5.1.13

Fé na honra


 


O mais bonito do hebdomadário Expresso, nos seus 40 anos de existência, é a capa de Julião Sarmento para a "revista". E, dentro da "revista", a curta entrevista do Pedro Mexia a Manoel de Oliveira. «Tudo o que a gente faz é um prenúncio de derrota. A vida é uma derrota. A gente vive na derrota. Nasce contra vontade, e não é senhor do seu destino.» De alguma forma, o resto do jornal - sobre a trivialidade e o quotidiano - contrasta com esta sabedoria serena. Ali tudo se passa como se não houvesse derrotas e, no limite, a morte. Ainda Oliveira. «No "Guerra e Paz", a certa altura, um nobre [o príncipe André] é ferido e sabe que vai morrer, e então pergunta "o que é a morte"? E depois olha em volta do quarto e encontra uma porta. E ele diz então: "Ah, é uma porta". E eu acho muito feliz. É uma porta, que tem uma saída, mas desconhece-se a entrada.» O espaço das lérias e das larachas tomou conta de tudo e lá é aparentemente interdito perceber a fala de Oliveira. Em metónimia actualizada de Wilde, será, afinal, a vida que imita o "jornalismo"? Poderia aceitar-se, a não ser no plano intertextual da ficção na vertente em papel de jornal que, por exemplo, um membro de um governo diga o que lhe é imputado entre aspas acerca de outros membros do governo o que, não fosse o referido plano ficcional, evidenciaria uma densidade democrática e um carácter, no mínimo, duvidosos? Ou que algum alegado devoto funcionário de um partido se dirigisse, também entre aspas, a um membro de um governo de que o seu partido faz parte de uma forma que, nesse plano ficcional intertextual, só permitiria classificar a personagem citada entre aspas como um palhaço, naquela irónica acepção denotada pela saudosa Maria José Nogueira Pinto quando, na "vida real", interpelou um seu colega deputado? Saio da ficcão, da má ficção, para regressar a Manoel de Oliveira. Pergunta-lhe o Mexia se mantém a fé no cinema. «É a mesma coisa que termos fé na honra.» Oxalá muita gente pudesse dizer o mesmo.

O país "de programa"

Até a Mme. Lagarde se tornou uma "especialista" em Constituição Portuguesa. A coisa promete.

3.1.13

Uma factura portuguesa

De manhã, no rádio, ouvi um comerciante dizer que tinha "investido" dez mil (10.000) euros nas famosas máquinas que vomitam facturas. Em média, cada coisa dessas custa entre mil a mil e quinhentos euros. Há clientes que debitam praticamente a vida deles toda para a dita factura e, depois de juntarem milhares e milhares delas, "deduzem" tamanha magnificência no imposto a pagar. Como a dedução tem um limite, quer quanto às actividades dedutíveis, quer quanto ao montante a deduzir (ridículo), é mais o tempo que os comerciantes perdem a preencher os "dados" do que a trabalhar naquilo que lhes interessa, e aos clientes. Aparentemente já está destacada uma brigada - hoje é dia 3 de Janeiro - para "verificar" se as maquinetas estão todas no sítio e a cumprir a sua notável missão patriótica. Se não estiverem, a coima pode ir até 3 mil e quinhentos euros. Como o país "vive" do pequeno e do médio comércio, ça va de soi.

Sem mundo


 


«Estar "ligado" significa, paradoxalmente, para o homo digitalis poder desligar-se de tudo - seres humanos, ambiente de trabalho, ligações familiares, etc. - o que o rodeia. Facto que, embora traduza uma nova e enorme dependência, é em geral vivido como uma libertação. E não como uma libertação qualquer, mas como uma libertação que abre o caminho a um sentimento de jubilatória omnipotência. Como se, quanto mais descontextualizado se estivesse, mais forte um indivíduo se pudesse tornar, ilusão dificilmente contestável na medida em que ela lhe oferece "um" mundo que lhe permite, afinal, ignorar o mundo, mesmo todo o mundo. Para um ser humano "ligado", o tempo é apenas o da actualidade, que impõe o curto-termismo. Uma actualidade que invade - como se a pudesse substituir - a própria vida interior dos indivíduos, ao mesmo tempo que os priva de qualquer visão global sobre a sociedade a que pertencem. O que acontece porque se vive num regime de aceleração que dilui a percepção as várias temporalidades num presente perpétuo, excitantemente extático, em que os acontecimentos se multiplicam na razão inversa da compreensão do seu sentido. O tempo comprime-se, o atordoamento instala-se, vive-se com a angustiante noção - que contraria todas as promessas da utopia tecnológica - de que realmente não há tempo para nada. Os tão badalados como incompreendidos problemas de disciplina escolar, de incivilidade e de falta de educação da juventude, nascem justamente dessa desconexão entre os vários ambientes, ou contextos, em que os jovens hoje vivem, o digital e o natural. Em que o primeiro é considerado vital e suscita uma crescente fidelidade e o segundo é visto como descartável e é votado a um crescente desprezo. As consequências de tudo isto são imensas e avassaladoras: basta pensar que, pela primeira vez na história da humanidade, a identidade dos indivíduos é construída não pelo sentimento de pertença e de integração num colectivo, mas pela sua radical des-pertença, por um nomadismo identitário que não segue nenhuma rota nem procura qualquer destino.»


