28.4.10

REMORSO DE TODOS NÓS

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,

se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal,

o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,

rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,

não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,

galo que cante a cores na minha prateleira,

alvura arrendada para ó meu devaneio,

bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,

golpe até ao osso, fome sem entretém,

perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,

rocim engraxado,

feira cabisbaixa,

meu remorso,

meu remorso de todos nós...


Alexandre O'Neill, Feira Cabisbaixa

4 comentários:

Anónimo disse...

"Portugal é aliás um dos poucos países europeus que sai da recessão técnica enquanto o conjunto dos países europeus continua em recessão", comemorou Sócrates, a 13 de Agosto de 2009, cerca de um mês das eleições legislativas.

Nelson Marques disse...

Hoje acordei com uma vontade enorme de escutar Carlos Paredes... não sei porquê...

Um contributo interessante, sobre o valor da praxis:
http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/tag/luis+soares+de+oliveira

Anónimo disse...

Os políticos portugueses não conhecem Portugal. O país é uma entidade abstracta que, na melhor das hipóteses, asscociam à rua onde moraram ou a estreitas recordações de juventude. Depois, há que verificar também a gritante ignorância de TUDO, que grassa entre estes agentes do regime. Especialmente os mais novos. Especialmente entre os licenciados em direito ou gestão, assim como entre os s'toures que largaram corajosamente o seu ofício e agora passam necessidades infindas em S. Bento. Em altura de campanha eleitoral, lá prestam atenção (a gente dispensava o cuidado...) ao país e traçam rotas de comícios e calendarizam aparições-surpresa - para as Télvizões e para o povo. Vêm os soutoures e as febras; o vinho é mau; as crianças à soalheira; o povo envelhecido, desdentado e basbaque; bandeirolas de plástico; palanques e microfones; carros e caravanas. Folclore. Chegam, gritam, mentem, sorriem e partem. Para trás ficam ruas, nomes, estátuas, monumentos, cidades, fortificações mediavais, regiões, pessoas, costumes, aspirações, História, conhecimento, heranças e tradições - tudo ignorado e esquecido. Principalmente porque nunca aprendido. Não podem amar o que ignoram. Não podem gostar do que desconhecem. Em gabinetes escondidos fazem sondagens e contas à vidinha - "fulano vai conseguir aqui; sicrano arrisca-se a perder ali" - já a contar com uns patacos. Não leram, não estudaram, não juraram bandeira, não derramaram sangue.

Ass.: Besta Imunda

Anónimo disse...

Participei, por obrigação, pós-25 de Abril, naquilo que que se chamava "Campanhas de Alfabetização", que não passaram de manipulação comunista promovida pelos comunas e por inocentes úteis. Dava-me enorme vontade de lhes ir às trombas, quando, perante uma boas febras de presunto ou rodelas de chouriço com que as pessoas presenteavam os "formadores", estes, na sua maioria oficiais lisboetas,que não sabiam distinguir um porco de um carneiro, exclamavam:
- O povo é bestial, pá! O povo é bestial!
Eles não faziam a mínima ideia do que era o povo, a não ser pelo que estudavam nos manuais marxistas. Depois foi o que se viu...