31.7.10

WITTGENSTEIN NÃO PASSOU POR ALCOCHETE


Na noite em que "Deus Nosso Senhor" desceu à Terra para jurar ser a última vez que ia falar sobre Alcochete (isto de "Deus" estar em toda a parte inclui rincons improváveis como Alcochete), não se apercebeu de uma coisa óbvia que, em artigo no Expresso, Rui Ramos explica. Sócrates não devia ter dito nada sobre o Freeport. Porquê? Porque não foi ouvido, «foi apenas falado.» Ao descer à Terra, mais precisamente em São Bento, um lugar inverosímil para falar da "vida comum", o nosso "Deus", «com esta exibição pública de alívio (...) voltou a fazer do Freeport um caso seu.» Aliás, é o que querem dizer os procuradores com o seu ambíguo despacho das perguntas que ficaram por fazer. Quem tenha alguma vez na vida feito inquéritos - penais ou administrativos que podem ter consequências disciplinares ou penais - sabe que, a partir de um determinado "nível", as coisas complicam-se. Em 2001, fiz um relacionado com a "fundação para a prevenção e segurança" que tinha custado a cabeça política a dois então membros do governo Guterres: Vara e Luís Patrão. Os vasculhadores de arquivos experimentem arranjar o Expresso, mas de 4 de Agosto de 2001. Vem lá transcrito - porque o inquérito foi pedido por uma comissão parlamentar e passou por muitas mãos - o meu pedido de escusa e de substituição por outro inquiridor quando o relatório final que apresentei não foi aceite e o processo continuou. Nesse texto, se bem me lembro, também deixei umas perguntas bem como no dito relatório. Propunha então um processo disciplinar a um director-geral que não foi aceite superiormente. O director-geral chamava-se António Morais, engenheiro, à altura director de uma coisa chamada "gabinete de estudos e planeamento de instalações" do MAI. Antes do fim desse mês de Agosto de 2001, e já sem mim a conduzi-lo, o processo foi arquivado. Morais acabou por ser removido daquele "gabinete" pelo governo seguinte após uma auditoria realizada pelo mesmo organismo que, ano e meio antes, não viu razões para lhe instaurar um processo disciplinar. Só voltei a ouvir falar de António Morais em 2005 ou 2006 quando o primeiro governo do nosso "Deus", pela mão de Alberto Costa, da Justiça, o colocou à frente de um departamento homólogo àquele onde o encontrara anteriormente. E de onde saiu a correr por causa de uma capa do falecido Independente. Finalmente, em 2007, soube que, antes de o ter conhecido, Morais tinha sido professor de Sócrates num estabelecimento dito universitário que encerrou. "Deus", afinal, já estava em toda a parte. Regresso ao despacho das perguntas por fazer. Que revela ele? Impotência, algo que Rui Ramos identifica exemplarmente. «Depois da perda de soberania ocasional por sucessivos maus governos, o Estado que temos em Portugal já só serve para pequenos projectos de poder pessoal, como algumas Câmaras Municipais de província.» Na sua pusilanimidade congénita e no seu inaceitável temor reverencial, a justiça, seja ela qual for, acaba por fazer parte deste "paradigma" permitindo a recuperação da "dúvida metódica", cartesiana, da primazia da primeira pessoa. Primeira pessoa que, no caso, não soube escolher o conselho "analítico" do primeiro Wittgenstein - «acerca daquilo que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio.»

(foto: Ludwig Wittgenstein, "furtad0" ao Tiago que hoje acordou analítico)


Adenda: Ler este post de Artur Costa e este de Eduardo Maia Costa.

7 comentários:

Fado Alexandrino disse...

Gosto muito de vir a este blog lê-lo.
É uma tarefa diária e de vez em quando pergunto-me como é que ainda está vivo.
Morre tanta gente em acidentes estranhos que um dia não estranharei nada ler o seu nome na primeira página de um jornal.
Como diz outro de vez em quando "juizinho".

Anónimo disse...

Esta comparação do Senhor Engenheiro Sócrares com Deus - uma ententidade muito contestada e que nunca ganhou eleições parece-me que foi uma infelicidade do Dr. Almeida Santos. A mim parece-me desrespeitosa para com o Sr. Engenheiro.

João Gonçalves disse...

Fado: não se preocupe que eu também não. Como diria o Rick, em Casablanca, quando a Bergman lhe aponta uma arma - "fazias-me um grande favor."

Anónimo disse...

Wittgenstein, além de não ter passado por Alcochete, também não passou na Covilhã - que foi o território priviligiado para as bacorices "arquitectónicas" de pinto-de-sousa. Para quem era professor primário e depois ainda tentou pontualmente rasgo e modernidade na arquitectura, teria sido um momento iluminador.

Ass.: Besta Imunda

VANGUARDISTA disse...

O Estado está à mercê de mafiosos e maçons.
Por algum motivo esta gente esteve açaimada 48 curtos anos.

Anónimo disse...

Recordo que o "dito cujo" é o tal cujo nome de baptismo (bastante pretensioso, aliás) não se pode pronunciar sem que apareçam logo uma série de casos estranhos associados... por vezes só estranhos, outras vezes casos sem dúvida criminais.

PC

Anónimo disse...

Boa foto de Wittgenstein. O último aforismo do Tractatus tambem se aplica ao autor desse blog quando se põe a falar não sei a que propósito da I Guerra,assunto de que aparentemente pouco entende.Essa da Rússia vencedora é de chumbo dos autênticos em qualquer ensino primário civilizado. Saberá esse senhor o que foi o Tratado de Brest-Litovsk em que a Rússia em troca da paz com os Impérios Centrais perdeu parte substancial do seu território? Nunca ouviu falar da derrocada dos Romanov e do assassinato da familia imperial? É isso ser vencedor duma guerra? Peço-lhe,se tiver tempo e paciência,que transmita estas notas (outras haveria quanto ao inicio do conflito,mas não quero abusar da sua paciência)ao autor Tiago,dado o seu(dele) blog não aceitar anónimos. Não sabe o que perde em vivacidade e variedade do debate...