 


M.M. Carrilho, DN

2.1.13

Coisas boas e porcarias


 


Gosto muito deste bocadinho de Jorge de Sena. «Penso que ninguém tem a obrigação de ser o registo civil de tudo que se publica num país. A gente tem sempre tempo de esperar algum tempo, de saber quem é que se afunda e desaparece, quem é que fica. E aqueles que ficam a gente vai ler depois. Não há necessidade de ler todas as semanas tudo o que se publica. Até porque eu acho que todas as literaturas normalmente são feitas de obras notáveis e de obras relativamente medíocres. E se a gente passar todas as semanas a ler 80% de porcarias e 20% de obras boas, a gente acaba por medir as coisas boas pelo nível da porcaria, não é?». Estas percentagens aplicam-se a muitas coisas hoje em dia e não apenas à literatura e aos literatos. Cada vez mais importa evitar medir coisas boas pelo nível da porcaria.

Uma prioridade

Embora nem toda a gente tenha sensibilidade para a coisa - o  Presidente da República aludiu-a adequadamente na sua mensagem de ano novo -, a salvaguarda da concertação social é uma indisputável prioridade política em 2013. Tão simples quanto isto. Nem tudo são contas de somar e subtrair.

Contra o imperialismo enjoativo da "unidade" da língua

«No Brasil, tratava-se fundamentalmente de sacrificar o trema e o acento agudo em meia dúzia de casos. E ninguém se resignava às regras absurdas de emprego do hífen... Com isso, bastou o abaixo-assinado de uns 20 mil cidadãos para se adiar a aplicação de uma coisa trapalhona denominada Acordo Ortográfico (AO). Os políticos ouviram a reclamação, estudaram-na e assumiram-na, e a sr.ª Rousseff decidiu. Em Portugal, o número de pessoas que tomaram posição contra o AO já ultrapassava as 120 mil em Maio de 2009. Hoje, e considerando tanto o Movimento contra o AO de então como a actual Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) com a mesma finalidade, esse número é incomparavelmente mais elevado. Portugal bem pode propor a todos os quadrantes ideológicos e parlamentares da sua classe política que se assoem agora a este cruel guardanapo. Faltou-lhes a coragem de respeitar as opiniões autorizadas, a capacidade de reflectir com lucidez sobre o assunto, a vontade cívica de se informarem em condições. Acabaram a produzir este lindo serviço, com a notável excepção do relatório Barreiras Duarte, aprovado por unanimidade na Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura (Abril de 2009), mas que não teve qualquer efeito prático. A CPLP, ao engendrar o torpe segundo protocolo modificativo do AO, violou sem escrúpulos o direito internacional e traiu a língua portuguesa. Não serve. Mostrou total inconsciência, incompetência, incapacidade e oportunismo na matéria. Agora, é evidente que, de três, uma: ou o Brasil vai propor uma revisão do AO, ou tratará de a empreender pro domo sua sem ouvir os outros países de língua portuguesa, ou fará como em 1945, deixando-o tornar-se letra morta por inércia pura e simples. No primeiro caso, mostra-se a razão que tínhamos ao insistir na suspensão do AO, a tempo, para revisão e correcção. A iniciativa deveria ter sido portuguesa e muitos problemas teriam sido evitados. No segundo caso, mostra-se além disso que continuamos a ser considerados um país pronto a agachar-se à mercê das conveniências alheias. Com a desculpa, a raiar um imperialismo enjoativo, da "unidade" da língua, em Portugal haverá sempre umas baratas tontas disponíveis para se sujeitarem ao que quer que o Brasil venha a resolver quanto à sua própria ortografia. Foi o que se passou em 1986 e 1990. No terceiro caso, mostra-se ainda que ficaremos reduzidos a uma insignificância internacional que foi criada por nós mesmos. Mas, em qualquer dos casos, a situação será muito diferente da actual. O Acordo Ortográfico não ficará incólume e as suas regras serão revistas e modificadas. Ninguém esconde no Brasil esta necessidade de revisão e correcção, tão cultural, social e politicamente sentida que está na base do adiamento decretado. Se as regras vão ser modificadas, e quanto a este ponto não pode subsistir qualquer espécie de dúvida, será um absurdo absoluto que se mantenha a veleidade de as aplicar em Portugal na sua forma presente. Não se pode querer contestar oficial ou, sequer, oficiosamente a existência de três grafias, nada menos de três, como resultado grotesco de uma tentativa sem pés nem cabeça de uniformização delas em todos os países que falam português: a brasileira, a angolana e moçambicana e a irresponsável que é a portuguesa. Torna-se imperativo o reconhecimento oficial de que a única ortografia que está em vigor em Portugal é a que já vigorava antes das desastrosas pantominas que foram empreendidas pelo Governo Sócrates. No meio desta vergonha, o mais simples é:


