28.2.05

A MÃO ESQUERDA DE DEUS

Vários plumitivos, numa bizarra confluência de gente dita de "esquerda" com gente dita de "direita", entre os quais se incluem - outros virão em breve - autores de blogues, já partiram em busca do candidato da "esquerda" para Janeiro de 2006. Embalados pelos resultados de 20 de Fevereiro, mas ao mesmo tempo receosos das suas consequências "presidenciais", estes filantropos andam, há já uma semana, profundamente empenhados em zurzir Cavaco Silva mesmo antes - sobretudo antes - de ele abrir a boca. No espaço de apenas uma semana, por exemplo, Mário Soares, em três intervenções distintas, não falou de outra coisa. Noutro registo, Clara Ferreira Alves, a intelectual "santanista" de "esquerda" ou o "historiador" Rui Ramos, à "direita", também se espremeram contra a hipótese "cavaquista". A que se deve então este prematuro e nada original vendaval anti-Cavaco? Ele só existe porque as eleições presidenciais têm como principal e incontornável "pano de fundo" a eventualidade e as potencialidades da candidatura "natural" de Cavaco Silva. E porque, do outro lado, por enquanto apenas está um nada vagamente prometedor. Esse nada é encimado por António Guterres, alguém que aos olhos destes pioneiros não representa a "esquerda". Quando muito, a "não-direita", o que é manifestamente pouco para a célebre soma dos 59%. Contudo, é notório que Guterres anda a ser "testado", embora o seu ar envergonhado de "peço-desculpa-por-qualquer-coisinha" não seja propriamente um estímulo para uma ambição presidencial. Por outro lado, o eleitorado que "fugiu" do PSD para a maioria absoluta do PS também "sabe quem é" António Guterres. E nas "agendas" das outras "esquerdas" dificilmente o seu nome constará expontaneamente ou em primeiro lugar. Este alegre frenesim anti-Cavaco justifica-se, pois, pela necessidade de sublimar este desiquilíbrio paradoxal gerado pelos resultados de 20 de Fevereiro, incapaz, para já, de promover uma "candidatura" aceitável pela "nova maioria". Não a do PS - que é insuficientemente homogénea para eleger um presidente -, mas pela "outra".

MITTERRAND

É hoje posto à venda em França o livro de Mazarine Pingeot, Bouche Cousue (Editions Julliard), a "memória" da filha "ilegítima" de Mitterrand sobre seu pai. Existe uma vasta bibliografia "mitterrandista" plenamente justificada pela qualidade do objecto de estudo. Com a malícia soberana que o caracterizava, Mitterrand dizia que era o "último Presidente": "depois de mim só haverá administradores". Em parte não deixa de ter razão, da mesma forma que outros desparecidos ou retirados líderes mundiais podiam dizer o mesmo. De facto, os últimos anos têm sido caracterizados pela emergência de criaturas incaracterísticas nas cenas políticas domésticas e mundial. A ascensão do "homem médio" a lugares de destaque não trouxe mais felicidade ao universo. Pelo contrário, banalizou-se o ataque às elites e os povos passaram a estar entregues, de uma maneira geral, à mais confrangedora trivialidade. Mitterrand, um homem da "esquerda", com uma história pessoal e política suficentemente ambígua para ser grandiosa, constitui um dos últimos avatares da política com densidade. A recente descida de Bush à Europa foi uma excelente ocasião para tornar mediaticamente evidente a "qualidade" efectiva dos "produtos" actualmente em uso. A longevidade política de um Blair, por exemplo, já praticamente se confunde com uma sossegada carreira na função pública, feita de compromissos, de amabilidades inócuas e da ausência de melhores alternativas. Ou que dizer da colocação, pela mão dos actuais dirigentes europeus, de um "cinzentão" como Durão Barroso à frente da Comissão Europeia? De Chirac nem vale a pena falar. Por tudo isto, recorrer hoje à memória de Mitterrand pode parecer pura arqueologia política. Não por causa dele, mas essencialmente porque os mais jovens, sem o suspeitarem ou sequer se interessarem, mereciam e precisavam de dirigentes à altura dele. Nas suas contradições, no seu projecto de poder e no seu exercício, Mitterrand não pode deixar de ser uma enorme referência. Depois dele e de outros como ele, como diria Pessoa, faltará sempre qualquer coisa.

27.2.05

LER OS OUTROS

O texto de Gabriel Silva no Blasfémias sobre o desaparecimento do fundador da Amnistia Internacional, Thank you.

TRABALHAR EM CASA

A SIC passou uma reportagem acerca dos juízes conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça. Por estes dias, as venerandas criaturas vão eleger o seu presidente, a "quarta figura" do Estado português. Quem prestou atenção à peça televisiva, há-de ter reparado que tudo se passava entre o eixo Santa Apolónia-Praça do Comércio, ou seja, no meio da rua. É verdade. Os nossos conselheiros - para quem não saiba - são quase todos oriundos do "centro" e do "norte" do país. Parece que só da solene Coimbra para cima se está efectivamente à altura da gravidade da função. Como tal, estes homens viajam interminavelmente de comboio onde, aliás, são facilmente reconhecidos pelas "conversas" - sempre as mesmas - que mantém entre si. Para além disso, trabalham em casa. Nada como o recato e o silêncio do lar para decidir definitivamente da vida de qualquer um. Na reportagem, foram todos "apanhados" a sair do comboio para uma amável carrinha que os conduz até ao Supremo para a reunião, presumo que semanal. Não imagino o que terão pensado desta reportagem os trabalhadores por conta de outrem que se têm de levantar às seis, sete ou, como alguma generosidade, às oito da manhã para irem ocupar o seu posto de trabalho. Porventura a maior parte ignorará que é do "trabalho de casa" daqueles senhores que tantas vezes sai o "destino" das suas vidas. A magistratura, apesar de existir para "dizer o direito", isto é, aquilo que "deve ser" numa banal situação da "vida material", tem o seu limbo muito próprio. Tudo, afinal, se pode decidir no quentinho do lar ou num corredor do "Alfa Pendular". Se eu, por exemplo, quiser ficar em casa a fazer um relatório ou mesmo a pensar- já que também sou jurista, servidor da "causa pública" e pago para "pensar"-, acontece que... não posso ficar. Seria, no mínimo, considerado uma extravagância. Pois é. Quando eu for grande também quero ser conselheiro.

MUDAR DE VIDA...

... um lema assumidamente egoísta para os próximos tempos, ao som e à letra do saudoso iconoclasta António Variações, "revisto" e revivido pelos Humanos em disco. Estou mais velho mas ainda não estou acabado.

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de
Mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens...que ser
assim?...

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de
mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser
assim?...

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de
mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar
"



CRIME E CASTIGO

Ouvi no carro - "apanha-se" muita coisa em viagem - que o dr. Santana Lopes solicitou ao conselho de jurisdição nacional do PSD que "clarificasse" doutrina sobre o "comportamento" de militantes que terão "atacado" o partido na última campanha. Em "Clarificar Doutrina", o Bloguítica é mais específico e diz praticamente tudo. Santana Lopes pertence ao vasto grupo daquelas pessoas cegas, surdas e mudas à realidade. É uma espécie de primário que não aprende nem esquece nada. Passa a vida em revolta com um mundo imaginário que não compreende a grandiosidade do seu umbigo. As nódoas políticas e humanas que colocou à sua volta completam este exercício narcísico totalmente vazio. O conselho de jurisdição nacional devia antes firmar "doutrina" que impedisse futuramente a ascensão partidária de gente como esta. Ao mesmo tempo podia meditar acerca do que aconteceu ao partido precisamente por causa desta gente. Se Lopes e a sua patética corte se olharem ao espelho, vão rapidamente descobrir quem verdadeiramente "atacou" o partido e o diminuiu. Do lado deles está o "crime" e o "castigo". Nada mais.

26.2.05

25.2.05

CESÁRIO VERDE (1855-1886)



Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!

LEONOR

Leonor Beleza propôs Manuela. Por que é que ninguém propôe Leonor?

BLOGS FOR THE BOYS

Em certa medida, a "blogosfera" foi um dos vencedores das eleições de 20 de Fevereiro. Pela independência crítica, pela iconoclastia, pela ousadia e - por que não reafirmá-lo? - pelo combate dado ao horrível movimento crepuscular da coligação agora de saída. Por isso, vai ser muito interessante acompanhar os próximos tempos. Quem ficará por cá? Quem estará de saída? Quem é que fica embora mudando discretamente de "registo"? Em suma, quem é que se consegue manter fiel à sua matriz original? Os primeiros sinais de resposta já andam por aí. É só saber ler nas linhas certas. E nas entrelinhas.

UM NOME

O Paulo Gorjão lembrou-se de António Mega Ferreira para candidato do PS à Câmara de Lisboa. Em parte tem razão. A par com os indiscutíveis méritos intelectuais que possui, Mega Ferreira, o ex-soba Expo98, tem um currículo político suficentemente versátil para abarcar tamanha empresa. Esteve na "maré alta" do PRD e foi um distinto membro do ZAP, a gloriosa comissão "Zenha à Presidência" dos idos de 1985/86. Sabe ler e escrever bem. Porventura serve.

O PERDEDOR

Até à Figueira da Foz e, em parte, até Lisboa, Pedro Santana Lopes podia ser encarado como uma personagem vagamente romântica da banda desenhada a quem o audiovisual acabou por dar vida e transformar em película colorida. Nada de substancial justificava a repulsa excessiva perante a figura. E o lado "aventureiro" ou "desassombrado" da criatura era prometedor, "diferente". As suas vitórias autárquicas repousaram mais sobre essa “forma” do que propriamente sobre uma substância política qualquer. A sucessão de secretaria propiciada por Barroso, e inicialmente acarinhada por Sampaio, permitiu evidenciar a improbabilidade mais gravemente danosa destes 30 anos de democracia. Os seis meses trapalhões em São Bento e uma campanha eleitoral tão ou mais errática do que a infeliz governação, permitiram que Santana Lopes, o "menino-guerreiro", chegasse a 20 de Fevereiro com um passivo letal. Finalmente a substância, ou a falta dela, venceu definitivamente a forma. Nesse dia os portugueses disseram a Santana Lopes que sabiam perfeitamente quem ele era. Aparentemente ainda está a fazer-se de desentendido e acha que a pátria, no fundo, suspira por ele. A sua mitomania arrastou um grande partido nacional para uma derrota profunda e para a desonra. O "cabo eleitoral", o "gladiador" incontornável, o "ganhador" em combate é, aos olhos da maioria e das poucas formas de vida inteligente que subsistem no PSD, aquilo que ele é: um perdedor. Até no jargão que lhe era politicamente mais caro, Santana Lopes perdeu. A "maioria, o governo e o presidente", com que tanto gosta de encher a boca, entregou-os de bandeja aos "outros", os famosos "eles" que tanto insultou na campanha sem perceber que estava, na realidade, a insultar a inteligência do eleitorado. A circunstância de não se ter demitido da liderança do partido e de persistir na vertigem suicidária, ajudam a moldar-lhe um pouco mais o carácter. O congresso extraordinário do PSD vai ter de escolher entre um perdedor e o futuro. O país, felizmente, já escolheu.


