27.1.08

"O ASSUNTO TAMBÉM É ESTE"


1. «O Teatro de São Carlos estava cheio às 20h, no início da estreia mundial da ópera de Emmanuel Nunes. Ao intervalo, duas horas depois, as desistências eram muitas. Cerca de metade do público tinha abandonado a sala. A primeira ópera do compositor português é uma co-produção do São Carlos, da Gulbenkian, da Casa da Música e do IRCAM (instituto francês dedicado à investigação e à criação de música contemporânea). As expectativas à volta desta produção eram muitas. Encomenda ainda da direcção de Paolo Pinamonti, Das Märchen (O Conto) passou por algumas peripécias até ao dia da estreia, incluindo vários adiamentos e algumas discussões que vieram a público entre o compositor e o director do São Carlos. Lembrar este contexto e sobretudo o grande investimento institucional nesta ópera é importante para pensar o objecto estético apresentado na sexta-feira. Até porque Das Märchen pode ser vista, entre outras coisas, como uma reflexão (artística) sobre a arte e a sua autonomia. No prólogo que dá início ao espectáculo, fala-se da faculdade da "imaginação", aquela sem a qual a arte não existe. "Ela não se prende a nenhum objecto", diz o libreto. "Ela não faz quaisquer planos, não escolhe nenhum caminho", ouve-se depois. Quem escreveu estas palavras foi Goethe (1749-1832), o autor do conto original em que se baseia a ópera Das Märchen, e uma das figuras centrais do primeiro romantismo alemão. Goethe e Schiller desenharam, desde fins do século XVIII, os contornos da ideia romântica de uma arte autónoma e definiram, nesse processo, a posição do artista, as condições do "livre jogo da imaginação" e as qualidades do génio criador.Mas já não estamos no fim do século XVIII. E é natural que esta enigmática (para não dizer esotérica) ópera de Emmanuel Nunes cause alguma perplexidade. A afirmação da autonomia absoluta do artista e da sua arte independente (no modelo a que alguns chamaram "arte pela arte") em tudo é contradita pela própria natureza da produção operática, e ainda mais neste caso de Das Märchen, onde há música, dança, teatro, projecção vídeo, electrónica ao vivo, cenografia, luz, etc. Embora o nome de autor tenha o peso que se sabe, o criador de Das Märchen não é só Emmanuel Nunes. E a arte na principal sala de ópera portuguesa não está sujeita apenas ao "livre jogo da imaginação dos artistas". Depende do Estado, de patrocinadores que mexem em muito dinheiro (por exemplo o BCP) e de várias instituições culturais. Dirão que estou a fugir ao assunto. Não: o assunto também é este.»



2. «Esta obra abre novos parâmetros de autismo devido ao desfasamento total do compositor relativamente ao mundo real, o mundo do público, e à estética. A obra não é contemporânea no verdadeiro sentido, é uma obra formada de elementos oriundos dos anos cinquenta e sessenta do século XX, é uma obra sem rasgo, uma repetição sistemática de acordes e elementos seriais, uma obra sem forma, sem corpo e sem estrutura, uma obra autista e fechada, não transgressora, reaccionária. Uma desgraça que custou mais de um milhão de euros. Uma obra megalómana e mediocre que custou (entre outras coisas) o lugar a Pinamonti. Uma ofensa ao público e a quem paga impostos. Uma obra à qual se percebem os referentes, Boulez e Stockausen, mas que nem de perto se aproxima. Onde está a luminosa e genial claridade e complexidade de Licht? Onde está a qualidade da música de Boulez? Não será em "Das Märchen", uma obra condenada a cair no esquecimento, uma primeira montagem e já está, é o meu vaticínio depois de sair desta estreia. Uma obra bem inferior às do Keil e do Machado.Lamentáveis as críticas entretanto saídas nos jornais, sem se comprometerem, sem meterem as mãos na massa, são críticas empasteladas, viscosas, que serpentando quais enguias, fogem descaradamente ao assunto. Uma chega ao ponto de afirmar: "Quem escreveu estas palavras foi Goethe (1749-1832), o autor do conto original em que se baseia a ópera Das Märchen, e uma das figuras centrais do primeiro romantismo alemão" (Pedro Bolèo no "O Público"). Romantismo alemão? Goethe? Não quererá dizer antes: classicismo alemão? Por outro lado sairam da sala muito mais de metade das pessoas da assistência (número apontado pelo "O Público") que enchia o S. Carlos no início. Saíram pelo menos dois terços, com muita tolerância...»


