31.12.03

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO-uma sociedade com pés de barro

Arderam as casas, a vegetação e os animais perante o olhar impotente de poderes públicos, centrais e autárquicos. A subsistência de muitas famílias mais desamparadas ficou comprometida. Ruiram pontes e abriram buracos gigantescos em sítios onde a natureza foi contrariada pelo betão e pela estupidez humana. As auto-estradas, um suposto paradigma de segurança, matam diariamente e os automobilistas tontos matam-se ingloriamente nelas. Em quase todas as regiões do País foi erguido um estádio de futebol para a vã glória de um evento de três ou quatro semanas, em 2004. Pelo contrário, continuou a degradação do património, com livros raros a apodrecerem, com as bibliotecas desvalidas, com os museus sem recursos, com os teatros moribundos, tudo aparentemente à espera de que chegue à "cultura" o milagreiro modelo da "gestão empresarial societária", tão em voga e tão inteiramente pago pelo mesmo orçamento de Estado. Só uma sociedade culta pode ser verdadeiramente livre, exigente e sofisticada. Porém, por detrás de cada casa incendiada, de cada buraco aberto, de cada ponte caída, de cada auto-estrada assassina, esconde-se uma miséria profunda, a oficial e a dos costumes. O brilho de um sucesso pífio, exibido lá fora para consumo das estatísticas, oculta uma sociedade de pés-de-barro, profundamente indigente e atrasada, onde as "estruturas" e os "equipamentos sociais" falham constantemente, a "massa crítica" não existe e a frivolidade bronca é campeã. A incredulidade geral, a descrença e a falta de confiança não se afogam em champanhe nem com doze passas. Que não subsistam ilusões. O País embotado que vai procurar adormecer entorpecido mais logo, para acordar ilusoriamente numa "vida nova", será o mesmo quando o sol de 2004 abrir. Até amanhã.

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO-uma sociedade com pés de barro

Arderam as casas, a vegetação e os animais perante o olhar impotente de poderes públicos, centrais e autárquicos. A subsistência de muitas famílias mais desamparadas ficou comprometida. Ruiram pontes e abriram buracos gigantescos em sítios onde a natureza foi contrariada pelo betão e pela estupidez humana. As auto-estradas, um suposto paradigma de segurança, matam diariamente e os automobilistas tontos matam-se ingloriamente nelas. Em quase todas as regiões do País foi erguido um estádio de futebol para a vã glória de um evento de três ou quatro semanas, em 2004. Pelo contrário, continuou a degradação do património, com livros raros a apodrecerem, com as bibliotecas desvalidas, com os museus sem recursos, com os teatros moribundos, tudo aparentemente à espera de que chegue à "cultura" o milagreiro modelo da "gestão empresarial societária", tão em voga e tão inteiramente pago pelo mesmo orçamento de Estado. Só uma sociedade culta pode ser verdadeiramente livre, exigente e sofisticada. Porém, por detrás de cada casa incendiada, de cada buraco aberto, de cada ponte caída, de cada auto-estrada assassina, esconde-se uma miséria profunda, a oficial e a dos costumes. O brilho de um sucesso pífio, exibido lá fora para consumo das estatísticas, oculta uma sociedade de pés-de-barro, profundamente indigente e atrasada, onde as "estruturas" e os "equipamentos sociais" falham constantemente, a "massa crítica" não existe e a frivolidade bronca é campeã. A incredulidade geral, a descrença e a falta de confiança não se afogam em champanhe nem com doze passas. Que não subsistam ilusões. O País embotado que vai procurar adormecer entorpecido mais logo, para acordar ilusoriamente numa "vida nova", será o mesmo quando o sol de 2004 abrir. Até amanhã.

30.12.03

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO- o voyeurismo doentio

Este ano fica assinalado pelo bombardeamento constante da opinião pública com notícias, eventos e factos, uns importantes e outros sem importância nenhuma, que encheram as primeiras páginas dos jornais, dos tablóides, das revistas, e com voz privilegiada, os jornais televisivos. A pobreza confrangedora do material noticioso juntou-se à exploração miserável de instintos primários e de analfabetismos seculares, pela especulação maliciosa e especulativa dos objectos analisados. A demagogia e o mau-gosto andaram de mãos dadas com a avidez doentia das audiências. O caso emblemático do ano foi , e é agora com maior intensidade, o processo da Casa Pia. Depois de se ter passado pela fase dos palpites e dos pré-julgamentos sob a forma de comentários, passando pela falta de serenidade de alguns protagonistas reais ou eventuais, com a divulgação da "acusação" entrou-se num momento de extrema promiscuidade no qual já está instalada a competição para ver quem é que consegue desvendar o pormenor mais sórdido. Numa acusação tão "exaustiva", só estranho que não apareça à cabeça o Estado, a quem a guarda das crianças molestadas estava confiada, e que falhou rotundamente anos e anos a fio quanto à salvaguarda dos seus direitos, aspirações e segurança mínima. Mas disto ninguém se lembra porque não "pega" noticiosamente .Este voyeurismo malsão não contribui para a maturidade cívica. A comunicação social portuguesa, forma contemporânea de soberania, salvo raras excepções, não quer distinguir a palha do grão, seja para não molestar "interesses", seja no seu próprio "interesse", ou seja ainda por pura e atrevida ignorância. Entretanto, com um ar pseudo grave, vai ajudando ao aviltamento geral, "lançando lama para a ventoínha".
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO- o voyeurismo doentio

Este ano fica assinalado pelo bombardeamento constante da opinião pública com notícias, eventos e factos, uns importantes e outros sem importância nenhuma, que encheram as primeiras páginas dos jornais, dos tablóides, das revistas, e com voz privilegiada, os jornais televisivos. A pobreza confrangedora do material noticioso juntou-se à exploração miserável de instintos primários e de analfabetismos seculares, pela especulação maliciosa e especulativa dos objectos analisados. A demagogia e o mau-gosto andaram de mãos dadas com a avidez doentia das audiências. O caso emblemático do ano foi , e é agora com maior intensidade, o processo da Casa Pia. Depois de se ter passado pela fase dos palpites e dos pré-julgamentos sob a forma de comentários, passando pela falta de serenidade de alguns protagonistas reais ou eventuais, com a divulgação da "acusação" entrou-se num momento de extrema promiscuidade no qual já está instalada a competição para ver quem é que consegue desvendar o pormenor mais sórdido. Numa acusação tão "exaustiva", só estranho que não apareça à cabeça o Estado, a quem a guarda das crianças molestadas estava confiada, e que falhou rotundamente anos e anos a fio quanto à salvaguarda dos seus direitos, aspirações e segurança mínima. Mas disto ninguém se lembra porque não "pega" noticiosamente .Este voyeurismo malsão não contribui para a maturidade cívica. A comunicação social portuguesa, forma contemporânea de soberania, salvo raras excepções, não quer distinguir a palha do grão, seja para não molestar "interesses", seja no seu próprio "interesse", ou seja ainda por pura e atrevida ignorância. Entretanto, com um ar pseudo grave, vai ajudando ao aviltamento geral, "lançando lama para a ventoínha".
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO- a ascensão do radicalismo populista

Os meus virtuais leitores poderão achar que eu tenho um qualquer tipo de obsessão contra o pequeno partido à direita do PSD e contra o seu lider, o dr. Portas. Não tenho. Aliás, felicitei quase sempre o Paulo Portas pelos seus sucessos políticos e, num acesso espúrio inicial, até me manifestei disponível para colaborar. Tínhamos sido colegas de universidade e de jornais, e eu achava alguma graça à persistência petulante e audaciosa da criatura. Também admirava a sua inteligência rápida e aquilo que eu julgava ser uma forma "outra" de ser conservador em política. No entanto, não foi preciso esperar muito tempo para se perceber que a intuição de Durão Barroso dos idos de 97 a 99, relativamente ao PP, era acertada, e daqui em diante limito-me a ser objectivo. Com a chegada ao poder, o PP resvalou para um radicalismo beato-populista que, numa coligação em que a ideologia não é a característica mais forte do partido maioritário, marca como uma farpa o desempenho "intelectual" desta coligação. Como a generalidade dos protagonistas da dita não se distingue pela sua consistência política ou outra, é relativamente fácil a esse radicalismo beato-populista fazer o seu tranquilo caminho, sem que o dr. Barroso, que é insuspeito na matéria, expire sequer um vago murmúrio. Encerrada a intervenção no "caso Moderna", que o "moderou" perante a liderança da coligação, Portas, assim que pôde, voltou ao seu melhor. Exibe o dr. Félix como uma espécie de campeão reformista na área social e do trabalho, o qual se veio revelando, afinal, um vago "herói" do catolicismo social, ancorado a um novo código de trabalho que ficou "entre as dez e as onze" e que assiste, impotente, ao crescimento do desemprego. Elogia a dra. Cardona, cujo desempenho na Justiça tem merecido a avaliação que se conhece dos respectivos operadores, como se viu no recente Congresso. E colocou uns rapazes, uma menina e uma senhora em secretários de Estado que, de uma forma geral, têm feito ao País o favor de passarem despercebidos. Quanto ao próprio, para além de ser o "timoneiro" ideológico da governação e de ter a seus pés alguns escribas serventuários, o que já é obra, gere a pasta que lhe coube com "chá e simpatia" qb, o que sempre agrada aos militares, pelo menos durante algum tempo, permitindo-se fazer algumas "flores" com as "fatias" que a Praça do Comércio vai dando. Nada de particularmente entusiasmante. Resta ver se, em 2004, esta supremacia ideológica populista se mantém ou se se retrai. O "pensamento" popular acerca da imigração, faz esperar o pior. A prazo, se calhar curto, poderá tornar-se numa "mancha" que contaminará desnecessariamente uma coligação sem nervo e sem chama, onde o partido em que votei, e que foi o mais votado, parece estar a "ver" e a "deixar passar os comboios", conduzidos por uma pequena "locomotiva".

