27.1.08

A PIOLHEIRA


Sexta-feira próxima passam cem anos sobre o regicídio. D. Carlos I regressava a Lisboa. Desembarcou, cerca das 17 horas, no Cais das Colunas, meteu-se na caleche com a Rainha e os dois filhos, seguiu para a Rua do Arsenal e, na esquina com o Terreiro do Paço, os tiros traidores acabaram praticamente com a monarquia constitucional e com o liberalismo, no sentido benigno do termo. Até hoje. Dois anos depois, o "PRP" do dr. Afonso Costa tomou de assalto o Estado e reduziu a tradição liberal a uma caricatura. Écrasez l'infâme - isto é, o "rebanho" constituído pelo "povo" que ignorava e desprezava uma República erguida, no fundamental, contra o "povo" e a igreja - foi o lema do Partido Democrático do dr. Costa durante o nefasto período em que nos pastoreou a partir de Lisboa. O Estado Novo recolheu os despojos, eliminou o pior jacobinismo, cavalgou o despeito popular do interior e da tropa contra os "progressistas" do dr. Costa, e aproveitou a sementeira anti-liberal e anti-democrática da I República para instalar a sua própria. Tecnicamente o "25 de Abril" poderia ter recuperado essa tradição liberal interrompida pelos assassinos de 1 de Fevereiro de 1908. Não conseguiu. O "reformismo" de que se reclama o actual sucessor do dr. Costa, o eng. Sócrates, esbarra com uma coisa chamada país, uma notória maçada para qualquer "iluminado". Ninguém "reforma" ninguém que não aspire a ser "reformado". Muito menos em "democracia" onde o escrutínio é, na forma, total. E, sobretudo, ninguém aceita ser "reformado" por "políticas" que não lhe foram previamente anunciadas. Banalizou-se a mentira de Estado por troca com o compromisso eleitoral. Ainda ontem Sócrates prometia água no Alentejo para os próximos mil anos tal como um antigo chanceler prometeu à Alemanha um império por outros tantos. Durou doze anos esse "império", metade dos quais enfiado numa guerra planetária. Julgo que estes cem anos devem ser estudados mais como perda do que como ganho ou "progresso". Se hoje estamos mais "modernos" e menos periféricos, não o devemos tanto à política doméstica quanto à Europa. Mesmo Cavaco, quando fez o que devia ter sido feito muito antes dos anos 80 e 90, fê-lo porque já pertencíamos à União Europeia. Sem ela, nunca teríamos passado duma razoável estância balnear. Foi uma pena ter-se sacrificado um homem bom, amante da vida, liberal e patriota, praticamente para nada.

Adenda:

