
Decorre hoje em Cascais mais um "conselho da diáspora". Ninguém, felizmente, sabe o que é a não ser os do "conselho" e os do "meio" comunicacional e social em que os do "conselho" vegetam. Trata-se, aliás, de uma metáfora chique da verdadeira diáspora - a daqueles que não tiveram outro remédio, por séculos e séculos, a não ser deixar convenientemente esta trampa para trás. Esta gente do "conselho" é de outra extracção. No do ano passado, por exemplo, esteve um membro da mui nobre família Espírito Santo. Presumivelmente, nas palavras do PR, representam "o espírito de portugalidade" - uma abstracção que faz tanto sentido como a "montanhidade" de uma montanha - que, devidamente cozinhado, levará à "criação de vantagens face aos países concorrentes na qualificação do capital humano, na excelência das universidades, na simplificação do ambiente de negócios, na capacidade de investigação, desenvolvimento e inovação e no fomento do empreendedorismo.» Como se pôde constatar um dia destes nos telejornais, o Senhor PR acredita devotadamente no pai natal. Faz muito bem. Sucede que a verdadeira diáspora é uma coisa mais profunda do que a destes pernósticos ensimesmados. Como escreveu Vasco Pulido Valente a pretexto do "conselho" do ano passado, «basta abrir um jornal ou ligar a televisão para se perceber que nesta base o "produto" Portugal ou, como explicam algumas notabilidades da Diáspora, a "marca" Portugal não irá provavelmente pôr o mundo em delírio. O respeito dos que nos conhecem (e dos que não nos conhecem) depende da ordem, da eficiência e da sensatez com que soubermos tratar dos nossos problemas. Não depende de vagas conversinhas de "iluminados".» E, quanto a "diáspora", ficámos definitivamente conversados com Jorge de Sena que, se fosse vivo, não deixaria de manifestar o seu desprezo por estes "iluminados" distinguindo-os daqueles que regressaram (e regressam, como Camões, a Portugal), «com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa das mais prodigiosas construções jamais criadas, desde que o mundo é mundo. E essa construção ele trazia, reunindo o Portugal disperso, para o que ele deixara a vida, como disse, pelo mundo em pedaços repartida. Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros.»
1 comentário:
Havia os emigrantes (povinho), havia os refugiados políticos (desenrascanso), havia os bolseiros (burguesia) e havia os que fugiam à tropa..
Até que um dia um casal de refugiados desembarca em Santa Apolónia há 40 anos e a futura 1ª dama grita para a multidão: e "agora não precisamos emigrar mais"
E tinha razão, agora não se emigra, será Portugal que se está a PURGAR????.
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