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO- a ascensão do radicalismo populista

Os meus virtuais leitores poderão achar que eu tenho um qualquer tipo de obsessão contra o pequeno partido à direita do PSD e contra o seu lider, o dr. Portas. Não tenho. Aliás, felicitei quase sempre o Paulo Portas pelos seus sucessos políticos e, num acesso espúrio inicial, até me manifestei disponível para colaborar. Tínhamos sido colegas de universidade e de jornais, e eu achava alguma graça à persistência petulante e audaciosa da criatura. Também admirava a sua inteligência rápida e aquilo que eu julgava ser uma forma "outra" de ser conservador em política. No entanto, não foi preciso esperar muito tempo para se perceber que a intuição de Durão Barroso dos idos de 97 a 99, relativamente ao PP, era acertada, e daqui em diante limito-me a ser objectivo. Com a chegada ao poder, o PP resvalou para um radicalismo beato-populista que, numa coligação em que a ideologia não é a característica mais forte do partido maioritário, marca como uma farpa o desempenho "intelectual" desta coligação. Como a generalidade dos protagonistas da dita não se distingue pela sua consistência política ou outra, é relativamente fácil a esse radicalismo beato-populista fazer o seu tranquilo caminho, sem que o dr. Barroso, que é insuspeito na matéria, expire sequer um vago murmúrio. Encerrada a intervenção no "caso Moderna", que o "moderou" perante a liderança da coligação, Portas, assim que pôde, voltou ao seu melhor. Exibe o dr. Félix como uma espécie de campeão reformista na área social e do trabalho, o qual se veio revelando, afinal, um vago "herói" do catolicismo social, ancorado a um novo código de trabalho que ficou "entre as dez e as onze" e que assiste, impotente, ao crescimento do desemprego. Elogia a dra. Cardona, cujo desempenho na Justiça tem merecido a avaliação que se conhece dos respectivos operadores, como se viu no recente Congresso. E colocou uns rapazes, uma menina e uma senhora em secretários de Estado que, de uma forma geral, têm feito ao País o favor de passarem despercebidos. Quanto ao próprio, para além de ser o "timoneiro" ideológico da governação e de ter a seus pés alguns escribas serventuários, o que já é obra, gere a pasta que lhe coube com "chá e simpatia" qb, o que sempre agrada aos militares, pelo menos durante algum tempo, permitindo-se fazer algumas "flores" com as "fatias" que a Praça do Comércio vai dando. Nada de particularmente entusiasmante. Resta ver se, em 2004, esta supremacia ideológica populista se mantém ou se se retrai. O "pensamento" popular acerca da imigração, faz esperar o pior. A prazo, se calhar curto, poderá tornar-se numa "mancha" que contaminará desnecessariamente uma coligação sem nervo e sem chama, onde o partido em que votei, e que foi o mais votado, parece estar a "ver" e a "deixar passar os comboios", conduzidos por uma pequena "locomotiva".

29.12.03

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO

Dou início, por toda esta semana, ao meu "balanço" do ano. Por todas as razões, é um ano para esquecer por completo. Lembro-me de que, há dois anos, após a abrupta despedida de Guterres, nas mensagens de ano novo que enviei, desejei quase invariavel e provocatoriamente um "bom ano laranja". Que grande barrete! Em dois anos apenas, o pior que eu via no "último Guterres" é já praticamente melhor que o "melhor" que vejo no "regime actual". Para simplificar, ou D. Barroso pensa a sério em mudar o governo, ou o País terá que começar, também muito a sério, a pensar em mudar Barroso. Com este "mote" avançamos para algum detalhe subsequente. Por agora, recomendo a leitura do Jumento para um "balanço" de outro género. Ao fim de seis meses de blogue, ainda não me tinha ocorrido que o Dr. Pedro Roseta é, de facto, um verdadeiro ecologista. Vão até ao palheiro e percebam porquê.

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DESENCANTO

Dou início, por toda esta semana, ao meu "balanço" do ano. Por todas as razões, é um ano para esquecer por completo. Lembro-me de que, há dois anos, após a abrupta despedida de Guterres, nas mensagens de ano novo que enviei, desejei quase invariavel e provocatoriamente um "bom ano laranja". Que grande barrete! Em dois anos apenas, o pior que eu via no "último Guterres" é já praticamente melhor que o "melhor" que vejo no "regime actual". Para simplificar, ou D. Barroso pensa a sério em mudar o governo, ou o País terá que começar, também muito a sério, a pensar em mudar Barroso. Com este "mote" avançamos para algum detalhe subsequente. Por agora, recomendo a leitura do Jumento para um "balanço" de outro género. Ao fim de seis meses de blogue, ainda não me tinha ocorrido que o Dr. Pedro Roseta é, de facto, um verdadeiro ecologista. Vão até ao palheiro e percebam porquê.

28.12.03

UM RIO SILENCIOSO

Clint Eastwood, o realizador de Mystic River, baseado no livro homónimo de David Lehane

Depois de meses a fio de bravatas em torno da pedofilia doméstica, parece-me que o grande texto produzido pelo assunto está na revista Única do Expresso de 27 de Dezembro de 2003, e é da autoria de Clara Ferreira Alves. Chama-se Dirty America e, sendo aparentemente sobre um dos grandes filmes do ano e dos últimos anos, Mystic River, de Clint Eastwood, é muito mais sobre o outro e verdadeiro "lado" da pedofilia, o do sofrimento silencioso cuja "consequência atravessa várias gerações e amputa as suas vítimas, decepando-lhes a ingenuidade e a inocência". De acordo com C. Ferreira Alves, este filme, entre outras coisas, tais como podermos assistir a soberbas interpretações, designadamente de Sean Penn, dá-nos "um entendimento maior, inteligente e directo" do crime da pedofilia sobre o qual, ao contrário do que pensam tantas das nossas luminárias de serviço, ainda há muito para aprender. E já agora, contrariamente à tirada infeliz do primeiro ministro no jantar de Natal da Casa Pia, a pedofilia trazida agora aos escaparates e às televisões, jamais será um mal que veio por bem...

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UM RIO SILENCIOSO

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<b>UM RIO SILENCIOSO</b><br /><br /><img src="http://www.film-foundation.org/images/board/eastwood.jpg" border="0"<br /> <b>Clint Eastwood, o realizador de Mystic River, baseado no livro homónimo de David Lehane</b> <br /><br />Depois de meses a fio de bravatas em torno da pedofilia doméstica, parece-me que o grande texto produzido pelo assunto está na revista <i>Única </i>do <b>Expresso</b> de 27 de Dezembro de 2003, e é da autoria de Clara Ferreira Alves. Chama-se <i>Dirty America</i> e, sendo aparentemente sobre um dos grandes filmes do ano e dos últimos anos, <b>Mystic River</b>, de Clint Eastwood, é muito mais sobre o outro e verdadeiro "lado" da pedofilia, o do sofrimento silencioso cuja "consequência atravessa várias gerações e amputa as suas vítimas, decepando-lhes a ingenuidade e a inocência". De acordo com C. Ferreira Alves, este filme, entre outras coisas, tais como podermos assistir a soberbas interpretações, designadamente de Sean Penn, dá-nos "um entendimento maior, inteligente e directo" do crime da pedofilia sobre o qual, ao contrário do que pensam tantas das nossas luminárias de serviço, ainda há muito para aprender. E já agora, contrariamente à tirada infeliz do primeiro ministro no jantar de Natal da Casa Pia, a pedofilia trazida agora aos escaparates e às televisões, jamais será um mal que veio por bem...

27.12.03

LEVANTA-TE E RI

Li nos jornais a "mensagem de Natal" que Durão Barroso nos dirigiu. Talvez por não haver muito mais para oferecer, o primeiro-ministro recorreu ao jargão. Estamos no bom caminho- normalmente estamos sempre no bom caminho, seja qual for o governante -, o rumo traçado é o único possível, sabe-se que há dificuldades, mas há uns sinais- muito ténues, mas "sinais" - de que para o ano isto começa a melhorar e preocupa-o o desemprego, nada que os tais "ténues sinais" não possam vir a atenuar em breve. Depois, fazendo a ligação entre o combate ao desemprego e o "futuro", Durão Barroso lembrou-se dos "jovens" e, numa catalinária meio despropositada, passou a elogiar a "energia" da nossa juventude como exemplo a seguir pela sociedade em geral para que, nem que seja virtualmente, possamos ultrapassar mais depressa o estado depressivo e larvar em que estamos depositados. Com o devido respeito, D. Barroso não podia ter escolhido pior exemplo. Os "jovens" que o atrem estão-se seguramente nas tintas para a coisa pública e os lugares-comuns produzidos não ajudam. Todos os estudos, sociológicos, sondagens e outros, ultimamente publicados, são reveladores dos "interesses" dessa camada social que tanto entusiasma o chefe do Governo. Seja universitária, liceal ou outra, o certo é que a nossa juventude, com algumas honrosas excepções, não se recomenda a ninguém. Espreita-a um futuro razoavelmente negro no qual ela própria não se deverá distinguir. Ao apelar à "juventude" e ao seu "entusiasmo", e no actual "estado da arte", Durão Barroso só lhe pode querer estar a dizer, por entre os escombros e com um amável sorriso: "levanta-te e ri". Não há muito mais a esperar.

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LEVANTA-TE E RI

Li nos jornais a "mensagem de Natal" que Durão Barroso nos dirigiu. Talvez por não haver muito mais para oferecer, o primeiro-ministro recorreu ao jargão. Estamos no bom caminho- normalmente estamos sempre no bom caminho, seja qual for o governante -, o rumo traçado é o único possível, sabe-se que há dificuldades, mas há uns sinais- muito ténues, mas "sinais" - de que para o ano isto começa a melhorar e preocupa-o o desemprego, nada que os tais "ténues sinais" não possam vir a atenuar em breve. Depois, fazendo a ligação entre o combate ao desemprego e o "futuro", Durão Barroso lembrou-se dos "jovens" e, numa catalinária meio despropositada, passou a elogiar a "energia" da nossa juventude como exemplo a seguir pela sociedade em geral para que, nem que seja virtualmente, possamos ultrapassar mais depressa o estado depressivo e larvar em que estamos depositados. Com o devido respeito, D. Barroso não podia ter escolhido pior exemplo. Os "jovens" que o atrem estão-se seguramente nas tintas para a coisa pública e os lugares-comuns produzidos não ajudam. Todos os estudos, sociológicos, sondagens e outros, ultimamente publicados, são reveladores dos "interesses" dessa camada social que tanto entusiasma o chefe do Governo. Seja universitária, liceal ou outra, o certo é que a nossa juventude, com algumas honrosas excepções, não se recomenda a ninguém. Espreita-a um futuro razoavelmente negro no qual ela própria não se deverá distinguir. Ao apelar à "juventude" e ao seu "entusiasmo", e no actual "estado da arte", Durão Barroso só lhe pode querer estar a dizer, por entre os escombros e com um amável sorriso: "levanta-te e ri". Não há muito mais a esperar.

