6.12.12

A grande costura da tristeza





Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como o cão manco
deixado na estrada pelos caçadores

triste como a sopa entretanto azeda
mais triste que a idiotia congénita
ou que a palavra ampola

(...)

triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona
a tarde triste os anos tristes

a grande costura da tristeza
do esterno ao baixo ventre

triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura do córtex cerebral






Fernando Assis Pacheco

A seguir


 


Muito antes de Obama e da torrente de deslumbrados que arrastou por esse mundo fora, sempre me pareceu que Hillary Clinton daria uma liderança mais austera e, simultaneamente, mais "terrena". Com os Republicanos cada vez nas mãos de algum fanatismo inconsequente, talvez o mundo, em 2016, precise da sensatez e da intuição da Secretária de Estado norte-americana de saída. A seguir.

5.12.12

"Nós não podemos desistir"






«Portugal deve continuar a defender os seus interesses junto dos parceiros europeus utilizando os seus melhores argumentos (...). A vida na União Europeia é uma negociação permanente e eu sei isso por experiencia própria, as negociações são às vezes muito, muito difíceis, mas nós não podemos desistir.»

Grandeza


 


José Carreras, Verdi, Aida. 1979, ao vivo com Karajan. Celebra hoje 66 anos de idade. Como disse uma vez João de Freitas Branco, a voz mais naturalmente bonita, enquanto tenor, dos últimos tempos.

Benite


 


Ia escrever sobre Joaquim Benite mas o Medeiros antecipou-se: «solidário, enérgico e solar». O teatro português das últimas décadas não pode ser "contado" sem ele. Muito menos o Festival de Almada que dali irradiava para outros lugares. Trocámos algumas palavras sobre o "estado da arte" na cultura aquando de um desses Festivais, já vai para três anos, numa conferência de Manuel Maria Carrilho que decorreu na maravilhosa Casa da Cerca, na zona velha de Almada, com uma vista deslumbrante do skyline de Lisboa. A última vez que o vi foi na estreia de O Mercador de Veneza, encenado pelo Ricardo Pais, este verão. Estava, de facto, muito doente mas, como refere o Medeiros, enérgico e solar. Tudo o que a cultura precisa estava ali, nessa corajosa energia e nessa empatia com o que nos rodeia que Joaquim Benite tão bem intuía. Afinal tudo o que a cultura não tem enredada como anda em comadrice intimista e velhacaria simplificada. Como quase tudo o mais, aliás.

4.12.12

O ouriço


 


Como é que alguém com as responsabilidades históricas e cívicas de Mário Soares pode escrever "tomara que fôssemos a Grécia"? Se ele se estivesse a referir à Grécia antiga, concordava. Mas a Grécia de Arquíloco há muito que desapareceu. Só não desapareceu a prosa dos seus versos, designadamente aquele famoso - a raposa sabe muitas coisas mas o ouriço sabe uma coisa muito importante. Leia, Dr. Soares, que é coisa que gosta e faz sempre bem.

2.12.12

Os avoengos de 1979


 


Acompanho o Pedro Santana Lopes nesta evocação da vitória da Aliança Democrática - the one and only - de 2 de Dezembro de 1979. A AD juntava o PSD, o CDS, o PPM, os Reformadores e outros independentes nas eleições legislativas intercalares convocadas por Eanes na sequência do fracasso dos governos ditos de iniciativa presidencial. Em apenas cinco anos, a Direita "legalizava-se" perante a revolução e com maioria absoluta. Durou praticamente o tempo de vida que restava a Sá Carneiro. Acompanhei o momento no Hotel Altis. Valia a pena o empenho político (aos dezanove anos tudo vale a pena)  porque os envolvidos eram de valia. Entrei nisso tudo pela mão do Medeiros Ferreira que é um dos espíritos mais livres da vida pública nacional. Quem nasceu "nisto", dentro destes inverosímeis trinta e dois anos de regime, dificilmente poderá perceber o simbolismo daquela tão já longínqua noite. Sá Carneiro venceu por ruptura. Em 1979 isso parecia uma missão impossível, isto é, a Direita alternar no governo com a Esquerda quando o poder ainda era amplamente dominado pela tropa. A vida política de Sá Carneiro nunca foi um cortejo de felicidade ou de previsibilidade. Até 2 de Dezembro de 1979, poucas vezes foi levado a sério dentro e fora do seu partido. E daí até ao seu trágico desaparecimento, nada foi fácil. Pressentiu sempre que morreria cedo - pathos e hubris, hubris e pathos, inseparáveis. O que teria sido a vida política portuguesa com ele, dentro ou fora dela, saíndo e entrando, separando e unindo, permanecerá para sempre uma incógnita. O ano que aí vem será seguramente um dos mais tremendos do regime e decerto não haverá lugar para quaisquer voluntarismos amadores e estéreis. Oxalá a Direita de hoje saiba, então, estar à altura dos ilustres avoengos de 1979.

