4.7.12

The States, United


 


«"Let us now praise famous men and our fathers that begat us", as the New England hymn of my youth, based on Ecclesiacticus, most pointedly instructed us.»


 


Gore Vidal

O mistério da cultura



«No que à Cultura diz respeito, o Estado tem, em síntese, responsabilidade em três áreas fundamentais: a da preservação e valorização do património material móvel e imóvel, a da preservação e valorização da língua e das restantes componentes do património imaterial, bem como dos respectivos cânones (aspecto cada vez mais esquecido), e a da manutenção de equipamentos culturais cuja existência e funcionamento são de manifesto interesse comum e que, sem a sua intervenção, não poderiam existir. É por aí que o Estado deve assumir plenamente as suas responsabilidades na área da cultura, tanto no domínio da conservação e dinamização patrimonial, como no da afirmação da língua portuguesa e no da criação artística. Todavia, quanto a esta última é preferível que o Estado reforce, se possível, o seu papel de promotor a que assuma um papel equivalente na prática ao de produtor directo, que só se justifica em sectores cujas complexidade ou custos tornam inviáveis a sua prossecução privada. O Estado não deve condicionar nem pré-determinar a vida cultural. Mas também, ao estabelecer as suas prioridades políticas, não pode nem deve demitir-se da defesa e promoção dos valores culturais em cujo conjunto os Portugueses se revêem e que reconhecidamente contribuem não apenas para a qualificação em todos os níveis do ensino, mas ainda e fundamentalmente para a preservação e o reforço da identidade nacional. Quando não lhe sobrem meios para mais nada, terá de, pelo menos, atender imperativamente a estes aspectos. E é pela mesma razão que deve adoptar políticas de educação cujos resultados acabem por ter um manifesto impacto na formação cultural e no acesso exigente e livre dos cidadãos à cultura.»


 


Vasco Graça Moura, DN

3.7.12

«The women come and go talking of Michelangelo»

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question ...
Oh, do not ask, "What is it?"
 
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
(...)
The Love Song of J. Alfred Prufrock. T.S. Eliot

Verdade e consequência



Se isto é assim, então devem ser tiradas as devidas consequências. Há coisas que têm de parar de uma vez por todas.


 


Foto: Dali, 1936

2.7.12

O cordeiro de César

Aprecio ver um amigo de sempre a crer no pai natal desta vez sem barbas brancas. Em Outubro.

Da humanidade


 


À medida que o tempo passa (três anos), sinto mais falta do meu cão - daquele em concreto e não de qualquer outro-, razão pela qual talvez nunca o tenha substituído. E também constato que é mais fácil substituir pessoas do que cães uma vez que a "humanidade" do cão é mais densa que a "humanidade" dita humana. Isto escrito por um católico não parece bem mas Cristo nunca hesitou na espada quando a espada era mais precisa que a paz. Razão, pois, a Diógenes de Laércio na morte de Aristóteles: «Ó meus amigos, não há amigo.»

1.7.12

«Pobre Europa»

No momento em que o sr. Cameron já pensa referendar a continuação da Inglaterra na "Europa", este artiguinho incisivo do João Pereira Coutinho vem muito a propósito das "esperanças" dos últimos dias. «Cavaco Silva disse o essencial sobre a última cimeira europeia: o acordo alcançado até pode aliviar as necessidades imediatas de Espanha ou Itália; mas o mecanismo europeu de estabilidade não é o Banco Central Europeu.Trocado por miúdos: 500 mil milhões podem servir para comprar muita dívida; e até dão uma ajuda para recapitalizar directamente os bancos. Mas 500 mil milhões são limitados. E as necessidades reais de financiamento de Espanha ou Itália, para não falar de outros moribundos como Portugal ou a Grécia, chegam e sobram para rebentar com o fundo. Se o Presidente, usualmente reservado, murmurou estas evidências, quanto tempo demorarão os mercados a fazer contas e a agir em conformidade? A euforia de hoje será como as euforias do passado: intensa e de consumo rápido. Quando os mercados curarem a ressaca e perceberem que nada de substancial mudou, o filme de terror regressa. Pobre Europa.»