Três notas:


1. Este texto foi escrito na manhã de terça-feira passada para as Independências do jornal O Independente. À tarde, sabia-se que Santana Lopes não se recandidatava à liderança do PSD. Contudo, tudo no seu propósito denuncia que terá sempre "uma palavra" a dizer, mais tarde ou mais cedo. Menezes é apenas uma clonagem primitiva para "aplanar" o caminho. E não só.
2. Num artigo na revista Visão, Mário Soares deu de novo voz à sua reciclada "ternura" por Santana Lopes, ali apodado de "combativo" e de "corajoso", provavelmente interessado em "saltar" para uma candidatura presidencial. Eu imagino o jeito que dava, de facto, uma candidatura de Santana Lopes! Menezes, convencido da sua "dimensão" nacional, acha que o país todo já sabe quem é que ele quer em Belém, Marcelo. Esta conjugação involuntária de esforços aparentemente tão diversos para evitar a candidatura de Cavaco Silva, com os argumentos mais extravagantes, vai ser interessante de seguir. E isto ainda não é nada.
3. Na noite de 20 de Fevereiro houve outro perdedor, o dr. Portas. Não tenho a certeza que ele aguente o acto de dignidade dessa noite. O que se está a assistir no PP é uma espécie de tragicomédia, uma vez mais manipulada pelo mesmo one man show de sempre. E a prova de que o actual CDS/PP é uma criação inteiramente privada do dr. Portas que, sem ele, nada é. Por isso, a ele quer voltar. E ele, se calhar, também.

24.2.05

UM LIVRO

Este livrinho de Jean D'Ormesson passa por ser um livro de memórias. Original, fragmentado, pedaços da "vida material" e da intensa vida intelectual do autor, breves recordações, alguns "heróis", C'était bien pode ser lido ao acaso. É uma reflexão, por vezes irónica e desencantada, sobre a vida e sobre um mundo que ainda nos está próximo na sua -já- infinita distância. Nous n'avons plus de héros, nous n'avons plus de maîtres. Nous avons remplacé la surprise par la fatigue et l'admiration par le ricanement.

UM LOUVOR

Não é habitual neste blogue "dizer-se bem". Soube, no entanto, pela revista Visão, que o procurador-geral adjunto António Rodrigues Maximiano deixou a direcção da Inspecção Geral da Administração Interna. O "silêncio" do estranho dr. Sanches, o ainda ministro, quanto à renovação da comissão de serviço daquele magistrado, terá levado Maximiano a "juntar" os anos todos que dedicou ao serviço público e a partir. Não é meu costume falar aqui da minha pessoa, mas quero deixar uma palavra de agradecimento. Devo ao dr. Rodrigues Maximiano, apesar de algumas naturais divergências de circunstância, os melhores anos da minha vida profissional e a gratidão do privilégio de com ele ter colaborado nos primeiros e fabulosos anos da construção da IGAI. Rodrigues Maximiano pôs de pé uma estrutura do Estado português responsável, entre outras missões, pelo controlo da actividade policial e pela salvaguarda dos direitos de cidadania. A IGAI - agora que tanto se fala da "reforma da administração pública" - é um bom exemplo de como um organismo público pode simultaneamente servir com inteligência, eficácia e sentido de oportunidade os cidadãos e funcionar de uma forma flexível, aberta, criteriosa, "não sovietizada" e não burocratizada, inteiramente ao arrepio da maneira como a maior parte das instituições públicas funcionam.

RASGO

José Sócrates tem agora formalmente a incumbência de formar um governo. O resultado que obteve liberta-o dos constrangimentos paroquiais e da "angústia da influência". Sócrates tem, pois, o dever indeclinável e indesculpável de formar um bom governo. Deverá recolher no seu partido as pessoas com passado, presente e futuro que intuam politicamente o que vai estar verdadeiramente em causa nos próximos tempos. Pessoas que se adaptem e promovam um registo de não-facilidade e de realismo. Homens e mulheres sérios que dediquem o melhor do seu esforço à causa pública, sem estarem constantemente a pensar no ganho caciqueiro imediato. Também deve recolher o contributo de não-socialistas empenhados em fazer as coisas de modo diferente, disponíveis - e não meros oportunistas de circunstância - para ajudar a fazer sair o país da decepção, do atoleiro e da mediocridade em que a coligação do "tempo novo" nos enfiou. Sócrates inicia hoje uma "vida nova" com a noção certa de que "já não temos mais começos". O "tempo longo" de que Sócrates dispôe exige soluções maduras, responsáveis e "anti-depressivas". No fundo, aquilo a que Mário Soares chama um "governo de salvação nacional". Só lhe posso desejar rasgo, já que o rasgo que Sócrates mostrar nestes primeiros dias é a nossa "sorte" para os próximos tempos.

23.2.05

LER OS OUTROS

1.No Crítico, "O Paradoxo", uma curiosa contabilidade dos resultados eleitorais, e "Memória e Paralelismos", sobre as venturas da "esquerda". E no Random Precision, "Vae Victis", acerca de "derrotados".
2. No Público, "O Fio do Horizonte" de E. Prado Coelho, "E agora?".

O "POVO DE ESQUERDA"

Estive a ouvir atentamente o dr. Mário Soares na sua prestação mensal na Sociedade Aberta, da SIC Notícias. Gravada antes do anúncio da retirada de Santana Lopes da liderança do PSD, importa analisar algumas observações do "velho leão" (estão hoje, em síntese, no Jornal de Notícias). Desde logo - e bem - Soares identificou os três derrotados da eleição legislativa: Barroso, Santana e Portas, por esta ordem. Depois veio o elogio ao "povo de esquerda" e à votação alcançada pelas "esquerdas", coisa que, na opinião de Soares, não deve ser negligenciada por Sócrates. Afastou ainda este de qualquer conotação "maléfica" com o "new labour" de Blair, afirmando a "continuidade" do PS "histórico". Apesar da crítica a Santana Lopes, Soares não deixou de salientar e de "acarinhar" alguns traços da sua personalidade e, sobretudo, de "puxar" pela hipótese de ele se "bater" no partido, tentando eventualmente uma candidatura a Belém. Como consequência disto e da épica emergência do "povo de esquerda" - tudo "somado" 59%, o que é diferente de "junto" -, Soares chegou à mensagem fundamental que lhe interessava "passar": Cavaco Silva tem muitas dificuldades para ser candidato presidencial. Com o imenso respeito que Soares sempre me merece, eu percebo que ele seja o primeiro a vir "puxar a brasa à sua sardinha", mesmo utilizando um argumentário curioso. Em primeiro lugar, se é verdade que foi o "povo de esquerda" que deu a vitória ao PS, não foi este quem lhe conferiu a maioria absoluta. Eu também não gosto do termo, mas foi o "povo do centro", ao castigar o PSD, que se "desviou" para Sócrates, ajudando ao célebre "conseguimos" paroquial. Eu, pelo menos, não me revejo no "povo de esquerda". Em segundo lugar, cada "esquerda" tem a sua agenda própria e não é certo que o PS se venha a associar às outras agendas ou, mesmo, que Sócrates esteja interessado nessa associação, já que dispôe de maioria absoluta. Cada "desvio", para um lado ou para o outro, será sempre imperdoável. Tem Soares, no entanto, razão quanto à questão Cavaco. A sua eventual candidatura não está facilitada. No entanto - e foi esse "sinal" que Soares quis deixar - continua a ser não apenas verosímil como potencialmente "ameaçadora". A não ser assim, que sentido faria a referência ambígua à hipótese Santana, aos seus "talentos e ao seu "renascimento diário"? Soares, como se costuma dizer, não brinca em serviço. Esta elegante manobra de dissuasão dirigida a Cavaco, a par com o discreto "colo" fornecido a um Santana em fim de festa, não é inocente. Porém, tudo isto só será interessante se Cavaco quiser ser candidato e se apresentar o mais rapidamente possível. Caso contrário, Soares poderá dormir descansado. Ele e o seu sempre glorioso "povo de esquerda".

22.2.05

ADEUS...

... e até ao meu [dele] regresso.

FACTO CONSUMADO

Sejamos claros, meu caro José Pacheco Pereira. Já não tenho nada a ver com o PSD, mas gostava de ter a ver com a candidatura presidencial de Cavaco Silva. Sejamos, pois, claros. Os resultados das eleições legislativas, ao contrário do que poderia parecer, e mesmo a eventual remoção de Santana Lopes, não facilitam o lançamento dessa candidatura. A circunstância de o interessado poder estar em casa a fazer contas aos votos e "à espera que passe" também não o ajuda nada. Dito isto, julgo que Cavaco deve anunciar o propósito de ser candidato antes do congresso extraordinário do PSD. A balbúrdia que aí vem seria forçosamente aplacada por esse acto. E o congresso estaria perante um facto consumado irreversível, determinante para o PSD poder "arrumar" as ideias e, sobretudo, as pessoas. Um candidato presidencial vencedor não espera por um partido. Caso contrário, penso que mais vale estar quieto.

LATA

"É preciso alguma renovação", diz este. Menezes não se enxerga e, já agora, também se "disponibiliza" para liderar o PSD. Alguém, no seu estado normal, acredita na "renovação" com criaturas destas, enjoativas e untuosas? É preciso, afinal, ter lata. A este ritmo e com esta gente, qualquer dia até a abelha Maia quer ser candidata.

LER OS OUTROS

... o excelente "O nome e a coisa", de Pedro Magalhães no Público (link indisponível).

21.2.05

MANUELA

Numa outra minha encarnação, fiz parte de uma lista para a assembleia metropolitana de Lisboa do PSD, cuja candidata a presidente da distrital respectiva era Manuela Ferreira Leite. Ganhámos. Tenho a maior consideração intelectual e pessoal por Ferreira Leite. Nunca me pareceu, no entanto, que fosse uma boa escolha para presidente do grupo parlamentar - como foi -, nem julgo que seja uma boa aposta para a liderança agora. Ferreira Leite percebe de "intendência", não é uma "política". O PSD precisa de um fortíssimo "antídoto" político anti-populista e não de quem sabe, e bem, fazer contas.

