13.3.05

HORIZONTE TÂNGER

Quando preciso de me esquecer do absurdo da minha vida, "viajo" para Marrocos pela mão de Paul Bowles. Imagino uma casa em Tânger onde o meu olhar possa cruzar o mar, o porto e as montanhas de Espanha. Fujo da "marginal" povoada por prédios incaracterísticos e "modernos" e não largo o bulício anónimo das ruas e dos cafés da velha cidade. Há um cheiro de essências e de pó que nos acompanha permanentemente em Marrocos. Existe uma cor ocre por todo o lado e a gentileza curiosa dos muçulmanos faz com que se sinta que nunca deixámos de ali estar. É fundamental perdermo-nos nessa deliciosa confusão. Perdermo-nos e não voltarmos nunca mais.

Paul Bowles no deserto:"Lá não há nada além do vazio e é isso a beleza, o vazio."

"A vida para mim é solidão. Não conheço ninguém."

"Uma pessoa está sempre a mudar e nunca chega a parte nenhuma. Mas chegar a algum lado também não é necessário. Morrer, sim. Tudo o que é inevitável é necessário."

HORIZONTE TÂNGER

Quando preciso de me esquecer do absurdo da minha vida, "viajo" para Marrocos pela mão de Paul Bowles. Imagino uma casa em Tânger onde o meu olhar possa cruzar o mar, o porto e as montanhas de Espanha. Fujo da "marginal" povoada por prédios incaracterísticos e "modernos" e não largo o bulício anónimo das ruas e dos cafés da velha cidade. Há um cheiro de essências e de pó que nos acompanha permanentemente em Marrocos. Existe uma cor ocre por todo o lado e a gentileza curiosa dos muçulmanos faz com que se sinta que nunca deixámos de ali estar. É fundamental perdermo-nos nessa deliciosa confusão. Perdermo-nos e não voltarmos nunca mais.

Paul Bowles no deserto:"Lá não há nada além do vazio e é isso a beleza, o vazio."

"A vida para mim é solidão. Não conheço ninguém."

"Uma pessoa está sempre a mudar e nunca chega a parte nenhuma. Mas chegar a algum lado também não é necessário. Morrer, sim. Tudo o que é inevitável é necessário."

12.3.05

PATRIMÓNIO II

Apesar do que possam pensar os habituais "caçadores de cabeças", os intriguistas e os invejosos sempre de serviço, eu estou exactamente no mesmo sítio onde estava quando comecei a "blogar" há cerca de quase dois anos. Possuo exactamente a mesma cabeça e as "mesmas fronteiras".

PATRIMÓNIO II

Apesar do que possam pensar os habituais "caçadores de cabeças", os intriguistas e os invejosos sempre de serviço, eu estou exactamente no mesmo sítio onde estava quando comecei a "blogar" há cerca de quase dois anos. Possuo exactamente a mesma cabeça e as "mesmas fronteiras".

PATRIMÓNIO

1. Hesitei entre terminar hoje o blogue ou em mudar nele qualquer coisa. Na realidade, esta aventura surgiu do acaso da minha fortuita desocupação "intelectual" quando abandonei as funções que exercia no Teatro Nacional de São Carlos, em 2003. Para evitar a inevitável sensação de privação que o abandono voluntário de um lugar e de pessoas que me eram queridas - por causa de outros lugares e de outras pessoas menores - sempre provoca, dediquei-me a isto. O regresso a funções menos estimulantes também ajudou. A dado passo, o Portugal dos Pequeninos partiu numa direcção inesperada. Os apontamentos quotidianos, muito por força do "exterior", chegaram demasiado depressa à "política", depois de uma fase inicial muito marcada pelo "trauma" cultural. Dei por mim a ser um dos mais ferozes "combatentes" do imenso equívoco que foi a liderança do governo por Durão Barroso, primeiro, e por Santana Lopes, depois. Tentei modestamente denunciar a "secagem" cívica e cultural que estes dois percursos complementares representaram. Simultaneamente empenhei-me numa alternativa que acabou por surgir mais cedo e a qual eu apoiei.
2. No espaço e no tempo deste blogue, tornei-me "independente" de partidos - valha isto o que valer - sendo certo que sempre o fui intimamente, aceitando pagar por isso quase sempre uma pesada factura pessoal. Pelo caminho, perdi inevitavelmente "amigos". A propósito, ocorre-me uma frase que muito aprecio tirada do "prefácio" de Truman Capote ao seu livro Música para Camaleões: "quando Deus nos concede um dom, dá-nos também um chicote; e esse chicote destina-se unicamente à autoflagelação".
3. Por recurso a um outro autor meu muito estimado, Philip Roth, decidi mudar a designação deste blogue para Património. As não-sei-quantas centenas de postas que ficam para trás são isso mesmo, um património. Pequeno e irrelevante, mas meu. Isto não significa que eu entenda que o essencial do "Portugal dos Pequeninos" que nós somos venha a mudar significativamente depois do dia de hoje ou que o "respeitinho" do O'Neill desapareça como que por magia. Não, nada disso. Aliás, nem o endereço de acesso ao blogue é alterado e nem a epígrafe do poeta se modifica. Acontece que a posse do novo governo de maioria absoluta é, para mim que o defendi, muito mais um ponto de chegada do que um ponto de partida. Não conheço o que vem aí mas já disse o que tinha a dizer sobre o que ficou para trás.
4. Suportando-me nas palavras de Sartre, este meu "património" representará daqui em diante o mesmo "instante" de sempre, um "instante" que significa o envolvimento recíproco e contraditório do que passou pelo que se segue, naquilo que vamos deixar de ser, sendo já o que seremos.