10 comentários:

Anónimo disse...

Não sei se o sr. Boléo percebe de música dodecafónica... mas, sim, tem razão quando fala de Goethe como expoente do Romantismo alemão.

observador disse...

Não tenho cultura e conhecimentos musicais, mínimos se quer, para ajuizar quer do valor da obra quer das críticas à mesma.

Saliento só que finalmente houve uma ópera estriada.

Quanto ao resto, faço só notar a quantidade de fogutões que explodiram em terra quer aos americanos, quer ao russos, antes de conquistarem o espaço.

É certo que os russos tinham um importante estimulante cerebral, chamado Sibéria.

O Tarrafal nem para isso servia.

Bem, quero com isto dizer que, á pala dum obra menos conseguida no imediato, é mais importante não se perder o hábito de se estríarem Óperas!

Que querem sou optimista ....

peter pum disse...

Vamos lá a saber uma coisa: há alguém em Portugal que pudesse apresentar música de melhor feitura do que esta?
Importam-se de nomear quem? E não me venham com Machados e Delgados, porque isso não é começo para uma discussão séria. O que querem: a repetição até à exaustão do pior que o século XIX deixou em música? De que se queixam: da ópera continuar a insistir sempre no mesmo repertório sem melhorar significativamente as audiências?

Anónimo disse...

Ajuizar a ópera do Nunes pela quantidade de pessoas que resistiram, julgo ser um tiro nos pés para quem defende um teatro de ópera neste país!
A ópera estreada deve ser analisada pelo seu mérito ou demérito e não pela antipatia que nos cause o seu compositor. Por esse motivo nenhum de nós gostaria de Wagner ou de Beethoven!!!
Quanto ao observador, por favor deixe de pôr estrias na ópera!
Xico

António Erre disse...

Eu nem acredito no que leio!!
Por isto. Por "sermos" assim (excepto o peter pum) invejosos, maldosos, ignorantes, derrotistas, pretenciosos, estamos como estamos: no lodaçal!
Continuem a cuspir à vontade, até que alguém vos dê um correctivo!

Eu não fui ao S. Carlos, porque não posso... Ouvi em directo pela Antena 2 e fiquei muito feliz. A obra é bela e plenamente actual e vital.
Um dia, mais tarde, se ainda estiverem cá para assistir, estes "iluminados" críticos musicais, sentirão o soco no estômago, mas, nenhuma vergonha.

Deveriam ensinar nas faculdades metedologias da recepção. Digo eu!! Lol

Parabéns E. Nunes

E Goethe é romântico. E alemão. E clássico. E agora, também, português.

Anónimo disse...

Compor uma 'ópera' hoje é tão estranho como compor um poema épico de 15 mil versos heróicos... Mas há gente para tudo e também não faltam 'príncipes' dispostos a esportular a coisa com dinheiro alheio.

Anónimo disse...

Rossini não se repetiu até à exaustão?
Xico

Anónimo disse...

Eu ouvi a ópera duas vezes e não sofri com isso (talvez por praticar desporto e não deixar as articulações claudicarem).

Quem não consegue ouvir certas coisas passe ao largo e procure dedicar-se a géneros mais do seu agrado (também há quem não possa ouvir Debussy sem chorar de terror à mínima evocação de uma escala pentatónica por associar isso a chineses!).

