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8.8.14

«Patriotismo»



«Menino, sabes o que é a Pátria?”, perguntava o Livro da Terceira Classe; mas depois não ficou para ouvir a resposta. A resposta que qualquer menino lhe teria dado é a de que a pátria é a causa daquilo que identificamos como patriotismo. Como definir, no entanto, ‘patriotismo’? A teoria quase unanimemente aceite é a de que o patriotismo é uma série de convicções ou actividades que se propagam pela atmosfera, e que impregnam os habitantes de uma determinada área geográfica. Tem porém defeitos. À ideia de um conjunto de pessoas acreditarem nas mesmas coisas porque vivem no mesmo sítio falta sempre a explicação do modo como um sítio pode causar uma convicção. Se um sítio causasse uma convicção, todos os que nele vivessem acreditariam nas mesmas frases e possivelmente fariam as mesmas coisas. Esta noção é falsa. Um poeta romano observou que é doce e decente morrer pela pátria; mas se todos os romanos tivessem acreditado no que é decente e doce a queda do Império Romano teria tido lugar muito mais cedo, causada por excesso de patriotismo e falta de romanos. E nessa altura a sobrevivência do Império Romano terá sido causada por falta de patriotismo. Uma ideia a meu ver melhor de patriotismo é defini-lo como equivalente da lista daquilo que cada pessoa não está disposta a fazer em relação ao que identifica como pátria, pelo menos em circunstâncias normais. Tais listas variam muito. Para alguns incluem a recusa de decisões momentosas como vender a cidade do Porto ou comprar fruta importada. No meu caso, é a ideia de mudar de nacionalidade que acho inimaginável. Aos devotos da Terceira Classe o meu patriotismo parece de menos; como para o Rei Lear, tudo o que não seja lacrimoso lhes é suspeito. Os raros não-devotos, no entanto, invocam o argumento mais sério de que as nossas experiências e memórias são independentes da nossa nacionalidade: e, claro, são. A não ser num sentido trivial, poderia ser quem mais ou menos sou se o meu passaporte fosse outro. Acontece porém que não é invulgar que o passaporte que temos faça parte do conteúdo das experiências e memórias que nos acontecem. O facto será trivial: mas tal não significa que nos seja indiferente. Talvez por essa razão uma mudança de passaporte seja para mim uma possibilidade ociosa, como uma liposucção ou uma ida ao Brasil: só em circunstâncias muito extremas é que a encararia. Fosse eu um menino filosoficamente inclinado teria respondido ao Livro da Terceira Classe, e com firmeza, que tinha uma ideia do que era a pátria. Mas depois não tinha ficado para a discussão.»


10.8.06

NÃO SER COMPLACENTE


Acabei de ler um livro curioso e oportuno. Chama-se " A queda de Roma e o fim da civilização" (Alêtheia Editores, com uma tradução assim-assim) e é escrito, não por um "historiador", mas por um arqueólogo, Bryan Ward-Perkins, nado e criado em Roma. À tradicional tese da dissolução do império romano ocidental, Ward-Perkins contrapôe umas "vistas" diferentes. Opõe a ideia de complexidade, de "conforto" e de sofisticação inerentes ao poderio romano - desde a aristocracia ao "povo", evidenciados em coisas como a construção de casas, a cerâmica ou a escrita- àquilo que lhe sucedeu com a dissiminação de pequenos-grandes reinos "bárbaros" um pouco por todo o lado. "Os romanos, antes da queda, estavam tão certos como nós estamos hoje de que o seu mundo continuaria para sempre substancialmente inalterado. Estavam errados. Seria sensato não repetirmos a sua complacência", escreve Ward-Perkins. O livrinho tenta explicar como é que uma sociedade complexa - aquela que era, ao tempo, a civilização ocidental- pôde agonizar da maneira como agonizou, sobrando apenas e quase só pedras, regredindo a um patamar absolutamente primitivo de que levou centenas e centenas de anos a recuperar. Lembrei-me disto por causa do que se está a passar nos aeroportos ingleses. Convinha meditar na frase que citei acima. Aparentemente a actual "civilização ocidental" confia demasiado em si própria porque, como os romanos, se sente - e é, apesar do reaccionarismo do argumento que não deixará de me ser apontado pelos "guardas da revolução" - complexa, sofisticada, paradoxal e superior. Não troco nenhum autor "ocidental", mesmo o mais medíocre, pelo que os barbudos hirsutos do Afeganistão, do Irão ou do Líbano "vendem" nas suas inqualificáveis "madrassas". E, note-se, sou curioso e cosmopolita. Todavia, tento, no essencial, não ser complacente.

NÃO SER COMPLACENTE


Acabei de ler um livro curioso e oportuno. Chama-se " A queda de Roma e o fim da civilização" (Alêtheia Editores, com uma tradução assim-assim) e é escrito, não por um "historiador", mas por um arqueólogo, Bryan Ward-Perkins, nado e criado em Roma. À tradicional tese da dissolução do império romano ocidental, Ward-Perkins contrapôe umas "vistas" diferentes. Opõe a ideia de complexidade, de "conforto" e de sofisticação inerentes ao poderio romano - desde a aristocracia ao "povo", evidenciados em coisas como a construção de casas, a cerâmica ou a escrita- àquilo que lhe sucedeu com a dissiminação de pequenos-grandes reinos "bárbaros" um pouco por todo o lado. "Os romanos, antes da queda, estavam tão certos como nós estamos hoje de que o seu mundo continuaria para sempre substancialmente inalterado. Estavam errados. Seria sensato não repetirmos a sua complacência", escreve Ward-Perkins. O livrinho tenta explicar como é que uma sociedade complexa - aquela que era, ao tempo, a civilização ocidental- pôde agonizar da maneira como agonizou, sobrando apenas e quase só pedras, regredindo a um patamar absolutamente primitivo de que levou centenas e centenas de anos a recuperar. Lembrei-me disto por causa do que se está a passar nos aeroportos ingleses. Convinha meditar na frase que citei acima. Aparentemente a actual "civilização ocidental" confia demasiado em si própria porque, como os romanos, se sente - e é, apesar do reaccionarismo do argumento que não deixará de me ser apontado pelos "guardas da revolução" - complexa, sofisticada, paradoxal e superior. Não troco nenhum autor "ocidental", mesmo o mais medíocre, pelo que os barbudos hirsutos do Afeganistão, do Irão ou do Líbano "vendem" nas suas inqualificáveis "madrassas". E, note-se, sou curioso e cosmopolita. Todavia, tento, no essencial, não ser complacente.