30.5.10

FRIAMENTE

«De repente, Portugal inteiro começou a falar obsessivamente das presidenciais? Porquê? Por três razões. Primeiro, porque só depois delas se poderá resolver o verdadeiro problema político do país, que é, de facto, Sócrates. Segundo, porque tanto Cavaco como Alegre parecem vulneráveis. Terceiro, porque a eleição de Alegre mudaria profundamente o equilíbrio interno do PS e do PSD. Com Alegre em Belém à custa do PC e do Bloco, o PS tarde ou cedo acabava por ser puxado para a esquerda e por se tornar irrelevante e marginal. E, sem Cavaco no horizonte, o PSD, livre de uma geração já morta, e de resto falhada, ficaria com o caminho aberto para a direita e para uma hegemonia durável no país, principalmente se conseguisse fazer um pacto com o CDS, que no fundo nada de sério ou de profundo impede. Apesar de Presidente em exercício, uma vantagem sem preço, a fraqueza de Cavaco é óbvia. Prometeu na campanha - se ainda se lembram? - devolver Portugal ao crescimento e à prosperidade, em "cooperação estratégica" com a maioria socialista. Às quintas-feiras, como um aluno atento, recebia a orientação do mestre e, se a cumprisse, tudo voltava à ordem rapidamente. Era uma ideia catedrática da Presidência, que morreu de inoperância e ridículo. Sócrates colaborou na farsa quando lhe convinha e ignorou o resto; Cavaco assistiu inerme à pior crise económica da democracia. Pior do que isso: o PS, da lei do divórcio ao casamento de homossexuais, não contemporizou com ele e ele engoliu passivamente o que lhe serviram, para grande fúria da Igreja e do conservadorismo indígena. Estes cinco anos de pura decadência, se me permitem a palavra, deixaram um mau gosto e não o recomendam. Quanto a Manuel Alegre, manifestamente não percebeu que o projecto de juntar o PS ao Bloco (e, a seguir, ao PC) é a melhor maneira de criar uma guerra civil endémica no PS (como a do PSD) e de o eliminar por anos como partido de governo. A oratória difusa do candidato e a vacuidade programática da esquerda talvez ganhem uns votos, num país desesperado e perdido. E são com certeza um alívio para o ressentimento acumulado da "inteligência" bem-pensante. Mas não resolvem problema nenhum. Alegre, em Belém, ou se virava do avesso (coisa simplesmente impensável), ou seria sempre uma força de instabilidade e conflito. Nem ele, nem Cavaco prometem nada de bom a Portugal. A nossa desgraça é que não há outros.»

Vasco Pulido Valente, Público


Nota: A crónica de VPV é publicada na íntegra, com a devida estima por quem me ajuda a pensar há mais de trinta anos. Lamento que muitos leitores encarem estas coisas como se estivessem a ler a falecida "crónica feminina", o "24 horas" ou a tirar o pai da forca. Como presidencialista, não acompanho a desmobilização voluntária de Cavaco a favor do regime. Preferiria que se recandidatasse propondo ao país uma ruptura constitucional e um sistema de liderança presidencial inequívoco. Seria, aliás, a consequência lógica do que disse aquando do estatuto do sr. César. Todavia, Cavaco tem a crise a pairar e, por ser PR, não deixou de ser economista. Não salvará, nem ele nem ninguém, uma coisa que, pela natureza dela e das gentes, já não tem salvação. Aqueles que andam a rasgar calças, cabeções, vestidos e turbantes porque Cavaco fez ou deixou de fazer, deviam pensar - se tiverem cabeça para isso - na alternativa. Repito o desafio. Arranjem melhor dentro ou fora daquilo que imaginam que não presta, como sugere o Pereira Coutinho, ou continuem a lançar lama para a ventoínha que Sócrates agradece. Este blogue - o seu autor - apoiará a recandidatura de Cavaco se ela acontecer e quem o quiser ler assim lê, quem não quiser, não lê. Sem reverências ou respeitinho cego. Tentem, para variar, ser inteligentes nas "críticas" como o Vasco o que já é mais difícil. Porém, essa é a vantagem da liberdade de expressão. A minha, pelo menos. E não me a tiram.

17 comentários:

floribundus disse...

«o desespero
é mau conselheiro»

sócrates «caíu na contramão atrapalhando o trâfego»
dizia chico buarque

portugal está a bater com as nalgas no passeio pronto para fazer hamburgers

Garganta Funda... disse...

