25.8.10

A SEDUTORA SITA


O livro da foto, da autoria de Leonor Figueiredo, foi lançado no dia em que Sita Valles faria 59 anos. Só hoje estará à venda nas livrarias. Sita foi militante e dirigente do PCP e da UEC, antes e depois do 25 de Abril, ao lado de gente como Zita Seabra, José Magalhães ou a "Geninha" Varela Gomes. Em 1972, Sita, com apenas 2o anos - quem é que hoje, aos 20 anos, podia ser assim ou assado a não ser genericamente idiota? - reactiva, sob a orientação de Zita Seabra, a célula da UEC na faculdade de medicina de Lisboa. Foram, além de camaradas, amigas. Teria um lado aventureiro que a ortodoxia de Zita não acompanhava. Era, nas suas palavras, uma sedutora. No 25 de Abril estava em Moscovo, no congresso do Komsomol, em representação da UEC de que viria a ser destacada dirigente até trocar a revolução doméstica - que Sita achava estar feita, aqui, pelo PC - pela angolana. Considerava-se angolana e queria partir para fazer a mítica revolução. Partiu, contra a opinião de Zita e, provavelmente, de Carlos Brito e de Cunhal com quem se reuniram para a tentar demover. E Sita foi em Julho de 1975, em pleno Prec caseiro, para não mais voltar. O resto da história, até ao seu impiedoso fuzilamento a mando do "humanista" Agostinho Neto, vem, tanto quanto foi possível recolhê-la, no livro de Leonor Figueiredo. Muita gente recusou-se a colaborar com a autora e, no PC, o assunto é, como outros, aparentemente tabu. Sita Valles, como sugeriu Zita Seabra, podia hoje estar a exercer medicina cá ou em Angola ou, mesmo, ter passado por um governo qualquer do PS ou do PSD. Não está. Jamais se saberá que história teria para contar.

Adenda: No lançamento apresentou-se-me uma "admiradora" insuspeita, a Lourdes Féria. Só lhe posso agradecer a gentileza nestes tempos sombrios em que tanta gente deixou de me "conhecer".

17 comentários:

floribundus disse...

tenho opinião diversa do Dr. Agostinho Neto. 'o António' para amigos e conhecidos que frequentavam o 'Branco e Negro' na Av. D Roma-
por ali passaram Chipenda, van Dunen, ... e muitos outros patriotas angolanos

Jorge Diniz disse...

Hoje, quando alguém faz um "disparate" (leia-se, coisa grave) e tem 20 anos, é "perdoado" sob o epíteto de "imaturo".

O que mudou em trinta anos?

É por isso que D. Sebastião (o pior Rei de Portugal) é LENDA! É também por isso que a "caniche" do Primeiro Ministro (como um dia a qualificou Herman José, com "humor", é claro) está como - e com quem - está!!

José Cipriano Catarino disse...

Caro João Gonçalves:
Raramente concordo consigo, mas posts como este, de respeito e de admiração pelo (seu) inimigo, revelam grandeza de alma, qualidade bem rara nestes tempos de mediocridade.
Parabéns pelo post.

Anónimo disse...

Agostinho Neto foi levado para Moscovo, com o fígado estragado e, segundo parece, liquidado.
O que é revelado abaixo é muito interessante por quem se interessa pela evolução histórica de Angola pós independência.




http://angolalibre.e-monsite.com/rubrique,agostinho-neto,1120057.html

Anónimo disse...

Pois. A madura, corajosa, idealista, empenhada e sedutora Sita Valles. Hoje teria 59 anos. E talvez tivesse filhos (e netos). Comparando com gente da sua exacta idade e da sua geração, como seria que teria educado os seus filhos? Seriam maduros e empenhados como ela? ou antes meros repetidores de sons primitivos como "bué", "t'á-se bem", "iá", "fixe" e "bacano"?
Impossível dizer. Comento a despropósito, não prestando muita atenção ao percurso cheio e perigoso da sua curta vida (ontem resumidamente descrito por Leonor Figueiredo ao inevitável crespo). Apenas tenho esta curiosidade mórbida de quem observa a geração mais recente, pois Jorge Diniz referia que "hoje, sob o epíteto de imaturo" tudo se perdoa (e até encoraja). Provavelmente Sita recebeu uma boa educação; provavelmente, quer tivesse recebido ou não, seria sempre ela própria com as suas qualidades pessoais e, portanto, irrepetíveis.
Talvez fosse uma mãe "libertária" e libertadora, daquelas que ajudou a produzir toda uma geração relaxada; ou talvez fosse uma educadora de palmatória de ferro na mão, com os meninos no Colégio Alemão.

Ass.: Besta Imunda

Anónimo disse...

A Catarina Eufémia,que levou um tiro por acidente e nem percebia nada de política,pois era uma pobre trabalhadora rural iletrada,tornou-se num ícone do PC.
Sobre ela se contou uma história oficial mais falsa que Judas.
Esta vítima dos camaradas,a Sitta,passa às catacumbas da História.
É assim o comunismo e o socialismo,uma aldrabice com histórias mal contadas e outras que não se podem contar.
E uns basbaques que afirmam grande admiração porque acham que quem mente e engana tão sistemáticamente é coerente.
Tristes!

Anónimo disse...