26.12.03

O DOUTOR JIVAGO

Boris Pasternak, o autor de O Doutor Jivago

Nas minhas divagações nocturnas pelos infinitos canais de televisão, a maior parte dos quais sem qualquer interesse, seja qual for o ponto do globo de onde emite, sucedeu-me ir parar a um que apenas passa cinema, sem legendas. Estava em emissão O Doutor Jivago, de David Lean. Lembro-me dos cartazes gigantescos que o anunciavam em reprises sucessivas, nos extintos Monumental e Império. Faziam então furor a música de fundo e o enlace amoroso pouco ortodoxo, protagonizado por Omar Sharif e Julie Christie, o Yuri e a Lara do livro de Boris Pasternak. Contudo, O Doutor Jivago é mais do que isso. É um trágico "fresco" acerca dos equívocos dolorosos sempre gerados nos grandes períodos de transição. Neste caso, entre o fim do período czarista e o triunfo da revolução bolchevique. O livro é muito duro na caracterização da "revolução" e da despersonalização que a acompanhou. Como diz um personagem a dada altura, a Revolução acabou com a ideia de vida pessoal. Pasternak pagou cara a sua ousadia literária no mundo de trevas instalado por Estaline. Quando se apercebeu da natureza desse mundo e esse mundo se deu conta da escrita "introspectiva"e da poesia de Pasternak, dedicou-se à tradução. Só em 1957 vem a escrever O Doutor Jivago que era claramente impublicável na Rússia estalinista. Conseguiu passar o manuscrito para Itália, à sucapa, e só quase 30 anos após a sua morte é que pôde ser editado na então URSS. Em 1958, Pasternak foi forçado pelo regime a renunciar ao Prémio Nobel da Literatura desse ano, que lhe tinha sido atribuído. No seu pathos, O Doutor Jivago permanece como um dos grandes "romances" do século XX, constituindo um olhar profundo, imaginativo e complexo sobre a realidade emergente da Revolução de Outubro, nas suas contradições e na repercussão destas nos seus principais protagonistas.

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O DOUTOR JIVAGO

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<b>O DOUTOR JIVAGO</b><br /><br /><img src="http://www.multied.com/Bio/people/images/pasternack.gif" border="0" <br /> <b> Boris Pasternak, o autor de <i>O Doutor Jivago</i></b><br /><br />Nas minhas divagações nocturnas pelos infinitos canais de televisão, a maior parte dos quais sem qualquer interesse, seja qual for o ponto do globo de onde emite, sucedeu-me ir parar a um que apenas passa cinema, sem legendas. Estava em emissão <i>O Doutor Jivago</i>, de David Lean. Lembro-me dos cartazes gigantescos que o anunciavam em reprises sucessivas, nos extintos Monumental e Império. Faziam então furor a música de fundo e o enlace amoroso pouco ortodoxo, protagonizado por Omar Sharif e Julie Christie, o Yuri e a Lara do livro de Boris Pasternak. Contudo, <i>O Doutor Jivago</i> é mais do que isso. É um trágico "fresco" acerca dos equívocos dolorosos sempre gerados nos grandes períodos de transição. Neste caso, entre o fim do período czarista e o triunfo da revolução bolchevique. O livro é muito duro na caracterização da "revolução" e da despersonalização que a acompanhou. Como diz um personagem a dada altura, a Revolução acabou com a ideia de vida pessoal. Pasternak pagou cara a sua ousadia literária no mundo de trevas instalado por Estaline. Quando se apercebeu da natureza desse mundo e esse mundo se deu conta da escrita "introspectiva"e da poesia de Pasternak, dedicou-se à tradução. Só em 1957 vem a escrever <i>O Doutor Jivago</i> que era claramente impublicável na Rússia estalinista. Conseguiu passar o manuscrito para Itália, à sucapa, e só quase 30 anos após a sua morte é que pôde ser editado na então URSS. Em 1958, Pasternak foi forçado pelo regime a renunciar ao Prémio Nobel da Literatura desse ano, que lhe tinha sido atribuído. No seu <i>pathos</i>, <i>O Doutor Jivago</i> permanece como um dos grandes "romances" do século XX, constituindo um olhar profundo, imaginativo e complexo sobre a realidade emergente da Revolução de Outubro, nas suas contradições e na repercussão destas nos seus principais protagonistas.

24.12.03

UM OUTRO NATAL...

...com DAVID MOURÃO-FERREIRA

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


...com ALBERTO CAEIRO

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.


....COM MÁRIO CESARINY

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora


....com AL BERTO

dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu


....com ALEXANDRE O'NEILL

Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.

Pão é claro que temos
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»

não figura nesta prosa
assim do pé para a mão,
pois o saco utilizado,
que pode ser o do pão,

recebe modestamente
a corriqueira fracção
desse alimento que é
tão distribuído, tão

a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não,

que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde,
sem maior desilusão:

- Para dizer a verdade,
eu também não...
Mas estava confiante
na sua imaginação

(ou na minha...) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção

de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»,
por todos os meios, desde
a fingida distracção,

até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão...

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UM OUTRO NATAL...

...com DAVID MOURÃO-FERREIRA
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<b>UM OUTRO NATAL...</b><br /><br />...com <i>DAVID MOURÃO-FERREIRA</i><br /><img src="http://www.instituto-camoes.pt/cvc/oceanoculturas/foto7.jpg" border="0" <br /><br /><b>É o braço do abeto a bater na vidraça?<br />E o ponteiro pequeno a caminho da meta!<br />Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,<br />A trazer-me da água a infância ressurrecta.<br /><br />Da casa onde nasci via-se perto o rio.<br />Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!<br />E o Menino nascia a bordo de um navio<br />Que ficava, no cais, à noite iluminado...<br /><br />Ó noite de Natal, que travo a maresia!<br />Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.<br />E quanto mais na terra a terra me envolvia<br />E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.<br /><br />Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me<br />À beira desse cais onde Jesus nascia...<br />Serei dos que afinal, errando em terra firme,<br />Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?</b><br /><br />...com <i>ALBERTO CAEIRO</i><br /><img src="http://www.culturabrasil.pro.br/imagens/pessoa.jpg" border="0" <br /><br /><b>Meto-me para dentro, e fecho a janela. <br />Trazem o candeeiro e dão as boas noites, <br />E a minha voz contente dá as boas noites. <br />Oxalá a minha vida seja sempre isto: <br />O dia cheio de sol, ou suave de chuva, <br />Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo, <br />A tarde suave e os ranchos que passam <br />Fitados com interesse da janela, <br />O último olhar amigo dado ao sossego das árvores, <br />E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso, <br />Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir, <br />Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito. <br />E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.</b><br /><br />....COM <i>MÁRIO CESARINY</i><br /><img src="http://www.instituto-camoes.pt/cvc/poemasemana/06/cesariny.jpg" border="0" <br /><br /><b>É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia <br />é preciso dizer azul em vez de dizer pantera <br />é preciso dizer febre em vez de dizer inocência <br />é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem <br /><br />É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano <br />é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora <br />é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano <br />é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora </b><br /><br />....com <i>AL BERTO</i><br /><img src="http://www.elfenbein-verlag.de/bilder/alberto1.jpg" border="0" <br /><br /><b>dizem que em sua boca se realiza a flor<br />outros afirmam:<br />a sua invisibilidade é aparente<br />mas nunca toquei deus nesta escama de peixe<br />onde podemos compreender todos os oceanos<br />nunca tive a visão de sua bondosa mão<br />o certo <br />é que por vezes morremos magros até ao osso<br />sem amparo e sem deus<br />apenas um rosto muito belo surge etéreo<br />na vasta insónia que nos isolou do mundo<br />e sorri<br />dizendo que nos amou algumas vezes<br />mas não é o rosto de deus<br />nem o teu nem aquele outro<br />que durante anos permaneceu ausente<br />e o tempo revelou não ser o meu</b><br /><br />....com <i>ALEXANDRE O'NEILL</i><br /><img src="http://omni.isr.ist.utl.pt/~cfb/gif-store/oneil_1.jpg" border="0" <br /><br /><b>Estamos todos bem servidos<br />de solidão.<br />De manhã a recolhemos<br />do saco, em lugar de pão.<br /><br />Pão é claro que temos <br />(não sou exageradão)<br />mas esta imagem do saco<br />contendo um pequeno «não»<br /><br />não figura nesta prosa<br />assim do pé para a mão,<br />pois o saco utilizado,<br />que pode ser o do pão, <br /><br />recebe modestamente<br />a corriqueira fracção <br />desse alimento que é<br />tão distribuído, tão<br /><br />a domicílio como<br />o leite ou o pão.<br />Mas esse leitor aí<br />(bem real!) já diz que não,<br /><br />que nunca viu no tal saco<br />o tal «não».<br />Ao que o poeta responde,<br />sem maior desilusão:<br /><br />- Para dizer a verdade,<br />eu também não...<br />Mas estava confiante<br />na sua imaginação<br /><br />(ou na minha...) e que sentia<br />como eu a solidão<br />e quanto ela é objecto<br />da carinhosa atenção<br /><br />de quem hoje nos fornece<br />o quotidiano «não»,<br />por todos os meios, desde<br />a fingida distracção,<br /><br />até ao entre-parêntesis<br />de qualquer reclusão...</b><br />

23.12.03

DOIS LIVROS
De J.M. Coetzee, por acaso Prémio Nobel,
e, na realidade, um grande escritor contemporâneo que
detesta a mundanidade tagarela
: Youth
De Martin Amis, a sua (prematura) autobiografia, uma escrita original, com alguma ironia e com figuras conhecidas pelo meio: Experience (há uma tradução na Teorema)

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DOIS LIVROS
De J.M. Coetzee, por acaso Prémio Nobel,
e, na realidade, um grande escritor contemporâneo que
detesta a mundanidade tagarela
: Youth
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<b>DOIS LIVROS</b><br /><i>De J.M. Coetzee, por acaso Prémio Nobel, <br />e, na realidade, um grande escritor contemporâneo que<br />detesta a mundanidade tagarela</i>: <b>Youth</b><br /><img src="http://www.hr-online.de/fs/buecherbuecher/img/coet.jpg" border="0" <br /> <img src="http://www.tornio.fi/kirjasto/tuu/dekkarit/kirjailijat/kuvat/kirjat/amis2.jpg" border="0" <br /> <i>De Martin Amis, a sua (prematura) autobiografia, uma escrita original, com alguma ironia e com figuras conhecidas pelo meio:</i> <b>Experience</b> (há uma tradução na <i>Teorema</i>)

