13.2.11

À ATENÇÃO DO IDEALISMO ADOLESCENTE EM MODA


«Não percebo por que razão os políticos divagam e os jornais se entusiasmam. Não chegou o delírio democrático depois da queda do muro e do colapso da URSS, para perceber que uma insurreição popular não leva forçosamente a uma democracia? Nem sequer chegou o exemplo português de que um pequeno partido, com influência ideológica e bem organizado, pode facilmente corromper os militares e tomar conta do Estado? Os manifestantes da praça Tahrir, um conjunto heterogéneo de descontentes, conseguiram de facto correr com Mubarak. Mas porque o Exército (nestas coisas, a Força Aérea e a Marinha não contam), que era o árbitro desde o primeiro momento, o abandonou. Foi o Exército que uniu a oposição e que, em última análise, tinha os meios de agir. Por muito que doa ao idealismo adolescente em moda, civis sem armas não derrubam ditaduras. Barak Obama disse logo que a "revolução" (?) do Egipto o inspirara. Também, segundo consta, inspirou a Liga Árabe, o Irão, o Hezbollah e o Hamas. Isto devia dar que pensar a Obama e à "Europa". Infelizmente não deu. Até a pobre Suíça, com a sua prudência, congelou as contas de Mubarak. Ninguém no Egipto vai agradecer à ingenuidade do Ocidente e, sobretudo, ninguém espera que eleições livres (a mezinha do costume) refaçam um regime e uma ordem civil tolerável. Em primeiro lugar, não há - e tão cedo não haverá - partidos democráticos. Em segundo lugar, há a Irmandade Muçulmana, cujo nome fala por si (apesar da mansidão que ultimamente exibiu). Em terceiro lugar, há 80 milhões de habitantes, na maioria miseráveis, dispersos por um país sem fim. No meio disto, e presumindo a mais do que provável (se não inevitável) interferência do Irão, como imaginar que se resolveria fosse o que fosse com eleições? O único resultado seria quase com certeza o alargamento e o reforço da "Irmandade Muçulmana". O Ocidente continua a persistir que a democracia ("a liberdade") é uma fórmula política. O pior é que não é - é uma forma de civilização, que mesmo na Europa levou dois séculos de conflito, interno e externo, para se impor e que exige a existência prévia de uma cultura "iluminista" (de qualquer espécie: francesa, inglesa ou alemã...) e de um Estado decididamente secular. Se o Egipto, que nunca pertenceu, nem temporariamente, ao mundo democrático se sair deste aperto com uma ditadura militar, menos brutal e menos corrupta do que a de Mubarak, já é uma sorte. Uma grande sorte.»

Vasco Pulido Valente, Público


Nota: Entretanto, o PREC egípcio já fez as primeiras vítimas. O Museu do Cairo foi vandalizado pelos "revolucionários democráticos" e desapareceram pelo menos três peças de valor inestimável fora as tradicionais peripécias da pura e estúpida destruição. Aquela gente não muda a sua natureza pelo simples facto de ter o focinho no facebook e acesso à internet. Os milhares ou milhões de manifestantes que tão túrgidos derrames têm provocado ao "ocidente" - entre nós, é ler os jornais ou os blogues para se perceber até onde pode chegar a idiotia colectiva - constituem uma sociedade que não se distingue propriamente pelo "progresso" intelectual, pelo cosmopolitismo dos costumes ou pelo respeito do "outro". A mania que se pode exportar a democracia para todo o lado (os EUA fomentam democracias e ditaduras à vez) releva da mais pura ignorância, aquela que, aos poucos, vai enterrando uma certa "ideia de ocidente" à custa da tolice multicultural.

21 comentários:

floribundus disse...

novas oportunides

12º ano para alunos que tinham o 6º e escreveram muma redacção
sobre a sua experiência de vida.

novas ditaduras com rótulo democrático

Anónimo disse...

Pessimismo e arrogância cultural transbordam dos dois textos... que pena. É por muitos pensarem assim cá e lá (ocidente e o "resto") que as coisas estagnam e não evoluem positivamente. Arautos da desgraça há em todo o lado...infelizmente.Etnocentrismo ...também. Mau.

Karocha disse...

Pois!!! JG.

Entretanto, acabou de acontecer isto,

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Internacional/Interior.aspx?content_id=1783169

Na BBC e CNN, também já vem em rodapé!!!

António Viriato disse...

