«Olha uma história:
Eu era a designer da EMI-Valentim de Carvalho e tudo o que era capa de disco passava por mim. Esta história ainda mede 31 cm por 31 cm, o que equivale a dizer que ainda não havia discos mais pequenos que o belo LP dentro da sua capa quadrada. O disco chamava-se «Dar&Receber» e fui eu quem o recebi, ao António, tão bonito. Vinha vestido com as suas cores, o cinto da fivela que era uma ferragem de portão e aquela barba aparada, alegre. Cansado. Magro. A capa estava a imprimir nas oficinas da Costa & Valério e fomos os dois, a pé, da Cruz dos Poiais ali a S. Bento. Um pulinho. O António tinha de parar de cinco em cinco passos e eu parava com ele. Ríamos os dois das coisas pequeninas e das grandes também. As pessoas passavam por nós e cumprimentavam-no: ah, riqueza da sua avó, gritou uma velha de dentro de uma casa escura. Ah, g'anda Variações! gritou o taxista depois de apitar. E mais ríamos até chegarmos ao fresco da casa das grandes máquinas. Impressionante, a esta distância arrepiante, foi o momento em que entrámos nas oficinas e um a um todos os homens das máquinas limparam as mãos às calças, as mãos que apertaram a do senhor António. Um a um. O António não era apenas popular ou cá dos nossos, era o senhor António a quem se reconhecia talento e a quem apertavam a mão em sinal de respeito tal como vi e nunca mais esqueci. Beijinhos ó rangélico João. Só tu para no meio da tua política toda, traulitada neste e naquele, te dares ao cuidado de parar o baile com o António Variações. O senhor António.»
Eu era a designer da EMI-Valentim de Carvalho e tudo o que era capa de disco passava por mim. Esta história ainda mede 31 cm por 31 cm, o que equivale a dizer que ainda não havia discos mais pequenos que o belo LP dentro da sua capa quadrada. O disco chamava-se «Dar&Receber» e fui eu quem o recebi, ao António, tão bonito. Vinha vestido com as suas cores, o cinto da fivela que era uma ferragem de portão e aquela barba aparada, alegre. Cansado. Magro. A capa estava a imprimir nas oficinas da Costa & Valério e fomos os dois, a pé, da Cruz dos Poiais ali a S. Bento. Um pulinho. O António tinha de parar de cinco em cinco passos e eu parava com ele. Ríamos os dois das coisas pequeninas e das grandes também. As pessoas passavam por nós e cumprimentavam-no: ah, riqueza da sua avó, gritou uma velha de dentro de uma casa escura. Ah, g'anda Variações! gritou o taxista depois de apitar. E mais ríamos até chegarmos ao fresco da casa das grandes máquinas. Impressionante, a esta distância arrepiante, foi o momento em que entrámos nas oficinas e um a um todos os homens das máquinas limparam as mãos às calças, as mãos que apertaram a do senhor António. Um a um. O António não era apenas popular ou cá dos nossos, era o senhor António a quem se reconhecia talento e a quem apertavam a mão em sinal de respeito tal como vi e nunca mais esqueci. Beijinhos ó rangélico João. Só tu para no meio da tua política toda, traulitada neste e naquele, te dares ao cuidado de parar o baile com o António Variações. O senhor António.»