
O livrinho da foto lê-se num instante. As entrevistas que o autor concedeu quando passou por cá revelaram uma personalidade com um interesse inegável. Isto numa altura em que é cada vez mais difícil descobrir um autor que não se desmanche em trivialidades. Escreveu-o aos dezanove anos. É autobiográfico e revela uma França que só costuma aparecer nos boletins de voto, mais propriamente na cruzinha em cima de Marine Le Pen. Nada que não soubéssemos já de outra gente que precedeu Édouard Louis: apesar de 1789, a sociedade francesa é do mais reaccionário que o mundo tem conhecido. Nada do muito mau que lhes aconteceu, para não irmos mais longe, no século XX foi fruto do acaso: Vichy, o colaboracionismo, a separação visceral (violenta, nas palavras violentas de Louis) entre "direita" e "esquerda" e, sobremaneira, entre "burgueses" e os outros. A aldeia, os comportamentos, os cheiros (os cheiros valem muito neste livro), os corpos (dos animais de duas e de quatro patas), a normalidade patológica de um quotidiano totalitário (o termo também é dele) entram por uma França "profunda" adentro, entre os dois milénios, sem o menor pudor. Muito menos o do adolescente que ele era, então a florescer literalmente entre a merda. Vê-se que leu. Duras, sobretudo ou talvez. Vê-se que tudo lhe subiu à cabeça aparentemente prodigiosa depois de ter sido sentido no corpo. Até no humor negro, e não negro, de certas passagens. Estreia-se bem com este mal todo resumido em duzentas páginas.
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