VER

... António Palolo "posted" no Para lá de Bagdade. Um dos mais belos livros de poesia de Joaquim Manuel Magalhães, de que ele se "desfez" mais tarde, tinha este título. Os poemas que entendeu guardar ficaram neste livro, Consequência do Lugar, da Relógio D'Água.



O MAL QUE FICA POR BEM

Este ontem via Cavaco a chegar ao BE, mas já começou a "manobrar". É um dos piores exemplos do caciquismo partidário e autárquico. Convinha que os membros das distritais do PSD que ainda possuem uma réstia de carácter, se dessem ao trabalho de ler com atenção e em detalhe os resultados da eleição de 20 de Fevereiro. E, depois, que a maior parte deles se demitisse. O grupo parlamentar eleito é outra dor de cabeça para descobrir formas de vida inteligente lá dentro . Em tese, Santana Lopes pode manipular esta conjunto de bonzos e de derrotados oportunistas por ele escolhidos. No conselho nacional, agora que o poder se foi, alguns começarão a torcer o nariz. E Lopes quer chegar ao congresso com as costas em chaga das "novas" facadas. Lá fará o costumado número circense, aumentando a sua privada lista negra. A eleição de delegados passa, por isso, a ser um acto fundamental para o futuro próximo do PSD, já que me parece não ser possível recorrer imediatamente a "directas", como deveria acontecer. Até lá - e vistas as coisas pelo lado da nova maioria - Santana Lopes é um mal que fica por bem.

POR QUE SERÁ?

... que eu não estou tão "entusiasmado" como devia? Será que não "mudei"? Será por me ocorrer a frase de Steiner, we have no more beginnings? Será por andar a reler o Cioran que recomenda bordéis e visitas a cemitérios em tempos de "crise" interior? Será por andar meio coxo? Será por não ser nem "amigo" nem "camarada"? Será por ser um mero cidadão, independente no voto e no discernimento? Será por a falta de vergonha continuar impunemente solta na Lapa? Será por recear os "patos-bravos" que vão inevitavelmente aparecer? Será por detestar segundas-feiras? Será, afinal, que continuo o mesmo pessimista, que é, como dizem os russos, um optimista bem informado? Por que será?

MORAL DAS HISTÓRIAS

1. Quem se lembra das manifestações de rua na sequência de actos eleitorais significativos, deve olhar para as "comemorações" em curso com complacência. E - nunca é de demais lembrá-lo - este acto eleitoral era realmente significativo. Até Marcelo Rebelo de Sousa esteve "murcho", provavelmente a ensaiar um registo "mais sério" na RTP. A primeira vez que o PS chega à ambicionada maioria absoluta, até aqui um exclusivo de outros, não me parece que tenha sido celebrada folcloricamente. Isto é um duplo sinal. O primeiro, menos auspicioso para o PS, significa que a "maioria silenciosa" que deu a vitória a Sócrates pertence mais ao "centro" circunspecto do que propriamente à "esquerda", a "moderna" ou a mais antiga. Um "centro" que muito claramente rejeitou Santana Lopes e que confiou, por ora, em Sócrates. A subida dos outros partidos de "esquerda" demonstra isto mesmo. O segundo sinal, mais positivo, decorre da forma civilizada e tranquila como a cidadania recebe as mudanças. Tirando os militantes naturalmente entusiasmados, não se deu particularmente por panelas a bater nas varandas e por carros a buzinar histericamente pelas ruas. O que espera a governação do PS em maioria é algo demasiado sério para se compadecer com carnavais serôdios ou enquistamentos partidários desajustados.
2. Santana Lopes continuou igual a si próprio. Persiste em conduzir alegremente o PSD um pouco mais para o abismo. O lance do congresso extraordinário deixou no ar aquele maravilhoso perfume de ambiguidade que é a essência do homem. É óbvio que ele quer o congresso para se recandidatar à liderança e, eventualmente, tentar Belém. O que ele não quer decididamente é Cavaco. O PSD só precisa entender que, a partir de agora, os melhores aliados de Santana estão fora do partido e no pequeno clã de estimação do "santanismo", numa oportunista aliança. Basta perguntar simplesmente a quem é que realmente interessa a permanência de Lopes à frente do PSD e a sua irrelevância como grande partido nacional. Se Santana não tiver o acesso a tempo, que o congresso faça pois o favor de o remover. Não há desculpas. Já sabem quem ele é: um perdedor.
3. Paulo Portas, por uma vez, esteve à altura daquilo que lhe aconteceu.
4. A outra "esquerda" não promete vida fácil a José Sócrates. Não é correcto "somar" as "esquerdas". O PS não ganhou por desbravar território à esquerda, relembro-o. Isso faz toda a diferença.
5. Cavaco Silva tem, a partir de hoje, e se quiser, um papel federador e nacional incontornável. Que não cabe, obviamente, num qualquer recinto de congresso partidário.

20.2.05

O "PROGRESSO"

"Vous niez le progrès? Cioran: Je nie le progrès. Je vais vous raconter une anecdote qui est plus qu'une anecdote. C'est ici, pas loin de chez moi, qu'on a écrit le premier et le meilleur livre sur le progrès. Pendant la Terreur c'est ici que Condorcet s'est caché et qu'il a écrit son livre Esquisse d'un tableau des progrès de l'esprit humain, la théorie du progrès, la première théorie claire et militante de l'idée de progrès; c'était en 1794. Il savait qu'il était recherché, il a quitté sa pension de famille et il s'est réfugié dans un faubourg de Paris. Des gens l'ont reconnu dans un bistrot, ils lont dénoncé - et il s'est suicidé. Et ce livre est la bible de l'optimisme."
(Cioran, Entretiens, Arcades, Gallimard)

VOTAR

Votar. Votar contra a esquizofrenia que se apoderou da vida política portuguesa. Votar contra estes três anos de falsa mudança. Votar contra os "tempos novos" precocemente envelhecidos. Votar contra a demagogia populista. Votar contra a mediocridade instalada. Votar contra os dependentes. E sobretudo não votar por piedade. Não votar por causa da camisola ou da "lingerie". Não votar a pensar em "ajudar". Não votar na hipocrisia e na beatitude cínica dos dissimulados. Não votar no mesmo do lado apenas porque parece mais "certinho". Votar, sim. Votar por uma maioria de exigência e de responsabilidade. Absolutamente responsável. Para mais tarde, se for necessário, votar contra ela.

19.2.05

O QUE DIZ MARCELO

No dia 1 de Janeiro, neste blogue, ilustrei o começo do ano com "quatro rostos para 2005". Dois desses rostos entram definitivamente em cena amanhã. José Sócrates será primeiro-ministro e Marcelo Rebelo de Sousa regressa, na RTP, ao comentário político e à política. Enquanto Sócrates estiver entretido a formar governo - ontem, numa rápida entrevista na televisão, disse que não há lugar para "regressos ao passado" -, o "país político" vai, de novo, virar-se para o PSD. Uma maioria absoluta do adversário não deixa grande margem de manobra para um líder de um partido fisiologicamente governamentalista, de poder. Amanhã à noite, uma horrível sensação de orfandade vai invadir "a razão e o coração" - dois registos caros a Santana Lopes, particularmente o último - de milhares de "dependentes" espalhados pelo partido e pelas sinecuras, as do Estado e as outras. Por mais "humano" que Lopes se apresente, a factura chegará inevitavelmente. Santana e o seu mito ruírão estrondosamente pela força do voto. Como fez questão de salientar, os portugueses vão-lhe demonstrar que sabem realmente quem ele é. Até à Figueira e, em parte, até Lisboa, a coisa andava entre a promessa e a aventura. Depois, graças a Barroso e a Sampaio, Santana Lopes revelou-se uma horrível certeza. O PSD não deverá aceitar mais "experimentalismos" desta natureza. Por isso, a noite das eleições, vista a partir da RTP, tem um interesse redobrado. Marcelo "comenta". Mas, mais importante que o comentário, é o que diz Marcelo.

18.2.05

NÃO HÁ PACHORRA...

... para este.

O LIMBO

Sejamos claros, como diria o Paulo Gorjão. Ninguém com dois dedos de testa acha que esta campanha serviu para alguma coisa. Espremam-se os debates, os relatos dos comícios, as reportagens das televisões, as intervenções dos candidatos e as dos curiosos e veja-se como nada sobra ou muito pouco. Apesar de se tratar de eleições de deputados, alguém consegue reter o nome de um cabeça de lista, salvo os óbvios? Então dos que vêm a seguir ao cabeça de lista é melhor nem sequer falar. Isto é parcialmente explicável pelas circunstâncias em que a eleição foi convocada. Mais do que discutir o "futuro", a "mudança" ou a "ambição", o importante era, e é, remover Santana Lopes. Por isso o PS chega ao fim da jornada como que num limbo, e é nesse limbo que entrará no governo daqui a umas semanas. No fundo - e é o que todas as sondagens revelam - o que o país quer mesmo é que Santana Lopes e Paulo Portas se vão embora. Pelo menos é o que eu quero. Isto não se traduz automaticamente em "confiança" cega ou semi-cega no PS ou em José Sócrates. O que lhe dá uma enorme responsabilidade. Quando descer do limbo à realidade, Sócrates estará prisioneiro da velha evidência de que a vida é infinitamente mais rica do que a imaginação. Nunca o PS teve a votação que terá no domingo, e nunca o PS terá tanto trabalho duro pela frente, tanto mais exigível quanto maior for a "maioria". O país não está em condições de dar um segundo de tranquilidade a Sócrates, e ele sabe disso. Até agora, o PS cavalgou mais ou menos tranquilamente o nosso "não-querer-Santana-Lopes-e-Portas". A seguir, Sócrates terá que dar provas da sua coragem fria para fazer outra coisa. É esse o sentido do voto de muitos portugueses que normalmente não votariam no PS. Caso contrário, esse voto não fará sentido nenhum.

DAY AFTER


Comentário: JPP tem razão. Nunca vi PSL tão "desleixado" e tão já pós-20 de Fevereiro. Se até agora é o que se vê, a partir daí começa a versão "empata" a que me referi noutra ocasião. O PSD terá que, rapidamente, pensar nisto. O Pedro Santana Lopes desta fase final de campanha e de mandato é apenas a "sombra do guerreiro" tão apregoado. Está, no entanto, dado o sinal de que pretende "ressuscitar" no day after. Aliás, já só pensa nisso.

