
Caro leitor, deixo à sua reflexão o seguinte, depois de um episódio que muito me maçou durante toda a tarde, enquanto assistia à "Valquíria" (vista da plateia/palco, a arte total). Encontro, sentado numa mesa de café, um amigo de muitas cumplicidades, afinidades e intimações feito. Ele é socialista de quatro costados e conselheiro de socialistas de cinco, seis, mil costados. Nunca fui seu amigo - logo eu, medonho misantropo reaccionário- por ele ser tal, mas por que é das cabeças mais fascinantes e irónicas que conheço. Era das poucas pessoas com quem eu "falava" já que, com a maioria, falo a pensar na morte da bezerra. Como não estamos pessoalmente há quase um ano, deduzo que o episódio de ontem se deveu ao que escrevo o que, se me lisonjeia, preocupa-me. Nunca confundi amigos com cortesãos. Sempre entendi que o dever de um amigo é, quando necessário, dizer - ser o primeiro a dizer- que o rei vai nu e não fingir que, só porque é amigo, Jesus desceu à terra de novo. Ora este meu amigo recusou-me - com o argumentou irrepreensível que eu o "incomodava" - uma cadeira à sua mesa. "Sai daqui, incomodas-me", para ser mais preciso. Caro leitor, só vale a pena continuar a escrever (nem que seja só para si, o único leitor que está agora a ler isto) se for para o incomodar. Caso contrário, et par delicatesse, saio daqui.
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