22.12.03

A CULTURA DOS PEQUENITOS


Pelo rádio do carro, percebi que terminava a "Coimbra Capital da Cultura 2003". Vieram às ondas radiofónicas várias "personalidades" ligadas ao evento fazer o costumado balanço. O Sr. Presidente da Câmara exultava, de um lado, o comissário da dita Capital da Cultura exultava menos, por outro lado. Lamentava este fundamentalmente a gestão financeira da coisa, presume-se que por parte do Ministério de Pedro Roseta, que também falou. Do que me foi chegando desta Coimbra 2003, parece-me que o evento ficou dentro dos padrões da "mediania baixa" em vigor para o sector, sem se que saiba se e quando se vai seguir a "nova capital". Talvez por isso se tenha optado por levar a efeito a performance de encerramento no "Portugal dos Pequenitos" ,de Bissaia Barreto. De alguma maneira, ficou tudo em família. A benefício de inventário simples, este ano encerra-se, no sector da cultura, sob o signo do "muito pequenito". Um orçamento "pequenito", uma gestão caseirota e merceeira "pequenita" e uma visão global da coisa tão "pequenita", tão "pequenita" que nem completamente agachados conseguimos "entrar" nela. Para quem ainda se lembra, na Lisboa 94, o responsável pela "promoção" era o agora adjunto ministro, o Dr. Arnaut, que o Dr: Barroso quer que "ajude" a "promover" o Governo. De facto, este sector - a cultura-, como tantos outros, precisa decididamente de "crescer", sem fanfarronices nem temores "anti-intelectuais". Quando escrevemos "cultura", pensamos em qualquer coisa que tem a ver com a qualidade de vida de todos e de cada um de nós, e com a maioridade cívica da comunidade. Com a mentalidade "pequenita" e saloia não vamos rigorosamente a lado nenhum, podem ficar descansados. Uma "leitora identificada", como se diz na gíria, enviou-me um mail do qual retiro o seguinte excerto: concordo quase sempre com as suas opiniões, e lembro-me neste momento daquele em que referiu as diferenças entre as qualidades de Sá Carneiro e as de alguns de hoje!!..... Que distância.... E lembro-me também daquele em que refere Magalhães Godinho.... Sabe que, nesse dia, fui à Livraria Sá da Costa e disse à senhora que me atendeu que queria comprar os Ensaios de Magalhães Godinho. A senhora olhou para mim e perguntou: Quem é esse senhor? É português??
Perceberão, alguma vez, os responsáveis por esta "cultura de pequenitos", de que falamos quando falamos de cultura?

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A CULTURA DOS PEQUENITOS

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<b>A CULTURA DOS PEQUENITOS</b><br /><br /><img src="http://www.hotel-dona-ines.pt/Coimbra/porta.jpg" border="0"<br /><br /><div align="justify">Pelo rádio do carro, percebi que terminava a "Coimbra Capital da Cultura 2003". Vieram às ondas radiofónicas várias "personalidades" ligadas ao evento fazer o costumado balanço. O Sr. Presidente da Câmara exultava, de um lado, o comissário da dita Capital da Cultura exultava menos, por outro lado. Lamentava este fundamentalmente a gestão financeira da coisa, presume-se que por parte do Ministério de Pedro Roseta, que também falou. Do que me foi chegando desta Coimbra 2003, parece-me que o evento ficou dentro dos padrões da "mediania baixa" em vigor para o sector, sem se que saiba se e quando se vai seguir a "nova capital". Talvez por isso se tenha optado por levar a efeito a <i>performance </i>de encerramento no "Portugal dos Pequenitos" ,de Bissaia Barreto. De alguma maneira, ficou tudo em família. A benefício de inventário simples, este ano encerra-se, no sector da cultura, sob o signo do "muito pequenito". Um orçamento "pequenito", uma gestão caseirota e merceeira "pequenita" e uma visão global da coisa tão "pequenita", tão "pequenita" que nem completamente agachados conseguimos "entrar" nela. Para quem ainda se lembra, na Lisboa 94, o responsável pela "promoção" era o agora adjunto ministro, o Dr. Arnaut, que o Dr: Barroso quer que "ajude" a "promover" o Governo. De facto, este sector - a cultura-, como tantos outros, precisa decididamente de "crescer", sem fanfarronices nem temores "anti-intelectuais". Quando escrevemos "cultura", pensamos em qualquer coisa que tem a ver com a qualidade de vida de todos e de cada um de nós, e com a maioridade cívica da comunidade. Com a mentalidade "pequenita" e saloia não vamos rigorosamente a lado nenhum, podem ficar descansados. Uma "leitora identificada", como se diz na gíria, enviou-me um <i>mail</i> do qual retiro o seguinte excerto: <i>concordo quase sempre com as suas opiniões, e lembro-me neste momento daquele em que referiu as diferenças entre as qualidades de Sá Carneiro e as de alguns de hoje!!..... Que distância.... E lembro-me também daquele em que refere Magalhães Godinho.... Sabe que, nesse dia, fui à Livraria Sá da Costa e disse à senhora que me atendeu que queria comprar os Ensaios de Magalhães Godinho. A senhora olhou para mim e perguntou: Quem é esse senhor? É português?? <br /></i> Perceberão, alguma vez, os responsáveis por esta "cultura de pequenitos", de que falamos quando falamos de cultura?

A PROPÓSITO DO NATAL...

Paul Bowles: "Infelizmente as pessoas só se interessam pelas novidades. A ideia da beleza tornou-se talvez arcaica".

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A PROPÓSITO DO NATAL...

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<br /><b>A PROPÓSITO DO NATAL...</b><br /><br /><img src="http://www.filmforum.com/images/bowles.jpg" border="0"<br /><b> Paul Bowles: "Infelizmente as pessoas só se interessam pelas novidades. A ideia da beleza tornou-se talvez arcaica".</b>

20.12.03

MILD UND LEISE...
Birgit Nilsson, seguramente a "grande" Isolde do século XX, e o texto do "Liebestod" ...

Mild und leise
wie er lächelt
wie das Auge
hold er öffnet ---
seht ihr's Freunde?
Seht ihr's nicht?
Immer lichter
wie er leuchtet,
stern-umstrahlet
hoch sich hebt?
Seht ihr's nicht?
Wie das Herz ihm
mutig schwillt,
voll und hehr
im Busen ihm quillt?
Wie den Lippen,
wonnig mild,
süßer Atem
sanft entweht ---
Freunde! Seht!
Fühlt und seht ihr's nicht?
Hör ich nur
diese Weise,
die so wunder-
voll und leise,
Wonne klagend,
alles sagend,
mild versöhnend
aus ihm tönend,
in mich dringet,
auf sich schwinget,
hold erhallend
um mich klinget?
Heller schallend,
mich umwallend,
sind es Wellen
sanfter Lüfte?
Sind es Wogen
wonniger Düfte?
Wie sie schwellen,
mich umrauschen,
soll ich atmen,
soll ich lauschen?
Soll ich schlürfen,
untertauchen?
Süß in Düften
mich verhauchen?
In dem wogenden Schwall,
in dem tönenden Schall,
in des Welt-Atems
wehendem All ---
ertrinken,
versinken ---
unbewußt ---
höchste Lust!

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MILD UND LEISE...
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<b>MILD UND LEISE...</b><br /> <img src="http://www.cs.princeton.edu/~san/nilsson.jpg" border="0"<br /><b>Birgit Nilsson, seguramente a "grande" Isolde do século XX, e o texto do "Liebestod" ... </b><br /><br /><i>Mild und leise<br />wie er lächelt<br /> wie das Auge <br /> hold er öffnet --- <br /> seht ihr's Freunde? <br /> Seht ihr's nicht? <br /> Immer lichter <br /> wie er leuchtet, <br /> stern-umstrahlet <br /> hoch sich hebt? <br /> Seht ihr's nicht? <br /> Wie das Herz ihm <br /> mutig schwillt, <br /> voll und hehr <br /> im Busen ihm quillt? <br /> Wie den Lippen, <br /> wonnig mild, <br /> süßer Atem <br /> sanft entweht --- <br /> Freunde! Seht! <br /> Fühlt und seht ihr's nicht? <br /> Hör ich nur <br /> diese Weise, <br /> die so wunder- <br /> voll und leise, <br /> Wonne klagend, <br /> alles sagend, <br /> mild versöhnend <br /> aus ihm tönend, <br /> in mich dringet, <br /> auf sich schwinget, <br /> hold erhallend <br /> um mich klinget? <br /> Heller schallend, <br /> mich umwallend, <br /> sind es Wellen <br /> sanfter Lüfte? <br /> Sind es Wogen <br /> wonniger Düfte? <br /> Wie sie schwellen, <br /> mich umrauschen, <br /> soll ich atmen, <br /> soll ich lauschen? <br /> Soll ich schlürfen, <br /> untertauchen? <br /> Süß in Düften <br /> mich verhauchen? <br /> In dem wogenden Schwall, <br /> in dem tönenden Schall, <br /> in des Welt-Atems <br /> wehendem All --- <br /> ertrinken, <br /> versinken --- <br /> unbewußt --- <br /> höchste Lust! <br /></i>

19.12.03

UM CASAMENTO E VÁRIOS FUNERAIS

José Eduardo dos Santos, o eterno presidente de Angola, casa uma filha. Tal evento não teria importância nenhuma se não tivesse foros de acontecimento político e social que acaba por nos tocar. Acontece que o referido presidente convidou o Dr. Durão Barroso de quem, pelos vistos, é amigo e este aceitou. Angola é seguramente um dos casos de maior vergonha da era pós-colonial. Milhares de autócnes mortos, ora pela guerra, ora pela fome, milhares de crianças amputadas pelas minas escondidas, contrastam, a escuro, com o fausto de que normalmente a nomenclatura de dos Santos se faz acompanhar e que não deixará de estar presente no tal casamento. É neste contexto paradoxal, e que Barroso tão bem conhece, que se desloca à Angola top line, um país-outro, distante da miséria que se vive na maioria das casas e na rua. Entre outros convidados, segue uma amiga da filha de Eduardo dos Santos, a cintilante Cinha Jardim, o que propiciará capas e capas de revistas para ler nos cabeleireiros de Lisboa. É coisa que também não tem relevância nenhuma, mas a que esta crónica deu alguma importância. Vale a pena lê-la e colocá-la no portfolio do mais inevitável "candidato a candidato" a presidente da República. Ajuda a definir os contornos mais marcantes do seu "perfil" e, para quem estiver para aí virado, avaliar dos "atributos" que possui para almejar a chefia do Estado. Sim, porque é disso que falamos quando dele falamos, convém nunca esquecer. Finalmente, no último debate do ano no Parlamento, com a presença do convidado de Eduardo dos Santos e nosso Primeiro Ministro, falou-se da Europa e do aborto. No meio de alguns lugares-comuns e de muita hipocrisia verbal e política, registei o tom alarve com que o Sr. Telmo Correia, lider parlamentar do pequeno PP, se referiu a Mário Soares, o que chegou a merecer um reparo de Mota Amaral. É desta rapaziada vulgar, sem biografia e que se julga patroa disto tudo, que é feita a maioria que tanto alegra D. Barroso, um convidado muito especial de um casamento, e não só.

