20.1.11

OS DADOS ESTÃO LANÇADOS


«Cavaco Silva partiu favorito, como é tradição com os candidatos em função. O seu mandato, frágil nas suas controversas opções fundamentais, podia e devia ter sido muito debatido, mas não o foi. Preferiu-se uma campanha muito ad hominem, com momentos penosos que, como frequentemente acontece, em boa medida se viraram contra os seus autores. E que acabou por dar a Cavaco Silva uma vitalidade de que ele não tinha dado sinais até então. Quanto à confiança, Cavaco Silva optou pela tecla do conhecimento que os portugueses têm dele há trinta anos - e o tempo é sempre, nestas coisas, um benevolente indutor de empatia. Quanto ao projecto, embora nada tenha sido dito que pudesse ser visto como uma resposta à grave situação do País, algo foi todavia emergindo implicitamente da multiplicação de estudadas pequenas frases, ora prometendo um mandato mais activo, ora propondo inovações administrativas (o ministério do mar), ora fazendo calculadas alusões a grupos profissionais atingidos pelas medidas do Governo (funcionários públicos, professores, agricultores, etc.), ora antecipando futuras crises, etc. (...) Diz-se, e bem, que a eleição presidencial é o encontro de um homem e de um povo. Mas esse encontro precisa de uma visão magnetizadora, que tem de ser singular, que colar ao candidato, mostrando uma autêntica autonomia em relação às ideias e aos interesses dos partidos que o apoiem. O acolhimento no (...) discurso [de Manuel Alegre] de tópicos com uma forte marca partidária, nuns casos do PS noutros do BE - ainda por cima frequentemente contraditórios entre si -, acabou por dar a ideia de uma candidatura oscilante, ora mais instrumental ora mais pessoal. Os dados estão lançados.»



«Cinco anos depois, embora com troca de papéis e até com novas alianças, as presidenciais voltam a demonstrar como as forças de esquerda desistiram de fazer delas um momento axial da sua estratégia de defesa dos cidadãos, do regime democrático, e de fomento de uma possível federação para o progresso de Portugal no Mundo… De certa maneira a esquerda refugia-se na Assembleia da República e desiste de disputar o cargo de Presidente da República. A lógica situacionista dos aparelhos partidários impôs-se uma vez mais sem curar de nenhuma perspectiva de vitória. Os candidatos ditos da cidadania vieram atestar que estas eleições terão de novo um vencedor antecipado


7 comentários:

Anónimo disse...

... "fomento de uma possível federação" ... que federação ?

rmvsantos disse...

"fomento de uma possível federação", no sentido do PS(+BE) em tirar as reais consequências da adesão "directa e indirecta" dos eleitores ao conceito (se é que O têm) de desenvolvimento (NACIONALIZAÇÃO - verdadeira estratégia socialista).

A

Rui

PS. Fantásticas as conclusões dos "sociólogos / politólogos" relativamente às opiniões do submundo das caixas de opiniões relativas ao "Último Tango em Nova Iorque". Uma "lei" votada pelo PS+BE na qual poucos se revêm. "Tirar de onde parece para ONDE É PRECISO", por vezes tem O SEU PREÇO". Haja coragem e PS+BE assumam as (consequências da) derrota.

Anónimo disse...

Acho este pedaço da prosa da Clara Ferreira Alves a coisa mais aparvalhada já escrita na imprensa portuguesa desde os idos de 1500.

Ler e depois ler também o porquê.

Isto: "Portugal não quer saber. Venha o FMI, não venha o FMI, tudo lhe é indiferente. O conformismo português, herdado de Salazar mas anterior a ele, atávico, é um conformismo nascido da ignorância e da desqualificação. Do subdesenvolvimento. Neste cenário, fica-se com a impressão de que o único político que se mexe e não se resigna é José Sócrates. O único que trabalha. Com todos os seus defeitos, Sócrates tem-se batido, e tem desempenhado um difícil papel no meio de ministros cansados e governantes exaustos de nada fazer, com exceção de Teixeira dos Santos. O Governo não existe, ele sim. No meio dos patetas, aparece um político. Esperam que ele se demita? Esperarão."


É aparvalhada porque a primeira parte da prora é verdade e a segunda... também.

Só que esse é o problema. a miséria retratada na primeira parte da prosa é a única e exclusiva justificação para que um tipo como Sócrates possa aparecer como o raro político dos tempos que correm...

Estão a ver a nossa miséria?

Está fodido este país.

Rita

Pensador disse...

Desde que chegaram à conclusão de que o Alegre vai sofrer uma pesada derrota – como efectivamente merece -, não há pateta que não venha a público, nos jornais, nas rádios e nas televisões, apelar à abstenção, tendo em vista, pensam eles, desvalorizar a mais que certa vitória de Cavaco Silva.
Vão ter a mesma sorte dos que, agarrados às braguilhas dos militares, fizeram idêntico apelo em 1975. O País deu-lhes então a mesma resposta que terão agora.

floribundus disse...

caro Irmão
recomendo a leitura do livro
'L'art de payer ses dettes'.
o meu filho encontrou-o na Gallica. escrito por Balzac, saíu anónimo.

Anónimo disse...

Oh Floribela ou floribundus oh lá o que és: Só o proprio se pode revelar aos profanos. Estás a chamr irmão a quem? ao JG?

joshua disse...

E um segundo mais votado, Nobre.