir ao incêndio. E o resultado é uma ala do Colombo no centro da cidade, jeitoso.

Além disso, a loja da Boss destruiu os interiores do Sousa, o vitaminas, os da alfaiataria e o que a benetton fez ao Ramiro Leão é indizível. E parece que os novos proprietários estão a pedir valores exorbitantes de renda para manterem os interiores originais.

E a CML acha que não é nada com ela?

xico disse...

Também lamento o fecho da livraria e da ourivesaria. Mas o Chiado está vivo e recomenda-se, como já não estava nos anos que antecederam o incêndio. Lembro-me de sair do S. Carlos e a zona estava completamente deserta (e perigosa). Hoje, à mesma hora, ainda se pode frequentar a Brasileira. Quanto ao Siza, embora um seu admirador, mas crítico, também não gosto.