«Ao ler uma passagem do post do João Gonçalves, referente à efeméride do Regicídio, fui imediatamente transportado no tempo, a um já longínquo dia 27 de Abril de 1974. Dia de aniversário da minha mãe, era sempre motivo para uma grande festa que reunia toda a família e dezenas de amigos, à boa maneira laurentina. Abriam-se as portas de casa a quem aparecesse e sendo previsível a costumeira grande afluência, a minha mãe fazia os preparativos necessários, contando com a colaboração dos três filhos, do nosso pai e de outros amigos e familiares. Contudo, nessa manhã e à revelia do que era costume fazer, o meu pai resolveu ..."ir dar uma volta com o Nuno à Baixa"... De nada serviram os protestos e no que a mim diz respeito, fiquei todo satisfeito por me furtar a uma longa manhã de assistência à cozinha. Percorremos as principais avenidas de Lourenço Marques, passando à frente de quartéis, repartições e empresas do Estado. Fomos até ao palácio da Ponta Vermelha, residência oficial do governador-geral e no regresso, contornámos a praça Mouzinho de Albuquerque, onde se situava a grandiosa Câmara Municipal. As ruas da Baixa mostravam o movimento habitual e nada denunciava que algo de transcendente se havia passado dois dias antes em Lisboa. Chegando a casa e respondendo ao olhar inquisidor da minha mãe, o meu pai disse algo que jamais esquecerei: ..."16 anos de bombas e de Afonso Costa, 48 daquilo que ainda agora acabou e vai continuar tudo na mesma!"..."Na mesma? Mas como?" e continuando, sem prestar atenção, "...vamos ser corridos daqui para fora, disso não tenho qualquer dúvida, mas dentro de dez anos, parecerá que voltámos à estaca zero"... "mas afinal o que estás para aí a dizer?"... "Pois, ninguém prestou atenção. Após tantas iniquidades, aquela bandeira continua hasteada como se nada tivesse acontecido. Os símbolos são tudo para a maioria das pessoas e parece-me que lá em Lisboa, ou são muito estúpidos, ou não querem mudar nada no essencial. Era bom que as pessoas compreendessem que abrimos uma nova página e isso eles não ousaram. Que pena!"... Na sua obra biográfica sobre o rei D. Carlos, Rui Ramos fala no desabar de um mundo, o da Monarquia Constitucional, que apesar de todas as convulsões e reinício de marcha, habituou o país à normalidade da existência de vida partidária, diversidade de opiniões, apaixonados debates sobre a coisa pública. Enfim, habituou a maioria dos portugueses a um caminho que inevitavelmente encaminharia a nossa sociedade na senda daquilo a que hoje comummente chamamos velhas democracias europeias. Dois ou três minutos bastaram para que retrocedêssemos oitenta anos, para que a História fosse reescrita ao sabor dos ventos da propaganda mais ou menos oficializada. Quem perdeu fomos todos, o país como entidade muitas vezes secular e cada um que aqui quotidianamente sacrificamos um jantar fora com amigos ou uma ida ao cinema, para estarmos diante do computador, a tentar perceber o porquê destes desesperados e pouco promissores tempos que vivemos. O meu pai tinha razão e a bandeira continua a mesma. Assim, não nos podemos queixar.»

(Nuno Castelo-Branco)

18 comentários:

impensado disse...
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Observador disse...

Só para esclarecer:

O homem bom que "Foi uma pena ter-se sacrificado um homem bom, amante da vida, liberal e patriota, praticamente para nada." é Afonso Costa?

Cavaco?

Mário Soares?

Outro? Quem?

impensado disse...
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impensado disse...
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Cristina Ribeiro disse...

Clap-clap-clap. Muito bom.

T disse...

O assassínio nunca é justificável. E foi o que aconteceu nesse dia, no Terreiro do Paço.
Análise muito interessante a sua. A biografia essa, ainda não a li.

Anónimo disse...

Quer queiramos quer não, deve-se a Salazar o facto de ter iniciado, na história deste País, a reconciliação do regime monárquico, tão desacreditado pelos jacobinos da primeira república, de que são exemplos a trasladação dos restos mortais de D. Manuel II,a fundação da Casa de Bragança e o regresso da rainha D. Amélia a Portugal. Infelizmente, parece que ainda é incómodo falar destas iniciativas do Estado Novo, mesmo para aqueles como Rui Ramos que tem feito um notável trabalho pela reabilitação da figura do rei D. Carlos.

excrente disse...

A propósito das lápides que evocam o acontecimento : uma dedicada ao rei, outra aos seus carrascos, e o complexo e estranho paradoxo da memória.

Na vida há coisas estranhas, difíceis de entender ; contudo, segundo os epitáfios, também na morte há coisas inexplicáveis : assassinados e assassinos, todos morreram pela "Pátria", pela "Liberdade" pela "República" ... todos morreram por valores éticos que honram o Homem.

E, por diferentes razões, vítima e carrascos têm lugar na História : em vida, separados por montanhas de ódio, na morte lado a lado.

É um paradoxo mais do que irracional.

jb disse...

Caro João Gonçalves

Os piolhos continuam na cabeça de muitos. Não são piolhos quaisquer! São do género nefasto que corrói a cabeça e a impregna de uma miserável tendência para distorçer a realidade, digo, para não deixar ver o óbvio. A propaganda piolhosa da 1ª república vingou e continua por estes dias a distorçer a verdade à força dos interesses ainda instalados. Quem vive hoje do regime não quer lavar a cabeça!! A muitos instalados e ministros eu proponha um tratamento de lavagem, mas a cuspe.

Rita disse...