VLV tem hoje uma opinião de forte lucidez perante a levoana euforia geral em torno da «revolução egípcia» e da sua «inerente promissora democracia».

Nem o exemplo do Irão de há trinta anos vale alguma coisa a esta gente maioritariamente desmiolada.

Vive-se hoje permanentemente no presente festivo e a História só serve quando corrobora os nossos mais ilusórios desejos.

Daí que as ressacas se tornem frequentes e cada vez mais dolorosas.

VPV pese o seu cinismo, por vezes irritante, acaba por ser mais útil do que a maioria acéfala e saltitante que polula a Comunicação Social.

Cáustico disse...

Também desta vez estou de acordo com VPV.
Tentar impor democracia em povos de forte ignorância, de cultura medíocre ou onde o caciquismo assentou arraiais há muito, é missão quase impossível.
E logo que desaparece a autoridade surgem o saque,as depredações. Aguardemos pelo final dos filmes dos diversos Cairos. A Europa,parva como sempre, está à espera de sapatos de defunto.

Anónimo disse...

Espanta-me a arrogância intelectual de quem, do alto de uma pretensa superioridade cultural europeia (uma superioridade que, por exemplo, a história do século passado está longe de justificar, com o seu cortejo de vergonhas e desgraças), dá sentenças sobre o que se passa no Egipto, crismando de palhaçada e outras adjectivações os acontecimentos que levaram à queda do presidente Mubarak. Arrogância intelectual, aliás, que revela mesmo alguma ignorância sobre a sociedade egípcia actual.
No que toca aos desmandos no museu do Cairo, infelizmente acontecem situações similares em todas as alterações ou sublevações da ordem pública, seja qual for a latitude, não me parecendo que sejam representativos do que se passou nos últimos dias.
Quanto a VPV, confesso que já me falta a paciência para o seu discurso recorrente, marcado por um pessimismo militante eivado de sobranceria, com uma visão cínica da vida mascarada de «realismo».
Quanto à dissolução do parlamento, não me parece de espantar. Sem comparar o incomparável, o mesmo aconteceu entre nós, quando a Assembleia Nacional e a Câmara Corporativa foram dissolvidas em 1974. Ou será que o parlamento egípcio havia resultado de eleições livres e democráticas?

Isabel disse...

Estive no Egipto, na Tunísia e na Turquia, em qualquer dos casos antes do massacre nas Twin Towers. Depois disso, teria sido incapaz de tolerar o que já então não me foi muito fácil encarar, mesmo enquanto turista:a inadmissível subalternização de tantas mulheres que vi cobertas de roupa que lhes roubava a identidade, caminhando atrás de homens vestidos à ocidental.
Na Turquia, a voz lúcida e inesquecível do guia turístico advertiu-nos, junto a Santa Sofia:
-se um dia, regressados aos vossos países, ouvirem dizer que este museu foi convertido em mesquita, chorem por nós que teremos sido tomados pelos fundamentalistas. Era um homem culto e sábio, director duma importante biblioteca e, na sua opinião, expressa sem medo, nenhuma mulher inteligente deveria ser islâmica. Explicou-nos porquê, detalhadamente.Alguns turistas portugueses pareciam não compreender, mas ele explicou ainda melhor. Acrescentou que, nas regiões onde tinham sido eleitos fundamentalistas,raparigas e rapazes já iam em autocarros separados para as Universidades e que os médicos tinham passado a fazer cirurgias de turbante na cabeça. Lamento que tanta gente patenteie a sua refinada ignorância nos media.Lamento ainda mais os jovens cibernautas egípcios que, mais do que provavelmente, se terão lançado na boca do lobo. Quanto a Obama, nunca esperei dele mais discernimento do que aquele que atribuo a Sócrates. Multiculturalismo? Vão as meninas da esquerda caviar e os activistas gay até ao Irão e sejam lá, se sobreviverem, multiculturais.

Anónimo disse...

sinm, nos museus de bagdad a tropa ocidental nem roubou nada

Anónimo disse...

Tal como no Iraque, onde houve o maior saque de sempre nos museus, com o beneplácito do exército americano, agora também, houve um assalto aos museus do Cairo, tudo isto fruto das revoluções feitas pelas netwoorks, redes sociais, CIAs e outros soldados da fortuna!

Mais um ataque à cultura universal e itemporal!

Anónimo disse...