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UM CASAMENTO E VÁRIOS FUNERAIS

José Eduardo dos Santos, o eterno presidente de Angola, casa uma filha. Tal evento não teria importância nenhuma se não tivesse foros de acontecimento político e social que acaba por nos tocar. Acontece que o referido presidente convidou o Dr. Durão Barroso de quem, pelos vistos, é amigo e este aceitou. Angola é seguramente um dos casos de maior vergonha da era pós-colonial. Milhares de autócnes mortos, ora pela guerra, ora pela fome, milhares de crianças amputadas pelas minas escondidas, contrastam, a escuro, com o fausto de que normalmente a nomenclatura de dos Santos se faz acompanhar e que não deixará de estar presente no tal casamento. É neste contexto paradoxal, e que Barroso tão bem conhece, que se desloca à Angola top line, um país-outro, distante da miséria que se vive na maioria das casas e na rua. Entre outros convidados, segue uma amiga da filha de Eduardo dos Santos, a cintilante Cinha Jardim, o que propiciará capas e capas de revistas para ler nos cabeleireiros de Lisboa. É coisa que também não tem relevância nenhuma, mas a que esta crónica deu alguma importância. Vale a pena lê-la e colocá-la no portfolio do mais inevitável "candidato a candidato" a presidente da República. Ajuda a definir os contornos mais marcantes do seu "perfil" e, para quem estiver para aí virado, avaliar dos "atributos" que possui para almejar a chefia do Estado. Sim, porque é disso que falamos quando dele falamos, convém nunca esquecer. Finalmente, no último debate do ano no Parlamento, com a presença do convidado de Eduardo dos Santos e nosso Primeiro Ministro, falou-se da Europa e do aborto. No meio de alguns lugares-comuns e de muita hipocrisia verbal e política, registei o tom alarve com que o Sr. Telmo Correia, lider parlamentar do pequeno PP, se referiu a Mário Soares, o que chegou a merecer um reparo de Mota Amaral. É desta rapaziada vulgar, sem biografia e que se julga patroa disto tudo, que é feita a maioria que tanto alegra D. Barroso, um convidado muito especial de um casamento, e não só.

18.12.03

ANTES ASNO QUE ME LEVE QUE CAVALO QUE ME DERRUBE....

....é a minha descoberta da semana e está aqui como prova de que o animal não é tão "burro" como se julga.

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ANTES ASNO QUE ME LEVE QUE CAVALO QUE ME DERRUBE....

....é a minha descoberta da semana e está aqui como prova de que o animal não é tão "burro" como se julga.

17.12.03

O LADO NEGRO DA FORÇA



Eu (ainda) sou militante do PSD. Quando me juntei à seita, em 1983, fi-lo por acreditar que se tratava do partido que, sem desdenhar o património da social-democracia ou do socialismo democrático europeu, mais se adaptava a esta coisa complexa que consiste em ser português e viver em Portugal. Por outro lado, era a única força política susceptível de "alternar", no Governo, com o PS, pese a circunstância de, nessa altura, estar aliado com ele. Mandava nele, e pouco, o saudoso Prof. Mota Pinto que era manifestamente um homem bom. Seguiu-se a "era de ouro" com Cavaco que, passados dez anos, se fartou, particularmente quando percebeu o que se tinha instalado por aí às expensas do seu nome e da sua maioria. Houve o "interregno socialista", e há quase dois anos, o PSD, partido fisiologicamente de poder, como dizia o Victor Cunha Rego, voltou para lá. Em vez de ir sozinho, decidiu somar votos no Parlamento com o pequeno Partido Popular, que agraciou com uns cargos no Executivo e no aparelho do Estado. Como bem tem vindo a recordar o Dr. Ferro Rodrigues, penso que a maior parte das pessoas que votaram no PSD, não o fizeram para ter o Dr. Portas como Ministro de Estado e da Defesa ou a Dra. Cardona como Ministra da Justiça. E muito menos para ter uns imberbes acéfalos nas sinecuras disponíveis. De vez em quando o Dr. Barroso tem de pagar umas facturas que os garbosos rapazes do PP lhe apresentam. É o preço do "transporte às cavalitas" do "pequeno partido à nossa direita", nas palavras generosas do mesmo Dr. Barroso. O que se passou nestes dias com a questão da interrupção voluntária da gravidez, é um belo exemplo do que quero afirmar e contestar: a lamentável dependência da maior riqueza do PSD, a liberdade de consciência dos seus militantes, das posições do tal pequeno partido à sua direita. Bastou uma leve ameaça do guru do Dr. Portas para que, com ar constrangido e envergonhado, o Dr. Guilherme Silva viesse imediatamente "dar a mão à palmatória", sob o olhar conformado de Leonor Beleza. Durão Barroso confia nesta coligação como uma "força". E parece ter medo de que esta lhe falte, ao consentir em coisas deste género. Significa que quem manda é o "lado negro da força", uma história já vista e que não vai acabar bem.

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O LADO NEGRO DA FORÇA

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<b>O LADO NEGRO DA FORÇA</b><br /><br /><img src="http://www.joelneto.com/conversas_sonho/portas.jpg" border="0"<br /><br /><br />Eu (ainda) sou militante do PSD. Quando me juntei à seita, em 1983, fi-lo por acreditar que se tratava do partido que, sem desdenhar o património da social-democracia ou do socialismo democrático europeu, mais se adaptava a esta coisa complexa que consiste em ser português e viver em Portugal. Por outro lado, era a única força política susceptível de "alternar", no Governo, com o PS, pese a circunstância de, nessa altura, estar aliado com ele. Mandava nele, e pouco, o saudoso Prof. Mota Pinto que era manifestamente um homem bom. Seguiu-se a "era de ouro" com Cavaco que, passados dez anos, se fartou, particularmente quando percebeu o que se tinha instalado por aí às expensas do seu nome e da sua maioria. Houve o "interregno socialista", e há quase dois anos, o PSD, partido fisiologicamente de poder, como dizia o Victor Cunha Rego, voltou para lá. Em vez de ir sozinho, decidiu somar votos no Parlamento com o pequeno Partido Popular, que agraciou com uns cargos no Executivo e no aparelho do Estado. Como bem tem vindo a recordar o Dr. Ferro Rodrigues, penso que a maior parte das pessoas que votaram no PSD, não o fizeram para ter o Dr. Portas como Ministro de Estado e da Defesa ou a Dra. Cardona como Ministra da Justiça. E muito menos para ter uns imberbes acéfalos nas sinecuras disponíveis. De vez em quando o Dr. Barroso tem de pagar umas facturas que os garbosos rapazes do PP lhe apresentam. É o preço do "transporte às cavalitas" do "pequeno partido à nossa direita", nas palavras generosas do mesmo Dr. Barroso. O que se passou nestes dias com a questão da interrupção voluntária da gravidez, é um belo exemplo do que quero afirmar e contestar: a lamentável dependência da maior riqueza do PSD, a liberdade de consciência dos seus militantes, das posições do tal pequeno partido à sua direita. Bastou uma leve ameaça do guru do Dr. Portas para que, com ar constrangido e envergonhado, o Dr. Guilherme Silva viesse imediatamente "dar a mão à palmatória", sob o olhar conformado de Leonor Beleza. Durão Barroso confia nesta coligação como uma "força". E parece ter medo de que esta lhe falte, ao consentir em coisas deste género. Significa que quem manda é o "lado negro da força", uma história já vista e que não vai acabar bem.

15.12.03

VITORINO MAGALHÃES GODINHO OU A GRANDEZA DA HISTÓRIA

Sem nunca me ter cruzado com ele, eu sinto que devo muita da minha formação ao Professor Vitorino Magalhães Godinho. Felizmente pertenço a uma geração que ainda usufruiu do privilégio de ter aprendido, na primária e no liceu, com "grandes educadores". Através das aulas desses homens e dessas mulheres, verdadeiramente vocacionados para "ensinar" e que não se resignavam ao ofício como mera alternativa em mercado de emprego escasso, chegávamos a outros "educadores", cujos textos nos eram recomendados. Foi assim que descobri as "entradas", no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, de criaturas tão complexas e fascinantes como António José Saraiva, Jorge Borges de Macedo ( que veio a ser meu professor na Universidade) ou Vitorino Magalhães Godinho. Os seus livros de Ensaios ( Ed. Sá da Costa) e um pequeno e tão actual texto, reeditado depois do 25 de Abril pela Arcádia, A Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa, continuam a constituir, para mim, referências insubstituíveis. Foi, pois, com alegria que "reencontrei" Magalhães Godinho, em forma, nos seus 85 anos, na notícia de uma homenagem em Paris. Os tempos de "fabricação" de homens destes, acabaram. Aliás, é bem provável que o seu nome nada diga às hodiernas gerações universitárias, quase todas analfabetas funcionais e sem memória. Na entrevista que deu ao Carlos Câmara Leme, no Público, Magalhães Godinho diz esta coisa notável: "acho que caímos num caixote do lixo muito triste. No século XX, havia uma outra grandeza. Repare: a informática e outros meios de informação, como o telemóvel, acabaram por cortar as relações humanas entre as pessoas. O homem da era da comunicação quanto mais comunica mais isolado está". Contrariamente a tanto palonço ignorante que para aí há a falar do "futuro", sabe bem meditar na palavra dos historiadores, essa espécie silenciosa e nobre que procura "perceber". Se fossem mais lidos e escutados, talvez alguns dos desastres do nosso tempo pudessem ter sido evitados. Segue a entrevista.

