28.2.10

CHACUN À SON GOÛT?



Se não visse e ouvisse, não acreditava. O Morcego, a opereta de Strauss em cena no São Carlos, resume, na perfeição, a desgraça - ou a maldição - que se abateu sobre o nosso único teatro lírico. Com o devido respeito pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, pelo coro e pela generalidade dos cantores, este Morcego é um escarro. A encenação, em torno de vampiros e matrafonas, é um remake ordinário do "tema" do momento nas livrarias e em telenovelas. Uma valsa passou a declinação rasca do "thriller" de Jackson. Os diálogos em português, particularmente as falas protagonizadas por Maria Rueff, são dignos da pior e mais reles "comédia" de televisão onde o engraçadismo roça o puro atrasadismo mental e a graçola porcalhona. As alusões à vida pública são trocadas por insultos às características físicas dos políticos. Nem Gabriela Canavilhas, a ministra da cultura presente, escapou à vulgaridade baixa de Rueff (estilo pianos a dar à cauda perante a suposta beleza da ministra) e permaneceu no camarote, impávida e serena (como se não tutelasse politicamente aquele lixo todo) a contemplar a canalhice que decorria no palco. Pelo meio apareceu Carlos Guilherme paramentado de "benfiquista" a trautear o hino do clube de futebol. O público - o mais bronco, quase todo agora, que olha para aquilo como se estivesse no circo ou num estádio - ria-se e aplaudia as alarvidades. Outros patearam (como eu) e saíram. O Prof. Jorge Miranda, no intervalo, sugeria que o São Carlos devia fechar. Concordo. Um teatro lírico que anda a fazer de teatro lírico quando não passa de uma co-incineradora da inteligência e da sensibilidade, devia encerrar. Os três ornamentos da direcção portuguesa e o alemão director artístico envergonham a história e os pergaminhos do São Carlos. Fiquei com a ideia, pela sua passividade perante tamanho disparate, que a actual ministra não entende o que se está a passar. O seu aval a este descrédito pago com dinheiro público é inadmissível. Melhor sorte teve o assessor cultural do Chefe do Estado que saiu logo no fim do 1º acto e não teve de ouvir as enormidades que Rueff disse de Cavaco como se estivesse no Maria Vitória ou na retrete. Chacun à son goût?

Clip: Johann Strauss Jr., Die Fledermaus. Royal Opera House Covent Garden, 1984. Doris Soffel, Herman Prey. Direcção de Placido Domingo.

21 comentários:

A. Pinto Pais disse...

Acabei de ver, na RTP, a despedida do Marcelo.
Acho que o falso engenheiro cometeu mais um erro: correr com o vetusto comentador político numa altura em que ele estava, precisamente, a arribar à praia do socretinismo.
Já é azar, dr. Sócrates! E que tal dar-lhe agora o tempo das "Notas Soltas" do pequeno Vitorino? É uma ideia. Pense nisso!

Xico disse...

Realmente foi atroz. O mal não foi remeterem para o castelo do Drácula. Se tivessem optado pelo charme, elegância e bom gosto que costumam caracterizar, nalguns filmes, o mundo dos vampiros, poderia ter tido alguma piada. Mas não. Optaram pelo rasca e a música foi do pior. Eu só não saí porque estava acompanhado por pessoas que, com esforço, quiseram assistir ao espectáculo.
Não me lembro de coisa tão ruim em S. Carlos. Contado não se acredita.

Do Médio-Oriente e afins disse...

Não vi este "Morcego" no Teatro S. Carlos. Mas assisti, estoicamente, à representação, na temporada passada, de um "Fausto", cuja acção decorria num misto de enfermaria e de lar da terceira idade. A que acrescia ainda o facto das legendas em português, que passavam electronicamente, fossem a tradução do "libretto" francês, que obviamente nada tinham a ver com o que decorria no palco.

Nas presentes circunstâncias, e porque a prossecução de uma actividade deste cariz não só nada acrescenta à cultura musical dos portugueses mas é, pelo contrário, um factor de degradação, parece desejável, por muito que isso nos custe, proceder ao encerramento do nosso primeiro (e único) teatro lírico, até que a situação possa ser corrigida.

Xico disse...

Caro Médio-Oriente,
O sr. desculpe mas tem de ir ver. É obrigatório que vá. É como aquelas pílulas que somos obrigados a engolir. Temos de ver para acreditar. E acreditar para evitarmos que torne a acontecer.
Não se trata de discutir opiniões sobre encenações ou leituras musicais. Aqui não houve uma encenação duvidosa ou uma leitura assim assim. Aqui o compositor fugiu ou correrram com ele, e a encenação, opiniões à parte, nada, mas nada tinha a ver com o texto ou com a música. Até a decadência tem charme. Não esta porcaria. Este lixo. Mas é obrigatório ver. Ver para acreditar.