17.2.05

BACH

Ouvindo as "Variações Goldberg", por Glenn Gould. Se existe alguém que deve tudo a Bach, esse alguém é seguramente Deus, Cioran.

DOMINGO, MALDITO DOMINGO II

Seria interessante - embora julgue que já não vai a tempo - alguma empresa de sondagens publicar, simultaneamente com a previsão habitual dos resultados da legislativas de domingo, às 20h, nas televisões, uma sondagem concomitante acerca das intenções de voto para as presidenciais... Quem diz às 20h, diz no encerramento da emissão sobre as eleições. Por outro lado, também se podia perguntar, aos votantes que declararem que votaram no PSD, quem é que eles querem para líder do partido.

ÓPERA "BUFFA" II

Num acesso corajoso, que eu subscrevo, o director do Teatro Nacional de São Carlos deu visibilidade à incompetência política do actual ministério da Cultura, cancelando parte da temporada lírica. Teria sido igualmente uma excelente oportunidade para "Os Amigos do São Carlos", de que sou vagamente sócio, se pronunciarem. Este episódio lamentável devia ser traduzido em não-votos nos partidos responsáveis por isto, sobretudo em relação a esse extraordinário valor a despontar para o anonimato que é Teresa Caeiro, do PP. Encarar com determinação os problemas dos teatros nacionais, onde o único de ópera se inclui, bem como os de organismos similares, é forçosamente uma tarefa prioritária dos próximos inquilinos da Ajuda. No que eu puder e souber, tentarei ajudar.

DOMINGO, MALDITO DOMINGO

A partir da noite de hoje e durante o dia de amanhã vamos ser inundados por sondagens. Ao meu telemóvel, por amizade, chegou parte da sondagem do Expresso, já que omite a percentagem de indecisos e de abstencionistas. Não julgo que haja, nesta matéria, grandes novidades. Domingo promete-nos, e aos partidos, algumas certezas e demasiadas dúvidas. A certeza é a vitória do PS. Daí para diante é só dúvidas. A primeira diz respeito ao PS e é a questão decisiva destas eleições. O Partido Socialista chega a domingo sem saber se leva no bolso a maioria absoluta. Isto acontece porque nem o país tem a certeza que o PS a merece, e nem o PS se apresentou ao país em condições de inequivocamente a merecer. Outra incógnita é a dimensão da derrota do PSD. Não deverá ser tão profunda e humilhante como se poderia prever. O PSD mantém um "núcleo duro" de confiança que na hora do voto se deve manifestar, independentemente do desastre Santana Lopes. O PP está no mesmo "barco". Não deve nem merece alcançar os dois dígitos. Esta rídicula "fase terminal" de alegada disputa de deputados com o PS não lhe vai servir para nada. A CDU/PCP, a mais honrada campanha, não sairá muito prejudicada destas eleições e o BE deverá crescer em votos e deputados sem que isso represente necessariamente a "terceira" força. Restam os indecisos e os abstencionistas. Até à 25ª hora os partidos vão tentar tudo para que uns se decidam e para que os outros votem. Visto do lado destes, que não é o meu, a motivação para se mexerem deve ser ínfima. Esta campanha foi demasiado pequenina para os problemas que estão aí para resolver. Os portugueses vão votar desiludidos. Desiludidos com o passado, com todos os passados, e desiludidos quanto ao que aí vem. Faltou realismo a esta campanha justamente no momento raro em que os portugueses estavam disponíveis para o realismo. A ética é estarmos à altura do que nos acontece, com ensinava o filósofo. Depois desta miséria, é só isso que podemos esperar para nós no domingo.

16.2.05

PORTAS NA TENDA

No quentinho da sua tendinha desmontável, Paulo Portas falou de contratos assinados pelo ministério da Defesa por causa da Bombardier e das chaimites. Das feiras para a tenda, passando pelo austero edifício da Avenida da Ilha da Madeira, Portas arruma convenientemente tudo no mesmo saco. Costuma juntar as OGMA e os estaleiros de Viana do Castelo. No fundo, Portas quer assegurar a respeitabilidade definitiva da sua pequena seita. Diz ele que quaisquer dez por cento servem. E espreme-se para a "classe média" depois de ter passado os últimos anos a desprezá-la. Só lhe interessa verdadeiramente estar no poder. Ou melhor, continuar. Portas exibe-se na tenda, nos estaleiros ou nas feiras como se viesse doutra galáxia para salvar a pátria com os seus risíveis mapas azuis e amarelos. Convém, pois, no domingo, demonstrar-lhe pelo voto que ele já cá estava há três anos e que não se recomenda de todo. Para, de uma vez, guardar a tenda e meter, por uns tempos, a sua irritante " viola no saco".

A BABOSEIRA DO DIA

Saiu da boca do primeiro-ministro. Ao comentar a percentagem avançada pelo INE para o desemprego no último trimestre de 2004 -7,1%-, Santana Lopes remeteu tudo para Belém e para a dissolução do Parlamento. Segundo ele, os investidores e os empresários assustaram-se com a instabilidade criada por Sampaio - conseguiu dizer isto sem se rir - ao decidir convocar eleições. Para Lopes, parece que a instabilidade tem dois "lados". O "lado bom", que é o dele, e o "lado mau", que pretence a Sampaio e aos inúmeros "eles" que atormentam Santana Lopes. Será que, nem na noite das eleições, Santana vai ser capaz de se olhar ao espelho e ver ali reflectido o único rosto plausível da instabilidade?

UM LIVRO

E.M.Cioran costumava dizer que só se domina verdadeiramente um livro depois de o ter lido umas seis vezes. Razão pela qual ele preferia "reler" a "ler". Vem isto a propósito de um autor, já aqui mencionado, que é seguramente um dos mais estimulantes e "cépticos" historiadores do nosso tempo. Refiro-me a A.J.P Taylor. Quem esteja interessado em percorrer o período, aliás fascinante, da história da Europa a partir da segunda metade do século XX, passando pelas duas guerras subsequentes e pelas biografias dos líderes que marcaram esses períodos, terá forçosamente de recorrer ao punho escorreito e tantas vezes cínico de A.J.P Taylor. O seu livro acerca das "origens da 2ª Guerra Mundial" continua, por exemplo, a ser incontornável. Sem o objectivo de ser lido de fio a pavio, recomendo a colectânea de ensaios, editada uns anos após o seu desaparecimento em 1990, sob o título From the Boer War to The Cold War - Essays on Twentieth-Century Europe (Penguin Books). Aqui se encontram recensões de livros e pequenos textos autónomos que, nalguns casos, dão origem a pequenas e curiosas biografias dos visados nos livros que Taylor analisa. A par dos políticos ingleses, encontramos peças muito interessantes sobre Mussolini, Trotsky ou Hitler. São escritos que abrangem praticamente toda a vida activa deste eminente professor de história e que nos dão um retrato simultaneamente realista, irónico e "humano" de criaturas que marcaram, por boas e más razões, um tempo desaparecido e, muitas das vezes, perdido. It is difficult not to be sorry for Mussolini, a pretentious scoundrel, caught up by reality. The truly contemptible figures were those of high culture and morality who were taken in by him, in Italy and elsewhere. I prefer Mussolini, commending his speeches as having resolved all the problems of modern society: "there is nothing left to discover, no question left unanswered".

VEXAME

"Furtei", ao País Relativo, a "carta" que Pedro Santana Lopes dirigiu aos eleitores. Para recorrer a uma vulgaridade, trata-se da famosa "cereja" que faltava no bolo. É uma peça lacrimejante, assente na conhecida dicotomia do "eles" e do "eu" coitadinho. Pérolas como esta, "tenho defeitos como todos os seres humanos, mas conhece algum político em Portugal que eles tratem tão mal como a mim? Também o tratam mal a si. Já somos vários.", são bem elucidativas do que se trata. E começa por "ameaçar" o leitor, com uma comparação de mau gosto: "Não pare de ler esta carta. Se o fizer, fará o mesmo que o Presidente da República fez a Portugal." A cabeça de Santana Lopes já está tão perdida que se permite exercícios deste estilo. Qualquer militante ou simpatizante do PSD deve olhar com atenção para estas linhas. E perguntar-se se porventura em 30 anos, alguma vez, mesmo nos seus piores momentos, o partido passou por semelhante vexame.


"Caro(a) Amigo(a), Não pare de ler esta carta. Se o fizer, fará o mesmo que o Presidente da República fez a Portugal, ao interromper um conjunto de medidas que beneficiavam os portugueses e as portuguesas. Portugal precisa do seu voto para fazer justiça. Só com o seu voto será possível prosseguir as políticas que favorecem os que menos ganham e que exigem mais dos que mais têm e mais recebem. Você não costuma votar, e não é por acaso. Afastou-se pelas mesmas razões que eles nos querem afastar. E quem são eles? Alguns poderosos a quem interessa que tudo fique na mesma. Incluindo a velha maneira de fazer política. Eles acham que eu sou de fora do sistema que eles querem manter. Já pensou bem nisso? Provavelmente nós temos algo em comum: não nos damos bem com este sistema. Tenho defeitos como todos os seres humanos, mas conhece algum político em Portugal que eles tratem tão mal como a mim? Também o tratam mal a si. Já somos vários. Ajude-me a fazer-lhes frente. Desta vez, venha votar. É um favor que lhe peço! Por todos nós, Pedro Santana Lopes"

ATÉ AO FIM

Os tão desejados debates estão terminados. O último serviu apenas para beneficiar os partidos "laterais", o BE e o PP, e para o argumentário populista do dueto da especialidade da ainda coligação. Não trouxe valor acrescentado para a almejada maioria absoluta e não suavizou a má imagem de um governante em queda praticamente livre. Se quisermos, Sócrates apresentou-se "cavaquista", seco, directo e eficaz. E Santana, apesar de alguns números e de alguns papéis, mostrou um ar "apardalado", longe da famosa "garra combatente" que, de acordo com os especialistas, o iria tornar temível em campanha. Por tudo isto, julgo que a escolha fundamental desta eleição - chegar a uma maioria -, continua em cima da mesa, para "bingo", até ao fim.