Esta sua frase é muito interessante:

"O Estado Novo recolheu os despojos, eliminou o pior jacobinismo, cavalgou o despeito popular do interior e da tropa contra os "progressistas" do dr. Costa, e aproveitou a sementeira anti-liberal e anti-democrática da I República para instalar a sua própria."

Eu até diria que se distraiu quando a escreveu, não?

Anónimo disse...

Ó jb, temos que em distorcer o "cê" não leva cedilha e "cuspe" escreve-se cuspo. Só pra não esquecer ...

Nuno Castelo-Branco disse...

O João tem toda a razão. Afinal de contas, a II República, não foi mais que a consolidação das coisas decorrentes do golpe de Estado do 5 de Outubro. É a república organizadinha, ordeira e com muito respeitinho, com o "venerando" sem poder e cheia de importações gálicas numa primeira fase, para depois, caindo a máscara, vestir a fatiota germano-italiana enquanto foi possível. Os caceteiros e caciques do Costa, foram pressurosamente reciclados em PVDE e regedores de aldeia, e a ditadura do P.D., pela U.N. Enfim, o culto à bandeira da velha organização bombista, foi consagrado a Bem da Nação, chegando-se ao ponto de dar uma nova e pouco credível explicação destas ridículas cores de má memória. Foi no tempo do Senhor Doutor que se inaugurou a estátua do outro Senhor Doutor, o Almeida. Foi no tempo do Senhor Doutor que aqui foram recebidos os restos de D. Manuel II, mas de uma forma que não fossem permitidas grandes expansões da população "curiosa". A visita da grande rainha (Maio-Junho de 1945), foi controladíssima pela PIDE, procurando-se sempre afastá-la - embora isso se tenha revelado muito difícil - de banhos da multidão. O regresso dos Bragança foi bastante condicional e as cartas do Senhor Doutor para os "venerandos" Carmona e mais tarde Craveiro - duas reconhecidas luminárias - demonstram à saciedade as atitudes de incrível duplicidade e reserva mental. Uma vergonha." Exilados sim, mas cá dentro" , parece ter sido a política oficial.
Aqueles dois minutos no Terreiro do Paço, mataram muito mais que um rei e que um sucessor. Como diz Rui Ramos no sua excelente biografia política de D. Carlos, mataram uma certa ideia de um Portugal que caminhava sem dúvida, para uma normalização da democracia que ainda não chegou. Cem anos. Que desperdício.

VANGUARDISTA disse...

Sem qualquer pudor ou sensibilidade (atitude própria dos assassinos) a 3 curtos dias do centenário do regicídio e a 2 longos anos do centenário do assalto liberal, repúblicano, jacobino e anti-clerical, os netos, sobrinhos e afilhados (ora pós-neo-liberais, neo-laicos e neo-socialistas) dos vencedores de então preparam o novo festim, para se auto promover, auto elogiar e distribuir tachos e mordomias comemorativas.
Politica de homens vis, canalha que não sabe respeitar os vencidos e memória dos outros.
"Decreto-Lei n.º 17/2008 de 29.01.:
Cria a estrutura organizativa das Comemorações do Centenário da República e estabelece o
respectivo regime de funcionamento"

Anónimo disse...

«E pergunta o historiador [Rui Ramos]: em 2010, o que é que vamos comemorar? A ditadura da Primeira República? O fim do regime monárquico? Ou a memória do nosso modesto liberalismo?»
(Cachimbo de Marguerite)

Provavelmente, digo eu, os 50 anos do Estado Novo ...

Anónimo disse...

Este blog tem sido para mim uma autêntica agência de notícias, está sempre em cima do acontecimento. Ontem tive um duplo motivo para agradecer, porque além dos dois excelentes textos alusivos ao rei D. Carlos I, reencontrei um antigo colega da f.l.l. Embora me lembrasse que se chamava Nuno, o apelido tinha-se varrido da minha memória, mas assim que vi a fotografia, reconheci-o logo, vinte anos passados. Era o rapaz mais bonito da faculdade e embora fossemos de cursos diferentes, falámos bastantes vezes. Muito simpático e acessível, impressionava-nos sobretudo a sua extrema coragem, quando praticamente só, enfrentava as rga's controladas pelo p.c., sempre sarcástico e por vezes cómico. Numa dessas sessões gritou que daí a poucos anos a urss desapareceria, adivinhando o que aconteceu. Eu e as minhas colegas de l.l.m. não perdiamos uma rga, principalmente por causa dele. Vou continuar a ler este jornal e espero voltar a ver o nosso antigo golden boy. Beijos
Isabel Moreira, Lisboa

Nuno Castelo-Branco disse...

