Donizetti, La Sonnambula. Natalie Dessay. Opéra Bastille, 2010.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado

Volta não volta, regressa a Maçonaria. Para o meritório propósito do enchimento de chouriços em forma de folhas de órgãos de comunicação social, uma coisa com mais de um mês de edição na internet passou para a televisão com o incandescente termo "pânico". Alegadamente o dito "pânico" aterrou nas cabeças de cerca de mil e quinhentos maçons - vivos, mortos, desaparecidos ou "adormecidos", o rigor aqui não interessa nada mas, sim, a conspícua "teoria da conspiração" de meia dúzia de monomaníacos - cuja identidade (e respectiva Loja dentro do Grande Oriente Lusitano, GOL) foi posta a nu para consolo de outra meia dúzia de voyeurs e aparentados. Também lá estou e, confesso, não fui acometido de nenhum ataque de pânico. Já tinha aqui explicado, a benefício de inventário, a minha relação - breve em ambos os momentos - com o GOL. Agora apenas serviu para me recordar o nome da última Loja por que passei do qual, nova confissão, me tinha esquecido completamente. "Adormecido" desde 1997 - embora, e tal como no direito de família com a afinidade pós separações e divórcios, a "qualidade" maçónica nunca se perca -, é-me indiferente a divulgação desta espécie de index paranóico para consolo onanista de uns quantos "assangezinhos" de trazer por casa. Todavia admito que outras pessoas não pensem assim e vejam nisto, uma vez mais, um sinal daquilo que Jorge de Sena denunciou em verso, «este descaso/ de assassinos que se pisam sem desculpas.»
Miguel Esteves Cardoso, no Público, conta que teve um pequeno problema com o seu computador e que precisou falar com os "técnicos" da marca. A "tecnicidade" - Heidegger tem umas páginas muito interessantes sobre a "técnica" que não perderam a actualidade - é uma característica forte dos tempos. Toda a gente é tendencialmente "técnico" de alguma coisa ou em alguma coisa. As televisões e os jornais, por exemplo, fazem desfilar pelotões de "técnicos" para qualquer assunto, desde a economia ao futuro do gado asinino. E, com maior ou menor informalidade, todos subconscientemente olham para nós com o "ar" referido por Esteves Cardoso: «porra, que o senhor não está a perceber nada do que lhe estou a dizer, pois não?»
«O país tem sido maltratado, roubado e enganado ao longo de décadas, mas demonstra uma quase heroicidade muda. Barroso fugiu, como fugiram Guterres e Sócrates. Passos ficou e lá está, fazendo o que outros, por medo ou por demagogia, se recusaram fazer. O choque financeiro está a dar resultados. Passos Coelho está de parabéns.»
Miguel Castelo-Branco, Combustões
Foto: Público/RTP

Os mais velhinhos e os não absolutamente broncos recordam-se com certeza de uma coisa, da chamada história de Portugal, que ficou conhecida por PREC. As siglas denotavam o "processo revolucionário em curso", uma originalidade doméstica que começou por alturas da debandada de Spínola de Belém, no Outono de 1974. Agravou-se depois do "11 de Março" de 1975 e terminou a 25 de Novembro do mesmo ano graças à coragem física, entre outros, dos comandos da Amadora, de Jaime Neves e de Ramalho Eanes. Eanes provou o fel do PREC quando presidiu à RTP, em nome do MFA. Na altura a dita cuja "morava" no Lumiar e, na sequência do "11 de Março" no qual tentaram "implicar" Eanes, este demitiu-se só regressando lá, por interposta tropa, no dia 25 de Novembro de 1975 para pôr na rua os saneadores dos idos de Março. No pouco tempo em que aturou aquilo, volta não volta esperava-o uma manifestação da comissão de trabalhadores na rampa que conduzia ao edifício do Lumiar, devidamente orquestrada pelos "donos" do PREC, umas criaturas improváveis que iam do PC à extrema-esquerda, passando por um grupo do qual brotaram ministros, um PR e gestores do regime ainda em funções - o MES, o Movimento de Esquerda Socialista, que acabou praticamente no PS. Os "herdeiros" espirituais desses "momentos rampa do Lumiar" andam, consequentemente, por aí e em lugares aparentemente inesperados. As velhas (com novas) cumplicidades também. Que lhes faça a todos bom proveito.