15.2.05

NÃO, OBRIGADO

O dr. Barroso apareceu num tempo de antena do PSD. Ainda bem. Na realidade este acto eleitoral julga o mandato de uma coligação medíocre, cuja maior parte foi justamente encabeçada pelo referido dr. Barroso. Ficava-lhe mal não aparecer, apesar dos pergaminhos europeus. É o protagonista de uma leviana fuga às responsabilidades para as quais tinha sido eleito. Indicou como seu sucessor de secretaria o actual primeiro-ministro. Sofreu uma pesada derrota nas eleições europeias, e indirectamente, vai igualmente a votos no domingo. Muitos dos que confiámos nele, há três anos, vamos agora responder-lhe em conformidade. Tem razão, dr. Barroso. A si, ficámos a conhecê-lo melhor. Ao outro, já sabíamos quem ele era. Aos dois dizemos: não, obrigado.

ÓPERA "BUFFA"

Agora a sério. O Teatro Nacional de São Carlos está financeiramente "bloqueado", uma trivialidade dos últimos três anos. Quando, na carta de demissão de há quase dois anos, eu denunciei o que se estava a passar e o que mais que se iria passar, fui praticamente crucificado em hasta pública. Teresa Caeiro, na sua alegre inconsciência, conseguiu piorar o que já era suficientemente mau. Paolo Pinamonti, o director do Teatro, devia denunciar publicamente esta situação e pedir claramente responsabilidades, sobretudo num momento em que o timoneiro da secretária de Estado, o inefável dr. Portas, anda por aí a tentar "vender" os seus "valores" nos quais sobressai Caeiro, uma espécie de catástrofe ambulante que aterrou na Ajuda.

A MANHA

O PS não fez campanha junto ao corpo da Irmã Lúcia. Em Aveiro, Jaime Gama disse qualquer coisa como isto: "afinal, Pedro Santana Lopes é ainda pior em campanha do que no Governo, o PSD limita-se a explorar a oportunidade de ocasião, a aparição e o comentário do assunto do dia e ele aparece cada vez mais como o comentador e cada vez menos como governante". Santana, o "governante-comentador", vai assistir - como é que ele podia perder isto! - às exéquias da "vidente". A gravata preta do dr. Portas antecipou-se, naquilo que o próprio definiu como um acto "pessoal". Esta tosca exploração da dor normalmente tem um efeito contrário ao desejado. O "povo" de que eles tanto se reclamam - sobretudo "esse" povo - não costuma perdoar a manha.


Adenda: Matilde Sousa Franco, a inexplicável "cabeça-de-lista" do PS em Coimbra, também apareceu. E parece que vão aparecer mais. Ainda temos muito que aprender com os franceses, por exemplo. E depois não me venham com a estafada "ética republicana"... Onde é que ela está escondida?



Adenda
II: Perdi um momento único na minha vida, o de ter visto Zita Seabra de luto e de ramo de flores na mão a caminho do Carmelo prestar homenagem à irmã Lúcia. Juro que se tivesse sabido que o milagre de Fátima iria ter esta 'réplica' também lá teria ido! (Correio da Manhã Link). No Jumento.

E SE MELHOR FOR IMPOSSÍVEL?

Quando olho para as perguntas idiotas que os "jornalistas" vão fazendo aos "populares" que se acotovelam para um pequeno exercício de necrofilia "espiritual" junto ao corpo da última "pastorinha", pergunto-me se efectivamente não estará tudo no lugar certo: esta "teoria comunicacional", este "povo", este governo, este primeiro-ministro, a gravata preta do dr. Portas para ele se contemplar nela, esta indigência colectivamente aceite que não dá sinal de melhoras. E se, afinal, melhor for impossível?

14.2.05

"REACÇÕES"

As "reacções" dos "populares" à morte de Lúcia, algo que as três televisões generalistas vão explorar até à náusea, são reveladoras de que, em muitos aspectos, ainda não conseguimos "sair" do ambiente de superstição e de ignorância de 1917/18. Já as compungidas poses de líderes partidários bem conhecidos, resvalam para um misto de cinismo hipócrita e de oportunismo pantomineiro. Ambas as situações relevam de um mesmo registo, o intragável populismo. Na realidade, os tais líderes não "suspenderam" a sua campanha. Limitam-se, durante dois dias, a promover a sua continuação à conta de uma pobre defunta.

A OPÇÃO

Esta semana é decisiva para conquistar a opinião pública para a necessidade da maioria absoluta. A coisa parece difícil de equacionar mas, de facto, não é. Basta realisticamente perguntar às pessoas o que é que preferem: se uma maioria absoluta com sentido cívico ou se uma insanidade absoluta sem sentido nenhum.

LER OS OUTROS

Ainda sobre Lúcia, no Random Precision, Enfim, Livre.

13.2.05

IRMÃ LÚCIA (1908-2005)

Sem que o desejasse, a Irmã Lúcia entrou na campanha eleitoral. Com aquele belo sentido de oportunidade a que nos habituaram, os drs. Santana e Portas - até mais ver - suspenderam as actividades de campanha por causa do passamento da distinta carmelita. O laicismo inerente à vida política democrática ainda está longe de fazer o seu caminho natural entre nós. Os últimos anos de "progresso" não nos tornaram menos supersticiosos. Contou-me um amigo que a Irmã Lúcia ultimamente apreciava a companhia de um computador, algo que já não dispensava. Na sua humilde condição, Lúcia afinal dava valor à "qualificação" e à "modernidade". Isto é que devia ser a lição para os seus apressados "viúvos" espirituais que, pelos vistos, não aprenderam nada. Paz, portanto, à sua alma.

MUDAR

Ler, no País Relativo, "Alternativa Pântano", de Pedro Adão e Silva: "O que os portugueses não querem que voltem são as circunstâncias políticas em que decorreu essa governação [ a de Guterres]. É isso, mas não é apenas isso. O PSD, à falta de uma ideia para exibir ou de um propósito para convencer, apostou nos outdoors negativos. Recorreu aos rostos de ilustres militantes do PS para nos questionar acerca de "fugas" e de "voltas". Foi relativamente feliz nalgumas escolhas. Não acredito, de facto, que o país suspire por Fernando Gomes, Edite Estrela ou Pina Moura. Ou que se comova excessivamente com o sempre piedoso Guterres. Quem quer uma "mudança" e uma maioria absoluta, deseja naturalmente "outra coisa". Uma maioria equivale a uma enorme responsabilidade. Sócrates sabe isso e certamente não estará disponível para brincar "às casinhas". A "mudança" que promete implica acabar com a espiral de esquizofrenia política que invadiu a vida pública portuguesa, a partir de meados de 2000, e cujo acmê se atingiu com Santana Lopes. Os principais indutores dessa patologia cidadã estão perfeitamente identificados pelos portugueses, convém não o esquecer. Mudar significa saber isso e, por uma vez, acabar com ela.

CRIADORES E CRIATURA

Santana Lopes "virou-se" contra a comunicação social. Com um ar perfeitamente alucinado, rouco e quase armado em "exterminador implacável", o primeiro-ministro, seguramente num dos seus melhores momentos como "estadista", esteve a um passo de pedir um auto-de-fé para os jornalistas. As ignaras massas rosnaram com ele. Chegou a prometer "provas" do crime mas alguém terá tido o bom senso de o aconselhar a não excitar ainda mais as suas nervosas hordas nortenhas. Santana Lopes é, no essencial, uma criação da comunicação social. Da "séria", da menos "séria", da "branco e preta", da "colorida". Praticamente ninguém do sector fica incólume na preciosa ajuda que deu na formatação deste caso sui generis da vida política portuguesa. Se Lopes está hoje onde está, bem o pode agradecer a muitos destes beneméritos que agora o "perseguem". Ou seja, o criador decidiu finalmente que se quer ver livre da criatura. E a criatura revolta-se e estrebucha de acordo com o "cânone" que lhe ensinaram. O que estamos a assistir é ao dramático estertor de uma relação de amor-ódio relativamente antiga. A ver vamos como acaba.

A BABOSEIRA DO DIA

É de Paulo Portas, o campeão do "direito à vida": Portugal esteve à frente do seu tempo quando aboliu a pena de morte. Portugal voltou a estar à frente do seu tempo quando não permitiu a despenalização do aborto no fim do século XX. Isto foi dito em Coimbra, a tal cidade cujos portões se deviam fechar a Sócrates, de preferência em modo de levantamento popular capitaneado por Nobre Guedes, o "azul-verde" do PP. Portas anda por aí com uma tenda desmontável onde organiza umas sessões de "esclarecimento" para meia dúzia de fiéis. Leva uns papéis e a sua incontornável pose de Estado, e senta-se numas cadeiras altas à volta de uma mesa também alta e debita. Consoante o distrito, assim varia a companhia do líder. Foi pois com Nobre Guedes ao lado que Portas dissertou sobre o aborto. A esta arenga "familiarista" do Portas de agora, preferirei sempre o Paulo da Católica, do princípio dos anos 80, quando era dos poucos a apoiar a alteração da lei.

12.2.05

E AGORA?

É a pergunta colocada por Mário Soares no texto inédito que encerra o livro A Crise, E Agora?, ontem lançado pela Temas & Debates. Trata-se de uma oportuna reflexão pessoal do autor sobre o actual momento político e sobre o futuro próximo. Soares, como é próprio das pessoas com biografia, não esconde as suas preferências e as suas preocupações. A sua invejável lucidez está bem patente nas ponderações que efectua e nas esperanças realistas que manifesta. Este texto fica seguramente com um dos melhores produzidos no âmbito desta campanha, feita mais a pensar no imediato truculento do que no "tempo longo" que a "política séria" reclama.


Estas eleições não são umas mais, como tantas outras. Há que ter a consciência de que são excepcionais e decisivas. Está em causa a possibilidade de parar a corrida para o desastre anunciado e de cortar uma deriva antidemocrática incipiente mas muito perigosa. Se as eleições não assegurarem uma viragem radical, com o passado próximo, porão em causa o futuro de Portugal e o bem-estar dos Portugueses, por uma geração.


O povo português, como sempre aconteceu em momentos graves, nomeadamente nos últimos trinta anos, terá o bom senso de saber escolher. Para mim, é impensável que premeie a irresponsabilidade dos políticos da coligação de direita, em lugar de os punir. Por isso acredito na vitória do PS, que espero que tenha aprendido com os erros do passado e com a "cura de oposição" a que esteve submetido.


A maioria absoluta seria uma opção clara. Significaria a punição dos governos Durão-Santana e a total responsabilização do PS relativamente ao futuro. E bem assim do seu líder, José Sócrates, e da equipa de governo que conseguir formar.


Aceitar governar, assumindo nesta hora, tão grande responsabilidade, implica lucidez e coragem - o que é muito de louvar - mas também ter um projecto coerente, uma ideia para Portugal - um povo que "deu novos mundos ao mundo".