Pessoas sem retorno


 


No "facebook" de Rita Ferro encontro esta entrada: «Lembrava-me hoje a Isabel da existência de pessoas «sem retorno» e da friagem que nos causam. E o que são pessoas «sem retorno»? Confiramos: são as que nos entusiasmam, empolgam ou apaixonam de tal forma que nos mobilizam no sentido de desenvolver com elas um qualquer laço convivial. Ao fim de alguns esforços e investimento revelam-se uma decepção: não têm nada para dar em troca, ficam aquém das expectativas, deixam morrer todas as esperanças, transmitem-nos uma sensação de falência, e, pior, de ridículo - já te aconteceu ou é sempre culpa das expectativas?» Gilles Deleuze, no seu livrinho fundamental sobre Proust (Proust et les signes), escreve a dada altura que "a amizade não estabelece mais do que falsas comunicações, assentes em mal-entendidos, e só abre falsas janelas. É por isso que o amor, mais lúcido, renuncia por princípio a qualquer comunicação. As nossas únicas janelas, as nossas únicas portas são todas espirituais: só existe intersubjectividade artística. Apenas a arte nos dá aquilo que esperaríamos em vão de um amigo, aquilo que teríamos esperado em vão de um ser amado." O resto é o Proust propriamente dito e a friagem das pessoas sem retorno.

Ultrapassar o impasse

Mais medidas de austeridade? Com certeza. Há tantas por tomar no indemne sector empresarial do Estado, nas rendas, nas parcerias, nas "fundações" ou nas "excepções" que nunca deviam ter sido "excepcionadas". Existem, por consequência, "motivos" para mais medidas de austeridade (para usar uma expressão do ministro da defesa numa entrevista) e os "motivos" concretos são aqueles e não outros. O que já não há (o termo, perdoe-me o ministro, não é "ainda não há" mas "já não há") é condições para mais austeridade (ou impostos) para cima das pessoas e da economia - pessoal, familiar ou empresarial. Estou a reconhecer um impasse? Se calhar estou. Mas prefiro reconhecer um impasse agora do que um falhanço amanhã.

30.6.12

Horas sobre nada e coisa nenhuma

Ainda no Público, o José Pacheco Pereira sobre a "morte cerebral" induzida pelas televisões a propósito do "euro". «Continuarei a considerar anormal, excessivo e socialmente anómalo que se queira ter um país desenvolvido, e ter a RTP1, a SIC, a TVI, a RTP Informação, a SICN, a TVI24 e muitos mais canais a passarem todos ao mesmo tempo e durante o dia todo apenas futebol, entrevistas a populares sobre futebol, comentários sobre futebol, entradas e saídas de camionetes da equipa, adeptos polacos ou ucranianos, pequenos-almoços ou balneários, fans e magotes, tudo ao mesmo, numa linguagem rasteira, imediatista, com logomaquias de horas sobre nada e coisa nenhuma, seguidas de momentos de histeria ou depressão colectiva televisionada em directo. Tudo isto está bem longe de ser gostar de futebol, "vibrar" pela equipa, ver os jogos, entusiasmar-se ou desgostar-se. Está muito para além disso. Isto é lavagem ao cérebro, e está cada vez pior.»


 


Adenda: Por falar em televisão, a RTP2 passa à noite duas obras primas do cinema do século XX. Senso, de Luchino Visconti, e Doutor Jivago, de David Lean. Não sei o que será o futuro serviço público de televisão, mas seja lá o que vier a ser coisas destas deviam lá estar nem que seja só para uma pessoa ver. Pelo escrito acima, percebe-se que esta paloncice das "massas", de agradar às "massas" e de as exibir como macacos no zoo velados por idiotas ainda mais bestializados pelo esforço neuronal exercido, é que, de certeza, não é serviço público venha ele de um operador público ou privado. É pura merda.


 


Adenda2 (de um leitor): «Por falar em Televisão, a RTP dispõe de um canal, o RTP Memória, e, ao que consta e se imagina sem dificuldade, de arquivos de incalculável valor. Esse canal, pelo menos em horário nobre (ignoro se haverá "horário nobre" num canal com estas características, mas chamemos assim ao horário em que o comum dos mortais está plantado em frente do televisor) encontra-se em grande medida desaproveitado. Séries repetidas (algumas bem chochas) são constantes, filmes repetidos constantes são, e até, um dia destes, uma tourada de há anos foi transmitida (!!!). Afigura-se muito fácil, recorrendo aos tais arquivos, e com reduzidos meios ou investimento, fazer daquele canal uma interessantíssima opção. Como está é um desconsolo.»