Um Presidente que sobressaltou todo o país numa tarde cálida de Verão por causa dumas bizantices juridicas insertas no Estatuto dos Açores e que promulgou cândidamente o aborto e o casamento gay, não merece nenhuma reeleição.

O Prof. Cavaco teve uma maioria clara à primeira volta e penso que aqueles que votaram nele (não foi o meu caso, pois não voto em eleições presidenciais, por razões de consciência, que não vêm agora ao caso) estavam esperançados em que ele fosse judiciosamente o contraponto da outra maioria alcançada em 2005 pelo Engº Sócrates.

Nestas duas matérias - aborto e casamento gay - tenho quase a impressão que 2/3 dos portugueses não aprovam, pois a sua matriz cultural e civilizacional é absolutamente contrária a essas fracturâncias burguesas e ateístas ( e que no meu entender não passam dum claro regresso às cavernas).

Já contactei com muitos cidadãos eleitores da «esquerda», quer do PS ou do PCP (principalmente deste, talvez por ser um partido com uma geografia e demografia muito específica) e quase todos eles não vêm como bons olhos essas «modernices» marteladas pelo Sr.Sócrates e séquitos próximos.

Se a maioria do povo português abomina essas garotices legais; se o Prof. Cavaco tem também uma maioria que o elegeu, por que é que ele não teve coragem de VETAR esses diplomas, já para não falar da «má moeda» que nos (des)governa?

Se lá tivesse o Rei Pasmado, será que estaríamos pior?

Não tenho dúvidas que actualmente o Prof. Cavaco vai ser um bom candidato dum certo «bloco central de interesses» instalados e de um certo centro-esquerda muito próximo do actual PS.

Aliás há já muitos socialistas - a começar por alguns cabos eleitorais - que preferem, e de longe, o Prof. Cavaco ao bardo Alegre.

Veremos...

Anónimo disse...

está a acontecer com Cavaco Silva o mesmo que aconteceu com Manuela Ferreira...a estratégia é a mesma, sem tirar nem pôr!

a aliança Socrates-Passistas continua bem viva...e apadrinhada, como aconteceu nas ultimas eleições legislativas, por Mário Soares, Cardeal Patriarca ( que foi apanhado no fogo cruzado, mas como perceptivamente entrou no jogo...)José Judice, Proênça de Carvalho, Pinto Balsemão e os Cãncios...

são sempre os mesmos...

Anónimo disse...

Esta será mais uma eleição em que se elegerá o mal menor. Tal como nos últimos 36 anos. E antes não era porque alguém, percebendo bem a raça tuga, não deixava. Isso explica tudo.

Merkwürdigliebe disse...

Ora bem.
Já o disse atrás, e Bagão Félix esteve brilhante como sempre, a deixar o Regime apunhalar-se a si próprio, e o Anacleto Louçã a ficar a falar sozinho a fazer a sua figura de imbecil. Se não há alternativas (o Regime encarregou-se disso) queriam o quê? Telenovela?

Anónimo disse...

João,

O que espera de Cavaco não vai acontecer nunca. Além de termos a amostra destes 5 anos, ele já não tem 40 nem 50, tem 70 anos! Rupturas são para os mais novos.

PC

Fado Alexandrino disse...

Um artigo e um post, que juntos constituem os dos melhores momentos da blogosfera porque não isentos mas autoritários.
Ressalve-se que ambos, seja lá porque for são pessoas amargas nunca conseguirão ver a Luz da Esperança.
Adiante.
Votarei Cavaco exactamente porque não há melhor.
E por não haver melhor resta dizer que estamos fodidos.
Peço desculpa pelo calão, é a única palavra verdadeira.

eLvira disse...

Eu acho que é muito fácil arranjar melhor. Dou mesmo uma solução: um saco cheio de areia. Dava menos despesa, não arranjava crises de pseudo escutas, não dizia asneiras, e ninguém arranjaria motivos para o criticar. E não conseguiria ajudar tanto o Sr. Sócrates.

Anónimo disse...

"De repente, Portugal inteiro começou a falar obsessivamente das presidenciais?"
De que "Portugal inteiro" é que VPV fala?
Fala dos políticos profissionais e afins?
Dos fazedores de factos políticos?
Dos seus iguais, analistas, especuladores, e fazedores de notícias, incumbidos de construir cenários enganadores, de promover delinquentes, para melhor perpetuar este sistema corrupto?
É esse o Portugal inteiro de VPV?