Por mim, acho que a primeira condição para vencer a crise é haver bom senso. É o que tem faltado à coligação de direita. Honestidade intelectual, seriedade, competência.


Importa, porém, que nos empenhemos e que participemos. O indiferentismo é o pior de tudo. A política está desgostante, há muita opacidade, demasiados interesses a manobrar, na sombra, para levar a água ao seu moínho, demasiados lobbies e corporativismo serôdio a mais. É verdade! Os jovens desconfiam. E têm razão. Não transigem com a mediocridade, com o aparelhismo partidário, que detestam, com falsas promessas, com o negocismo indigno, com a corrupção, e, sobretudo, com a impunidade quanto ao que se diz e ao que, finalmente, se faz, e que os media poêm em evidência. Ainda bem!


Peço aos portugueses que votem. É um dever cívico. Sei que a abstenção é um direito. Mas há momentos em que não deve ser exercido: quando está em jogo o futuro da Pátria. Que votem para ter o direito de criticar - e mesmo punir - se as promessas que vos foram feitas não forem cumpridas, os compromissos respeitados.

11.2.05

SOBRE...

PONTO FINAL....

... colocado pela Procuradoria Geral da República no "nevoeiro" do dia: "(...) tanto quanto os elementos indiciários reunidos até ao momento permitem avaliar, não existe nenhuma suspeita de cometimento por parte do engenheiro José Sócrates de qualquer ilícito criminal com o aludido processo de licenciamento.".


Adenda: Não houve cão nem gato que não batesse no O Independente por causa da "notícia". Que me lembre, li sensivelmente o mesmo pelo menos no Público e no Correio da Manhã.

FLORILÉGIO ELEITORAL

Criação. Os indecisos e os abstencionistas que tanto preocupam Santana Lopes são uma criação perversa dele próprio e do dr. Barroso. É quase obsceno pensar que ainda pode contar com eles para alguma coisa.
Debate. O "debate", tão pirosa e ansiosamente aguardado, resolveu alguma dúvida aos indecisos levando-os a decidir? Perdoem-me as boas consciências de serviço, mas penso que não. Santana - e nisso Sócrates foi muito claro - tentou falar de um futuro cujo presente ele não soube minimamente tratar. Quanto ao resto, percebemos que decorou uns números e evidenciou a mesma falta de credibilidade que o acompanhará melodramaticamente até ao fim.
Destino. Estes dias vão ser os mais longos da vida política de Santana Lopes. Tem algumas qualidades e imensos defeitos, raramente acertando no aproveitamento das qualidades e esticando até um limite insuportável os defeitos. O que eu verdadeiramente aprecio no homem, é ele não ser trivial nem previsível. E um primeiro-ministro deve ser trivial e previsível.
Objectivo. Procurar não perder demasiado eleitorado e evitar que o PS tenha maioria absoluta, é o "rendimento mínimo garantido" para Santana Lopes afrontar os que, dentro do PSD, "andam a fazer contas", como ele disse. Se o PSD perder as eleições - e perder é objectivamente não as ganhar -, há que arrepiar caminho. E, malgré tout, eu acho que Santana Lopes vai querer continuar no meio do caminho, tipo "empata".
Utilidade. As "convicções" e a "competência" incluem criaturas como Celeste Cardona, Mariana Cascais ou Teresa Caeiro? Ou o dr. Portas esqueceu-se entretanto destes seus extraordinários "valores"? O PP só é "útil" nestas eleições precisamente para ser julgado por igual com o seu parceiro maior. Este "fazer-se de desentendido" para babujar uma migalha de poder no futuro, não dá bem com a "ética" cristã de que o PP se mostra tão insigne guardião. E nós sabemos perfeitamente que eles sabem que nós sabemos quem eles são.
Zoom. Guterres pediu a maioria absoluta para o PS, sabendo que, quanto mais próximo dela o partido estiver, mais longe fica ele de Belém. E a Santana Lopes convém manter-se para "espantar" Cavaco. Salvo o devido respeito por Guterres e por Santana, eles representam respectivamente um passado esquecível e um passivo inesquecível.


(publicado na edição de hoje de O Independente, recuperando, com alterações mínimas, textos deste blogue)

É ISSO E SÓ ISSO

O PSD não precisa de um "bom" resultado em 20 de Fevereiro, precisa de um resultado que o livre de Santana. E precisa de perceber isso a tempo.

10.2.05

O CABELO ERA AZUL

Vejo a reportagem do jantar de Santana Lopes com os "artistas" e "intelectuais" e ocorre-me que poderia perfeitamente figurar num dos divertidos textos de "Conversações com Dmitri e Outras Fantasias", de Agustina Bessa Luís. De repente, foi como se tivéssemos recuado décadas e a televisão ainda fosse a preto-e-branco. Mara Abrantes, Artur Garcia, D. Vicente da Câmara, a sempre amável Eunice e o muito disponível Ruy de Carvalho ombreavam com Wanda Stuart e outras raparigas de diversa toponímia capilar e a despontar notoriamente para o anonimato. Melhor era, de facto, impossível. Santana agradeceu comovido a patética cerimónia. Estavam realmente muito bem uns para os outros, num cenário há muito desaparecido onde o cabelo era azul.

SONDAGENS "SECRETAS"...

... é um post do Pedro Magalhães (Margens de Erro) para ler. Tem a ver com os "oito-pontos-abaixo" que "atingiram" o PS numa "sondagem" anunciada ontem pelo primeiro-ministro. Santana tão depressa quer processar todas as empresas de sondagens que conhecem a luz do dia, como dá crédito a outras que, por enquanto, navegam apenas nas trevas da sua prodigiosa imaginação.

A CAMPANHA NEGATIVA

Como é que um grande partido como o PSD, pela primeira vez em 30 anos, se entrega nas mãos de um marketing eleitoral cujo principal objectivo é denegrir o adversário e não divulgar as suas propostas, se é que as tem, alinhando num registo próprio da propaganda radical dos pequenos partidos?

ESCRIBAS

Há pessoas que teimam em fazer descer outras para o seu nível pequenino. Como, por exemplo, Raúl Vaz, o novel Luis Delgado do Diário do Notícias, segundo o Bloguítica.

O ÓBVIO

ATÉ QUE ENFIM

9.2.05

PONTO FINAL

Sobre a "notícia", Cavaco Silva esclareceu "em discurso directo":

Trata-se de uma total invenção da parte de quem a escreveu. Não fiz qualquer declaração ou comentário sobre o processo eleitoral em curso. Embora ausente de Lisboa, tive oportunidade de transmitir o meu protesto ao director do Público. Face ao relevo que a notícia adquiriu e porque deixei claro desde o início que, dado o meu afastamento da vida partidária activa, não teria qualquer participação na campanha eleitoral, entendo quebrar o silêncio a que tenho estado remetido para reafirmar o seguinte: recuso deixar-me envolver em qualquer tipo de jogadas ou manobras eleitorais ou partidárias, não alimentarei quaisquer comentários que possam ser feitos a meu respeito, por mais absurdos que sejam, não tenciono fazer qualquer declaração política até ao dia das eleições. Ponto final.

A CULTURA E A POLÍTICA

Ler no Crítico, Interrupção, a crítica musical segue dentro de momentos.

ADIVINHE QUEM VEM JANTAR

Santana Lopes janta com "intelectuais" em Lisboa. Aceitam-se apostas.

LER

Não espero que Sócrates retire o país da mediocridade em que se atolou. Mas espero que afaste Santana e ao menos restitua à vida política um módico de normalidade. Este excerto está num artigo de Maria de Fátima Bonifácio que talvez sirva para esclarecer alguns "indecisos". Mais do que seguramente "a campanha" alguma vez conseguirá. O resto é nevoeiro, do falso que se usa em cenários cinematográficos para assustar os crédulos.

DER UNTERGANG

Eu ia "comentar" este livro que possuo numa diferente edição. Na busca de uma "capa" para colocar aqui, o Google levou-me até ao Abrupto, mais concretamente a um texto de Abril de 2004 de José Pacheco Pereira. Como seguramente eu não diria melhor, e com a vénia amigável ao seu autor, tomo a liberdade de o republicar integralmente.
BIBLIOFILIA: MUT ZUR ANGST VOR DEM NICHTS / "A CORAGEM DE DEFRONTAR O TERROR DO NADA" (HEIDEGGER)

Joachim Fest, Inside Hitler´s Bunker. The Last Days of the Third Reich, Londres, Macmillan, 2004.
Não sei quantas vezes li descrições dos últimos momentos de Hitler no seu bunker berlinense, mas o próprio facto de ter acabado de ler mais uma mostra o fascínio que esses momentos têm. Não sou só eu, é uma multidão de pessoas que esgota e torna em best sellers tudo o que diga respeito a estes dias de Abril de 1945. Em bom rigor, sabe-se muito, e o que não se sabe dificilmente se irá saber. Não é sequer o mistério das versões contraditórias sobre os momentos finais de Hitler que explicam, nos dias de hoje, o interesse pelo fim do Reich. É o pathos da personagem Hitler e da sua corte final, e a tentativa de explicação de algo muito difícil de explicar: a pulsão destrutiva, o Gotterdamerung macabro desses dias. Pode também ser que procuremos encontrar uma racionalidade para algo intrinsecamente irracional e inexplicável, e o nosso fascínio seja afinal o traço de uma recusa psicológica face ao que não tem explicação, ao que de todo não controlamos.

O livro de Joachim Fest é magnífico porque combina uma descrição narrativa depurada dos últimos dias do bunker , incluindo o que se sabe das fontes soviéticas entretanto tornadas disponíveis, com uma interpretação sobre Hitler e os seus companheiros dos últimos dias, em particular Goebbels. A sua tese - Hitler nunca "construiu", só destruiu, era movido por uma vontade de destruição que nos últimos dias da guerra se voltou também contra os alemães - salienta a singularidade da personagem. Sem Hitler tudo seria diferente, mas Hitler é uma excepção histórica, nunca quis deixar qualquer "obra" que não fosse a terra queimada, onde povos e nações sucumbiram. Pouco a pouco, a força da sua personalidade, a sua vontade inquebrável, seleccionou uns poucos seguidores que espelhavam a mesma vontade de destruir, hipnotizou muitos outros numa obediência cega, e depois, pela corrupção do dinheiro e do poder, alargou essa base dos fanáticos para os oportunistas. Estes deixaram-no no fim , os outros acabaram com ele ou como ele. E não foi só Goebbels e a mulher, que se suicidaram depois de matarem os seis filhos, mas muitos outros oficiais das SS, motoristas, secretárias, que ficaram até ao fim, quase cem pessoas nos últimos dias de Abril.