PATRIMÓNIO

1. Hesitei entre terminar hoje o blogue ou em mudar nele qualquer coisa. Na realidade, esta aventura surgiu do acaso da minha fortuita desocupação "intelectual" quando abandonei as funções que exercia no Teatro Nacional de São Carlos, em 2003. Para evitar a inevitável sensação de privação que o abandono voluntário de um lugar e de pessoas que me eram queridas - por causa de outros lugares e de outras pessoas menores - sempre provoca, dediquei-me a isto. O regresso a funções menos estimulantes também ajudou. A dado passo, o Portugal dos Pequeninos partiu numa direcção inesperada. Os apontamentos quotidianos, muito por força do "exterior", chegaram demasiado depressa à "política", depois de uma fase inicial muito marcada pelo "trauma" cultural. Dei por mim a ser um dos mais ferozes "combatentes" do imenso equívoco que foi a liderança do governo por Durão Barroso, primeiro, e por Santana Lopes, depois. Tentei modestamente denunciar a "secagem" cívica e cultural que estes dois percursos complementares representaram. Simultaneamente empenhei-me numa alternativa que acabou por surgir mais cedo e a qual eu apoiei.
2. No espaço e no tempo deste blogue, tornei-me "independente" de partidos - valha isto o que valer - sendo certo que sempre o fui intimamente, aceitando pagar por isso quase sempre uma pesada factura pessoal. Pelo caminho, perdi inevitavelmente "amigos". A propósito, ocorre-me uma frase que muito aprecio tirada do "prefácio" de Truman Capote ao seu livro Música para Camaleões: "quando Deus nos concede um dom, dá-nos também um chicote; e esse chicote destina-se unicamente à autoflagelação".
3. Por recurso a um outro autor meu muito estimado, Philip Roth, decidi mudar a designação deste blogue para Património. As não-sei-quantas centenas de postas que ficam para trás são isso mesmo, um património. Pequeno e irrelevante, mas meu. Isto não significa que eu entenda que o essencial do "Portugal dos Pequeninos" que nós somos venha a mudar significativamente depois do dia de hoje ou que o "respeitinho" do O'Neill desapareça como que por magia. Não, nada disso. Aliás, nem o endereço de acesso ao blogue é alterado e nem a epígrafe do poeta se modifica. Acontece que a posse do novo governo de maioria absoluta é, para mim que o defendi, muito mais um ponto de chegada do que um ponto de partida. Não conheço o que vem aí mas já disse o que tinha a dizer sobre o que ficou para trás.
4. Suportando-me nas palavras de Sartre, este meu "património" representará daqui em diante o mesmo "instante" de sempre, um "instante" que significa o envolvimento recíproco e contraditório do que passou pelo que se segue, naquilo que vamos deixar de ser, sendo já o que seremos.

O DIA DELE

O DIA DELE

11.3.05

AS "NOVAS FRONTEIRAS"

José Sócrates "materializou" a ideia das "novas fronteiras". Não quer ninguém, salvo os indispensáveis e os próprios, na posse do seu governo. Esta novidade deixa muita gente de cabeça perdida. Como é que os eternos "zés e marias sempre-em-pé" sobrevivem sem o espectáculo deprimente de uma posse pública? Como é que centenas de homens e mulheres "plasticina" da alta, média e ínfima administração pública, desde há muito desprovidos de coluna vertebral à força de tanto ter sido dobrada, conseguem passar sem se "mostrar"? E a rapaziada do "aparelho", que fica sem a hipótese de lançar um mero sorriso malicioso que seja ao "amigo" ministro ou secretário de Estado? Este estilo seco e inovador de José Sócrates vai dar muito que falar. Eu espero que sim e que seja sempre pelas melhores razões.

AS "NOVAS FRONTEIRAS"

José Sócrates "materializou" a ideia das "novas fronteiras". Não quer ninguém, salvo os indispensáveis e os próprios, na posse do seu governo. Esta novidade deixa muita gente de cabeça perdida. Como é que os eternos "zés e marias sempre-em-pé" sobrevivem sem o espectáculo deprimente de uma posse pública? Como é que centenas de homens e mulheres "plasticina" da alta, média e ínfima administração pública, desde há muito desprovidos de coluna vertebral à força de tanto ter sido dobrada, conseguem passar sem se "mostrar"? E a rapaziada do "aparelho", que fica sem a hipótese de lançar um mero sorriso malicioso que seja ao "amigo" ministro ou secretário de Estado? Este estilo seco e inovador de José Sócrates vai dar muito que falar. Eu espero que sim e que seja sempre pelas melhores razões.