O funil

O Pedro Mexia também fez anos. Apenas quarenta. Suscitou-lhe um belo artigo, escrito em excelente português, no suplemento Actual do Expresso. Imagino o que dirá nos cinquenta. Por causa destes, dos cinquenta, Vasco Pulido Valente aludiu, na altura dos dele, à "teoria do funil". Satisfaz-me bastante a imagem do funil para explicar o decurso do tempo. Não o que vem prevenido nos códigos e que produz efeitos jurídicos, mas o outro, o que mais importa, a vida. Mexia, sem o referir, descreve perfeitamente a coisa. «Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar.» Parabéns.

1.12.12

Cunhal, a elegância na derrota



Está a decorrer um congresso do PCP. O PC é um partido previsível pelo que a sua versão dos dias que correm interessa-me pouco. A ocasião, todavia, serve igualmente para abrir as comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. E isso já me interessa. Cunhal confunde-se com a biografia política do país no século XX, à semelhança de Salazar. Soares é um fenómeno mais tardio e trivial. Há milhares de Soares por esse mundo fora mas apenas um Cunhal e um Salazar. Soares vê a democracia como Proust descreve a nostalgia permanente de uma "madeleine" de infância: está-lhe "na massa". Cunhal "aceitou" a democracia e fez do PC o partido mais respeitador dos seus rituais, das suas normas. Mesmo na rua, o PC é a válvula de segurança das instituições, demarcando-se metodicamente, desde Novembro de 1975, de tudo o que possa perturbar, escandalosa ou violentamente, os "equilíbrios" formais do regime. Aos poucos isolou-se e travou mitologias em seu redor mesmo quando o forçavam a falar de si. O "colectivo" era a sua maneira de dizer "eu" embora, aqui ou ali, sobretudo nas derradeiras aparições em entrevistas, deixasse transparecer o homem, o pai e o avõ. "Despersonalizo, portanto...", diria a Maria João Avillez naquele que é porventura o melhor livro da jornalista e que recolhe as suas "conversas com Álvaro Cunhal". "Eu não adivinho, batalho", "eu não alimento nada, tenho apenas a minha maneira de viver" são afirmações que o balizam. De alguma maneira, Cunhal poderá ter-se tornado incompreensível à luz dos "valores" vigentes. O "modelo político" triunfante um pouco por todo o lado representa tudo o que Cunhal intelectual e intimamente desprezava. Não aludo a questões puramente ideológicas mas a coisas mais profundas que se prendem com a própria "natureza" humana. Cunhal era demasiado elegante para poder suportar a ascensão planetária da vulgaridade pequeno-burguesa sem um sorriso malicioso e, sem dúvida, amargo como revela Avillez. «Era o último encontro, mas eu não sabia. A derradeira vez que eu via aquele homem doente («eu estou a ver muito mal, não vale a pena mostrar-me isso, não vejo, não consigo ver...») que durante quase trinta anos me fez sempre partir com precipitação e os sentidos alerta para um segundo andar da avenida António de Serpa e, depois, para um gabinete descarnado e nu da rua Soeiro Pereira Gomes. Um homem envelhecido que agora sorria mais tristemente, agarrado à sua "convicção" («sim, a cinvicção foi e é, fundamentalmente, o segredo da resistência e dos combates».) E se eu disser a palavra "derrota"?, perguntei-lhe subitamente nesse dia, mas quase a medo, diante do gravador ainda ligado (e detestando-me por selar aquela longa conversa com uma única palavra que, afinal, lhe cabia por inteiro): Uma derrota ... "amarga", Dr. Cunhal? «Amarga é uma palavra muito pequenina para o que foi.»