Já agora, percam uns minutos e cliquem o blog Esquerda Republicana, para verificarem como eles insistem nas mentirolas já velhas de mais de cem anos! É inacreditável não se calarem e aceitarem a realidade dos factos. É sempre a mesma conversa: a "ditadura" (confundindo-a com o conceito actual); a "deportação" (palavra forte,a lembrar outras coisas e que na verdade, significava apenas a colocação dos energúmenos fora das fronteiras do Reino, como fazia então a república francesa); o "cacetismo" (aqui procurando confundir a actuação policial antisubversiva com pura ausência de liberdade); etc. Um rol de calamidades de fazer chorar as pedras da calçada, e tudo isto, para justificar o injustificável, ou seja:
- a ditadura do partido "democrático"
-o início da guerra contra a igreja que mais não fez que empurrar o clero (até então controlado de facto pelo Estado), para posições mais radicais.
-violenta repressão policial e caceteira sobre o operariado (o Azedo Gneco, do verdadeiro P.S. que nada tem a ver com certas habilidades nossas coevas, lá sabia porque não interessava nada a república)
-a paranóia anti-britânica que logo se transfigurou na mais abjecta subserviência da qual nos livrámos - há que reconhecê-lo - durante o consulado de Salazar.
-a estrondosa derrota militar em todas as frentes, durante os dois anos de conflito com a Alemanha.
-o banditismo e violência generalizada que conduziram a episódios edificantes como a Leva da Morte e a Camioneta Fantasma. Como curiosidade, contabilizem-se os risonhos semblantes dos regicidas mandantes, com os corpos caídos em plena rua, vítimas da Formiga Branca apaniguada do A. Costa. São grosso modo os mesmos, o que dá vontade de dizer ..."cá se fazem"...
-liquidação da economia e colapso da distribuição dos bens de primeira necessidade, com uma galopante carestia.
-falsificação escabrosa das contas do Estado, surgindo ilusórios superavits e deixando para as calendas, o tal bacalhau a pataco, os três couraçados a encomendar à Inglaterra, os seis cruzadores a construir em Trieste (então Áustria-Hungria), e outras megalomanias do mesmo jaez.
-dúzias de governos em 16 anos. Aqui os republicanos poderão alegar que pouco tempo depois, cometeram a proeza de ter um Premier entre 1932 e 1968. Admirável façanha!
E poderiamos continuar durante horas intermináveis. Para evitar tal maçada, proponho à tal comissão organizadora dos 100 anos dos heróis dos Banhos de S. Paulo (porque era lá, enrolados em toalhas que estavam o Almeida, o Costa e os outros), que alvitre ao Parlamento:
a traNsladção (como eles insistem em dizer) - dos restos do Buiça, do Alfredo Costa e do Abel Olímpio (o famoso Dente d'Ouro) para o Panteão. Já lá está o Sidónio e o Carmona, só lá faltam os gloriosos precursores.
E se têm tantas dúvidas acerca da liberdade de expressão no tempo da "ominosa" Monarquia Constitucional, experimentem hoje dizer do venerando o que os jornais afectos ao p.r.p. propalava acerca do rei e da rainha. Havia de ser giro.
Para não dizer mais.

Nuno Castelo-Branco disse...

Para a Isabel Moreira
Peço o favor ao João Gonçalves e sem pretender transformar o Portugal dos Pequeninos num chat-room, de poder responder à Isabel Moreira as simpáticas e exageradas palavras. Assim, pode contactar-me quando quiser e combinamos um café. Bjs
Nuno (era bom que fosse, lá isso era, um, "golden-boy"...)

Anónimo disse...

Havia umas gajas que iam às rga`s para andar aos cabritos.