"Hoje Não Existe Democracia"

Por Carlos Câmara Leme

Aos 85 anos, Vitorino Magalhães Godinho é um homem céptico. Triste com o que vê à sua volta, não encontra uma réstea de esperança na humanidade. O historiador, entrevistado em Paris - onde na semana passada decorreu o colóquio internacional "O Portugal e o Mundo. Leituras da Obra de Vitorino Magalhães Godinho"-, pensa que a humanidade perdeu a grandeza do século XX. À luz das teses de Guy Debord sobre a sociedade do espectáculo, Magalhães Godinho - cujo próximo livro, a editar nos primeiros meses de 2004, terá como título "Portugal, a Emergência de uma Nação" - pensa que, na Europa, "há uma super-estrutura que não influi, no fundo, a sociedade. Não a regula, nem a orienta". Mais, os políticos, chefes de Estado e primeiros-ministros não "representam nada". E Portugal? Em certos casos, não estamos melhor do que antes do 25 de Abril, e hoje, diz, "não existe democracia."

PÚBLICO - Nas intervenções que fez durante o colóquio, reivindicou o seu estatuto de intelectual do século XX. Pensa mesmo que temos de recuperar grandes noções do século passado, já que, como afirmou, o século XXI é mórbido e tem o fascínio da morte? O século XX criou e fomentou algumas das maiores barbáries - duas guerras mundiais, o nazismo, o estalinismo - da história da humanidade.

Vitorino Magalhães Godinho - Há duas ou mais faces do século XX. No meio desses horrores que mencionou, que realmente fizeram milhões de mortos, encontra-se ainda um espírito de cavalaria que não se encontra hoje. Nos nossos dias, a morte é cirúrgica e é feita pelos estados com os bombardeamentos cirúrgicos. Mas, na própria sociedade, a actividade dos grupos terroristas - que não é uma luta de carácter político, como foi no princípio do século XX, com os anarco-sindicalistas - não tem finalidade, a não ser demolir, matar, estropiar. Arriscamo-nos, em breve, a ter mais mortos com a sida do que houve nessas guerras. Nessas guerras estavam em jogo interesses, sem dúvida. Mas, apesar de tudo, havia a consciência de ideais por que se lutava. Muitos desses homens do século XX lutavam por uma democracia e por uma humanidade nova. Havia um grande de espírito de luta por um ideal...

Um nazi também tinha um ideal. E conhecemos os resultados: a exterminação do povo judeu.

Sem dúvida. Sempre que se fala de um ideal, há sempre uma certa ambiguidade. Quando me refiro a um ideal, estou a falar de um conjunto de valores de raiz humanista, que se iniciou no século XIX - basta pensarmos no que representa, ainda hoje, essa obra extraordinária que é "Os Miseráveis", de Victor Hugo.

São os ideias humanistas dos século XIX que reivindica para o século que acabou de nascer?

Não, porque houve uma mutação brusca da sociedade, com a revolução informática, com as novas tecnologias, com a dispensa de trabalho de massas. Hoje, o capitalismo, ou melhor, aqueles que detêm o poder económico, não necessitam de operariado; podem dispensá-lo. O operariado continua a fazer as lutas que faziam sentido no século XX. O sindicalismo, hoje, é um anacronismo.

Como historiador, imaginou alguma vez essa mutação tão rápida e tão complexa da sociedade contemporânea?

Não. Todos fomos apanhados de surpresa.

Qual foi o acontecimento, ou a rede de acontecimentos, que permitiu essa alteração? Eric Hobsman fala, em "A Era dos Extremos", da queda do Muro de Berlim.

O ruir do Império Soviético foi também a ruína do Ocidente, que permitiu a formação de um novo império - o império americano -, sem controlo e em moldes ultrapassados: continua a ser proibido estudar Darwin nas escolas, há perseguições às clínicas que praticam o aborto, há ataques à mão armada... Há meios de matar - a partir da transformação introduzida pela informática - que estão ao alcance de qualquer pessoa. Foi tudo tão rápido, deu-se um vazio e uma incapacidade de organização para resistir, para orientar essa mutação para outros sentidos. Perderam-se as balizas. A humanidade perdeu o controlo. Inclusive, as estruturas económicas mudaram por completo. O capitalismo ruiu, como ruiu o estalinismo. Não há mais capitalismo. O que há é uma organização de redes mafiosas que controlam o mundo.

Acredita mesmo que o mundo, à escala planetária, é controlado por uma rede de mafias?

Não estou a falar de mafia no sentido pejorativo. Nenhuma sociedade é uniforme. Mesmo a sociedade capitalista não tinha só empresas capitalistas - havia o artesanto, o campesinato. Agora, a população camponesa desapareceu. Em vários países, a agricultura desapareceu, ou está em vias de desaparecer.

Como é que vê a construção europeia? Não acha que, apesar de tudo, o acto de 25 chefes de Estado e primeiros-ministros europeus terem-se reunido este fim-de-semana em Bruxelas é um sinal de vitalidade da Europa?

Não, de maneira nenhuma. É uma prova de que, em relação a uma sociedade descontrolada e ameaçada quer pela doença quer pela possibilidade de violência gratuita, há uma super-estrutura que não influi, no fundo, na sociedade. Não a regula nem a orienta. É uma super-estrutura que se legitima por uma pseudo-ressurreição de uma pseudo-ideologia do século XIX, o liberalismo. Mas que não tem nada que ver com o liberalismo, que representa uma peça de teatro. Estamos na pura sociedade de espectáculo, formulada por Guy Debord, justamente na obra "A Sociedade de Espectáculo".

Não o via assim tanto de acordo com as teses de Guy Debord.

Logo que o livro saiu, li-o, e tinha encontrado um paralelo no século XVII, onde era muito frequente falar da sociedade e do mundo como um teatro. Como vê, não fiquei surpreendido com o livro de Guy Debord. Ele veio ao encontro dos caminhos que estavam suspeitados. Porque, na verdade, os chefes de Estado não representam nada...

Nada? Mas eles são eleitos democraticamente.

O que não quer dizer nada, porque, hoje, as eleições não são nada. Não há diferenças partidárias. Há lutas mesquinhas, os partidos estão completamente desfasados da realidade. Veja-se a França...

... e em Portugal, também pensa assim?

A minha opinião é a de que, hoje, não existe democracia. O grande erro é partir-se do princípio que se construiu uma democracia, quando não se chegou a construir uma democracia...

Mas os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos estão garantidos, não estão?

Nada está garantido? Não estamos melhor do que antes do 25 de Abril?
Em certos casos, menos!


Portugal não tem presos políticos.

Não sei, não sei... Há países onde não é necessário ter as pessoas presas para as ter na mão. Veja o que se passa em Guantanamo.

Qual será, na sua opinião, o papel da História no século XXI?

A história será o instrumento fundamental para uma tomada de consciência capaz de reflectir sobre a realidade e de detectar os verdadeiros problemas que se põem aos homens. E é isso que não acontece.

Não vê, portanto, uma ponta de esperança em lado nenhum?

Por enquanto, não. Acho que caímos num caixote do lixo muito triste. No século XX, havia uma outra grandeza. Repare: a informática e outros meios de informação, como o telemóvel, acabaram por cortar as relações humanas entre as pessoas. O homem da era da comunicação quanto mais comunica mais isolado está

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VITORINO MAGALHÃES GODINHO OU A GRANDEZA DA HISTÓRIA

Sem nunca me ter cruzado com ele, eu sinto que devo muita da minha formação ao Professor Vitorino Magalhães Godinho. Felizmente pertenço a uma geração que ainda usufruiu do privilégio de ter aprendido, na primária e no liceu, com "grandes educadores". Através das aulas desses homens e dessas mulheres, verdadeiramente vocacionados para "ensinar" e que não se resignavam ao ofício como mera alternativa em mercado de emprego escasso, chegávamos a outros "educadores", cujos textos nos eram recomendados. Foi assim que descobri as "entradas", no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, de criaturas tão complexas e fascinantes como António José Saraiva, Jorge Borges de Macedo ( que veio a ser meu professor na Universidade) ou Vitorino Magalhães Godinho. Os seus livros de Ensaios ( Ed. Sá da Costa) e um pequeno e tão actual texto, reeditado depois do 25 de Abril pela Arcádia, A Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa, continuam a constituir, para mim, referências insubstituíveis. Foi, pois, com alegria que "reencontrei" Magalhães Godinho, em forma, nos seus 85 anos, na notícia de uma homenagem em Paris. Os tempos de "fabricação" de homens destes, acabaram. Aliás, é bem provável que o seu nome nada diga às hodiernas gerações universitárias, quase todas analfabetas funcionais e sem memória. Na entrevista que deu ao Carlos Câmara Leme, no Público, Magalhães Godinho diz esta coisa notável: "acho que caímos num caixote do lixo muito triste. No século XX, havia uma outra grandeza. Repare: a informática e outros meios de informação, como o telemóvel, acabaram por cortar as relações humanas entre as pessoas. O homem da era da comunicação quanto mais comunica mais isolado está". Contrariamente a tanto palonço ignorante que para aí há a falar do "futuro", sabe bem meditar na palavra dos historiadores, essa espécie silenciosa e nobre que procura "perceber". Se fossem mais lidos e escutados, talvez alguns dos desastres do nosso tempo pudessem ter sido evitados. Segue a entrevista.

"Hoje Não Existe Democracia"

Por Carlos Câmara Leme

Aos 85 anos, Vitorino Magalhães Godinho é um homem céptico. Triste com o que vê à sua volta, não encontra uma réstea de esperança na humanidade. O historiador, entrevistado em Paris - onde na semana passada decorreu o colóquio internacional "O Portugal e o Mundo. Leituras da Obra de Vitorino Magalhães Godinho"-, pensa que a humanidade perdeu a grandeza do século XX. À luz das teses de Guy Debord sobre a sociedade do espectáculo, Magalhães Godinho - cujo próximo livro, a editar nos primeiros meses de 2004, terá como título "Portugal, a Emergência de uma Nação" - pensa que, na Europa, "há uma super-estrutura que não influi, no fundo, a sociedade. Não a regula, nem a orienta". Mais, os políticos, chefes de Estado e primeiros-ministros não "representam nada". E Portugal? Em certos casos, não estamos melhor do que antes do 25 de Abril, e hoje, diz, "não existe democracia."