VPV tem a vantagem de ter um grande conhecimento da história da humanidade. Isto confere-lhe a capacidade de observar a actualidade de modo realista e não pessimista como muitos afirmam.

Lendo frequentemente as últimas notícias de todo o mundo atrevo-me a "apostar" que as próximas revoluções facebookianas acontecerão a curto prazo (5 anos) em Marrocos, Argélia, Líbia, Jordânia, Síria e Irão. A médio prazo (10-20 anos), vamos ter umas agitações juvenis na China, India, Coreia do Norte, África do Sul e possivelmente Angola.
É a vida que se repete em ciclos, e é fácil agitar uma juventude numerosa com vida difícil, sem nada a perder e com acesso a informação.
E se continuarmos a viver do mesmo modo como vivemos no presente, também poderemos ter uns tempos animados por cá mais cedo do que se espera.
Vai ser um século interessante.

MRM

scriabin disse...

Tenham todos juizo, o saque não foi feito pelos manifestantees, foi feito pelos ladrões que o regime soltou das prisões. O saque só não foi maior porque muitos manifestantes se juntaram aos guardas do museu para o impedir. Que não saibam, ou não queiram, distinguir entre uns a outros, que para vocês os egipcios sejam todos iguais, inestinguíveis, é problema vosso. Vocês, que tanto elaboram sobre a "problemática" do médio oriente, do islamismo, etc, no fundo não sabem nada. Tá claro que quem aqui já foi ao Egipto e á Turquia, em viagem organizada por uma agência turística qualquer, e que lá falou com um guia ou qualquer coisa assim, faz papel de sábio veterano nestas coisas, o que é hilariante.

Fado Alexandrino disse...

Aquela gente não muda a sua natureza pelo simples facto de ter o focinho no facebook

O senhor tem frases que um dia o vâo levar a ser queimado em esfinge na Praça Luis de Camões.

Isabel disse...

Há de facto assuntos que parecem intocáveis.O fundamentalismo será certamante um deles. A esquerda caviar (e grande parte da restante), assim como sempre apoiou as ditaduras sovietóides e lhes deu cobertura ideológica, por uma questão de coerência, apoia igualmente as tiranias islamitas.O que seria hilariante, caso não fosse trágico,é que recrutem na velha Europa tantos "ingénuos" vagamente analfabetos como o anónimo das 12.43 PM. Aparentemente, esta gente também tem preconceitos contra o Turismo, mesmo quando o guia é director da biblioteca de uma grande cidade, cujo nome não refiro para salvaguarda da sua (dele) segurança.Volto a recomendar aos fãs das "revoluções " islâmicas ou aparentadas,um passeiozinho, nada turístico, de mochila às costas, desta vez pelo Egipto actual.
Se regressarem contem como foi.

Cáustico disse...

Scriabin

Diga-me, por favor, com que significado empregou a palavra inestinguíveis?

Anónimo disse...

scriabin: Obrigado pela tua visão limpa e clarificante, altamente esclarecedora, espelho de uma sabedoria imensuravel, digna de um verdadeiro génio.

Streetwarrior disse...

"" na Europa levou dois séculos de conflito, interno e externo, para se impor e que exige a existência prévia de uma cultura "iluminista" (de qualquer espécie: francesa, inglesa ou alemã...) e de um Estado decididamente secular.""

Pois, eu percebo muito bem o VPV e o seu modelo de sociedade "Illuminista " onde ele, de cima do seu poleiro, engraxa e lambe as botas, aos mesmos iluminados maçónicos e de outras ordens ditas "discretas" que por esta Europa seja ela francesa, alemã ou Inglesa, procriam graças ao seu trafico de influências.
Por isso Portugal está como está...

È o que dá falar de barriga cheia, garantida por quem ele faz favores.
É o cumulo de arrogancia e prepotencia propria dos iluminados que se julgam superiores aos comuns mortais.

Desejo o melhor para os Egípcios, que tentem construir o seu modelo de sociedade sem ficarem reféns destas organizações que pretendem construir a sua nova Babilónia...ou se calhar ele quer fazer todos acreditarem que o que aconteceu no Egipto, não foi planeado pelos iluminados que ele advoga.

Anónimo disse...

O Director da Biblioteca (que não tem nome) só deve ter existido na imaginação daquela senhora.Não me acredito,minimamente, naquela história.

scriabin disse...