Esta pobre Sita, deve ter-se identificado com a auréola revolucionária do Che.
Fuzilada aos 26 anos pelos Camaradas ... deduz-se que nunca leu com olhos de ler a Revolução de 1789, nem a de Outubro de 1917 ... até amanhã Camarada !

Nuno Castelo-Branco disse...

Todas elas boas samaritanas, amigas do povo, idealistas, libertadoras evisionárias. Querem alguns nomes distintos?
Rosa Luxemburgo, Ana Pauker, Jiang Qing, Mme. Ceausescu, entre muitas outras. Esta queria fazer parte do grupo, mas as contas saíram-lhe ao contrário.
Gente assim, é capaz de vos condenar à morte, com a mesma ligeireza com que tiram um cigarrito do pacote. Sem pestanejar.

João Gonçalves disse...

Gosto muito de ti, Nuno, mas por vezes parece que és dedicadamente analfabeto como alguns anónimos apesar. É uma pena.

José Cipriano Catarino disse...

Sempre defendi que o respeito pelo inimigo só evidencia o nosso valor. Quem afirma, sem apresentar evidências e a coberto do anonimato, que Catarina Eufémia levou um tiro por acidente nunca deve ter olhado o inimigo nos olhos, não conhece o cheiro da pólvora, jamais seria capaz de morrer por uma ideia, certa ou errada -- a cada um o seu ponto de vista. Para que o anónimo saiba, a pide matava, a GNR matava, talvez com mais raiva, até a PSP atirava a matar sobre qualquer "subversivo". Eu estive lá e enojam-me aqueles que querem rescrever s História, negando as suas evidências.

Anónimo disse...

É isso mesmo, J. Catarino. Há sempre cães a morder nas canelas de quem tem alguma verticalidade e, então, após a morte... Especular sobre o que a Sita "poderia" ter feito? Que baixeza! Poderia estar errada no contexto em que agiu em Angola, abandonou o PCP para ser militante do MPLA, achou que estava no caminho certo da revolução e foi morta por isso. Haja respeito!

Anónimo disse...

Pois,Kamarada.E o comunismo não matava? E não mata?
Milhões!
E torturou outros tantos.
Comparar a PIDE com o KGB,a STASI ou qualquer outra excrescência comunista é uma farsa para parolos.

O distinto é capaz de afirmar que a Catarina tinha alguma ideologia política ou sequer tinha algum conceito de política?
Nem venha com anonimatos como argumento.
As mentiras do comunismo são a essência dessa mistificação para a conquista do poder.
stalines e Hitlers estão bem uns para os outros,aliás,foram aliados.

Anónimo disse...

Nunca gostei de gente de convicções febris e não teria gostado nunca de Sita Valles . A barbárie do seu fuzilamento é a expressão miserável dos trilhos que escolhera percorrer e da ingenuidade da sua juventude ... fodeu-se. Que descanse em Sossego.

Nuno Castelo-Branco disse...

Posso ser analfabeto, mas não disse mentira alguma. Hoje em dia, o analfabetismo é uma comodidade?

José Cipriano Catarino disse...

1. O ser humano mata. Há milhares de anos, por causas, interesses, pátrias. Mata. Massacra. Faz pirâmides com cabeças.
2. O facto de outros, com causas opostas, matarem, não significa que a pide e as polícias não tenham matado.
3. Reconheço que as escalas do morticínio são diferentes. Até na morte somos menos competentes que, por exemplo, os nazis. (Esqueceu-se deles?)
4. Nunca afirmei que Catarina fosse militante do PC ou tivesse forte consciência política. Tinha fome e estava lá, na luta. Por isso o tenente da GNR a assassinou cobardemente.
5. Tive camaradas, com C e não com K, na tropa e também fora dela. Não me assusta qualquer insinuação que queira veicular com a palavra.
6. Não tendo a pretensão de querer ter a última palavra, por mim é tudo. O meu primeiro comentário apenas pretendia mostrar a minha admiração pelo autor do blogue, capaz de elogiar alguns que estão nos antípodas da sua ideologia. Afinal, o valor de um homem mede-se pelo dos seus inimigos, não é? E nada mais tenho a dizer.

Anónimo disse...

Olha, tem piada, passou anteontem o aniversário do massacre de São Bartolomeu, em França, abençoado pelo Papa, em que foram massacrados, em Paris, dezenas de milhares de huguenotes...

Anónimo disse...

Sita era uma grande mulher, com um intelecto e um carácter muito acima da média da UEC dos anos 70. Conheci-a através do irmão, meu colega. Lembro-me de dançar com ela um tango numa festa do MDP no Pavilhão Carlos Lopes aí pela Abril ou Maio de 1975, pouco antes da sua partida para Angola e para a morte no vórtice do golpe falhado de 1977. Foi uma repressão cruel, de tipo estalinista, em que foram executados 30.000 angolanos, unidades inteiras das FAPLA foram abatidas com balas na nuca nas praias de Luanda à noite. A história negra do comunismo relata milhentas destas estórias... o comunista é o pior inimigo do comunista. Sita foi apenas mais um trágico exemplo da embrieguez ideológica e de uma época de demência na procura de um absoluto utópico. Mas toca-nos mais pela sua proximidade. RIP Sita Valles.
Euroliberal