26.12.14

O fim do princípio da presunção de inocência


 


«O receio que geram estes processos em quem procura perceber e melhorar - será possível? - a qualidade (?) da nossa vida colectiva é a de os processos se arrastarem indefinidamente e  não se chegar a lado nenhum em termos de certezas e responsabilização dos principais intervenientes. O processo dos submarinos em que nenhum português tem dúvidas que houve pagamento de luvas e em que nenhum responsável se vai sentar no banco dos réus é um confrangedor exemplo desta ineficácia da nossa justiça. Mas esse não foi o caso nos processos em que são arguidos o ex-ministro Armando Vara, a ex-ministra Maria de Lourdes Rodrigues e o ex-líder parlamentar do PSD Duarte Lima em que se verificaram condenações, consideradas geralmente como pesadas, nos tribunais de primeira instância e que transmitiram à opinião pública a ideia que a justiça não está disposta a "facilitar a vida" aos políticos. Em 2015 saberemos as decisões que vierem a ser tomadas em sede dos recursos que estão a correr... Se estas decisões representam o fim da "impunidade dos poderosos" que é sentida de forma difusa mas consistente na sociedade portuguesa é algo que ainda ninguém pode saber pelo que são particularmente censuráveis as sucessivas declarações da ministra da Justiça quanto ao referido  "fim da impunidade" a propósito de investigações criminais em concreto. Não sei se será o fim da impunidade mas tais declarações são, seguramente, o fim do princípio da presunção de inocência.»


 


Francisco Teixeira da Mota, Público

2 comentários:

Anónimo disse...

Esta ideia generalizada de que um crime de assalto a banco por uma ninharia de 5 ou 10 milhares de euros está bem punido com 20 imperdoáveis anos de cadeia é extraordinária, quando comparada com casos de corrupção em que o estado sai lesado em milhões. Por uns, um silêncio sepulcral. Por outros, uma monumental basqueirada nos tempos de antena de que dispõem nas TVs. É curioso, porque acaba de sair da cadeia um tipo que lá esteve por razões administrativas mais de uma mês sabendo-se já da sua inocência num crime de homicídio, sem que algum desses "comentadeiros" se manifestasse revoltado ou sequer preocupado. Teve azar: nem era rico, nem era feroz, nem era do PS, nem se estava a cagar para o segredo de justiça. Por esse, não houve uma única alma a apresentar um Habeas Corpus. No fundo, nem poderia ser de outro modo, sob pena de não estar conforme com aquilo que somos.

JPT disse...

Só mesmo um "artista português" escreve "O