Isabel, mas quem são esses da esquerda “caviar” que defendem os regimes integristas islâmicos e as suas práticas? É bom que chame os bois pelos nomes. E são tantos como os que à direita os defendem? Olhe que a esquerda do que se queixa é de ver os seus militantes serem presos e torturados nesses países. Experimente ser esquerda no Irão, ou na Arábia Saudita, por exemplo… o mais extraordinário é que muitos ainda acham que o islamismo é de esquerda... De esquerda, no Egipto, era o Nasser, que nada tinha a ver com a irmandade muçulmana, muito pelo contrário, ou o Mossadegh, do Irão, que seria imediatamente preso pela Guarda Revolucionária do Komheini, se estivesse ainda vivo nessa altura. E muitos outros, sobretudo comunistas, entretanto mortos ou exilados. Eu não conheço o tal director de biblioteca na turquia, mas não me parece que se fique especialista em coisa alguma por se falar com ele. Também nenhum estrangeiro ficaria a saber grande coisa de Portugal, se se limitasse a conversar com um director de biblioteca e a visitar mercados e monumentos da capital durante uma semana. É preciso ler muitas opiniões, de gente diferente, para se formar uma opinião,
Mas o meu comentário anterior era mesmo sobre o roubo no Museu do Cairo. O João Gonçalves, ainda não entendi porquê, acha que foram os tais "revolucionários democráticos" (suponho que os que se manifestavam na Praça Tahir), que os roubaram), quando, pelo contrário, foram muitos desses que evitaram o saque total do museu. Mas, como diria o outro, isto é tudo uma "choldra", e os egípcios, como os chineses, são todos iguais ;), sempre todos dispostos a enganar os pobres ocidentais incautos.

Anónimo disse...

scria-bin: o filho de scria. Tambem deves cheirar a chamuças...

Isabel disse...

O director de biblioteca/guia turístico, para mim inesquecível pelo seu patriotismo, era um admirador incondicional do laicismo de Ataturk. Defendia que, no seu país, o exército, na sua incondicional fidelidade aos ideais laicos e modernos do fundador da República Turca, era a maior garantia de defesa contra o perigo islamita.Hoje, obviamente, esse suporte vai sendo posto em causa pelo politicamente correcto europeu que vai exigindo a cabeça desses mesmos militares como condição para aceitar a Turquia (eventualmente) como estado-membro.Enquanto isso, a esposa do Primeiro-Ministro já vai cobrindo a cabeça...Penso que o facto de citar experiências por mim vividas não exclui leituras feitas, afirmando apenas que se conhece bem melhor um povo observando-o e ouvindo-o do que mergulhando em estudos académicos (sobretudo se brotarem da generalidade dos nossos sociólogos).Apesar de ter o hábito de me documentar bem antes de visitar um país, são os olhares, as atitudes , que mais me interpelam. Encontrei no povo turco um sentido de dignidade que não vislumbrei na Tunísia, embora não goste de generalizar.Quanto ao Egipto, não foi só uma semana que dediquei a observa-lhe os usos e costumes.Pareceu-me um país solene,onde a repressão policial e militar era omnipresente e onde constatei que, no campo, por exemplo, se vivia como há dois mil anos e, na cidade do Cairo havia quem habitasse num cemitério , a "Cidade dos Mortos". Não visei nunca esses povos em termos de esquerda ou direita. Já agora, para terminar, a esquerda caviar a que me refiro e que detesto é a portuguesa, leia-se: um certo senhor de fatinhos Armani que é fã de Kadhafi; os senhores que vociferam contra o Ocidente em geral e os EUA em particular; os meninos que inventam teorias da conspiração segundo as quais os americanos é que se auto-bombardearam nas Twin Towers ( e talvez também tenham atacado Londres, a Atocha); os senhores que sanearam Carrilho por se recusar a envergonhar-nos elegendo um fanático incendiário de bibliotecas...enfim, a repugnante comunicação social que temos e que desvaloriza a violação da jornalista americana na "praça da liberdade";os nojentos blogosféricos que emitem graçolas sobre o caso; os que lançam o anátema de extremistas de direita sobre quem denuncia os assassinos de dois intelectuais holandeses críticos do Islão...Espero ter-me feito entender, desta vez, até porque o blogue do DR. João Gonçalves não foi certamente criado para que nele exponha os meus estados de alma. Por mim, o assunto está encerrado.

Anónimo disse...

Definitivamente aquela "história" do Bibliotecário nunca existiu. Obrigado pela confirmação.