Fest retrata bem essa comunidade alucinada, que tentou continuar a guerra até ao último berlinense, até ao último alemão, uma guerra já perdida. Uma das perplexidades nesta atitude é o seu carácter pouco "moderno", numa época em que as guerras terminam quase de forma burocrática, algo para que o regime nazi tinha também apetência. Veja-se Eichmann revisto por Hanna Arendt.

Mas não. Hitler queria levar tudo e todos consigo, num acto de imolação que incluía uma suprema vingança contra todos os que o tinham "traído", inclusive o povo alemão, e, de certo modo, contra si próprio, porque tinha mostrado "fraqueza", tinha-se enredado em compromissos a que agora atribuía a derrota.

8.2.05

INDIGNIDADES

Miguel Sousa Tavares disse há pouco na TVI que esta campanha era feita de banalidades. Eu acrescento: de banalidades e de indignidades. Há alguém particularmente interessado em deitar lama para a ventoínha. Começou em Sócrates e já vamos em Cavaco. E a campanha só teve início há três dias. Isto promete.

A MANOBRA

Alguém quis trazer deliberadamente Cavaco Silva para esta miserável campanha eleitoral. Quando vi Santana Lopes sentadinho com os filhos em S. Bento, percebi melhor o alcance da manobra. E Sócrates congratulou-se demasiado depressa com uma coisa que manifestamente não aconteceu. Ou então "representou" muito bem, o que ainda é pior. Não é preciso perceber muito de informação e de contra-informação para entender o que se está a passar. Quer no PS, quer "neste" PSD, há muita gente que não quer a candidatura presidencial de Cavaco Silva e que está disposta a praticamente tudo para a travar. Basta ler os "barómetros" a as "sondagens" sobre presidenciais para os identificar. No meio dessa gente, Alberto João Jardim limita-se a fazer o papel do "idiota útil". Aliás, todos nós imaginamos o prof. Cavaco Silva a entregar-se a "confidências" e a intimações deste género em "acontecimentos sociais", não imaginamos?

A BABOSEIRA DO DIA

Pertence a Francisco Louçã: "grande parte da direita quer uma maioria do PS". A "notícia" também visa este objectivo "lateral", "espantar a caça" no lado "esquerdo" do voto PS.

UMA "NOTÍCIA"

Esta "notícia" pode ter vários objectivos, a saber: a) levar Cavaco Silva a desmenti-la; b) levar Cavaco Silva a desmenti-la e a, discretamente, apoiar o PSD; c) "picar" Santana Lopes para este "atacar" Cavaco Silva; d) afastar o eleitorado PSD de Cavaco Silva. Qualquer destas hipóteses interessa aos adversários da candidatura presidencial de Cavaco Silva. É só por isso que a "notícia" saiu.

Adenda: Ler "Detector de spin", de hoje, do Paulo Gorjão. Eu não disse?

UM LIVRO

O único acto político verdadeiramente interessante que se anuncia para a primeira semana de campanha, é o lançamento do livro de Mário Soares, A Crise. E agora?, da Temas & Debates, no El Corte Inglés, no dia 11.

LER OS OUTROS

1. Ricardo Costa, no blogue dos jornalistas da SIC: Com nenhuma carga cientifica e a poucos dias do próximo barómetro da SIC arrisco dizer: o PP vai ser uma surpresa e aproximar-se muito dos 10 por cento, o Bloco não vai ser a terceira força, o PCP não vai ter uma hecatombe, o PSD vai apanhar um susto valente e o PS não está a fazer nada para ter maioria absoluta. Por que será que eu sou tentado a concordar, sobretudo com a última parte?


Adenda: Ricardo Costa distinguiu-se nos seus "comentários" dos últimos dias por fazer do comício de abertura de campanha do PP, no Porto, uma espécie de "1º de Maio" de 1974 ao contrário. Eu compreendo que haja muita gente interessada em "puxar" pelo PP. Convém, porém, não "puxar" em demasia. O PP, apesar da retórica dos "valores" e da "lealdade", tomou o gosto do poder e essa volúpia não se perde com facilidade. Tal como determinados cheiros. Os dos queijos, por exemplo.


2. No Random Precision, "Previsões".


3. Já começou a "caça às bruxas" ? Ler o Gabriel Silva no Blasfémias, "Déjà vu".

TEM RAZÃO

“Nestas eleições não pode haver distracções”, disse o dr. Portas na Madeira. Distracções, como, por exemplo, votar nele.

7.2.05

TEM A CERTEZA?

"Quem gosta de misturar a campanha com o Carnaval pode misturar. Não critico, nem censuro. Eu não gosto, são maneiras de ser". Santana Lopes, na Base Aérea de Monte Real, onde, como primeiro-ministro, foi presidir à assinatura de um protocolo que abre aquelas instalações militares à aviação civil.

O OXÍMORO SOCIALISTA

De acordo com o "barómetro" do Diário de Notícias, lido na Grande Loja, Cavaco Silva destaca-se nas preferências presidenciais dos portugueses. Mesmo em segundas voltas, Cavaco bate qualquer putativo concorrente. António Guterres, a eterna "esperança" socialista, só se sai bem contra Santana Lopes. Este dado revela uma coisa muito interessante. O PS reclama maioria absoluta e a consequente humilhação eleitoral de Santana Lopes. Ao mesmo tempo que deseja isto, o PS sabe que o cenário que melhor encaixa nos seus propósitos "presidenciais" é ... a continuação de Lopes à frente do PSD. Neste caso, seria mais difícil a Cavaco Silva avançar com uma candidatura. E com Lopes tudo é possível e eventualmente mais fácil para Guterres. Guterres pediu a maioria absoluta para o PS, sabendo que, quanto mais próximo dela o partido estiver, mais longe fica ele de Belém. E a Santana Lopes convém manter-se para "espantar" Cavaco. Salvo o devido respeito por Guterres e por Santana, eles representam respectivamente um passado esquecível e um passivo inesquecível. O PS tem ao seu alcance a maioria absoluta essencialmente por demérito da coligação, deste PSD e de Santana Lopes. Qulquer outro "cálculo" que não passe por consolidar esta perspectiva e por apresentar Sócrates como o único concorrente credível ao cargo de primeiro-ministro, que é o que agora importa, pode ser fatal para aquela ambição.

O TERCEIRO HOMEM

O primeiro fim-de-semana de campanha introduziu uma nova mitomania. Pela voz sempre esclarecida do dr. Pires de Lima, o dr. Portas adquiriu o estatuto do "terceiro homem". Ou seja, dados os relevantes e patrióticos serviços prestados à nação pelo dr. Portas e pelos magníficos ministros e secretários de Estado que indicou, nestes três anos, para o governo, o líder merece ser- como parece que zumbe na cabeça dos "populares"- candidato a primeiro-ministro. Eu peço desculpa por estragar este cenário idílico, mas não resisto a deixar umas observações. Portas e tutti quanti do PP fazem parte do "pacote" que vai ser avaliado a 20 de Fevereiro. Aliás, e uma vez que Portas que ser o "elo da estabilidade", convém lembrar que, dos três dirigentes que a coligação teve, ele é o que lá está há mais tempo. E, depois, é preciso perguntar ao nosso "terceiro homem" se as "convicções" e a "competência" incluem criaturas como Celeste Cardona, Mariana Cascais ou Teresa Caeiro. Ou o dr. Portas esqueceu-se destes seus extraordinários "valores"? O que nos vale é que o dr. Santana deverá tratar oportunamente esta veleidade apenas risível do dr. Portas. O PP só é "útil" nestas eleições precisamente para ser julgado por igual com o seu parceiro maior. Este "fazer-se de desentendido" para babujar uma migalha de poder no futuro, não dá bem com a "ética" cristã de que o PP se mostra tão insigne guardião. E nós sabemos perfeitamente que eles sabem que nós sabemos quem eles são.

A VANTAGEM

A campanha eleitoral teve início com um "duelo ao frio" de Castelo Branco. O PSD acolheu-se -bem - no quentinho de um pavilhão municipal. O PS escolheu uma ex-parada de quartel e não demorou - inteligentemente - mais do que uma hora. Estas duas manifestações "expontâneas" ilustram bem o "valor" do exercício. Autocarros, porcos assados "à borla" e outros "mimos" onde se incluíam os indispensáveis ranchos folclóricos, deram cor e motivo essencial às deslocações. Esta frivolidade destinava-se aparentemente à contabilidade das presenças num mesmo território. Politicamente espremidos estes dois comícios valem zero. Alguém terá prestado alguma atenção às "figuras" colhidas aos baús das respectivas histórias partidárias para abrilhantar as festas? Duvido. E se pensarmos que os discursos dos líderes vão consagrar este monocórdico modelo durante quinze dias, as perspectivas negras adensam-se. Muito antes da campanha começar, eu previ uma intensa falta de entusiasmo patriótico para a acompanhar. Na realidade, e depois do que assisti, julgo que o único motivo que pode despertar um vago interesse pela dita, consiste em seguir as metamorfoses de Santana Lopes até ao dia 20. Há ali uma obstinação solitária em chegar a um qualquer lado, seja ele qual for, que merece atenção. Estes 15 dias vão ser os mais longos da vida política de Lopes. Porque tanto podem ser os últimos como os primeiros de qualquer outra coisa e do seu contrário. E é isso que eu verdadeiramente aprecio no homem, não ser trivial nem previsível. Não lhe serve de grande consolação, mas às vezes é uma vantagem. Vamos então ver até onde chega essa vantagem.

6.2.05

LER OS OUTROS

José Adelino Maltez é um dos mais estimulantes estudiosos da "política". Tem este blogue que merece visita assídua. É membro da "Nova Democracia" de Manuel Monteiro. Não se dá muito por eles, mas também andam por aí.

DA PARÓQUIA

O Crítico/Henrique Silveira teve a amabilidade de me incluir num "pacote" de blogues que supostamente andam atrás da "agenda" política. E disse: Santana também teve sempre mais problemas com o PSD do que com o restante arco político, tem de lutar em duas frentes, e já sabemos que quem abre várias frentes perde em toda a linha. É o destino de Santana, coisa que não me preocupa nada ao contrário do João Gonçalves do Portugal dos Pequeninos, agora rendido aos encantos de Sócrates depois de ter sido um Social Democrata convicto, o estertor de Santana é apenas um espasmo antes da morte política. Esta leviandade "crítica" merece duas observações, apesar de eu detestar esta coisa tagarela entre blogues.