Ninguém é obrigado a gostar de flautins mas que os há lá isso há. E só os usa quem os sabe usar. assim como o registo agudo dos cantores. Quem não gosta pode ouvir Rossini. Mas eu pago impostos e não me interessa excessivamente Rossini: tenho direito, de vez em quando, a um repertório por assim dizer "menos requentado".

Quanto ao facto de não se perceber o texto: não é isso apanágio da maioria da escrita vocal? O texto esteve neste caso presente de muitas formas.

Foi cara a produção? Foi. Mas ópera é por definição uma pluma cara no chapéu dos regimes. Não querem gastar dinheiro? Façam quartetos de cordas. Querem gastar? Então, a manter-se o São Carlos aberto, é obrigatório que parte da produção seja deste tipo: contemporânea e de qualidade. Ou então transformem-se em museu de uma forma de expressão extinta.

Não é por causa desta ópera que não se resolveram os problemas financeiros do país.

Ontem, Domingo, estava a sala bem composta.
Apesar de tudo se estou espantado é pelo facto de haver tanta gente a assistir.

A duração é excessiva? Sou capaz de concordar. Que não será a melhor obra de Nunes é quase certo. Mas curiosamente é uma obra em que se nota uma aproximação ao público e aos intérpretes (quase uma condescendência) pouco usuais neste compositor.

Quanto à encenação: o compositor nada tem a ver com ela. Foi-lhe imposta e já manifestou o seu desagrado.

Carlos F disse...

Só há duas razões essenciais para que o repertório dos teatros de ópera se tenha recentrado num número reduzido de óperas (excepção feita a Bayreuth, claro): 1) Os custos de produção; 2) o favor do público. Programa-se sobretudo com o que pode dar boa receita e permite um custo mínimo. Ponto! O resto são concessões à ideologia cultural dominante (há-as em todo o lado): les amis et les petits amis...(que rotula o que o público gosta por: óperas populares! como que o pimba da ópera)
Alguém ousa hoje pôr em cena óperas que, apesar de sempre terem tido o favor do público e poderem constituir bilheteira garantida, envolveriam custos de produção enormes, dados os meios que requereriam? Salvo o MET e o Marinsky (que, de resto, não ficam às moscas ...),quem arrisca fazer hoje superproduções como as que retratou Battaglioli, a pedido de Farinelli e Broschi? Hoje, na Europa, proliferam mesmo demasiadas leituras minimalistas (económicas, pseudo-intelectualoides) de obras do repertório comum que as desvirtuam até ao disparate e ...afastam o público. Este pode até ser pouco educado - como o português - por falta de bases, mas mantém o sentido inato de não deixar que lhe vendam gato por lebre.
Excepção feita à maior favorabilidade de custos, em que é que o repertório se recentrou? Pois é, precisamente nas obras de que se trauteavam depois, nas ruas, os excertos a que generalizadamente se aderia. O resto? Ficou para os historiadores ...
Eu, nesta temporada, mudei a minha assinatura em São Carlos pela primeira vez. Adquiri a que me permitia acesso a todos os espectáculos, excepto à obra estreante de Nunes. Não tenho pachorra!
E depois de ouvir Madame Chelsey Schill a tentar desesperadamente fazer de Gilda e na perspectiva de ter de a ouvir noutras tentativas desesperadas até ao fim da temporada, já que a tornaram (sabe Deus porquê) cantora residente de São Carlos, estou a ponderar não voltar a comprar assinatura nenhuma.
Ainda bem que existem companhias aéreas low cost!!! Se não posso ter ópera minimamente decente em São Carlos, tenho para arriscar o Real, o Liceo, o Covent, a Bastilha e o alla Scala por uns quantos euros a mais, mas sem pacovinices óbvias (se evitar as tais leituras minimalistas)e sem cantores de 5ª escolha.

a rapariga disse...

Eu estive lá.Até ao fim. Aquilo era lindo... de tampões nos ouvidos, claro... a menos que se quisesse enlouquecer...