Anónimo disse...

Carlos Guilherme a cantar o hino do Benfica no São Carlos?....Se o Luis Filipe Vieira e o famoso sócio "O Barbas" sabem disso ainda compram lugar cativo para o resto da temporada do São Carlos.
Podiam ter metido uns poemas musicados do Pinto da Costa pelo meio do espectáculo....

observador disse...

Bom, preparem-se para pior dado que terem deixado a Lurdes dar os pontapés, que deu, no ensino da Música, via Conservatórios e Escolas com Paralelismo Pedagógico ...

É o que dá, o provincianismo pacóvio de quem tem uma assinatura de "quolidade" & "poder" ...

Quanto à questão do "Hino do Benfica", a questiúncula é provinciana, visto que o mesmo foi cantado por um certo nome maior da Ópera portuguesa, e não me consta que a sua Voz se tenha estragado por isso.

Anónimo disse...

A isto nos vem reduzindo o ensino socialista,a cultura socialista. Uma vergonha!

Anónimo disse...

Não vi e não vou ver.

Se este país estivesse entre o Peru e a Colômbia era como o Equador.

A civilização está fina como uma camada fresca de verniz e a europa vai passando uma demão de vez em quando mas não chega.

Carlos disse...

Meu caro João Gonçalves (peço-lhe que me admita a familiaridade) tem de aceitar que a "cultura" que passa por Herman José é uma "verdadeira" cultura do "cuzinho para o povo"
Meu caro,como se dizia :"diz-me com quem andas,dir-te-ei quem és"
Aceite os meus cumprimentos
Carlos Monteiro de Sousa

observador disse...

Anónimo 12:11 AM,

Não se esqueça que os socialistas e restantes acompanhantes de agora, foram em devido tempo devidamente "inducados" pelo bomfeitor S....

Anónimo disse...

O autor dos textos da Maria Rueff: http://twitter.com/omalestafeito

Anónimo disse...

Descreve o resultado de uma degradação social que parece generalizar-se. Na rua, nos cafés, nos corredores e nas reuniões em instituições, há sinais de que o nível está cada vez mais próximo do zero absoluto. Parece que o povo de portugal está a passar por um processo de retorno às cavernas.

rg disse...

Olá joão:

Ontem assisti a uma homenagem a João de Freitas Branco (promovida pelo sector intelectual do pcp, o que é irrelevante) o principal orador salientou essencialmente a reforma do teatro que JFB levou a cabo em 1970 (a convite de Hermano Saraiva e Marcelo Caetano, diga-se). Para reformar o actual S. Carlos não é preciso muito, basta conhecer a hitória e repetir a reforma de há 40 anos. Um abraço, Rui

jaa disse...

Tenho pena de nunca ter ido ao S. Carlos. Com frequência, pensava, envergonhado (apesar de viver a 300 kms de distância e raramente passar noites em Lisboa), que tinha de corrigir a situação. Depois de ler este post tenho ainda mais pena de nunca lá ter ido porque parece que se me acabaram as oportunidades.

plebeu fedorento disse...

deve fechar sim senhor ... se as "elites", a "fina flor do entulho" tuga, quer espectáculos à altura, que os pague. O povão, que sustenta esta merda toda sem saber, tem direito de ver merda com fartura, já que a paga e bem paga !

Anónimo disse...

Presunção e água benta, cada um toma a que quer...

jaa disse...

Parece-me bem, plebeu, que você acaba de resumir na perfeição todo o consulado Sócrates: merda muito bem paga pelo "povão". Que, de facto, parece gostar.

Anónimo disse...

Oh meus amigos, então queriam ir ás Portas de St° Antão comer uns pipis de faisão ???

Anónimo disse...

Isto não está para óperas. Um senhor muito conhecido que dá pelo nome de Maslov já explicou tudo muito bem explicadinho há muito tempo. Enquanto o povão receber 450 € por 10 horas de trabalho, ninguém vai à ópera. Essas merdas todas fechadas e tudo a trabalhar para aumentar a riqueza nacional, para pagar a dívida.

Lili disse...

Parece que as "barbaridades" de Rueff não foram afinal tão bárbaras, pois conseguiram atingir uma ou outra mente mais desprevenida (diga-se fechada e sensível).
Estamos no século XXI, num país, infelizmente um pouco atrasado culturalmente, e é de valor haver quem experimente e arrisque espectáculos ousados, ou ficaremos para sempre a assistir a bonitas encenações primitivas (cheias de cheiro a naftalina da audiência cheia de classe...a nata da sociedade...).
Parabéns à Rueff, sempre brejeira e certeira!

Anónimo disse...

Ainda em relação ao "Morcego" : o senhor assessor cultural do chefe de estado saíu no final do 1º acto,porquê ? Também assisti e achei o mais tradicional possível....