1. Não estou particularmente preocupado com o "destino" de Santana Lopes. Ou melhor, já estive mais. Porém, sempre lhe apreciei a audácia, a ambição e o instinto de ruptura. Tem algumas qualidades e imensos defeitos, raramente acertando no aproveitamento das qualidades e esticando até um limite insuportável os defeitos. Ser chefe de um governo não é, por exemplo e manifestamente, um dos seus inúmeros talentos.

2. Não me rendi aos "encantos" de Sócrates (sou demasiado "rortyano" para alguma vez poder ser "socrático") nem deixei de ser social-democrata. Nesta concreta contenda, vejo nele naturalmente "mais" perfil de primeiro-ministro do que jamais poderia ver em Santana Lopes. O que vi, o que todos vimos, é, por si, esclarecedor. Até por isso, precisamente por eu ser social-democrata.

LER OS OUTROS

... Gabriel Silva, o saudoso "Cidadão Livre", no Blasfémias: "Duelo de Chefes" ou o "esgravatar na merda".

GUTERRES

António Guterres, presidente da Internacional Socialista e antigo primeiro-ministro, vai aparecer na campanha do PS em Castelo Branco. Consta que é uma "mais-valia" para a maioria absoluta. Julgo que ninguém se esqueceu facilmente de Guterres e que muitos o lembram por razões completamentamente distintas. Existem, pois, "dois" Guterres. O "primeiro" é aquele que deu os melhores resultados de sempre ao PS em eleições legislativas e que formou um bom governo em 1995. O "segundo Guterres" é outro. É o homem que, a partir de 1999, ficou ressentido com "as portuguesas e os portugueses" que não lhe deram a maioria absoluta. É o homem que, por isso, praticamente deixou de governar. É o homem que, depois de se entregar de corpo e alma ao semestre da presidência portuguesa da UE, em 2000, não mais largou as "vistas" internacionais. Sem nada de excitante ou de particularmente elevado para apresentar ao país, Guterres afundou as expectativas dos "Estados Gerais" e de um primeiro bom mandato governativo naquilo a que Manuel Maria Carrilho chamou na altura "a apoteose do vazio". Chegou a Dezembro de 2001 inevitavelmente exangue e sem uma sombra da chama dos primeiros anos da década de 90. Murmurou o "pântano" para justificar a interrupção da sua governação politicamente debilitada. E inaugurou, na vida política portuguesa, o célebre lance da fuga, retomado três anos mais tarde, noutros moldes, por Durão Barroso. Com isto, não deixou no entanto de ser quem fundamentalmente é: um especialista em "táctica", com inegáveis dotes oratórios e movido por uma inquebrantável retórica, agora confortavelmente "globalizada". Serão estas "qualidades" suficientes para levar o eleitorado do "centro" a esquecer o "último" Guterres? Será de certeza esta a "melhor ajuda" para conquistar o "centro" para a maioria absoluta? Será mesmo?

SANTANA LOPES VISTO PELOS PRÓXIMOS..

... neste caso pelo ex-ministro da Educação, David Justino, ilustre militante do PSD.

A QUEDA DE UM ANJO

O primeiro-ministro introduziu um novo "tema" na campanha. Aparentemente deixou de estar preocupado com as eleições propriamente ditas. Saltou já e directamente para o dia 21 de Fevereiro. Ao admitir que pode "perder em toda a linha" e com ele arrastar todo o PSD, Lopes está claramente a dizer lá para dentro que vai vender cara a derrota. Santana Lopes vai fazer disto o seu privado "Titanic". Se ele se afundar, não vai perdoar e vai querer tudo e todos bem lá no fundo frio, com ele. Sente-se rodeado pelo terrível e ameaçador silêncio do partido "altivo" que assiste no 1º balcão e de camarote a este espernear inconsequente. Quanto mais Lopes é "PPD", mais o partido "altivo" reclama a devolução do "PSD". Santana Lopes entra na campanha que agora começa oficialmente como um homem acossado. E um homem acossado, particularmente da "natureza" de Santana, é um homem perigoso. Para ele próprio e para os que o cercam. Até a serenidade do voto resolver esta questão, haverá um dramático crescendo de sobressalto e uma indeclinável pulsão para o abismo. O anúncio disto emergiu em todo o seu esplendor com o recurso a um verbo que não fazia parte do léxico de Santana: perder. Eu, que modesta e pessoalmente o estimo, tenho pena de estar a assistir a esta patética queda de um anjo.

5.2.05

LAÇOS DE TERNURA

No seu novo "livro", Figueira- A Minha História, a apresentar hoje, Santana Lopes deixa alguns "mimos" a conhecidos companheiros de partido, designadamente a quem o escolheu e a quem ele alberga no seu governo. Oiçam-no: "Santana lembra que Pacheco "cortava a direito, fiel a certezas que a realidade desmentiria. Não disfarçava a reprovação do meu nome para a qualquer candidatura no 'seu' distrito, embora não o fizesse abertamente. Também Marcelo Rebelo de Sousa, José Manuel Durão Barroso e José Luís Arnaut fizeram tudo 'para que não fosse candidato a nenhuma câmara'." Marcelo, de resto, tinha declarado Santana "politicamente morto". Este "livro" e outros "livros" vão dar que falar depois de 20 de Fevereiro, de certeza, num congresso algures por aí.

NO BOM CAMINHO

ÚTEIS VALORES



Este cartaz, aparentemente espalhado por Coimbra, não abona o partido "dos valores" e da "convicção". Um conselho ao dr. Guedes: antes de pedir a cabeça de alguém, certifique-se primeiro se ele próprio tem uma. É mais... "útil".

Agradecimentos ao
Causa Nossa e aos Manos Metralha.

SUBSCREVO

(...) Existe no mundo político português, e também nos "media", uma certa relutância a chamar os bois pelos nomes, que nunca se viu tão claramente como hoje. A pretexto de que não se deve discutir a vida privada de cada um, não se discute a vida pública de ninguém. Além disso, a vida pública e a privada não são inteiramente separáveis. Não se muda de carácter porque de repente se entrou num partido ou no governo (ou numa televisão ou num jornal). Um aventureiro, um arrivista, um falsário, um irresponsável e um mentiroso contumaz não deixa de o ser quando atravessa a linha (de resto, indefinida e convencional) para o domínio público. Fica ele próprio - e cedo ou tarde mostra o que verdadeiramente é. As pessoas de Santana e Sócrates podem e devem ser discutidas. Não discutir a sexualidade de cada um, não significa conceder um privilégio de silêncio para tudo o resto. (...)


OS ROSTOS DA DESILUSÃO

Durão Barroso e Santana Lopes encontram-se hoje em Lisboa. O primeiro, envolto na capa de presidente da Comissão Europeia, "mostra-se" ao lado do seu sucessor calculado. Este encontro simbólico, destinado a abrilhantar a campanha de Lopes, tem um lado negro. Estas duas figuras, a quem deve juntar-se Paulo Portas, agora entretido ora a "fazer de morto", ora a lançar olhares lúbricos a uma qualquer perspectiva de poder, são os maiores responsáveis pelo estado de desalento instalado no país e no eleitorado do PSD. Os indecisos e os abstencionistas que tanto preocupam o dr. Lopes são uma criação perversa dele próprio e do dr. Barroso. A fria ambição de Barroso permitiu Santana Lopes. Santana Lopes permitiu o caos. Ambos deram azo ao afastamento natural de milhares de pessoas que confiaram em Barroso, em 2002, contra o "porreirismo" vazio de António Guterres. A maior parte dessas pessoas está agora em casa a ruminar no que há-de fazer no dia 20. É quase obsceno Santana Lopes pensar que ainda pode contar com elas para alguma coisa. Portas não interessa. Barroso e Santana deixam como herança um grande partido ferido na sua dignidade histórica e política. Para milhares de portugueses como eu, eles são verdadeiramente os rostos da desilusão.

À ESPERA II

Parece-me que José Pacheco Pereira já começou a pensar no "que fazer" no day after. Com promessa de continuação ("Há vida depois de 20 de Fevereiro"), ler "A Honra Perdida do PSD" no Abrupto. "A ruptura na opinião pública entre o partido, ou pelo menos, parte do partido, e o seu actual Presidente, é a escassa riqueza que vai sobrar depois de 20 de Fevereiro: os portugueses distinguem entre o PSD e Santana Lopes. O PSD pode por isso levantar-se de novo".

4.2.05

LER

... Vital Moreira, no Causa Nossa: "Golpes Baixos". É sobre a frenética actividade do "governo de gestão" e, sobretudo, acerca da "cartinha" que a dupla Portas/Bagão enviou aos ex-combatentes, algo que estaria pronto em Dezembro, mas que, só agora, está convenientemente a chegar às mãos dos presumíveis destinatários. Estes rapazes "dos valores" são umas verdadeiras raposinhas matreiras!

À ESPERA

Santana Lopes, em entrevista a Judite de Sousa, tirou Miguel Cadilhe "da cartola". Apresentou-o como eventual ministro ou mesmo vice-primeiro-ministro para a competitividade, caso continue chefe do governo. Temos de aguardar uns dias para perceber se isto é verosímil ou se Cadilhe, alguém conhecido pelo seu bom feitio, vai desmentir a "revelação". Santana, que tem andado sozinho, vai seguramente aparecer mais acompanhado. A qualidade da companhia é um bom barómetro para se entender as reais expectativas do PSD. Santana, cuja intuição já lhe deve ter sussurrado quão díficil é ganhar agora, aposta no "namoro" dos indecisos/abstencionistas. Em duas vertentes. A mais óbvia, a mais natural e a mais complicada, consiste em os conquistar para o voto. A outra, mais dissimulada, pretende "assustá-los" com a hipótese PS/BE e, no mínimo, mantê-los pelo menos em casa no dia 20. Procurar não perder demasiado eleitorado e evitar que o PS tenha maioria absoluta, é o "rendimento mínimo garantido" para Santana Lopes afrontar os que, dentro do PSD, "andam a fazer contas", como ele disse. Se o PSD perder as eleições - e perder é objectivamente não as ganhar -, há que arrepiar caminho. E, malgré tout, eu acho que Santana Lopes vai querer continuar no meio do caminho, tipo "empata". Só mesmo uma humilhação eleitoral o obrigaria a recuar. Como eu tenho sérias dúvidas que isso aconteça, parece-me sensato começar a pensar no que fazer. Até porque Cavaco está à espera.