PÚBLICO - Nas intervenções que fez durante o colóquio, reivindicou o seu estatuto de intelectual do século XX. Pensa mesmo que temos de recuperar grandes noções do século passado, já que, como afirmou, o século XXI é mórbido e tem o fascínio da morte? O século XX criou e fomentou algumas das maiores barbáries - duas guerras mundiais, o nazismo, o estalinismo - da história da humanidade.

Vitorino Magalhães Godinho - Há duas ou mais faces do século XX. No meio desses horrores que mencionou, que realmente fizeram milhões de mortos, encontra-se ainda um espírito de cavalaria que não se encontra hoje. Nos nossos dias, a morte é cirúrgica e é feita pelos estados com os bombardeamentos cirúrgicos. Mas, na própria sociedade, a actividade dos grupos terroristas - que não é uma luta de carácter político, como foi no princípio do século XX, com os anarco-sindicalistas - não tem finalidade, a não ser demolir, matar, estropiar. Arriscamo-nos, em breve, a ter mais mortos com a sida do que houve nessas guerras. Nessas guerras estavam em jogo interesses, sem dúvida. Mas, apesar de tudo, havia a consciência de ideais por que se lutava. Muitos desses homens do século XX lutavam por uma democracia e por uma humanidade nova. Havia um grande de espírito de luta por um ideal...

Um nazi também tinha um ideal. E conhecemos os resultados: a exterminação do povo judeu.

Sem dúvida. Sempre que se fala de um ideal, há sempre uma certa ambiguidade. Quando me refiro a um ideal, estou a falar de um conjunto de valores de raiz humanista, que se iniciou no século XIX - basta pensarmos no que representa, ainda hoje, essa obra extraordinária que é "Os Miseráveis", de Victor Hugo.

São os ideias humanistas dos século XIX que reivindica para o século que acabou de nascer?

Não, porque houve uma mutação brusca da sociedade, com a revolução informática, com as novas tecnologias, com a dispensa de trabalho de massas. Hoje, o capitalismo, ou melhor, aqueles que detêm o poder económico, não necessitam de operariado; podem dispensá-lo. O operariado continua a fazer as lutas que faziam sentido no século XX. O sindicalismo, hoje, é um anacronismo.

Como historiador, imaginou alguma vez essa mutação tão rápida e tão complexa da sociedade contemporânea?

Não. Todos fomos apanhados de surpresa.

Qual foi o acontecimento, ou a rede de acontecimentos, que permitiu essa alteração? Eric Hobsman fala, em "A Era dos Extremos", da queda do Muro de Berlim.

O ruir do Império Soviético foi também a ruína do Ocidente, que permitiu a formação de um novo império - o império americano -, sem controlo e em moldes ultrapassados: continua a ser proibido estudar Darwin nas escolas, há perseguições às clínicas que praticam o aborto, há ataques à mão armada... Há meios de matar - a partir da transformação introduzida pela informática - que estão ao alcance de qualquer pessoa. Foi tudo tão rápido, deu-se um vazio e uma incapacidade de organização para resistir, para orientar essa mutação para outros sentidos. Perderam-se as balizas. A humanidade perdeu o controlo. Inclusive, as estruturas económicas mudaram por completo. O capitalismo ruiu, como ruiu o estalinismo. Não há mais capitalismo. O que há é uma organização de redes mafiosas que controlam o mundo.

Acredita mesmo que o mundo, à escala planetária, é controlado por uma rede de mafias?

Não estou a falar de mafia no sentido pejorativo. Nenhuma sociedade é uniforme. Mesmo a sociedade capitalista não tinha só empresas capitalistas - havia o artesanto, o campesinato. Agora, a população camponesa desapareceu. Em vários países, a agricultura desapareceu, ou está em vias de desaparecer.

Como é que vê a construção europeia? Não acha que, apesar de tudo, o acto de 25 chefes de Estado e primeiros-ministros europeus terem-se reunido este fim-de-semana em Bruxelas é um sinal de vitalidade da Europa?

Não, de maneira nenhuma. É uma prova de que, em relação a uma sociedade descontrolada e ameaçada quer pela doença quer pela possibilidade de violência gratuita, há uma super-estrutura que não influi, no fundo, na sociedade. Não a regula nem a orienta. É uma super-estrutura que se legitima por uma pseudo-ressurreição de uma pseudo-ideologia do século XIX, o liberalismo. Mas que não tem nada que ver com o liberalismo, que representa uma peça de teatro. Estamos na pura sociedade de espectáculo, formulada por Guy Debord, justamente na obra "A Sociedade de Espectáculo".

Não o via assim tanto de acordo com as teses de Guy Debord.

Logo que o livro saiu, li-o, e tinha encontrado um paralelo no século XVII, onde era muito frequente falar da sociedade e do mundo como um teatro. Como vê, não fiquei surpreendido com o livro de Guy Debord. Ele veio ao encontro dos caminhos que estavam suspeitados. Porque, na verdade, os chefes de Estado não representam nada...

Nada? Mas eles são eleitos democraticamente.

O que não quer dizer nada, porque, hoje, as eleições não são nada. Não há diferenças partidárias. Há lutas mesquinhas, os partidos estão completamente desfasados da realidade. Veja-se a França...

... e em Portugal, também pensa assim?

A minha opinião é a de que, hoje, não existe democracia. O grande erro é partir-se do princípio que se construiu uma democracia, quando não se chegou a construir uma democracia...

Mas os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos estão garantidos, não estão?

Nada está garantido? Não estamos melhor do que antes do 25 de Abril?
Em certos casos, menos!


Portugal não tem presos políticos.

Não sei, não sei... Há países onde não é necessário ter as pessoas presas para as ter na mão. Veja o que se passa em Guantanamo.

Qual será, na sua opinião, o papel da História no século XXI?

A história será o instrumento fundamental para uma tomada de consciência capaz de reflectir sobre a realidade e de detectar os verdadeiros problemas que se põem aos homens. E é isso que não acontece.

Não vê, portanto, uma ponta de esperança em lado nenhum?

Por enquanto, não. Acho que caímos num caixote do lixo muito triste. No século XX, havia uma outra grandeza. Repare: a informática e outros meios de informação, como o telemóvel, acabaram por cortar as relações humanas entre as pessoas. O homem da era da comunicação quanto mais comunica mais isolado está

14.12.03

BOAS FESTAS...


A ENTREVISTA DO BISPO DO PORTO ao Expresso de ontem é duplamente interessante. Por um lado, retira algum do pensamento da Igreja da letargia face aos desenvolvimentos sociais e culturais dos tempos que correm, fazendo-a "descer à Terra" em matérias que parecem sempre tabu. Por outro, ao pronunciar-se sobre homens públicos como Cavaco e Guterres, da forma como o faz, revela uma sensibilidade política adequada ao médio prazo. Ainda bem que há um "dignatário" nosso - há mais...- que enxerga para além do Deus recorrente de Santana Lopes. Tudo nele, convém lembrar, ou é "por vontade de Deus", ou é "se Deus quiser". A seu tempo, com ou sem esta curiosa recorrência verbal, outros Cristos descerão à Terra...

Cavaco Silva...

...ou António Guterres ?


A POSIÇÂO DE FERRO RODRIGUES no "não-caso" Lusíada foi a correcta. Depois de ouvidas as explicações de Morais Sarmento, que começaram mal, o lider da oposição considerou o assunto encerrado, politicamente falando. É natural que haja ainda alguma escaramuça à volta da peripécia, porém julgo ser mais proveitoso prestar atenção ao que se vai passando na educação, no ensino superior, na saúde ou na justiça, em que várias montanhas ameaçam parir apenas ratos.

...a tentar acertar o passo

O TRISTÃO E ISOLDA que foi dado a ouvir na Culturgest, em três "fatias", saldou-se por um excelente espectáculo. Só pude assistir ao III Acto. Apesar de não ser especialista, considero notáveis as prestações dos cantores, e a Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve bem e, desta vez, muito razoavelmente dirigida pelo seu director musical. Assistiram igualmente Pedro Roseta e o assessor cultural do Primeiro Ministro, e eventualmente um ou outro dirigente anónimo e anódino da actual nomenclatura do MC. Nem sabia que gostavam de Wagner. Se calhar, eles também não. O único que percebia da coisa era Paolo Pinamonti, o director artístico do Teatro de São Carlos. E estava claramente de parabéns. Quanto ao resto, Manuel Maria Carrilho diz o suficiente nas suas Contingências do Expresso, acerca do "verdadeiro défice" de que falei uns posts atrás.

Herbert von Karajan, de quem se recomenda a versão em CD do Tristan und Isolde, com Jon Vickers, Helga Dernesch, Christa Ludwig e Walter Berry, à frente da Berliner Philarmoniker


E MÁS FESTAS....


A CIMEIRA DE BRUXELAS não aprovou a "constituição europeia". Já se fala, de novo, numa Europa a "duas velocidades". Não se tratou de nenhuma tragédia, mas é interessante acompanhar o papel que a Polónia (um País com uma curisissima história que alguns desconhecem) está a começar a desempenhar no seio da União Europeia. Nós contamos pouco e D. Barroso satisfez-se com uma Agência qualquer que vem para cá. Voltou a dizer, sem o dizer, que não quer referendo, uma vez que insiste na data impossível das eleições europeias. Convém-lhe - a ele e a nós - estar atento às tais "velocidades" que se desenham e recolocar-se no famoso "pelotão da frente" onde, numa outra encarnação, Cavaco nos pôs.

À espera de melhores dias...


A FALTA DE COMUNICAÇÃO da bondade das medidas do Governo preocupa o "núcleo político" da dita agremiação. O "núcleo" parte do princípio de que as "medidas" são boas, só que o Governo não as consegue explicar à população. Moral da história: o Governo não precisa de "boas medidas", precisa antes de bons comunicadores. Basta dar uma voltinha pelos principais ministérios para se entender a frivolidade do exercício. Nem sempre as medidas são boas, e quase sempre os "comunicadores" são invariavelmente péssimos. Santana Lopes, notável na sua intuição política, já o percebeu e, pelo sim, pelo não, "comunica" ele sozinho e fora do Governo. Praticamente só sobra Marques Mendes, parece que invejado por esses portentos políticos que são Sarmento e Arnaut. Quem?

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BOAS FESTAS...