É que o "outro" Portugal, desprezado por VPV, não precisa do males menores, nem precisa de emplastros, com duas faces.
Precisa de ruptura com a incompetência, com a corrupção e com a injustiça.
Precisa de restaurar valores civilizacionais, básicos.
Precisa de retomar a soberania, e combater o servilismo canino, à Europa.
Com o Cavaco, que ajudou a cavar esta cova, estamos condenados.

Naturopata disse...

Garganta Funda:
V. Exª, desta vez, surpreendeu-me especialmente: no afã de atacar o Prof. Cavaco, até chama "Engº" ao aldrabão...
Olhe, para a Garganta, o remédio indicado é "Mebocaína", sabia?

Anónimo disse...

«(...)Não salvará, nem ele nem ninguém, uma coisa que, pela natureza dela e das gentes, já não tem salvação (...)».

No dia 2 de Abril de 2001, copiei de um "forum" este texto assinado por «Templier» :

- «Il n´y a pas de pistes de réflexion, ni de solution rationelle pour contrer la décadence d'une société. Déjà dans l'antiquité ce trés grand sage que fut l'empereur Marc-Aurèle, avait cru pouvoir inverser la décadence de Rome qu'il avait bien vu venir. Mais il était sans illusions. La "solution" serait plutôt de surfer sur la vague et de soutenir tous les mouvements qui précipitent la dégradation des grands systèmes afin d'arriver le vite au moment où il sera enfin possible de songer à reconstruire sur les ruines. Tant que les grands systèmes luttent pour leur survie (l'état jacobin par exemple), il n'est pas possible d'envisager les solutions de la reconstruction».

Votemos pois em Manuel Alegre, no Bloco e, recorrentemente, no PCP.
Ou não é assim ... ?

Nuno Calisto disse...

Bom post e bom comentário o do anónimo das 12:19, ao elenco só faltou o engº correia.
Só pode ser mansa a liderança que no limiar da maioria absoluta deixa o PS
tranquilo e resignado à "inevitável" regra de ouro da democracia; a alternância democrática.
Actualmente a presidência por via do seu Titular é o único órgão de soberania decente desta miserável república.

O Velho da Floresta disse...

Por essas e por outras ha muito que não voto e a maior parte das vezes que o fiz, votei, não "a favor" de um,mas "contra" o outro ou os outros. O nosso drama é ter que votar sempre num "mal",e hoje em dia nem sequer já ha males menores.Trágico.

Scaramouche disse...

Meus Caros, eu votaria sem qualquer hesitação em Ramalho Eanes, caso ele se candidatasse, o que é pouco provável.
Ramalho Eanes, já demonstrou a sua idoneidade, capacidade para lidar com biltres e traidores, e não me admiraria que o primeiro a ser escorraçado, era o falso engº psicopata e parolo com ares de intelectual.
Cps
Scaramouche

Eduardo F. disse...

Qualquer inteligência mediana deveria perceber o que o João Gonçalves aqui escreve e que eu naturalmente subscrevo. Mas a inteligência, como sabemos, está muito assimetricamente distribuída, facto que devemos ter sempre presente.

Nuno Oliveira disse...

Eu votei no Cavaco. E esperava mais dele. E ele desiludiu-me. Não me refiro a casos de escutas e afins. O único momento em que ele bateu o pé e voltou a ganhar alguns créditos (para mim) foi no Estatuto dos Açores.

Mas não é suficiente. Ele não tinha que se preocupar com as próximas eleições. Ele tinha de agir durante o tempo para o qual foi eleito. E se fosse necessário viria para a TV e os jornais todos os dias a dar entrevistas sobre a incompetência do Sócrates. Depois logo se veria quem tinha razão.

Eu abomino a incompetência. E tinha no Cavaco uma esperança de competencia neste mar de imbecis que se chamam políticos.

A minha desesperança com o país e o seu futuro é tão grande que já o abandonei.

Votem vocês...

Berlengas disse...

Garganta Funda tem razão. Votou-se no Cavaco mas, este, com os seus 50%, não soube representar quem o elegeu! Ser tanto ambíguo como pouco eloquente foram uma das características que ficaram bem patentes na personalidade de Cavaco. E a malta que voltará a votar nele -desculpem-me a expressão- mas só podem ser burros e masoquistas!