Os tempos vão de feição para ler Shakespeare. O crítico literário norte-americano Harold Bloom dedicou um grosso volume às suas peças principais, um livro a que chamou "a invençao do humano". De facto, mais do que "inventar" o humano, Shakespeare resumiu-o nas suas personagens ora cómicas, ora trágicas, ora grotescas, ora sublimes. Aprende-se muito sobre o pathos português a ler Shakespeare.

Finalmente o José Pacheco Pereira leu o livro. «A história que este livro nos conta é de como, do atentado falhado contra Hitler até ao governo do almirante Doenitz, que continuou a funcionar semanas após o suicídio de Hitler e mesmo depois da rendição por breves dias, a máquina de guerra, a máquina produtiva, a máquina do terror, continuaram nas condições mais adversas, até ao colapso em 1945. Particularmente interessante é ver como, sob a égide de Bormann, cuja importância é crucial nesta fase final do nazismo, a estrutura burocrática de estado, já sobreposta inteiramente à do partido, continuava a funcionar. Os gauleiter, governadores regionais, detentores de consideráveis poderes executivos, assumem uma enorme importância no esforço de guerra e na repressão. É impressionante ver toda uma burocracia a funcionar debaixo de ruínas que os bombardeamentos aliados tinham trazido às cidades alemães e com os russos a poucos quilómetros, a executar todos os opositores, reais e imaginários, com tribunais ambulantes, assassinando milhares de pessoas, soldados, estrangeiros, prisioneiros, com toda a eficácia organizativa de que a Alemanha se mostrou capaz. De novo, uma ideia de vingança, do tipo “vamos perder, mas vocês não se vão ficar a rir” funcionou em proporções cruéis. O mais interessante do livro, é que nos mostra como uma burocracia eficaz, o clímax da modernidade, pode ser um instrumento ideal para a vingança colectiva, o clímax da barbárie.»
«O que espanta mesmo é a natureza das críticas. Primeiro, pela hipocrisia. Os mesmos que choram lágrimas de crocodilo pelos cortes dos subsídios de férias e Natal já não se incomodam pelo facto de a RTP ter custado aos contribuintes nos últimos dez anos quase 4 mil milhões de euros, praticamente o dobro dos cortes nos 13º e no 14º meses. Depois, pela incongruência. Diz-se agora que a concessão até pode ser um bom negócio, porque a RTP vai passar a dar lucro. Se assim for, tanto melhor. Isso significará que o privado terá de pagar ao Estado uma renda ainda maior. É que a RTP não vai ser dada. Vai ser concessionada. Em terceiro lugar pela fantasia do discurso. Critica-se a concessão da RTP por ser um atentado ao serviço público. Mas o que os portugueses vêem é que a programação da RTP, apesar de paga a peso de ouro pelo Estado, é praticamente igual à das televisões privadas. Finalmente pelo preconceito ideológico. Segundo alguns, o que é Estado é puro, o que é privado é impuro. Nada de mais falso. No público e no privado há coisas boas e más, sendo que, em regra, o privado gere melhor que o Estado e este deve sobretudo regular e fiscalizar.»

Ainda Eduardo Prado Coelho. Num dos volumes do seu diário, há uma citação de Plutarco que ele depois ele desenvolve: "a generosidade em relação a um inimigo é uma propedêutica à grandeza moral". Assim, «se nos habituarmos a permanecer justos em relação aos nossos inimigos, teremos a certeza de que nunca seremos culpados de injustiça e má fé em relação aos nossos íntimos e amigos. Além disso, se nada disto resultar em relação ao nosso inimigo, nada impede que lhe demos dois pares de estalos na primeira esquina em que o encontrarmos.» Acrescento que também serve para íntimos e amigos.