A ENTREVISTA DO BISPO DO PORTO ao Expresso de ontem é duplamente interessante. Por um lado, retira algum do pensamento da Igreja da letargia face aos desenvolvimentos sociais e culturais dos tempos que correm, fazendo-a "descer à Terra" em matérias que parecem sempre tabu. Por outro, ao pronunciar-se sobre homens públicos como Cavaco e Guterres, da forma como o faz, revela uma sensibilidade política adequada ao médio prazo. Ainda bem que há um "dignatário" nosso - há mais...- que enxerga para além do Deus recorrente de Santana Lopes. Tudo nele, convém lembrar, ou é "por vontade de Deus", ou é "se Deus quiser". A seu tempo, com ou sem esta curiosa recorrência verbal, outros Cristos descerão à Terra...

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<b>BOAS FESTAS...</b><br /><br /><br /><b>A ENTREVISTA DO BISPO DO PORTO </b>ao <b>Expresso</b> de ontem é duplamente interessante. Por um lado, retira algum do pensamento da Igreja da letargia face aos desenvolvimentos sociais e culturais dos tempos que correm, fazendo-a "descer à Terra" em matérias que parecem sempre tabu. Por outro, ao pronunciar-se sobre homens públicos como Cavaco e Guterres, da forma como o faz, revela uma sensibilidade política adequada ao médio prazo. Ainda bem que há um "dignatário" nosso - há mais...- que enxerga para além do Deus recorrente de Santana Lopes. Tudo nele, convém lembrar, ou é "por vontade de Deus", ou é "se Deus quiser". A seu tempo, com ou sem esta curiosa recorrência verbal, outros Cristos descerão à Terra...<br /><br /><img src="http://www.ms-foundation.org/awardees/1995/content/images/silva_pic_lr.jpg" border="0"<br /><i>Cavaco Silva...</i><br /><br /><img src="http://www.info-regenten.de/regent/regent-d/pictures/portugal-guterres.jpg" border="0"<br /><i> ...ou António Guterres ?</i><br /><br /><br /><b>A POSIÇÂO DE FERRO RODRIGUES</b> no "não-caso" Lusíada foi a correcta. Depois de ouvidas as explicações de Morais Sarmento, que começaram mal, o lider da oposição considerou o assunto encerrado, politicamente falando. É natural que haja ainda alguma escaramuça à volta da peripécia, porém julgo ser mais proveitoso prestar atenção ao que se vai passando na educação, no ensino superior, na saúde ou na justiça, em que várias montanhas ameaçam parir apenas ratos.<br /><br /><img src="http://tsf.sapo.pt/imagens/2002/11/noticias/imgs/12/pequeno/ferro_rodrigues1.jpg" border="0"<br /><i>...a tentar acertar o passo</i><br /><br /><b>O TRISTÃO E ISOLDA</b> que foi dado a ouvir na <i>Culturgest</i>, em três "fatias", saldou-se por um excelente espectáculo. Só pude assistir ao III Acto. Apesar de não ser <a href="http://criticomusical.blogspot.com">especialista</a>, considero notáveis as prestações dos cantores, e a Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve bem e, desta vez, muito razoavelmente dirigida pelo seu director musical. Assistiram igualmente Pedro Roseta e o assessor cultural do Primeiro Ministro, e eventualmente um ou outro dirigente anónimo e anódino da actual nomenclatura do MC. Nem sabia que gostavam de Wagner. Se calhar, eles também não. O único que percebia da coisa era Paolo Pinamonti, o director artístico do Teatro de São Carlos. E estava claramente de parabéns. Quanto ao resto, Manuel Maria Carrilho diz o suficiente nas suas <i>Contingências</i> do<b> Expresso</b>, acerca do "verdadeiro défice" de que falei uns <i>posts</i> atrás.<br /><br /><img src="http://www.allegrobr.com/especial/3/humor/karajan.jpg" border="0"<br /><i>Herbert von Karajan, de quem se recomenda a versão em CD do <i>Tristan und Isolde</i>, com Jon Vickers, Helga Dernesch, Christa Ludwig e Walter Berry, à frente da Berliner Philarmoniker</i><br /><br /><br /><b>E MÁS FESTAS....</b><br /><br /><br /><b>A CIMEIRA DE BRUXELAS</b> não aprovou a "constituição europeia". Já se fala, de novo, numa Europa a "duas velocidades". Não se tratou de nenhuma tragédia, mas é interessante acompanhar o papel que a Polónia (um País com uma curisissima história que alguns desconhecem) está a começar a desempenhar no seio da União Europeia. Nós contamos pouco e D. Barroso satisfez-se com uma Agência qualquer que vem para cá. Voltou a dizer, sem o dizer, que não quer referendo, uma vez que insiste na data impossível das eleições europeias. Convém-lhe - a ele e a nós - estar atento às tais "velocidades" que se desenham e recolocar-se no famoso "pelotão da frente" onde, numa outra encarnação, Cavaco nos pôs.<br /><br /><img src="http://www.terravista.pt/nazare/5707/Durao_1.jpg" border="0"<br /><i>À espera de melhores dias...</i><br /><br /><br /><b>A FALTA DE COMUNICAÇÃO</b> da bondade das medidas do Governo preocupa o "núcleo político" da dita agremiação. O "núcleo" parte do princípio de que as "medidas" são boas, só que o Governo não as consegue explicar à população. Moral da história: o Governo não precisa de "boas medidas", precisa antes de bons comunicadores. Basta dar uma voltinha pelos principais ministérios para se entender a frivolidade do exercício. Nem sempre as medidas são boas, e quase sempre os "comunicadores" são invariavelmente péssimos. Santana Lopes, notável na sua intuição política, já o percebeu e, pelo sim, pelo não, "comunica" ele sozinho e fora do Governo. Praticamente só sobra Marques Mendes, parece que invejado por esses portentos políticos que são Sarmento e Arnaut. Quem?
AS BOAS E AS MÁS FESTAS

Vive-se a época natalícia. Momento mais pagão do que este não conheço, apesar de estar instituído para celebrar o nascimento de Cristo. O "natal" culmina um longo processo de idiotização anual das vidas da generalidade das pessoas. Os adultos infantilizam-se para agradar às criancinhas, e estas, em público e em privado, dão largas à sua vivacidade barulhenta e naturalmente infantil, terminando tudo na harmonia "familiar" que não dura mais do que as 48 horas da praxe. Cada prenda comprada é mais uma marretada dada nos pregos que ergueram Cristo na cruz final e sinónimo de um consumismo insane e despropositado, olhando ao "afundamento geral em curso". À parte comercial da coisa, costuma juntar-se a troca de sonsos desejos de boas festas e de feliz ano novo entre um rol de gente que mal se conhece ou que até nem se estima. Eu não alinho nesta ladaínha hipócrita e prefiro manter os meus "ódios" e "amores" intactos, sem intervalos para comer sonhos e bolo-rei.

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AS BOAS E AS MÁS FESTAS

Vive-se a época natalícia. Momento mais pagão do que este não conheço, apesar de estar instituído para celebrar o nascimento de Cristo. O "natal" culmina um longo processo de idiotização anual das vidas da generalidade das pessoas. Os adultos infantilizam-se para agradar às criancinhas, e estas, em público e em privado, dão largas à sua vivacidade barulhenta e naturalmente infantil, terminando tudo na harmonia "familiar" que não dura mais do que as 48 horas da praxe. Cada prenda comprada é mais uma marretada dada nos pregos que ergueram Cristo na cruz final e sinónimo de um consumismo insane e despropositado, olhando ao "afundamento geral em curso". À parte comercial da coisa, costuma juntar-se a troca de sonsos desejos de boas festas e de feliz ano novo entre um rol de gente que mal se conhece ou que até nem se estima. Eu não alinho nesta ladaínha hipócrita e prefiro manter os meus "ódios" e "amores" intactos, sem intervalos para comer sonhos e bolo-rei.

12.12.03

OS DONOS

O JPP já se referiu a isto outro dia. Decorre, entre o Dr. Portas e o Dr. M. Soares, uma espécie de "jogos florais" , cujo argumento se alimentou basicamente da forma como o primeiro tratou a esposa do segundo, na história da Cruz Vermelha. Na altura, aqui o escrevi, considerei - como continuo a considerar- totalmente ignóbil a forma como o lider do PP resolveu o assunto. Faz parte do estilo nouveau riche político tão em voga e tão "giro", que se distingue pela enorme delicadeza com que alguns dos actuais encavalitados no poder tratam quem não os acompanha ou quem não os aplaude. Nos últimos desenvolvimentos dos "jogos", o Dr. Soares "encostou" o Dr. Portas à direita extrema, por comparação com o Sr. Fini, que parece passar por uma fase de recuperação do seu proto-fascismo. E o Dr. Portas devolveu em trocos baratos, com mimos do género "Soares não é o dono da democracia", "quem manda é o povo" e que "tinha sido derrotado em três coisas, o filho que perdeu a Câmara, a mulher que perdeu a CV e o Dr. Sampaio que está em Bélem". Rematou com uma tirada original: o Dr. Soares é uma figura do passado, pressupondo-se que ele, Portas, representa o presente e o futuro gloriosos da Pátria. Não querendo comentar o delirante mau-gosto da diatribe, não creio nem que Soares seja do "passado", nem que o Dr. Portas simbolize o "futuro". Soares, sozinho, tem mais passado, presente e futuro em cima dele do que jamais Portas terá, e basta ficarmos pelo "presente". O respectivo fulgor resulta exclusivamente da circunstância de alguma opinião pública e de muita da que se publica, acharem piada ao registo "light and famous" em que emerge o lider popular. Isto não teria qualquer importância se não estivéssemos a falar da segunda ou terceira figura da coligação que nos pastoreia. Para ele, como para Santana Lopes, D. Barroso conta pouco e funciona, aos olhos dos dois, como uma espécie de "director geral" da "grande empresa" da qual ambos são os verdadeiros proprietários. O papel "pedagógico" relativamente à vida pública portuguesa que Mário Soares tem vindo a assumir, desde que saiu de Bélem, se outros méritos não tivesse, tem ultimamente este de ir chamando a atenção dos distraídos - uma amorfa maioria - para as performances destes nossos mediáticos "amiguinhos". Falo no plural, porque os comportamentos políticos daqueles dois homens - Portas e Santana - não são dissociáveis e confundem-se, como o futuro se encarregará de mostrar. Eu digo isto porque votei num deles e, em certo sentido, conheço os dois. Só que não votei para serem os "donos" disto, como eles, com preciosas e insuspeitas ajudas, se preparam efectivamente para ser, se ninguém os parar a tempo.