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31.5.09

EFÉMERA


... a política. O cartaz da foto recorda a extraordinária campanha de Lucas Pires nas primeiras "europeias" nacionais, em 1987. Cavaco arrebatou uma maioria absoluta no mesmo dia em que Pires, pelo CDS, obtinha um excelente resultado. Tudo o que não existe nesta campanha, passou-se nesse longínquo mês de Julho de 87. Rua, alegria, bons tempos de antena, debate, festa, multidões, punch. Agora quase toda a gente parece andar a fazer um enorme frete, um frete a que, muito apropriadamente, pouca gente liga. O calor não ajuda. Os protagonistas não ajudam. As ideias não abundam. A Europa é um pretexto num país onde nunca chegou a ser "texto". Veja-se, por exemplo, de que é que a inverosímil dupla Vital/Sócrates - a do shallow absolutismo democrático que se deseja perpetuar - fala. Será para que o pobre do eleitor não perceba que, atrás de Vital (já de si péssimo), vêm a D. Edite, o sr. Capoulas, as dúplices Elisa e Ana Gomes e o despedido Correia de Campos? Que saudades de Lucas Pires.

Foto: Ephemera

22.4.08

"OS CATÓLICOS E A POLÍTICA"

«A verdadeira tolerância, no entanto, é a que assenta na fortaleza das próprias convicções e os católicos não têm que ter uma atitude política passiva, clandestina, dividida, pessimista e subalterna. Não têm que deixar “laicizar” a mais importante parte do seu campo de consciência e acção – aquele que tem a ver com a “substância” e as “expressões” mais elevadas do seu ser social. A geral fraqueza da sociedade civil portuguesa não ajuda. Contribui mesmo para a perda das últimas certezas dessa sociedade. A concepção dominante da História é ainda demasiado imediatista e é nesse contexto que se explica o activismo, dirigismo e crescimento do Estado como único arrimo para a erosão da consciência política colectiva. Mas há que reagir e os católicos, com a Igreja, podem bem ser a parte mais sólida dessa recuperação da sociedade civil. Até como via para reabilitar a política e evitar que esta continue a ser um puro jogo de superfície, onde a própria renovação “ética” acabe por se transformar numa nova demagogia. Talvez a renovação “moral”, a partir da sociedade real e dos seus valores profundos, entranhadamente cristãos, seja afinal mais simples e mais eficaz do que a renovação “ética”, a partir, outra vez, dos modelos da Revolução, do Estado e dos seus partidos.»


21.2.08

UM BLOGUE


Pelo Atlântico descubro um blogue destinado a lembrar Francisco Lucas Pires nos dez anos do seu desaparecimento. FLP foi meu professor e alguém com quem conversei e aprendi muito fora dessa circunstância académica. Era um intelectual inteiro, um homem justo e bom que faz falta a esta democracia descerebrada. Esta homenagem talvez ajude as gerações mais novas a entenderem que a política pós-25 nem sempre foi um local mal frequentado. Já agora, que se reeditem os seus livros e se publiquem inéditos.

25.3.07

EUROPA


Para comemorar os cinquenta anos do Tratado de Roma, encontram-se em Berlim todos os basbaques que dirigem presentemente a Europa. Os "pais" da ideia devem dar voltas nos respectivos túmulos quando se vêem representados por tanta nulidade política e humana. Já são vinte e sete e, se a loucura turca o permitir, qualquer dia só param na Rússia. Com aquele ar atrevido de miúdo a meio caminho entre a Cova da Piedade e Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia desfez-se em entrevistas e "ideias" para garantir o seu lugarzinho na "história". Ultimamente "agarrou-se" ao ambiente como se não estivéssemos todos mortos a prazo, apesar das milionárias conferèncias do sr. Gore. Por cá, não houve luminária esclarecida ou analfabeta que não "botasse" discurso ou prosa sobre a Europa. Do "rapto" mitológico até ao governo sem rosto de Bruxelas, o regime esteve e há-de estar bem representado durante o dia nos jornais e nas televisões. Por isso me apetece escrever sobre Francisco Lucas Pires. Lucas Pires foi meu professor e, atrevo-me a dizer, alguém com quem sempre mantive uma enorme cumplicidade intelectual. Conheci-o aos dezoito anos e despedi-me dele, sem o saber, horas antes da sua estúpida morte em 1998. Foi nele em quem votei nas primeiras eleições para o Parlamento Europeu, em 1987, no mesmo dia em que Cavaco Silva arrebatava a primeira maioria absoluta. Nessa altura Pires já tinha sido presidente do CDS - o Paulo Portas, nos corredores da Católica, em 83, exibia com orgulho o seu "liberalismo" através de um auto-colante com o rosto de FLP colocado na lapela- e era, com sucesso, o nosso bem preparado deputado europeu que trouxe a Lisboa os seus amigos do PPE para essa campanha. FLP era um homem de pensamento e, enquanto tal, produziu provavelmente a única mais-valia que o CDS teve nesse campo - o saudoso "grupo de Ofir" - a que também pertenceu o José Adelino Maltez. No PREC, forneceu ao partido uma teorização sobre a constituição ideal ("Uma Constituição para Portugal"), escreveu artigos para uma das melhores revistas de pensamento político da época, a "Democracia e Liberdade", e dava aulas com uma lucidez adivinhativa e tímida própria dos melhores. Nunca foi um político de acção ou de intriga e, como tal, não escapou à tortura das novas e das velhas nomenclaturas do regime e do seu próprio partido. Gostava mais dos homens do que apreciava as suas "arrumações" partidárias concretas e isso foi-lhe fatal. Foi finalmente deputado europeu pelo PSD e alvo do escarninho público de muitos alarves que transformaram o CDS em PP e o PP num circo, bem como de muitos inquisidores de pacotilha cheios de esqueletos no armário. Até Portas arrebatou um orgasmo televisivo contra ele num daqueles seus frenéticos momentos de falso moralismo político. Ontem, ao limpar uma estante de papéis e de jornais inúteis (de vez em quando há que deitar fora partes definitivamente mortas da nossa vida), apeteceu-me reler o livrinho de Lucas Pires na colecção "O que é", neste caso, a "Europa", com um prefácio de Eduardo Lourenço (Difusão Cultural). E ocorreu-me a falta que homens como ele fazem à nossa medíocre vida pública, tão poluída por tantos arrivistas e ignorantes esquecíveis. FLP tratou de "pensar a Europa" num momento em que, cá dentro, toda a gente se preparava para se servir dela. Homens como ele não têm "herdeiros". A gente que se bamboleia entre cá e lá em nome da burocracia de Bruxelas, não lhe alcança sequer os calcanhares. Francisco Lucas Pires chegou cedo demais e partiu cedo demais. Nunca o chegámos a merecer.