a) reconhecer-se que o AO nunca entrou em vigor por falta de ratificação de todos os estados signatários;


pressuposto essencial da sua aplicação que é o vocabulário ortográfico comum que nem sequer foi iniciado;


c) suspender-se tudo o que se dispôs em Portugal quanto à aplicação do AO, nomeadamente no plano das escolas, dos livros escolares e dos serviços do Estado;


d) tomar-se a iniciativa de negociações internacionais com vista a uma revisão e correcção do AO por especialistas dignos desse nome. O Acordo Ortográfico é tão mal feito que nem o Brasil o aceita... Logo à nascença, já era um cadáver adiado. Com vénia de Fernando Pessoa, agora não se pode deixar que, sem a necessária revisão, ele procrie seja o que for.»


 


Vasco Graça Moura, DN


 

1.1.13

Equilíbrio






«É aí, no crescimento económico, que temos de concentrar esforços. Caso contrário, de pouco valerá o sacrifício que os portugueses estão a fazer. A nossa economia tem sofrido impactos muito negativos vindos do exterior, que estão fora do nosso controlo e não foram previstos aquando da negociação do acordo de assistência financeira. É o caso da recessão na Zona Euro e, em particular, a crise económica que afeta Espanha, o principal destino das nossas exportações. Para alcançar o crescimento são particularmente importantes os apoios da União Europeia ao investimento e à competitividade, assim como a melhoria das condições de financiamento das empresas junto do sistema bancário. As nossas empresas pagam pelos empréstimos taxas de juro muito superiores às suas congéneres da União Europeia. Temos argumentos – e devemos usá-los com firmeza – para exigir o apoio dos nossos parceiros europeus, de modo a conseguir um equilíbrio mais harmonioso entre o programa de consolidação orçamental e o crescimento económico. Em mais de 25 anos de pertença à União Europeia, mostrámos ser um parceiro credível do processo de integração. É do nosso interesse, mas também do interesse da União, que a coesão e a solidariedade não sejam meras palavras de circunstância. É nas alturas difíceis que se testa a solidez do projecto europeu.»




Cavaco Silva, 1.1.13

A ideia da "excepcionalidade"

É uma ideia que tem tanto de demagógica quanto de estúpida. A nossa história baseou-se amiúde nessa falácia. O desembarque de Ceuta, em 1415, foi uma formidável manifestação da "técnica" lusa? Foi, mas bastou pouco mais de um século para a "excepção" se desfazer num deserto luminoso do norte de África. No princípio do século passado, os crédulos do Corpo Expedicionário Português lá foram pastar a "excepção" que eles imaginavam representar para a Europa. Não sabiam inglês e escuso de lembrar como aquilo acabou. Salazar alimentou anos a fio uma ideia de excepcionalidade provincial do país, espalhada por vários continentes, apesar do desprezo a que sempre votou os colonos "continentais" que via como meros oportunistas sem o menor sentido de nação (como ele devia rir para dentro aos acordes da "nação valente e imortal"). Este regime também se concebeu excepcional a partir do momento em que se fundou numa revolução sem sangue e com cravos. Não deu "filhos" excepcionais, como qualquer observador superficial das últimas décadas pode constatar sem grande esforço. Mas alguns, coitados, acham-se e andam para aí feitos almas penadas da coisa. Não, não há qualquer "excepcionalidade" portuguesa apesar do esforço primordial da espada do conde D. Henrique cuja utilidade, aliás, ainda está por provar. 2013, esta coisa que começa hoje, provará uma vez mais - como se fosse necessário - que a "excepcionalidade" lusa não existe. É uma fantasmagoria como outra qualquer, sempre pronta a deixar o armário naqueles dias "solenes" em que a regra se confunde com a excepção e a excepção com a regra. Bom dia e boa sorte.

Viva Verdi


 


Comemora-se este ano o bicentenário do nascimento de Giuseppe Verdi. Viva, pois, Verdi com a versão de La Traviata para o Festival de Salzburgo de 2005. Anna Netrebko, Rolando Villazón, Thomas Hampson dirigidos por Carlo Rizzi.